    Ilana Casoy




SERIAL KILLER
   Louco ou Cruel?
 2004, WVC Editora
Um selo da Madras Editora LTDA.

Editor:
Wagner Veneziani Costa

Produo e Capa:
Equipe Tcnica Madras

Ilustrao da Capa:
Equipe Tcnica Madras

Foto da Capa:
Roberto Setton

Reviso:
Wilson Ryoji Imoto
Rita Sorrocha

                       CIP-BRASIL CATALOGAO NA FONTE
                 SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ.

C 334s
6.ed.

Casoy, Ilana, 1960-
  Serial killer : louco ou cruel? / Ilana Casoy. -- 6.ed. -- So Paulo : Madras, 2004

ISBN 85-7374-049-9

1. Homicdios em srie - Estudo de casos. I. Ttulo.

04-0185.                                                                     CDD 364.1523
                                                                             CDU 343.611

26.01.04                       27.01.04                                            005367



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CONTRA CAPA
     SERIAL KILLER: Louco ou Cruel?
     Cabea de Matador  "O impulso criminoso, o desejo de matar, os
homicdios mltiplos, o caador e o caado, a vtima e o algoz... No caso da
pesquisa de Ilana Casoy, temos casos especficos, nomes, histrias, atos, autor,
quem foi?, relao das vtimas, poca dos crimes, modus operandi e a psictica
assinatura pessoal na cena do crime, marca registrada de cada um. Assusta
saber que serial killer existe em profuso na sociedade... Como no existem
monstros,  um desfile incessante de parte da raa humana. Ilana Casoy
montou essa passarela com preciso de cirurgia para nos apresentar a coletnea
intrigante... a autora que experimentou a clausura para produzir este trabalho
mergulha na cabea dos matadores... Seja bem-vinda ao mundo dos que se
dedicam  palavra escrita..."
                                                                    Percival Souza


ORELHAS DO LIVRO
     Primeira coletnea sobre serial killers elaborada por uma escritora brasileira
aborda com maestria e sem julgo a mente, a investigao e o perfil de frios e
perversos assassinos e suas vtimas. Saber que Psicose de Hitchocock foi baseado
na vida de Ed Gein, que Theodore Bundy era o charmoso advogado que
assassinava hediondamente mulheres, que o pai de Jeffrey Dahmer quis doar o
crebro de seu filho, pois acreditava na possibilidade de haver alguma
explicao fsica ou gentica para justificar seu canibalismo e John Wayne Gacy,
que foi tesoureiro do Partido Democrata, tinha como paixo seviciar, torturar e
matar rapazes... Com certeza voc enveredar num mundo absolutamente
desconhecido, misterioso e desconcertante.

                              Ilana Casoy, formada em Administrao de
                        Empresas pela Fundao Getlio Vargas, dedicou os
                        ltimos dois anos a pesquisar serial killers. Sua primeira
                        obra inclui aspectos gerais e psicolgicos dos mais
                        famosos serial killers, passando pelo perfil criminal, pela
                        instigao do FBI... e aborda quinze casos
                        internacionais dentre dezenas de pesquisados. Com a
                        preciosa ajuda da Justia e da Polcia Brasileira, seu
                        prximo livros j est em andamento.
http://groups.google.com/group/digitalsource




          Este livro  dedicado s vtimas conhecidas e
    desconhecidas de assassinos loucos ou cruis, cujas
    histrias de sofrimento e morte s podemos adivinhar. 
    dedicado tambm aos seus pais, filhos, companheiros de
    vida e amigos, que nunca tiveram a chance de se despedir...

                                                   Ilana Casoy
                               ndice
PREFCIO
   Cabea de Matador

QUEM  UM SERIAL KILLER?
   Quem  a Vtima?
   Aspectos Gerais e Psicolgicos
       Controle
       Dissociao
       Empatia
       Intimidade
       Repetio ou Reencenao
       Abuso na Infncia e Outras Caractersticas
   Mitos e Crenas
       Todos os Serial Killers so Homens?
       Serial Killers so Loucos?
       Serial Killers tm Aparncia Estranha?
       Serial Killers tm a Mesma Motivao?
       Serial Killers tm Problemas com Figuras Femininas?
       Serial Killers so Abundantes em Nossa Sociedade?
       Perfil Criminal -- Arma Importante na Investigao
       Perfil Criminal --  Cincia, no  Magia!
       FBI -- um Passo  Frente na Investigao Criminal
   Perfil do Criminoso
       Jack, o Estripador
       Adolf Hitler
       O Unabomber
       O Estrangulador de Boston
   A Investigao do FBI
       Matria-Prima para o Perfil
       Processo de Deciso Modelo
       Avaliao do Crime
       Perfil Criminal
       A Investigao
       A Priso
   Organizados e Desorganizados
   Psicologia Investigativa
       Mtodo de David Canter
           Coerncia Interpessoal
           Importncia da Hora e Local
           Caractersticas Criminais
           Carreira Criminal
           Avaliao Forense
           Grfico do Campo de Ao do "Vagabundo"
           Grfico do Campo de Ao do "Viajante"
       Mtodo de Brent Turvey
           Anlise Forense Questionvel
           Vitimologia
           Caractersticas da Cena do Crime
           Caractersticas do Transgressor
           Utilizao do BEA
           Caso Ilustrativo de Anlise pelo Mtodo BEA
   Anlise da Cena do Crime
       Modus Operandi -- M.O
       Assinatura
       Afinal, Qual a Diferena?
       Exemplos Reais
           Ronnie Shelton
           David Vasquez
       Encenao
           Exemplo Real de Encenao

CASOS DA VIDA REAL
   Ed Gein -- Uma Inspirao para Hitchcock
   Ivan Marko Milat -- O Assassino de Mochileiros
   Theodore Bundy -- O Cidado Acima de Qualquer Suspeita
   Jeffrey Dahmer -- O Mais Famoso Canibal Americano
   Paul Bernardo e Karla Homolka -- "Ken e Barbie" Brincando de Matar
   Edmund Kemper -- O Matador de Colegiais
   John Wayne Gacy -- O Palhao Assassino
   Andrei Chikatilo -- O "Aougueiro" Russo
   Leonard Lake e Charles Ng -- Uma Dupla Letal
   Albert Fish -- O Vov que Comia Criancinhas
   Arthur Shawcross -- Libertado para Matar
   Aileen Wuornos -- A Prostituta Mortal
   Richard Trenton Chase -- O Vampiro de Sacramento
   O Zodaco -- O Caso que Ningum Resolveu!!!

APNDICES
   Apndice 1
      Serial Killers do Mundo Inteiro
   Apndice 2 -- Pena de Morte no Mundo
      Pases que Ainda Mantm a Pena de Morte para Crimes Comuns
      Pases que Ainda tm a Pena de Morte para Crimes Comuns, mas
          tm o Compromisso de no-Execuo
      Pases que Prevem Pena de Morte em Circunstncias Especiais ou
          em Casos Militares
      Pases que no tm Pena de Morte para Nenhum Tipo de Crime
   Apndice 3
      Mapa -- Pena de Morte por Estado -- EUA
   Apndice 4
      Frases Famosas -- Serial Killers
      Lista de Objetos Encontrados na casa de Jeffrey Dahmer

UM PEQUENO RELATO

BIBLIOGRAFIA

WEBGRAFIA
                                Prefcio

                         Cabea de Matador

     O impulso criminoso, o desejo de matar, os homicdios mltiplos, o
caador e o caado, a vtima e o algoz...
     Entender esse cenrio montado com sangue, que pode ter aspectos que
escapam, na natural (e social) discrepncia entre autos e atos, encontra neste
trabalho de Ilana Casoy um vadem mecum para os estudiosos e interessados
em procurar descobrir at que ponto a mente humana  capaz de chegar. Ao
que parece, no h limites. Nos jarges forenses, falava-se em biotipologia
criminal; hoje se refere mais s percias criminolgicas. Admita-se, a rigor,
que exista um interesse dominante centrado em descobrir e provar que
algum cometeu determinado crime. Depois, se o autor tinha ou no
conscincia dos atos praticados, acaba virando um duelo entre acusao e
defesa, para convencer os juizes de fato, no jri popular ou no juzo singular,
que devem ser admitidas circunstncias agravantes (consciente cruel), as
qualificadoras    e   eventualmente         as   atenuantes   (incapaz    de    se
autodeterminar). Quem pode exclamar, satisfeito: touch!? Difcil, a esgrima.
Nem sempre a loucura leva ao crime. Mas o crime pode levar  loucura. A
imperfeio humana talvez nos ajude a entender o poeta Cassiano Ricardo:
ou o pensar que a arte e loucura so flores diversas, num s ramo, como a lgrima 
irm gmea do orvalho. O terreno  movedio. Nele tambm se movem os
semi-imputveis. Porque o matador, consciente ou inconsciente, impassvel
ou cruel,  olhado sob o prisma da periculosidade. O castigo penal pode se
refugiar na teraputica compulsria. O critrio do duplo binrio, que por
tanto tempo vigorou em nosso Direito, aplicava a medida de segurana
detentiva, em carter complementar  aplicao da pena. Podia ser smbolo
de priso perptua. Podia ser motivo de orgulho para o defensor: o ru no
foi condenado, apenas internado at cessar a periculosidade...
     Neste jogo, em que podemos recorrer a Cesare Lombroso ou a Michel
Foucault, tenta-se compreender a alma humana com critrio tico ou
automaticamente burocrtico. Sim, temos laudos burocrticos e at
irresponsveis. Como aconteceu nos anos de chumbo, o perodo do arbtrio
institucional, quando o Manicmio Judicirio foi utilizado para deixar
apodrecer desafetos do regime. Como fizeram com Aparecido Galdino
Jacintho, o homem que benzia animais em Santa F do Sul, interior de So
Paulo, inofensivo mas subversivo para o regime militar e "doente e perigoso
que deve permanecer frenocomiado", segundo os psiquiatras que o
examinavam e o mantiveram encarcerado no hospital-presdio durante sete
longos anos. Nessa poca, dizia-se que algum  perigoso porque quando
entrou no Manicmio era. A tica ficava nos pores.
     No so estes os casos da pesquisa de flego feita por Ilana Casoy. Mas
 necessrio entender um pouco melhor do que acontece nos meandros da
psiquiatria forense para aproveitar melhor o trabalho que ela realizou. Era
moda, no passado, imaginar certos criminosos com caractersticas fsicas.
Segundo Lombroso, por exemplo, o criminoso nato teria um... crnio quase
sempre assimtrico, preponderante na parte superior e pequeno em relao ao
desenvolvimento da face (...), de orelhas volumosas, de cabelo ordinariamente
abundante mas de barba rala (...) e, com bem raras excees, de uma fealdade
chocante. Um dos crticos dessa teoria, Gabriel Tarde, diria que Lombroso foi
como o caf: excitou a todos mas no nutriu a ningum. Mas fez escola. Nina
Rodrigues, que empresta seu nome para o Instituto Mdico Legal de
Salvador, queria porque queria demonstrar que Antonio Conselheiro, o
rebelde do arraial de Canudos imortalizado por Euclides da Cunha em Os
Sertes, seria um psicopata lombrosiano. At escreveu a respeito. Mas
quando lhe levaram a cabea do beato, decepada em outubro de 1897, como
se fosse uma perigosa ameaa  Repblica recm-proclamada, esqueceu-se
do que havia escrito, como hoje  comum, no Brasil, em certas reas da
sociologia. A cabea do Conselheiro desapareceu entre os escombros de um
incndio que destruiu na Bahia a nossa primeira Faculdade de Medicina em
1906.
        Emblemtico.
        Em nosso tempo, fazemos -- diante de determinados autores de crimes
-- perguntas de ordem morfolgica, funcional, neurolgica, gentica e
biolgica. Busca-se entender o criminoso na sua forma humana e psquica --
o duelo entre o eu pessoal e o eu social.
        Um dos muitos aspectos importantes desse Serial Killer -- Louco ou
Cruel? que est em suas mos  chamar a ateno para o detalhe da
inexistncia dos monstros, como sempre gosta de bradar a vox populi.
Particularmente, o nico monstro com existncia legal em nosso planeta que
conheo  a serpente do lago Ness, na Esccia. Mas, convenhamos, esse
monstro possui licena concedida em carter estritamente precrio.
        No caso da pesquisa de Ilana Casoy, temos casos especficos, nomes,
histrias, atos, autos, quem foi, relao das vtimas, poca dos crimes, modus
operandi e a psictica assinatura pessoal na cena do crime, a marca registrada
de cada um. Assusta saber que serial killer existe em profuso na sociedade, e
as mulheres sempre so consideradas problema para ele. De Jack, o
Estripador, em plena Inglaterra vitoriana, ao Unabomber contemporneo.
H uma variedade imensa de casos e personagens. Como no existem
monstros,  um desfile incessante de parte da raa humana. Ilana Casoy
montou essa passarela com preciso de cirurgi para nos apresentar a
coletnea intrigante. De uma forma que no permite ao saber encobrir o que
sabe, como diria Vieira num dos seus sermes magistrais. Ajudando a
decifrar enigmas, como se estivesse diante de uma esfinge voraz, a autora
que experimentou a clausura para produzir este trabalho mergulha na
cabea dos matadores e nos oferece esse compndio criminal de interesse
multidisciplinar. Valeu, pois como escreveu o apstolo Paulo, em sua
primeira epstola endereada aos cristos em Corinto (1.25), ... a loucura de
Deus  mais sbia do que os homens; e a fraqueza de Deus  mais forte do que os
homens.
     Seja bem-vinda ao mundo dos que se dedicam  palavra escrita.




                                  PERCIVAL DE SOUZA
                             Jornalista, Escritor, Criminlogo
             Quem  um Serial Killer?
     O que leva uma pessoa a praticar atos to bizarros como assassinatos
em srie? A questo  gentica, psquica ou psicolgica? Traumas infantis
podem ter conseqncias to horrendas? Quanto precisam pai e me errar
para criar um monstro?
     Foram estas as questes que me levaram a pesquisar, e aqui vo
algumas das respostas encontradas. Espero que elas possam contribuir para
a curiosidade de leigos que, como eu, tentam entender onde nasce a
violncia.
     A teoria freudiana acredita que a agresso nasce dos conflitos internos
do indivduo.
     A Escola Clssica baseia-se na idia que pessoas cometem certos atos
ou crimes utilizando-se de seu livre-arbtrio, ou seja, tomando uma deciso
consciente com base de uma anlise de custo-benefcio. Em outras palavras,
se a recompensa  maior que o risco, vale a pena corr-lo. Se a punio for
extrema, no haver crimes.
     A Escola Positivista acredita que os indivduos no tm controle sobre
suas aes; elas so determinadas por fatores alm de seu controle, como
fatores genticos, classe social, meio ambiente e influncia de semelhantes.
No seria a punio que diminuiria a criminalidade, e sim reformas sociais e
tratamentos para recuperar o indivduo.
     No importa a teoria, os serial killers no se adequam a nenhuma linha
de pensamento especfica. Na verdade, so um captulo  parte no estudo do
crime.
      O termo serial killer  relativamente novo. Foi usado pela primeira vez
nos anos 70 por Robert Ressler, agente aposentado do FBI11 e grande
estudioso do assunto. Ele pertencia a uma unidade do FBI chamada
Behavioral Sciences Unit -- BSU (Unidade de Cincia Comportamental), que
tinha sua base em Quntico, Virgnia.
      Esta unidade deu continuidade ao trabalho do psiquiatra James
Brussell, pioneiro no estudo da mente de criminosos. O BSU comeou
montando uma biblioteca de entrevistas gravadas com serial killers j
condenados e presos em todos os EUA. Seus investigadores iam at as
penitencirias em diversos estados americanos, entrevistando os serial killers
mais famosos do mundo, como Emil Kemper, Charles Mason, David
Berkowitz. Tentavam entrar em suas mentes e compreender o que os
impulsionava a matar.
      Detalhes de todos os crimes americanos eram enviados a esta unidade,
e os "caadores de mentes" procuravam por pistas psicolgicas em cada
caso. Pelo que viam nas fotos das cenas dos crimes, desenvolveram a
habilidade de descrever suspeitos e suas caractersticas de forma
impressionante. Muito bom senso era utilizado, mas com o tempo foram
criadas tcnicas de anlise da cena do crime, que veremos adiante com mais
detalhes.
      Aceitamos como definio que serial killers so indivduos que cometem
uma srie de homicdios durante algum perodo de tempo, com pelo menos
alguns dias de intervalo entre eles. O espao de tempo entre um crime e
outro os diferencia dos assassinos de massa, indivduos que matam vrias
pessoas em questo de horas.
      O primeiro obstculo na definio de um serial killer  que algumas
pessoas precisam ser mortas para que ele possa ser definido assim. Alguns
estudiosos acreditam que cometer dois assassinatos j faz daquele assassino,


1
  F.B.I: Federal Bureau of Investigation -- rgo americano responsvel por todas as investigaes
criminais federais.
um serial killer. Outros afirmam que o criminoso deve ter assassinado pelo
menos quatro pessoas. Mas ser que a diferena entre um serial killer e um
assassino comum  s quantitativa? Obviamente que no.
     O motivo do crime, ou mais exatamente, a falta dele,  extremamente
importante para a definio de um assassino como serial. As vtimas
parecem ser escolhidas ao acaso e mortas sem nenhuma razo aparente.
Raramente, o serial killer conhece sua vtima. Ela representa, na maioria dos
casos, um smbolo. Na verdade, ele no procura uma gratificao no crime,
apenas exercita seu poder e controle sobre outra pessoa, no caso, a vtima.
     Os serial killers so divididos em quatro tipos:

     a. VISIONRIO:  um indivduo completamente insano, psictico. Ouve
vozes dentro de sua cabea e as obedece. Pode tambm sofrer alucinaes ou
ter vises.

     b. MISSIONRIO: socialmente no demonstra ser um psictico, mas
internamente tem a necessidade de "livrar" o mundo do que julga imoral ou
indigno. Este tipo escolhe um certo grupo para matar, como prostitutas,
homossexuais, etc.

     c. EMOTIVOS: matam por pura diverso. Dos quatro tipos estabelecidos,
 o que realmente tem prazer de matar e utiliza requintes sdicos e cruis.

     d. LIBERTINOS: so os assassinos sexuais. Matam por "teso". Seu prazer
ser diretamente proporcional ao sofrimento da vtima sob tortura e a ao
de torturar, mutilar e matar lhe traz prazer sexual. Canibais e necrfilos
fazem parte deste grupo.

     Serial killers tambm so divididos pelas categorias de "organizados" e
"desorganizados", geograficamente estveis ou no.
     O denominador comum entre todos os tipos  o sadismo, desordem
crnica e progressiva.
         Segundo o Dr. Joel Norris2, existem seis fases do ciclo do serial killer:

         1. FASE UREA: onde o assassino comea a perder a compreenso da
             realidade;

         2. FASE DA PESCA: quando o assassino procura a sua vtima ideal;

         3. FASE GALANTEADORA: quando o assassino seduz ou engana sua
             vtima;

         4. FASE DA CAPTURA: quando a vtima cai na armadilha;

         5. FASE DO ASSASSINATO OU TOTEM: auge da emoo para o assassino;

         6. FASE DA DEPRESSO: que ocorre depois do assassinato.

         Quando o assassino entra em depresso, engatilha novamente o incio
do processo, voltando para a Fase urea.



                                     Quem  a Vtima?

         As vtimas do serial killer so escolhidas ao acaso ou por algum
esteretipo que tenha significado simblico para ele.
         Diferente de outros homicdios, a ao da vtima no precipita a ao
do assassino. Eles so sdicos por natureza e procuram prazeres perversos
ao torturar suas presas, chegando at a "ressuscit-las" para "brincar" um
pouco mais. Tm necessidade de dominar, controlar e possuir a pessoa.
Quando a vtima morre, eles so novamente abandonados  sua misteriosa
fria e dio por si mesmos. Este crculo vicioso continua em andamento at
que seja capturado ou morto.
         Com raras excees, o serial killer v suas vtimas como objetos. Para
humilh-las ao mximo, tortur-las fisicamente e mat-las, no pode
enxerg-las como pessoas iguais a ele mesmo e correr o risco de destruir sua
fantasia. Sente-se bem ao saber que as fez sentir-se mal.

2
    Dr. Joel Norris -- PhD. em Psicologia e escritor.
     Esta  a essncia do pensamento do serial killer: as vtimas no so suas
parceiras na realizao da fantasia, e sim seu objeto de fantasia. Ele tira da
vtima o que quer e, quando termina, livra-se dela. Pode jog-la no
acostamento, arrum-la em um gramado ou pic-la em mil pedaos e
espalh-los numa mata.
     Existem pesquisas que revelam que o prazer sexual do criminoso tem
correlao direta com a resistncia da vtima, e esta aumenta o tempo da
durao do crime, que varia entre 36 e 94 minutos.
     Tendem a escolher vtimas mais fracas fisicamente do que eles, o que
facilita seu domnio. De forma geral, as vtimas tambm pertencem a grupos
menos beneficiados, como prostitutas, vagabundos ou caronistas, pois a
demora em constatar seu desaparecimento facilita o trabalho do serial killer.
     As serial killer femininas, na maioria dos casos, so "vivas negras" ou
anjos da morte: matam maridos e amantes ou velhos e doentes terminais.
     O famoso serial killer Ted Bundy matava brutalmente colegiais com
longos cabelos castanhos, meninas parecidas com sua noiva rica que rompeu
o relacionamento. David Berkowitz, o "Filho de Sam", no era to especfico:
bastava ser mulher para se tornar sua vtima em potencial.
     John Gacy, de forma selvagem, torturava e estrangulava garotos, o que
faz muitos analistas acreditarem que eles representavam o prprio Gacy na
sua inadequao aos olhos do pai dominador.
     O "Estrangulador de Boston" s matava mulheres voluptuosas. Foi
tambm chamado de "O Homem Medida".
     Conclui-se ento que no existe um tipo fsico preferido de vtima, a
ao do serial killer no depende da atitude daquela e o motivo do assassino,
em geral, s faz sentido para ele mesmo. Portanto, a melhor preveno para
no se tornar uma vtima ... rezar!
                       Aspectos Gerais e Psicolgicos

         Existem vrios aspectos psicolgicos que os serial killers tm em
comum, tanto no que diz respeito  sua ao quanto ao seu passado.
         Na infncia, nenhum aspecto isolado define a criana como um serial
killer em potencial, mas a chamada "terrvel trade" parece estar presente no
histrico de todos os serial killers: enurese3 em idade avanada, abuso sdico
de animais ou de outras crianas, destruio de propriedade e piromania4.
         Outras caractersticas comuns na infncia desses indivduos so:
devaneios diurnos, masturbao compulsiva, isolamento social, mentiras
crnicas, rebeldia, pesadelos constantes, roubos, baixa auto-estima, acessos
de raiva exagerados, problemas relativos ao sono, fobias, fugas, propenso a
acidentes, dores de cabea constantes, possessividade destrutiva, problemas
alimentares, convulses e automutilaes, todas elas relatadas pelos
prprios serial killers em entrevistas com especialistas.
         Apesar de no fazer parte da "terrvel trade", o isolamento familiar
e/ou social  relatado pela grande maioria deles. Quando uma criana 
isolada ou deixada sozinha por longos perodos de tempo e com certa
freqncia, a fantasia e os devaneios passam a ocupar o vazio da solido. A
masturbao compulsiva  conseqncia altamente previsvel.
         Para as pessoas normais, as fantasias podem ser usadas como fuga ou
entretenimento.  temporria, e existe a compreenso por parte do
indivduo de que  completamente irreal. Para os serial killers a fantasia 
compulsiva e complexa. Acaba se transformando no centro de seu
comportamento, em vez de ser uma distrao mental. O crime  a prpria
fantasia do criminoso, planejada e executada por ele na vida real. A vtima 
apenas o elemento que refora a fantasia.
         A escalada da fantasia, ao exigir constante reforo e, para tanto,


3
    Enurese: incontinncia urinria sem conhecimento, mico involuntria, inconsciente.
4
    Piromania: mania de atear fogo.
sucesso de vtimas, acaba se tornando o motivo do crime e estabelecendo a
"assinatura" do criminoso.
         O comportamento fantstico do serial killer serve a muitos objetivos:
aplaca sua necessidade de controle, dissocia a vtima tornando os
acontecimentos mais reais, d suporte  sua "personalidade para fins
sociais" e  combustvel para futuras fantasias.


Controle
         Para o serial killer, a fantasia prov sua necessidade de controle da
situao. Em homicdios seriais, o assassinato aumenta a sensao de
controle do criminoso sobre sua vtima. Ele estabelece um comportamento
que demonstra, sem sombra de dvida, que est no controle.
         Um dos meios de o serial killer estabelecer o controle  degradar e
desvalorizar a vtima por longos perodos de tempo. Esse objetivo pode ser
alcanado fazendo-a seguir um roteiro verbal, atravs de sexo doloroso e/ou
forado e pela tortura.
         Alguns serial killers no se sentem no controle da situao at a vtima
estar morta, ento as matam mais rapidamente. Uma vez morta, comeam as
mutilaes post-mortem, a desfeminizao (grande estrago ou retirada dos
rgos femininos) e disposio do corpo de maneira peculiar, em geral
humilhante (nua, por exemplo). Esse comportamento estabelece claramente
o controle do serial killer sobre a vtima.
         Um exemplo que pode exemplificar bem a questo de fantasia e
controle  o caso de Dayton Leroy Rogers5.
         Quando estava recm-casado com sua primeira esposa, Rogers atacou
uma garota de 15 anos com uma faca. Foi imediatamente colocado em um
programa de reabilitao sexual para transgressores sexuais. Ali, suas
fantasias cresceram e tornaram-se cada vez mais violentas. Ele passou a usar


5
    Crimes ocorridos na cidade de Portland, Oregon, nos E.U.A..
narcticos, lcool e a masturbar-se compulsivamente.
     Durante o perodo de seu segundo casamento, admitiu j ter fantasias
sexuais violentas de escravido durante as relaes sexuais do casal.
Declarou que essas fantasias aumentavam sua excitao.
     Quando fantasiar j no era suficiente, passou a pegar prostitutas tarde
da noite com seu caminho, levando-as a lugares remotos na floresta de
Molalla.
     Uma vez no local escolhido, ele coagia a prostituta a deixar-se amarrar
e... iniciava-se um ritual de escravido metdico e extremo. Em algum
momento desse ritual, ele comeava a masturbar-se com os ps da vtima.
Torturava-as intermitentemente fatiando seus ps ou cortando seus
mamilos.
     O procedimento se estendia at as primeiras horas da manh. De
acordo com algumas vtimas sobreviventes, ele regularmente pausava o
ataque e as deixava sozinhas no caminho enquanto ia urinar do lado de
fora, uma vez que consumia lcool durante toda a provao por que
passavam suas vtimas.
     Rogers as mantinha amarradas de forma apertada e dolorosa e as
ameaava estrangular se elas no se submetessem s suas exigncias, que
incluam "falas" do texto que estava em sua imaginao. A menos que
escapasse, a vtima no tinha a menor chance: seria assassinada e jogada na
floresta.
     Geralmente eram caadores que encontravam os corpos das vtimas j
decompostos, depois de decorrido algum tempo dos assassinatos.
     Rogers procurava sua vtima ideal, levava-a para um local onde ele
estaria no controle total da situao e a forava a um papel, uma
personagem dentro de sua fantasia.
     Constata-se a procura de controle por parte do serial killer a partir da
observao do local onde ele vai realizar sua fantasia, do roteiro ao qual ele
submete a vtima, das armas que ele eventualmente usa ou traz consigo e do
tipo de mutilao que ele inflige  vtima. O agressor faz aquilo que acredita
que o manter no controle, alimentando e reforando sua fantasia.


Dissociao
         Para parecer uma pessoa normal e misturar-se aos outros seres
humanos, o serial killer desenvolve uma personalidade para contato, ou seja,
um fino verniz de personalidade completamente dissociado do seu
comportamento violento e criminoso.
         A dissociao no  anormal, todos ns temos um comportamento
social mais "controlado" do que aquele que temos com nossos familiares
mais ntimos.
         No caso do serial killer, a dissociao de sua realidade e fantasia 
extrema. Muitos tm esposas, filhos e empregos normais, mas so
extremamente doentes. Mutilar a vtima, dirigir sua atuao como em um
teatro ou sua desumanizao tambm ajudam o serial killer a dissociar-se.
         O real e violento comportamento do agressor  suprimido socialmente.
Pode soar como amnsia temporria ou segunda personalidade, mas no  o
caso.
         A fantasia capacita a dissociao. Quanto mais intrincada, maior
distncia  mentalmente criada entre o comportamento criminoso do serial
killer e o verniz superficial de personalidade para contato. Sem esse verniz,
serial     killers   no   poderiam   viver   na   sociedade   sem   ser   presos
instantaneamente.
         O fato de controlar seu comportamento para que isso no acontea
mostra que o criminoso sabe que seu comportamento no  aceito pela
sociedade, e que seu verniz social  deliberado e planejado com
premeditao.  por esse motivo que a maioria deles  considerada s e
capaz de discernir entre o certo e o errado.
         A dissociao que fazem dos seus crimes enquanto esto num contexto
social  to profunda que muitos serial killers, quando so presos, negam sua
culpa e alegam inocncia com convico e, mesmo que as provas para sua
condenao incluam fotografias dele mesmo com suas vtimas, objetos
pessoais das vtimas encontrados em seu poder ou qualquer outra prova
irrefutvel, continuam negando veementemente a sua participao no crime.
         Seu verniz  to perfeito que as pessoas na priso confiam nele e em
seu comportamento, sem entender como aquela pessoa to educada e
solcita, calma e comportada, possa ter cometido crimes to numerosos e
violentos.
         Jerry Brados6, na adolescncia, adorava se vestir de mulher e raptar
outras mulheres para ter relaes sexuais com elas. Na vida adulta, aps seu
casamento, comeou a utilizar-se de vrios disfarces e traques para pegar
suas vtimas e lev-las para sua garagem.
         Uma vez ali, ele as forava a tirar a roupa e vestir lingerie e sapatos de
sua imensa coleo. A vtima era ento amarrada.
         Masturbava-se tirando fotografias dele mesmo e delas, usando para
efeitos especiais os espelhos estrategicamente colocados no teto de sua
garagem.
         Quando terminava sua sesso fotogrfica, Jerry estrangulava sua
vtima, amarrava pesadas peas de motor em seu corpo e as jogava no rio
Willamette para que afundassem no esquecimento. Depois de cinco
assassinatos parecidos, Jerry foi considerado suspeito. A polcia conseguiu
um mandado de busca para investigar sua casa, e mesmo Jerry, sabendo o
dia com antecedncia, no demonstrou nenhuma preocupao ou sumiu
com alguma prova. Era como se o assunto no se referisse a ele.
         Entre as provas encontradas pela polcia na garagem de Jerry Brados
estavam:

         -- Sua coleo de fotografias das vtimas demonstrando toda sua


6
    Crimes ocorridos na cidade de Salem, Oregon, nos EUA.
         nudez e submisso.
     -- Sua coleo de sapatos roubados.
     -- Roupas de vrias vtimas.
     -- Sua coleo de lingerie roubada.
     -- Um peso para papel moldado no seio de uma das suas vtimas.
     -- O seio que serviu de molde para o peso no freezer da garagem.
     -- Partes do corpo removidas das vtimas, particularmente ps,
         guardados no freezer.
     -- Fotos de sua esposa, Ralphene Brudos, nua.

     Na ausncia de vtimas, esses apetrechos permitiam que ele mantivesse
viva sua fantasia e planejasse seu prximo crime. Sua esposa confirmou que
ele passava horas na garagem e ficava fora de si caso ela ameaasse entrar ou
violar sua privacidade.
     Jerry Brados est preso na Penitenciria Estadual de Salem e nega at
hoje qualquer conhecimento ou participao naqueles crimes pelos quais foi
condenado.
     Antes do julgamento, chegou a confessar os crimes alegando
insanidade, mas como este pedido foi indeferido, jamais admitiu seus crimes
depois disso, apesar das fotos, testemunhas, partes dos motores amarrados
s vtimas que lhe pertenciam... enfim, todas as evidncias materiais
possveis e imaginveis. Jerry Brados alega ser inocente.
     Seu verniz social  to perfeito e verossmil que ele  considerado um
dos presos mais confiveis da penitenciria, apesar de ser capaz de
crueldades indescritveis na realizao de seus crimes. Prestou vrios
servios e seus guardas e diretores s tm maravilhas a falar sobre ele. 
tratado como um preso no perigoso, apesar de ser um serial killer
condenado. Sua liberdade condicional  revista a cada dois anos e j est
preso h 25 anos.
     Seu verniz social foi to habilmente construdo e  to sofisticado, que
pode at ser colocado em liberdade a qualquer momento.
Empatia
         Quando uma criana comea a provocar outra, notamos imediatamente
um novo estgio em seu desenvolvimento: significa que ela j  capaz de se
colocar no lugar de outra pessoa, concluir qual atitude sua vai irrit-la e
ento se utilizar desse raciocnio para aborrecer o outro.
         Estendendo essa mesma lgica para a mente do serial killer, se ele
precisa da vtima humilhada e amedrontada, ele necessita saber como obter
esse resultado.
          um erro pressupor que o serial killer no sabe fazer empatia, uma vez
que ele compreende exatamente o que  humilhante, degradante ou
doloroso para a vtima e planeja sua ao para obter desta o que necessita e
deseja.
         Segundo Brent E. Turvey, famoso psiquiatra forense, esta  uma
evidncia irrefutvel de que o criminoso tem uma clara compreenso das
conseqncias de seu comportamento e ao para a vtima; entender que ela
est humilhada e sofrendo , em parte, o porqu de ele estar se comportando
dessa maneira.
         Segundo John E. Douglas7, enquanto o maior medo das mulheres 
serem atacadas quando esto sozinhas, o dos homens  serem humilhados,
principalmente na frente de outras pessoas. A maioria dos criminosos
violentos tem histrias de humilhao pblica na sua infncia, praticada em
parte pelos pais ou pelos colegas da escola. Sabem exatamente como  a
sensao de passar por essa tortura.
         Seu comportamento no  puramente egocntrico, seu prazer . Sente-
se bem na mesma medida em que suas vtimas sentem-se mal.




7
    Ex-agente da Unidade de apoio  Investigao do F.B.I.
Intimidade
        A intimidade  assunto de grande preocupao para todo serial killer. 
desejada por todos eles, mas no sabem como obt-la pelas vias normais,
uma vez que so anti-sociais.
        O ritual a que submete a vtima acaba sendo para ele o mximo da
intimidade; sob seu controle, desnuda-a em todos os sentidos. A forada
intimidade sexual acaba sendo, para o criminoso, o mximo de proximidade
que consegue em termos espirituais e emocionais.
        Para o serial killer, a intimidade est em "dividir" com a vtima seus
mais secretos desejos e sentimentos pessoais. Mas no se iluda: o agressor
no  parceiro da vtima, ela  apenas o objeto de sua fantasia.


Repetio ou Reencenao
        Cada crime, cada vtima,  parte da fantasia macro do criminoso. Toda
esta histria foi vivida inmeras vezes antes, durante e certamente depois
dele.
        A repetio e reencenao servem para alimentar a fantasia, reforando
a escalada de comportamento violento, e d prazer sexual ao serial killer.
         um exerccio mental para o criminoso reencenar o crime depois de t-
lo cometido, e para conseguir faz-lo, cada um deles se utiliza de mtodos
diferentes.
        Alguns gravam e filmam seus crimes para assisti-los vrias vezes
depois de livrar-se do corpo e assim estimular e preparar futuros crimes.
Outros ficam com souvenirs de suas vtimas, como roupas, sapatos e at
partes do corpo. Outros ainda matam sempre no mesmo local,
embaralhando na sua cabea o momento passado com o atual.


Abuso na Infncia e Outras Caractersticas
        A grande maioria dos serial killers (cerca de 82%) sofreu abusos na
infncia. Esses abusos foram sexuais, fsicos, emocionais ou relacionados 
negligncia e/ou abandono.
     No  fcil identificar um abusador de crianas. Gente de todas as
raas, religies, profisses, classes sociais, etc. est representada entre eles.
Em sua maioria, so homens, entre a adolescncia e a meia-idade. Algumas
caractersticas j foram constatadas:

     -- Um tero dos abusadores  viciado em alguma substncia
         entorpecente.

     -- A proporo constatada  de oito homens abusadores para apenas
         uma mulher.

     -- Os casos mais freqentes esto entre pais, padrastos, tios, avs,
         primos e irmos.

     -- Meninas tm maior chance de ser molestadas por membros da
         famlia do que meninos.

     -- Muitos casos de incesto entre pai e filho aparecem como reao ao
         stress emocional e/ou perdas que ameaam a masculinidade dos
         pais, ou como uma expresso de dio.

     -- Criminosos que abusam de meninos mostram um maior risco de
         reincidir do que aqueles que abusam de meninas.

     Podemos dividir os abusos sexuais infantis em trs categorias: crianas
espancadas que sofrem ferimentos principalmente na rea genital, crianas
que tiveram contato genital no apropriado com adulto ou sofreram
tentativa de intercurso sexual e crianas que tiveram contato com a
sexualidade adulta, possivelmente via pornografia. Em 75% dos casos
conhecidos de abuso sexual, a criana conhecia seu abusador, em 20% o
abusador  o pai natural, em 12% ele  o padrasto e em apenas 2% dos casos
a abusadora  a me.
     Os abusadores sexuais so classificados em trs tipos: pedfilos
(seduzem crianas com ateno e presentes), odiadores de crianas e
aproveitadores de pornografia ou prostituio infantil.
      importante conhecer a diferena entre um pedfilo e um molestador
de crianas. A pedofilia, desordem psicolgica, consiste em uma ntida
preferncia sexual por pr-pberes (menores de 12 anos), mas no requer
que a pessoa realmente se envolva num ato sexual de fato. O pedfilo pode
manter suas fantasias em segredo, sem nunca dividi-las com ningum.
Manter-se perto de crianas a qualquer custo  sua marca registrada.
     Molestadores de crianas podem ter vrias motivaes para seus
crimes. Diferente do pedfilo, nem sempre seus motivos so de origem
sexual, ou tm muito pouco a ver com desejo sexual. Alm disso, chegam s
vias de fato. O molestador no tem uma genuna preferncia sexual por
crianas, e em geral foi vtima de outros tipos de abuso em sua vida.  a
continuao do processo pelo qual foi tratado, que causou nele baixa auto-
estima e baixos padres morais. Fazer sexo com crianas  apenas mais uma
oportunidade de prolongar a violncia que j faz parte de sua existncia.
     O molestador que realmente prefere crianas  obrigado a seguir um
padro de comportamento bastante distinto. Seduzir estes pequenos seres e
utilizar-se de suas fraquezas emocionais requer um relacionamento
construdo ou j existente. Segundo o Departamento de Justia dos EUA, em
90% dos casos de estupro ocorrido com crianas pr-pberes, a vtima
conhecia seu algoz.
     As caractersticas mais comuns no pedfilo so as seguintes:

     -- Tem fascinao ou interesse fora do normal por crianas.

     -- Faz freqentes referncias  "santidade" e pureza das crianas.

     -- Tem passatempos ou interesses em coisas que realmente pertencem
        ao mundo infantil, como colecionar brinquedos, aeromodelismo, etc.

     -- Sua casa ou quarto  decorado com temas infantis.

     -- Freqentemente, o tema acaba revelando a idade preferida das
             crianas que molesta.

         -- Tem mais de 30 anos,  solteiro e tem poucos ou nenhum amigo.

         -- Muda de endereo com freqncia acima da mdia.

         -- Tem acesso a crianas de forma sistemtica e prolongada, pois logo
             levantaria suspeitas se no tivesse uma razo plausvel para estar
             perto delas. Geralmente escolhe empregos em setores em que estar
             forosamente lidando com crianas em bases dirias, como
             professores, motoristas escolares, monitores de acampamentos,
             fotgrafos e treinadores de esporte.

         --  voluntrio para atividades nas quais ficar sozinho com crianas,
             sem a superviso dos pais.

         -- Crianas saudveis e com timo relacionamento familiar no esto
             isentas de ser vtimas de molestadores, pois tm aspectos de sua
             natureza que podem trabalhar contra elas mesmas. Qualquer criana
              curiosa, facilmente influencivel e manipulvel, alm de sempre
             precisar de ateno e afeto. A escolha do molestador, de modo geral,
             recai sobre crianas problemticas, pois a seduo fica facilitada.

         -- A criana molestada acaba sofrendo da sndrome de Estocolmo8.

         Abusos fsicos, como surrar crianas ou estupro, so mais facilmente
detectveis. Quanto  negligncia, a situao  completamente diferente.
Surrar e estuprar deixam marcas facilmente reconhecveis por terceiros, que

8
    Sndrome de Estocolmo: caracteriza-se por trs sintomas principais, manifestados pelas pessoas que se
envolvem num evento crtico (e no apenas pelos refns, como muitos pensam): sentimentos positivos do
refm ou vtima em relao ao captor, sentimentos positivos do captor em relao ao refm ou vtima e
sentimentos negativos do refm ou vtima em relao s autoridades que gerenciam a crise. O nome se
origina de um evento crtico ocorrido em Estocolmo, na Sucia, em 1973. Dois assaltantes (Jan Olson e
Clark Olofsson) mantiveram por uma semana seis pessoas como refns, presas dentro do cofre do Banco
de Crdito de Estocolmo. Aps a liberao, manifestaram grande hostilidade contra os policiais e
defenderam ardorosamente os bandidos que os agrediram e humilharam, alm de pagar por sua defesa.
Afinal, deviam suas vidas  generosidade dos bandidos...
podem interferir comunicando os maus-tratos  polcia.
     Negligncia  um conceito subjetivo e pessoal, e prov-la num tribunal
 extremamente complicado.
     Tambm no se sabe por que algumas crianas conseguem lidar melhor
com certos tipos de abusos, superando-os, enquanto outras, sofrendo a
mesma agresso, tm suas vidas drasticamente alteradas.
     Os laos familiares na infncia de um ser humano vo servir de mapa
para todas as suas outras relaes. Entre 3 e 9 meses de vida, a criana cria
laos com seus pais, que devem preocupar-se em constru-los de forma
profunda. A falta desses laos  o grande fator do desenvolvimento da
psicopatia.
     A conexo nos primeiros meses de vida da criana ir ajud-la a
desenvolver-se intelectualmente, desenvolver uma conscincia, lidar melhor
com as frustraes, ter mais autoconfiana e auto-estima e a desenvolver
relacionamentos empticos.
     Cuidar do emocional da criana, para os pais, deve ter a mesma
importncia de uma boa nutrio. Auto-estima, maleabilidade, esperana,
inteligncia e capacidade de empatia so essenciais para a construo de um
carter que controla seus impulsos, administra sua raiva e resolve seus
conflitos. Sem essas habilidades adquiridas, a criana no  capaz de
estabelecer relacionamentos importantes.
     Uma criana que no aprende a valorizar sua famlia e relacionar-se
com ela dificilmente conseguir se relacionar normalmente com outras
pessoas.
     Entre os serial killers estudados, esta  outra caracterstica encontrada
com facilidade: seu tenso e difcil, s vezes at inexistente, relacionamento
familiar.
     A      crueldade   com   animais      geralmente   considerada    como
comportamento sdico. Temos que ter em mente que nem todos os sdicos
se tornaram assassinos, nem todos os serial killers mutilaram animais na
infncia e nem todos os que o fizeram se tornaram criminosos -- apenas 36%
dos serial killers foram cruis com animais. Devemos tambm entender que
ser cruel com animais no  o nico indcio de sadismo: esse comportamento
pode ser indicado pela crueldade com outras crianas ou at com bonecas e
outros objetos.
      Todos os comportamentos descritos acima tm muito em comum: s se
agravam com o tempo. As fantasias se tornam mais violentas e os atos
sdicos, mais cruis.
      Por sua natureza psicopata, serial killers no sabem sentir compaixo
por outras pessoas ou como se relacionar com elas. Eles aprendem a imitar
as pessoas normais.
       um ato manipulativo, que aprenderam por observao e que os
ajudar a trazer a sua vtima para dentro da armadilha. Em geral, so timos
atores e tm uma aparncia absolutamente normal.
      Henry Lee Lucas dizia se sentir como uma estrela de cinema, fazendo a
sua parte. Gacy se vestia de palhao e fazia shows para crianas carentes,
enquanto o Assassino do Zodaco se vestia com um estranho traje de
execuo, mais parecido com o de um "ninja".
      Quando so capturados, rapidamente assumem uma mscara de
insanidade, alegando mltiplas personalidades, esquizofrenia, black-out
constantes ou qualquer coisa que o exima de responsabilidades.
      Para que um crime seja solucionado, tanto a medicina forense como a
psicologia devem ser utilizadas. Quanto mais interao entre os profissionais
destas duas reas, mais chance tem a polcia de encontrar e prender os serial
killers.


                          Mitos e Crenas

Todos os Serial Killers so Homens?
      Apesar da grande maioria deles serem homens, falar que no existem
assassinas seriais  completamente incorreto. Os crimes femininos tm, em
geral, menos publicidade que os masculinos: so menos sensacionais e tm
motivaes diferentes.
     Segundo Douglas, ex-agente do FBI, a minoria dos serial killers  da raa
negra. Isso se deve ao fato de que, mesmo nos lares onde sofreram com mes
abusivas, so resgatados por alguma figura feminina amvel, especialmente
as avs.  um comportamento natural na cultura negra.
     Mulheres, quando sofrem os mesmos tipos de abuso ou negligncia
que os homens na infncia, tendem a internalizar seus sentimentos, segundo
John Douglas. Elas acabam tendo comportamentos autodestrutivos, como
alcoolismo, drogas, prostituio ou suicdio. No  freqente se tornarem
agressivas ou predatrias.
     Mulheres, quando serial killers, tendem a matar pessoas que elas
conhecem, e no estranhos quaisquer. Em geral, seus alvos so crianas ou
seus prprios maridos.
     Todo mundo j ouviu falar da "viva negra", a mulher que matou
vrios maridos ou parceiros por um longo perodo de tempo, com objetivos
meramente financeiros.
     As mulheres, de forma geral, tambm fazem seus crimes parecerem
mortes por causas naturais, como ataques do corao, suicdios, acidentes ou
"doenas", que na verdade foram causadas por envenenamento.
     A assassina serial mais conhecida da atualidade  Aileen Wuornos,
sentenciada  morte pelo homicdio de um homem e acusada de mais seis
outros.
     A alegao de legtima defesa  o que faz muitas assassinas seriais
permanecerem fora das estatsticas, alm do fato de freqentemente
matarem em dupla, o que as torna "cmplices foradas a matar por seu
homem", por amor.
Serial Killers so Loucos?
      Loucos ou cruis? Esta  uma dvida popular e acadmica.
Racionalizar o ato como sendo resultado de uma doena mental parece
tornar o crime mais lgico.
      Insanidade, freqentemente alegada em tribunais para a tentativa de
absolvio do assassino, no  uma definio de sade mental, como muitos
acreditam. Seu conceito legal se refere  habilidade do indivduo em saber se
suas aes so certas ou erradas no momento em que elas esto ocorrendo.
       uma surpresa saber que apenas 5% dos serial killers estavam
mentalmente doentes no momento de seus crimes, apesar das alegaes em
contrrio.
      Historicamente, vrios cientistas tm trabalhos publicados sobre a
relao entre crime e biologia. Apesar do grande nmero deles que estudam
o assunto, no existe nenhuma evidncia comprovada cientificamente que
apie a teoria do "gen criminoso".
      Um estudo sobre gmeos que foram criados separadamente, feito pelo
Dr. Yoon-Mi Hur e Thomas Bouchar9 em 1997 revelou uma forte ligao
entre fatores genticos e comportamentos impulsivos e pessoas que
necessitam de grandes emoes.
      Existem tambm serial killers que tm um cromossomo feminino extra
(YXX), como Bobby Joe Long, que sofria da chamada sndrome de
Klinefelter. Como conseqncia, Bobby Joe tinha estrgeno (hormnio
feminino) em maior quantidade circulando em seu sangue, o que acarretou o
crescimento de seus seios na puberdade. Alm do bvio constrangimento
causado, nada comprovou que seu cromossomo extra o teria tornado um
criminoso.
      Um serial killer com um cromossomo Y a mais (masculino) tambm
alegou tal fato em sua defesa, como se esse fator explicasse sua extrema

9
 Artigo "Impulsivity, Sensation-seeking: genetic tie seen" -- Depto. Psicologia da Universidade de
Minnesota.
violncia. Apesar de parecer uma explicao at lgica, no existem
evidncias cientficas que comprovem essa hiptese.
      A relao entre masculinidade e crime j tentou ser explicada tambm
atravs do hormnio masculino testosterona. Uma taxa alta de testosterona
combinada com baixos nveis de serotonina pode causar resultados letais.
Atletas e empresrios de sucesso testados demonstraram ter uma taxa
anormalmente alta de testosterona, mas a serotonina diminui o pico de
tenso, equilibrando o indivduo. Quando esse equilbrio no existe, a
frustrao pode levar  agressividade e comportamentos sdicos, segundo o
Dr. Paul Bernhardt10.
      Outra explicao possvel  a que criminosos violentos tm traos de
alta dosagem de metais pesados no sangue, como mangans, chumbo,
cdmio e cobre. O mangans, por exemplo, abaixa os nveis de serotonina e
dopamina no organismo, o que contribui para um comportamento
agressivo. O lcool incrementa os seus efeitos.
      Tradicionalmente, o comportamento psicopata  conseqncia de
fatores familiares ou sociolgicos, mas alguns pesquisadores encontraram
diferenas cerebrais entre psicopatas e pessoas normais que no podem ser
descartadas.
      O Dr. Christopher Patrick11, num artigo de 1995, alega que psicopatas
tm menor taxa de mudanas cardacas e de conduo eltrica na pele como
reao ao medo. O grupo de pesquisa deste mdico fez a seguinte
experincia: mostrou para um grupo de prisioneiros, psicopatas ou no,
slides agradveis, neutros e desagradveis. No experimento, os prisioneiros
psicopatas mostraram uma deficincia na sua capacidade de sentir medo,
no demonstrando diferentes emoes entre os variados tipos de imagens.
O Dr. Robert Hare, Psiclogo da University of British Columbia, completou


10
   Dr. Paul C. Bernhardt -- Artigo "High Testosterone, Low Serotonine: Double Problem?" --
Department of Educacional Psichology, University of Utah.
11
   Dr. Christopher J. Patrick -- Artigo "Psycopaths: findings Point to Brain Differences" -- Department
of Psychology Florida State University.
um estudo sobre como as ondas cerebrais monitoradas de psicopatas
reagiam  linguagem verbal, medindo as mudanas que ocorriam em seu
crebro quando ouviam palavras como cncer, morte, mesa ou cadeira. Para
                         as pessoas saudveis, as ondas cerebrais tm sua
                         atividade modificada rapidamente, dependendo da
                         palavra ouvida. Para os psicopatas, nenhuma atividade
                         cerebral especial foi registrada, ou seja, todas as
                         palavras so neutras para essas pessoas.
                          12

                                Outros estudos do crebro sugerem que crianas
psicopatas fazem certas conexes cerebrais mais vagarosamente que outras,
mostram menos medo  punio e parecem ter a necessidade de "excitar"
seu sistema nervoso, sentindo fortes emoes e necessitando de vibraes
constantes.
      O Dr. Dominique LaPierre13 sugere que o crtex pr-frontal, rea do
planejamento em longo prazo, julgamento e controle de impulsos, no
funciona normalmente em psicopatas.
      Novas pesquisas cientficas, feitas pelo Dr. Adrian Raine14, em 21
homens com histrico de atos criminosos violentos, de assalto  tentativa de
assassinato, mostraram um resultado no mnimo intrigante: todos
apresentaram o mesmo defeito cerebral, uma reduzida poro de matria
cinzenta no lobo pr-frontal, justo atrs dos olhos.
      Indivduos que so anti-sociais, impulsivos, sem remorso e que
cometem crimes violentos tm, em mdia, 11% menos matria cinzenta no
crtex pr-frontal do que o normal. Os estudos de Raine so os primeiros a
ligar comportamento violento e anti-social com uma anormalidade
anatmica      especfica      no    crebro      humano.       Mas,     segundo       seus
esclarecimentos, sua teoria diz que o "defeito" no crebro no est inter-

12
  Fotografia da Ficha Penitenciria.
13
  Dr. Dominique LaPierre -- Artigo "The Psychopathic Brain: New Findings" -- Psychologie UQAM
-- Montreal, Canad.
relacionado com o comportamento violento. A reduzida massa cinzenta
apresentada por alguns apenas aumenta a sua probabilidade de vir a ser um
indivduo violento. Seria a combinao entre os fatores biolgicos e sociais
que "criaria" um criminoso.
      De acordo com muitos pesquisadores, defeitos cerebrais e leses tm
tido importante ligao com o comportamento violento.
      Quando o hipotlamo, o lobo temporal e/ou o crebro lmbico sofrem
estragos, a conseqncia pode ser incontrolveis agresses por parte do
indivduo.
      O hipotlamo regula o sistema hormonal e as emoes. Pela
proximidade fsica dos centros sexual e agressivo com o hipotlamo, instinto
sexual e violncia so conectados, no caso de criminosos sdicos. Um dos
motivos da danificao do hipotlamo  a m nutrio ou leso.
      O crebro lmbico (extremidades) est associado s emoes e
motivaes. Quando h uma leso nessa rea, o indivduo perde o controle
sobre suas emoes primrias, como o medo e a raiva. De acordo com J. Reid
Meloy a falta de emoes do psicopata e sua observao predatria podem
ser comparadas  frieza dos rpteis, que no tm a parte lmbica do crebro,
onde residem as memrias, emoes, socializao e instintos paternos. Em
outras palavras, serial killers so corretamente descritos como pessoas de
"sangue frio", como os rpteis.
      O lobo temporal, por sua vez,  muito suscetvel a ferimento, pois est
localizado onde os ossos do crebro so mais finos. Leses sem corte,
incluindo queda em cho duro, podem facilmente danificar essa rea,
criando leses que causam certas formas de amnsia ou ataques epilpticos.
O lobo temporal danificado pode ter como conseqncia um aumento de
respostas agressivas por parte do indivduo.
      Um estudo feito por Pavlos Hatzitaskos15 e outros reporta que uma

14
  Dr. Adrian Raine -- Professor de Psicologia da Universidade do Sul da Califrnia.
15
  Dr. Pavlos Hatzitaskos -- Artigo "Doctors Miss Treatable Problems in Violent Offenders" -- Juvenile
and Family Court Journal/1994 -- New York University School of Medicine.
grande poro de prisioneiros no corredor da morte sofreu srios ferimentos
no crebro, e aproximadamente 70% dos pacientes que tm graves
ferimentos cerebrais desenvolvem tendncias extremamente agressivas.
Alguns desses ferimentos so acidentais, mas muitos deles aconteceram
durante surras na infncia. Entre os serial killers que sofreram ferimentos na
cabea esto: Leonard Lake, David Berkowitz, Kenneth Bianchi e John Gacy.



Serial Killers tm Aparncia Estranha?
     Infelizmente, serial killers no tm horrveis cicatrizes, desfiguraes ou
quaisquer outros sinais fsicos que os diferenciem do resto de ns.
     Nos livros, cinema e televiso so descritos como altos, horrveis, caras
de mau. Quase nunca  assim. So pessoas comuns, que tm emprego e
podem ser bastante charmosas e extremamente educadas. Todas as milhares
de vtimas que caram em suas armadilhas tinham quociente de inteligncia
normal, e certamente no achavam que estavam se colocando em situaes
de risco.



Serial Killers tm a Mesma Motivao?
     Todos os seres humanos tm seu comportamento influenciado por
causas biolgicas, psicolgicas e sociais. Este trio  inseparvel e por esse
motivo as experincias com gmeos criados juntos e aqueles separados ao
nascer so to importantes.
     Alguns serial killers so motivados por seu dio s mulheres, desejo de
controle, dominao, humilhao ou por vinganas reais e/ou imaginrias.
     Dadas s diferenas biolgicas e de desenvolvimento existentes entre os
vrios serial killers conhecidos, seria ingenuidade acreditar que eles teriam os
mesmos motivos para agir deste ou daquele modo.
Serial Killers tm Problemas com Figuras Femininas?
     Este mito  extremamente comum. Ele presume que o serial killer tem
assuntos mal resolvidos com as figuras femininas de sua vida, como bem
exemplificado no filme Psicose, de Hitchcock.
     Existem muitos exemplos de serial killers que tinham graves problemas
com sua me ou pai, mas muitas outras pessoas tambm tm e nem por isso
saem por a cometendo assassinatos em srie. No  motivo suficiente para
explicar esse comportamento.



Serial Killers so Abundantes em Nossa Sociedade?
     Serial killers so difceis de definir e detectar. Em geral escolhem vtimas
descartveis, como sem-teto ou prostitutas, no chamando a ateno das
autoridades para seus crimes, que podem nunca ser relacionados ou
atribudos a um s assassino.
     Nos EUA se estima que existem entre 35 (nmero conservador dado
pelo FBI) a 500 (nmero absurdo) serial killers operando no momento.
      tambm neste pas que se encontram 75% dos serial killers conhecidos
no mundo.
     Ser que os americanos geneticamente so mais propensos a matar de
forma hedionda? Imagino que a diferena entre eles e o resto da
humanidade  a alta tecnologia de que dispe a polcia na obteno de
dados para solucionar os crimes e a enorme facilidade de comunicao e a
troca de informaes entre os policiais de todos os Estados.
     Os pases onde existe maior nmero de serial killers conhecidos so:

     1 EUA
     2 Gr-Bretanha
     3 Alemanha
     4 Frana
     Mas outros pases tambm tm seus serial killers notrios: recentemente,
no Mxico, um criminoso confessou ter matado mais de 100 vtimas. Na
China, o chamado "Cidado X" pode ser responsvel por mais de 1.000
mortes.
     Em 1999, a polcia paquistanesa caava um homem que dizia ter
assassinado 100 crianas. Na Colmbia, Pedro Alonzo Lopez matou mais de
300 pessoas.
     Moses Shitole, da frica do Sul, matou 38 mulheres.
     Um estudo realizado na Inglaterra, em 1997, concluiu que o nmero de
serial killers estava aumentando no pas, e eram proporcionalmente mais
freqentes que nos EUA.
     Outras estatsticas curiosas:

     -- 84% dos serial killers so caucasianos.
     -- 93% dos serial killers so homens.
     -- 65% das vtimas so mulheres.
     -- 89% das vtimas so caucasianas.
     -- 90% dos serial killers tm idade entre 18 e 39 anos.


Perfil Criminal -- Arma Importante na Investigao
     O perfil criminal  s uma ferramenta investigativa disponvel para
ajudar a solucionar um crime. Apesar da literatura nos dizer como essa
ferramenta  maravilhosa, a realidade no  to espetacular se medirmos
quantas capturas foram feitas com base nela desde 1970, quando foi adotada
nos EUA. Em geral, os serial killers so pegos por crimes menores ou pela
astcia da polcia que consegue um mandado de busca para investigao.
     Muito desse mito se d pela crena que o perfil nos leva a um criminoso
especfico, o que no  verdade; isso nos indica um tipo de criminoso, talvez
rascunhe seu histrico psicolgico, possivelmente sua aparncia fsica, tipo
de profisso, possvel local de residncia ou estado civil, entre outras coisas.
Essas concluses sero baseadas na cena do crime, na reconstruo do
comportamento do assassino e na anlise desse comportamento no contexto
do crime. Com esses dados, o nmero de suspeitos a serem investigados
diminui sensivelmente.
         O perfil criminal jamais poder substituir o tradicional trabalho da
polcia, mas sem dvida  uma arma importantssima na investigao
criminal.


Perfil Criminal --  Cincia, no  Magia!
         De acordo com os profissionais que montam os perfis criminais, no
existe nada de mstico em seu trabalho.  um processo lgico e racional
baseado em estudos psicolgicos e sociolgicos.
         Brent Turvey, cientista forense, desenvolveu um mtodo conhecido
como "Behavioural Evidence Analysis" (BEA)16. Baseia-se nas evidncias
fsicas de um crime especfico, e as concluses sobre o suspeito advm do
exame da cena do crime e da anlise de seu comportamento.
         Esse mtodo  fortemente baseado em cincia forense, conseqncia da
formao de seu criador, e depende da anlise cientfica acurada das provas
para a interpretao dos fatos que envolvem o caso.
         Outro mtodo  a Psicologia Investigativa, desenvolvida por um
psiclogo britnico chamado David Canter, mais utilizada na Inglaterra.
         A cincia forense, nos dias de hoje,  to especializada nos EUA, que
realmente ajuda muito a desvendar crimes.  assim subdividida:
         Cientista forense geral: sabe um pouco sobre a maioria dos assuntos, tem
um conhecimento do todo e suas possibilidades.
         Cientista forense especialista: tem conhecimento sobre um assunto
especfico, como por exemplo um serologista. Assim como a microscopia
geral estuda sangue e fluidos corporais, um especialista se aprofunda muito


16
     Anlise das Evidncias de Comportamento.
nesse assunto.
         Cientista forense subespecialista: tem um conhecimento especfico sobre
uma subcategoria, como o DNA.
         Os procedimentos de Laboratrios Criminais so baseados somente em
cincia, e seus critrios tm que ser admitidos na Corte. Trabalha-se com
fluidos corporais, testes microscpicos com fios de cabelo, fibras e material
botnico.
         Outros laboratrios especializam-se em armas de fogo, testando as
evidncias de mecanismo e resduos de tiro.
         Laboratrios        que     analisam       documentos     so   especialistas   em
falsificaes, adulteraes, comparaes de assinatura e tintas. Podem dizer
quem fabricou aquela substncia apenas verificando sua composio.
         A toxicologia tambm faz parte da serologia, e serve para detectar a
presena de drogas e venenos no corpo.


FBI -- Um Passo  Frente na Investigao Criminal
         Este  um retrato bastante "hollywoodiano". Na verdade o FBI s tem
jurisdio para investigar diretamente casos que ocorrem em propriedade
federal ou em reservas indgenas.
         O FBI  freqentemente consultado para fazer o perfil do criminoso em
casos que esto sendo investigados e que j esgotaram todas as outras
possibilidades de averiguao. Nenhum policial gosta de pedir a ajuda a eles
na soluo de casos, porque essa atitude indica que os responsveis
fracassaram em resolver este crime.
         Hoje em dia, os policiais locais esto extremamente equipados com
conhecimentos nesta rea e, na grande maioria, aptos a solucionar os crimes.
         Em Quntico, cidadezinha perto de Washington, fica o Centro Nacional
de Anlise de Crimes Violentos, NCAVC17, rgo do FBI. O centro,


17
     NCAVC -- National Center for the Analysis of Violent Crime.
considerado local de segurana mxima, no  aberto  visitao e fica a 20
metros sob a terra, exatamente embaixo da academia de treinamento de
agentes do FBI.
      A principal arma do centro  um programa de computador nico no
mundo at 2001, batizado de VICAP18 -- Programa de Anlise Investigativa
Criminal. Em funcionamento desde 1985, custou milhes de dlares e levou
27 anos para ser concretizado. O VICAP funciona como um banco de dados
criminal, armazenando e relacionando entre si todos os homicdios no
resolvidos no pas.
      Quando surge um novo caso, o computador central do VICAP produz
uma listagem de mais de cem assassinatos em que o criminoso teve o mesmo
modus operandi. Em um segundo passo, o programa seleciona os dez
homicdios mais parecidos com o novo. Com esta listagem em mos, um
perito faz uma profunda anlise e avisa a polcia local no caso de o manaco
poder ser o mesmo.
      Exemplo: em junho de 1989, a dona-de-casa Joan Heaton, 39 anos, e
suas filhas Jennifer, 10, e Melissa, 8, foram encontradas mortas a facadas em
sua casa, em Warwick, Rhode Island. A polcia local relacionou o crime a
outro assassinato, ocorrido dois anos antes, o da dona-de-casa Rebecca
Spencer, 27, que morava perto da famlia Heaton. O agente do FBI Gregg
McCrary foi chamado para traar o perfil do suspeito: o assassino seria
jovem, negro, viveria no mesmo bairro das vtimas, com um histrico
familiar de pai fraco ou ausente, influncia feminina dominante e uma ficha
policial de voyeurismo19.
      No mesmo dia, a polcia prendeu Craig Price, 15 anos, que se encaixava
em todos os aspectos levantados pelo agente. O adolescente acabou
confessando os quatro crimes.
      O FBI investiga por si s um crime no caso de ser sob jurisdio federal.

18
  VICAP -- Violent Criminal Apprehention Program.
19
  Voyeurismo: perverso na qual a satisfao sexual  procurada atravs da viso de cenas consideradas
erticas pelo agente.
         Em 2001, o VICAP perdeu a posio de melhor do mundo. No Canad,
a polcia tambm ter a ajuda de um software chamado "PowerCase". O
novo sistema custou US$ 30.000.000,00 para ser desenvolvido e o governo
gastar, por ano, cerca de US$ 6.000.000,00 para mant-lo atualizado.
Segundo os especialistas canadenses, at o FBI atualizar seu sistema com
esse software.


                                  Perfil do Criminoso

         O perfil do criminoso, feito por um psiclogo, psiquiatra ou mdico
legista, pode ajudar bastante a polcia a encontrar e identificar o assassino.
Aqui esto alguns exemplos de casos em que a ajuda desses homens
forneceu pistas importantes para a investigao.
         Segundo Ronald M. Holmes20, perfis psicolgicos s so apropriados
em casos nos quais o criminoso  desconhecido e demonstra sinais de
psicopatologias, ou em crimes particularmente violentos e/ou rituais.
Estupradores e incendirios so considerados dois bons tipos de candidatos
para se fazer um perfil criminal.
         Como j dito anteriormente e, raramente um perfil criminal resolver
um crime, mas pode ajudar bastante numa investigao. Quando a polcia
no tem pista nenhuma, o perfil pode sugerir uma ajuda potencial no
caminho a seguir.
         Em ltima anlise, fazer o perfil da cena do crime e do criminoso tem
como contribuio mnima estreitar o nmero de suspeitos, esboar o motivo
da ao e conectar ou no o crime a outros similares. No mximo, pode
solucion-lo.
         Fazer o perfil de um criminoso  mais fcil quando o ponto de partida 
o motivo do crime. No caso dos serial killers, este trabalho  dificlimo, uma
vez que o motivo  sempre psicopatolgico e desconhecido. A dificuldade

20
     Ronald M. Holmes, professor de administrao de justia na Universidade de Luisville, Ky.
consiste no fato de o investigador ter dificuldades em entender a lgica
totalmente particular daquele serial killer.
     Para fazer um perfil objetivo e competente, dois conceitos devem ser
aceitos pelos investigadores e criminalistas antes de tentarem entender a
cabea de um serial killer. geralmente ele j viveu seu crime em suas fantasias
inmeras vezes antes de realiz-lo com a vtima real, e a maioria de seus
comportamentos satisfaz um desejo, uma necessidade. Aceitando essas duas
premissas, o investigador pode deduzir os desejos ou necessidades de um
serial killer a partir de seu comportamento na cena do crime.
     Hoje em dia, vrios seriados de televiso e filmes tm como figura
central o profiler, o criminalista que faz o perfil psicolgico de um homicida.
Na maioria dos casos, acabam passando a impresso de que a experincia na
profisso  que "vale", ou contam com ajuda "divina" para tirar suas
concluses. Esses personagens esto longe da verdade. Tambm  necessrio
um conhecimento profundo em psiquiatria, psicologia e cincia forense.


Jack, O Estripador
     Jack, O Estripador,  o pai dos modernos serial killers. Ele aterrorizou as
ruas de Londres no fim do sculo XIX, mais precisamente em 1888, quando
assassinou brutalmente pelo menos sete mulheres, todas prostitutas.
     At hoje, ningum sabe a identidade de Jack. Como seus seguidores,
tinha prazer em zombar da polcia e enviar cartas aos jornais gabando-se de
seus feitos.
     Era canibal e arrancou os rgos internos de quatro de suas vtimas.
Chegou a mandar numa carta um pedao do rim de uma delas, quando as
autoridades duvidaram da autenticidade de suas correspondncias.
     Dr. Thomas Bond, mdico legista que fez a autpsia em Mary Kelly (a
ltima vtima de Jack, O Estripador), foi inicialmente chamado para avaliar o
conhecimento cirrgico do assassino. Observou que "... a ponta do lenol 
direita da cabea da vtima estava muito cortada e saturada de sangue,
indicando que a face teria sido coberta com o lenol na hora do ataque". A
observao feita por Bond levou ao estudo do comportamento do estripador
na cena do crime, incluindo o padro de ferimento imposto  vtima. Ele
sugeriu aos investigadores para procurar um quieto e inofensivo homem,
provavelmente na meia-idade e caprichosamente vestido. Bond constatou
que as mutilaes feitas nas mortas foram executadas pelas mesmas mos e
tinham o mesmo padro.
     Atualmente, o trabalho consiste em examinar uma srie de casos para
concluir se existe relao entre eles, baseados na cena do crime e nas vtimas.
 o que hoje chamamos de "assinatura", ou seja, comportamentos ou aes
que preenchem as necessidades psicolgicas ou fsicas do suspeito.


Adolf Hitler
     Provavelmente, um dos casos mais conhecidos do uso de perfil
criminal foi na Segunda Guerra Mundial, quando a CIA pediu ao psiquiatra
Dr. Walter Langer o perfil de Adolf Hitler. Queriam saber quais suas
ambies, que tipo de pessoa ele era e qual atitude podia-se esperar dele ao
final da guerra. O mais notvel no perfil desenvolvido foi justamente no que
diz respeito a suas atitudes ps-guerra.
     A possibilidade de morte natural estava fora de questo, uma vez que
tinha boa sade. Tambm se pensou que podia se refugiar em outro pas,
mas decidiram que esta hiptese estava incorreta porque ele genuinamente
acreditava ser o salvador de seu prprio pas. Outras possibilidades
consideradas tambm foram rejeitadas, como assassinato, golpe militar,
morte em batalha.
     Langer acreditou que a sada utilizada por Hitler seria o suicdio, o que
se tornou verdade no momento em que ele se matou no bunker onde estava
escondido com Eva, sua esposa, na hora em que a vitria dos aliados
estabeleceu-se. Esse tipo de perfil de lderes inimigos foi provavelmente
utilizado durante outras guerras, como a do Vietn e a do Golfo.


O Unabomber
     O perfil do Unabomber foi iniciado quase 18 anos antes de ele ser preso,
quando um pacote-bomba explodiu nas mos de um oficial policial no
campus da Northwestern University, perto de Chicago, em 1978. Depois
disso, enviou 32 pacotes explosivos por todo o pas. Suas vtimas eram
cientistas, pessoas das indstrias de computador e polticos. Apesar de ter
matado apenas trs pessoas, 23 foram severamente feridas por suas cartas
mortais.
     O Unabomber construa suas bombas com preciso e tinha amor pelo
que fazia, manualmente, de forma artesanal. Cada detalhe e fragmento era
estudado pelas autoridades. Cada rua e vizinhana dos ataques passou pelo
"pente fino" das investigaes, bem como o histrico de cada vtima. Suas
cartas para a mdia foram analisadas palavra por palavra. No fim dos traba-
lhos, quase dezoito anos depois, os investigadores sentiam que conheciam o
Unabomber intimamente, como se fosse da famlia.
     Em 1995, ao entrarem na cabana do bombardeador em srie, localizada
em lugar remoto das montanhas, deram-se conta de que era exatamente o
que esperavam encontrar. Mas, neste caso, jamais teriam localizado o
criminoso sem a ajuda de seus familiares. Seu irmo, ao ler o manifesto de
mais de 35.000 palavras publicado nos jornais por exigncia do criminoso
procurado, reconheceu o estilo do documento. Enviou  polcia federal
cartas escritas por ele encontradas no poro de sua me em troca da
suspenso da pena de morte quando julgado.
     Theodore J. Kacynski, professor de matemtica na Universidade de
Berkeley e graduado em Harvard -- o Unabomber, conseguiu agir impune
por longos 17 anos, sem que o perfil criminal levasse  sua localizao.
O Estrangulador de Boston
     De 14 de junho de 1962 a 4 de janeiro de 1964, uma srie de ataques
ocorreu em Boston, perfazendo um total de 13 assassinatos sexuais. As
vtimas eram encontradas mortas em seus apartamentos, atacadas
sexualmente e freqentemente amordaadas com artigos de seu prprio
vesturio. O que era bastante caracterstico  que o Estrangulador de Boston
deixava   suas   vtimas    nuas,   cuidadosamente     colocadas    em    poses
provocativas com as cordas do estrangulamento amarradas com um lao,
como se fosse um ornamento, em volta do pescoo. Todos os esforos em
identificar o responsvel foram infrutferos.
     Em abril de 1964, Dr. James Brussels, famoso psiquiatra nova-iorquino,
foi chamado para juntar-se ao comit psiquitrico que tentava ajudar na
investigao.
     Enquanto outros membros do comit atribuam os assassinatos a dois
indivduos, baseados na diferena de idade entre as vtimas, Brussels
manteve-se firme na opinio de que se tratava de uma s pessoa.
     Os crimes cessaram misteriosamente em 1965.
     Em novembro de 1964, um homem chamado Albert DeSalvo chamou a
ateno das autoridades. Ele estava preso por outros crimes, mas confessou
ao seu psiquiatra ser o Estrangulador de Boston. Seu perfil era to igual ao que
Brussels traara que a polcia o identificou como tal e arquivou o caso, no
despendendo mais tempo ou energia na identificao e priso do tal
estrangulador.
     Em 1973, DeSalvo foi apunhalado por outro preso em sua cela, e at
hoje ningum foi acusado formalmente pelos crimes do Estrangulador de
Boston.
     Em 1999, um esquadro policial americano que estuda somente crimes
considerados "j frios", sem pistas, ainda tentou comprovar, atravs de
testes de DNA, se DeSalvo era realmente o Estrangulador de Boston. As
amostras de esperma encontradas nas vtimas no foram localizadas para
concluir os testes. A verdadeira identidade do serial killer ainda  um
mistrio.


                      A Investigao do FBI

     A anlise da cena do crime feita pelo FBI envolve seis passos.


Matria-Prima para o Perfil
     Essa primeira fase envolve coletar e avaliar todos os materiais
relacionados com um caso especfico. Compe-se de fotografias tiradas da
cena do crime e da vtima, todo o histrico dela, relatrio da autpsia, outros
exames forenses relacionados com o caso e qualquer outra informao
relevante para esboar uma idia do que ocorreu antes, durante e depois do
crime. Este estgio servir de base para todos os outros da investigao, e se
estiver incorreto ou com poucas informaes toda a anlise subseqente ser
afetada.


Processo de Deciso Modelo
     Neste estgio se organiza a informao obtida anteriormente em uma
lgica e padro coerentes. Tambm se estabelecem quantas vtimas esto
envolvidas, para saber se se trata de um homicida, um assassino de massa,
um bbado ou um serial killer.
     Outros fatores so determinados neste estgio, como qual o objetivo e a
prioridade do crime (ganho material ou vtima), o status de risco da vtima
(uma prostituta tem risco maior que uma dona-de-casa), e o quanto o
criminoso se arriscou para cometer o ato. O tempo necessrio para cometer
aquele crime daquele modo  estabelecido, bem como os locais de apreenso
da vtima e de sua morte.
Avaliao do Crime

      a reconstruo da seqncia de eventos, do comportamento
especfico da vtima e do agressor.
     Esse procedimento ir ajudar o analista a entender o papel que cada
indivduo tem no crime e a estabelecer o subseqente perfil do criminoso.
     Neste estgio, o investigador tem que "andar com os sapatos" do
criminoso e da vtima, ou como gosta a mdia, entrar na mente do assassino.
 aqui que o crime  rotulado como organizado ou no. Aqui tambm se
determina o modus operandi do criminoso e a existncia de uma "assinatura".


Perfil Criminal

     O perfil criminal envolve o histrico do passado, histrico mdico e
caractersticas comportamentais do agressor que tentam descrever a pessoa
que cometeu aquele crime, facilitando a busca da polcia. No modelo do FBI,
esse estgio pode envolver orientaes sobre como melhor entrevistar o
suspeito. Tambm aqui ser informado aos investigadores como identificar e
prender o assassino.
     Um perfil pode ter apenas alguns pargrafos ou muitos, vrias pginas,
dependendo da quantidade de informaes enviadas ao especialista.
Freqentemente encontramos nos perfis criminais as seguintes informaes:
idade, raa, sexo, aparncia geral do criminoso, seu status de relacionamento,
tipo de ocupao e dados sobre seu emprego, educao ou vida militar.
     s vezes, so includas informaes sobre se o criminoso vive na rea
onde foi cometido o crime ou se o local  familiar para ele, algumas
caractersticas bsicas sobre sua personalidade e objetos significantes que
deve possuir, como revistas pornogrficas. Tambm  sugerido aqui o
mtodo de aproximao que o criminoso usa para contatar sua vtima.
     John Douglas "caou", atravs de perfis criminais feitos por ele, alguns
dos mais notrios e sdicos criminosos de todos os tempos: "The Trailside
Killer" (So Francisco), "The Altlanta Child Murderer", "The Tylenol
Poisoner", Robert Hansen, etc. Foi o primeiro a desenvolver um perfil
psicolgico do Unabomber.
     Entrevistou e estudou dzias de serial killers e assassinos, incluindo
Charles Mason, Sirhan Sirhan, Richard Speck, John Wayne Gacy e David
Berkowitz, para conseguir "entrar" em suas mentes.
     Chegou a emitir sua opinio sobre o perfil criminal de Francisco Assis
Pereira, o "Manaco do Parque", serial killer de So Paulo.


A Investigao

     Nesta etapa, o atual perfil  enviado para as agncias que o
requisitaram e incorporado  sua investigao. Se no h suspeitos ou novas
evidncias, o perfil  reavaliado.


A Priso

     Aqui se deve checar o perfil produzido com as caractersticas do
suspeito. Pode ser extremamente difcil, uma vez que ele pode nunca ser
preso; pode ser preso em outra jurisdio e no estar disponvel para esta
checagem; pode ser preso sob outra acusao ou simplesmente encerrar sua
atividade criminal.
     O nmero de casos resolvidos representa menos de 50% dos casos nos
quais foram feitos perfis.


                Organizados e Desorganizados
   TRANSGRESSORES ORGANIZADOS            TRANSGRESSORES DESORGANIZADOS

Inteligncia mdia para alta.           Inteligncia abaixo da mdia.
Metdico e astuto.                       capturado mais rapidamente.
No realizado profissionalmente.        Distrbio psiquitrico grave.
                                         Contato com instituio de sade
Educao espordica.
                                         mental.
                                         Socialmente inadequado -- relaciona-se
Socialmente competente, mas anti-social
                                         s com a famlia mais prxima ou nem
e de personalidade psicopata.
                                         isso.
Preferncia por trabalho especializado e
espordico. Queda para profisses que o Trabalhos       no-especializados,    que
enalteam como macho, tipo barman, tenham pouco ou nenhum contato com o
motorista de caminho, trabalhador em pblico         (lavador      de      pratos,
construo, policial, bombeiro ou manuteno).
paramdico.
                                         Sexualmente incompetente ou nunca
Sexualmente competente.
                                         teve experincia sexual.
Nascido em classe mdia-alta.            Nascido em classe baixa.
Trabalho paterno estvel.                Trabalho paterno instvel.
Disciplina inconsistente na infncia.    Disciplina severa na infncia.
Cena planejada e controlada. A cena do
crime vai refletir ira controlada, na
                                         Cena do crime desorganizada.
forma de cordas, correntes, mordaa ou
algemas na vtima.
As torturas impostas  vtima foram
                                         Nenhuma ou pouca premeditao.
exaustivamente fantasiadas.
Temperamento controlado durante o
                                         Temperamento ansioso durante o crime.
crime.
Movimenta-se com carro em boas        Em geral, no tem carro, mas tem acesso
condies. Viaja muito.               a um.
                                      Utiliza arma de oportunidade, a que tem
Traz sua arma e instrumentos.
                                      na mo.
Leva embora sua arma e instrumentos Freqentemente deixa a arma do crime
aps o crime.                         no local.
A vtima  uma completa estranha, em
geral mulher, com algum trao
                                      Vtima selecionada quase ao acaso.
particular ou apenas uma vtima
conveniente.
A vtima  torturada e tem morte Vtima rapidamente dominada e morta
dolorosa e lenta.                     -- emboscada.
                                      Crimes brutais, com extrema violncia e
                                      overkill (ferimentos maiores do que os
                                      necessrios para simplesmente matar).
                                      Rosto da vtima severamente espancado,
                                      numa tentativa de desfigurar e
                                      desumaniz-la, ou uso pela vtima de
                                      mscara/venda.
A vtima  freqentemente estuprada e
                                      Se a vtima foi atacada sexualmente, o
dominada atravs de ameaas ou
                                      ataque freqentemente foi post-mortem.
instrumentos.
                                         Mutilaes no rosto, genitais e seios so
                                         comuns.
O corpo  levado e muitas vezes O corpo  freqentemente deixado na
esquartejado,     para      dificultar a cena do crime. Quando levado,  por
identificao pela polcia.              lembrana, e no para evitar provas.
Uso de lcool pelo agressor.             Mnimo uso de lcool pelo agressor.
Stress precipitador de situaes.          Quando em stress, age impulsivamente.
Vive com parceiro ou  casado. Tem
                                           Vive sozinho ou com os pais. Em geral,
uma importante mulher nas suas
                                           solteiro.
relaes.
Realiza seus crimes fora de sua rea de    Mora ou trabalha perto da cena do
residncia ou trabalho.                    crime.
Segue os acontecimentos relacionados ao    Mnimo interesse nas novidades da
crime pela mdia.                          mdia.
Em geral da mesma raa que a vtima,       Em geral da mesma raa que a vtima,
mas composio tnica local deve ser       mas composio tnica local deve ser
considerada.                               considerada.
Provavelmente foi um aluno problema.       Saiu cedo da escola. Estudante marginal.
Provavelmente j foi preso por violncia   J deve ter sido preso por voyeurismo,
interpessoal, ataque sexual. Brigas de     ladro de fetiches, assalto, exibicionismo
soco so comuns.                           ou outros delitos menores.
Em     geral,    muitas   multas    por
estacionamento proibido.
                                           Magro, provavelmente com acne ou
                                           outra marca fsica que contribua para a
Bem apessoado.
                                           impresso de que  diferente da
                                           populao em geral.
Tem aproximadamente a idade da
vtima. A mdia de idade fica entre 18 e Entre 16 e 39. Em geral, age entre 17 e 25.
45 anos, em geral 35.
Pode trocar de emprego ou deixar a Mudana                de       comportamento
cidade.                                  significante, como lcool ou drogas.


     Alguns indivduos acham que os mtodos do FBI no so confiveis e
que as polcias locais hoje tm mais conhecimentos nessas intrincadas
investigaes.
     Freqentemente, um transgressor organizado pode deixar uma cena de
crime extremamente desorganizada. Isso levaria os analistas que usam os
mtodos do FBI a imaginar que ele faria parte do grupo errado,
estabelecendo caractersticas errneas a seu respeito.
     Apesar disso, hoje este mtodo ainda  o mais usado no mundo e o FBI
treina investigadores de todas as partes do planeta para, utilizando-se dele,
determinar o perfil de um criminoso.


                     Psicologia Investigativa

     A Psicologia Investigativa teve incio em 1985, quando David Canter foi
chamado pela Scotland Yard para discutir a possibilidade de integrar a
investigao tcnica com conceitos psicolgicos.
     A diferena entre o mtodo de David Canter e o do FBI  que, apesar de
ambos serem baseados em dados estatsticos, Canter continuamente atualiza
seus dados sobre a populao transgressora em que baseia seu mtodo.


Mtodo de David Canter
     Os transgressores conhecidos so estudados, as tipologias so definidas
e um crime cometido por um desconhecido ser comparado com este grupo.
As caractersticas do novo criminoso sero definidas a partir de sua
semelhana na comparao feita com o grupo de transgressores
identificados.
     A aplicao do trabalho de Canter  baseada em cinco aspectos de
interao entre vtima e agressor, conhecidos como fatores-modelo:
coerncia interpessoal, importncia da hora e local do crime, caractersticas
criminais, carreira criminal e conscincia forense.

Coerncia Interpessoal

     Este fator-modelo refere-se ao quanto a atividade criminal do indivduo
se inter-relaciona com a sua vida pessoal:
     Um psiclogo deve estar apto a determinar alguma coisa sobre o
criminoso a partir da vtima ou do modo como interagiu com ela.
     Freqentemente, a vtima representa algum na vida ou no passado do
agressor (como sua me ou ex-namorada), alm do fato de o serial killer, na
maioria das vezes, escolher como vtimas pessoas de sua prpria raa.

Importncia da Hora e Local

     O local que o criminoso escolhe para matar tem sempre alguma
significncia para ele. Os serial killers tm menos probabilidade de matar ou
estuprar em locais no familiares, uma vez que so crimes de controle e no
se sentir to seguro num ambiente estranho.
     Alm disso, se os crimes esto localizados dentro de uma certa
disposio geogrfica, h grandes chances de o criminoso viver ou trabalhar
nessa rea.
     Pode indicar tambm o horrio de trabalho dele, uma vez que o ataque
 vtima se d em sua hora de "lazer".

Caractersticas Criminais

      a pesquisa para desenvolver subsistemas de classificao do grupo
transgressor, em vez de apenas dois grupos (organizados e desorganizados),
como  utilizado no FBI.

Carreira Criminal

      a avaliao que vai determinar quanto o agressor pode estar
envolvido em atividades criminais no passado e de que tipo seriam elas. A
forma de transgredir no muda, apesar de poder aumentar a violncia dos
crimes, a sofisticao na maneira de execut-los ou a riqueza de detalhes
relacionados a eles.  mais provvel encontrar evidncias nos primeiros
crimes de um serial do que nos ltimos, por ser mais descuidado e ignorante
quanto aos mtodos investigativos.

Avaliao Forense

     Observa-se, nesta etapa, qualquer conhecimento que o transgressor
tenha sobre tcnicas policiais e procedimentos de coleta de evidncias.
Inclui-se aqui o uso ou no de luvas, camisinha ou a remoo de qualquer
objeto que possa conter fluidos corporais do agressor. Um exemplo que
indica que o agressor sexual no  primrio  o modo como ele limpa ou
banha a vtima depois do ataque. Ele pode tambm exigir que ela se banhe
aps o estupro, ou penteie os cabelos pubianos para remover os seus
prprios. Se a polcia conclui que este transgressor no  primrio, comea a
pesquisar entre outros conhecidos e elimina aqueles que utilizam mtodos
diferentes.
     Canter tambm desenvolveu um modelo de comportamento de
transgressores, conhecido como teoria circular.
     Dois modelos de transgressores conhecidos como "vagabundos" e
"viajantes dirios" foram desenvolvidos a partir dessa teoria. Os do modelo
"vagabundo" supem que o agressor sai de casa num repente para cometer
seu crime, em geral na sua vizinhana, enquanto o "viajante" supe que o
transgressor viaja uma boa distncia de sua casa antes de se engajar em uma
atividade criminal.
     Estes grficos so apenas ilustrativos, uma vez que  impossvel saber,
antes de prend-lo, em que categoria se enquadra. Estudos feitos com
transgressores conhecidos demonstram que este padro  sempre repetido,
num caso ou noutro.
     Outro fato observado  que quanto maior o nmero de vtimas mais
perto de casa o criminoso se livra do corpo, pois est cada vez mais confiante
na sua no captura.
Grfico do Campo de Ao do "Vagabundo"




Grfico do Campo de Ao do "Viajante"
Mtodo de Brent Turvey
         Outro estudioso de perfis criminais  Brent Turvey21, cientista forense,
que tambm desenvolveu seu mtodo de anlise, o "Behavioural Evidence
Analysis"22, ou simplesmente BEA.
         Baseado na premissa de que os transgressores sempre mentem sobre
suas aes, muitas vezes a nica coisa com a qual se pode contar na
investigao  a reconstruo do comportamento do transgressor.
         A maior diferena entre este mtodo e os anteriores  que no se baseia
em estatsticas.
         A anlise das evidncias comportamentais (BEA)  dividida em quatro
passos principais.

Anlise Forense Questionvel

         A anlise forense  questionvel no sentido de que uma evidncia pode
ter vrias interpretaes ou significados, e o objetivo deste passo 
justamente estabelecer os vrios significados de uma evidncia. Esta anlise
 feita com base em fotos/vdeos/esboos da cena do crime, relatrios de
investigadores, registros das evidncias, relatrio de autpsia/vdeos/fotos,
entrevistas com testemunhas e vizinhos, qualquer outra documentao e/ou
entrevistas ou informao relevante, mapa do trajeto da vtima antes da
morte e seu histrico.

Vitimologia

         O segundo passo envolve uma profunda anlise da vtima.
         O objetivo  produzir o retrato dela de forma acurada e precisa,
determinando o porqu, como, onde e quando em particular foi escolhida.
Isso poder lhe dizer muita coisa sobre o transgressor.
         Uma das caractersticas da vtima que pode ajudar no perfil do

21
     Brent Turvey, Psiquiatra Forense americano.
22
     Anlise das evidncias comportamentais.
assassino  a sua constituio fsica: se durante o estgio de reconstruo do
crime nota-se que o criminoso carregou-a por alguma distncia antes de
dispor do corpo, teremos que concluir que ele possui alguma fora muscular
ou no trabalha sozinho. Da mesma forma, se o transgressor foi capaz de
"levar" a vtima sem nenhum esforo, podemos concluir ou que eram
conhecidos (transgressor  socialmente adequado e capaz de fazer a vtima
acompanh-lo) ou que utilizou alguma encenao (transgressor fingindo-se
de autoridade).

Caractersticas da Cena do Crime

     Este passo envolve a determinao do nmero de fatores relevantes na
localizao da cena do crime, onde est localizado em relao aos outros
delitos e como o transgressor se aproxima da vtima.
      sabido que a cena onde acontecem os fatos tem especial significado
para o criminoso e pode fornecer pistas vitais sobre quem  ele.

Caractersticas do Transgressor

     Este passo  a fase final do BEA e ir levantar o comportamento e a
personalidade do transgressor.
     Algumas caractersticas do agente devero ser analisadas. So elas:
constituio fsica, sexo, tipo de trabalho e hbitos, remorso ou culpa, tipo de
veculo utilizado, histrico criminal, nvel de habilidade, agressividade,
localizao da moradia em relao ao crime, histrico mdico, estado civil e
raa. Em conjunto, essas informaes vo fornecer um retrato do criminoso
que pode ser comparado com outros, conhecidos ou suspeitos.

Utilizao do BEA

     O perfil montado com o mtodo BEA  til em duas fases distintas.
     Na primeira, fase investigativa, temos um agressor desconhecido de
um crime conhecido: reduzir o nmero de suspeitos ajuda na ligao deste
crime com outros que tenham o mesmo padro, na avaliao do
comportamento           criminal      para     uma      escalada       de    violncia,      prov
investigadores com estratgias adequadas e d uma trilha de movimentos a
serem seguidos na investigao.
      Na fase de julgamento, identificado o agressor de um crime conhecido,
o perfil BEA ajuda a determinar o valor de uma determinada evidncia para
um caso em particular, auxilia o desenvolvimento de uma estratgia de
entrevista ou interrogatrio, de um insight dentro da mente do assassino,
compreendendo suas fantasias e motivos, relaciona a cena do crime com o
modus operandi e a "assinatura" comportamental.
      O BEA no utiliza dados estatsticos para criar um perfil do criminoso e
depende principalmente da prtica e conhecimento do analista encarregado.
A qualidade do produto final tambm vai depender de quanta informao o
analista tinha a sua disposio.
      Utiliza-se da cincia forense para a reconstituio do crime; e da cincia
forense,     da     psicologia       e    da    psiquiatria,       para     interpretao        do
comportamento do criminoso.
      De todas as tcnicas existentes, a BEA  a mais recente das novas
escolas de pensamento.

Caso Ilustrativo de Anlise pelo Mtodo BEA23

      O corpo de uma mulher  encontrado nu em uma remota localizao na
floresta, com quatro superficiais e cuidadosas incises no peito, transversais,
sobre os mamilos. A rea genital da vtima foi completamente removida com
um instrumento afiado. Petquias24 so evidentes nos olhos, pescoo e face
acima do local padro de estrangulamento no pescoo. No foram
encontrados sangue ou roupa na cena do crime. A vtima tinha sulcos de
ligaduras em volta dos pulsos com contuses esfoladas, arranhadas, mas

23
   Caso retirado do artigo "Deductive Criminal Profiling: Comparing Applied Methodologies Between
Inductive and Deductive Criminal Profiling Techniques", de Brent E. Turvey, M.S., em janeiro de 1998.
24
   Hemorragia cutnea; pequena prpura puntiforme ou lenticular.
nenhuma ligadura foi encontrada na cena do crime. Frescas impresses de
pneus foram encontradas na lama aproximadamente a 15 metros de onde
estava o corpo.

     CONCLUSO 1: o criminoso, neste delito em particular, amarrou a vtima
     para restringir seus movimentos enquanto ela estava viva, uma vez que
     se notam sinais de luta e abrases em volta dos pulsos.

     CONCLUSO 2: nosso criminoso removeu as ligaduras com as quais
     amarrou a vtima antes de dispor do corpo morto, concluso advinda
     do fato de nenhuma ligadura ter sido encontrada ali.

     CONCLUSO 3: a vtima parecia asfixiada pelo pescoo atravs de
     ligadura de material leve como um tecido, fato indicado pela marca
     padro no pescoo e pelas petquias.

     CONCLUSO 4: o local onde foi encontrado o corpo era apenas o cenrio
     que o criminoso armou para isso; o delito no foi cometido ali, uma vez
     que no foi encontrado sangue nenhum.

     CONCLUSO 5: o criminoso tem um carro consistente com as marcas de
     pneu encontradas nas proximidades do corpo. Por tais sinais, pode-se
     ter uma idia da marca ou do tipo do carro utilizado.

     Todos esses detalhes juntos indicam a competncia e a inteligncia do
criminoso, que parece capacitado a manter um emprego, e pressupe-se que
ele  um sdico sexual. Isso  dedutvel pelo fato de ele ter um veculo, o uso
de uma segunda cena para deixar o corpo, evitando deixar evidncias, a
remoo da genitlia da vtima e os deliberados cortes nos mamilos, feitos
para causar dor e no ferimentos srios.


                   Anlise da Cena do Crime

     A maioria das cenas de crime nos conta uma histria, e como todas as
histrias, tem personagens, uma trama, comeo, meio e fim.
         Padres de fala, de escrita, gestual verbal ou no verbal e outros modos
e padres do forma ao comportamento humano. Essas caractersticas
individuais, quando utilizadas em conjunto, fazem cada pessoa ter um modo
especfico de agir e reagir.
         Aprender a reconhecer padres de comportamento em cenas de crime
possibilita aos investigadores descobrir muitas coisas sobre o transgressor, e
tambm a distinguir entre agressores diferentes cometendo o mesmo tipo de
crime.
         Existem trs possveis manifestaes do comportamento do agressor na
cena do crime: modus operandi, personalizao ou "assinatura" e organizao
da cena.



Modus Operandi -- M. O.
         O modus operandi  estabelecido observando-se que arma foi utilizada
no crime, o tipo de vtima selecionada e o local escolhido.
         O M.O.  dinmico e malevel, na medida em que o infrator ganha
experincia e confiana. Investigadores cometem graves erros dando muita
importncia ao M.O. quando conectam crimes.
         Por exemplo, um ladro novato que, num primeiro crime estilhaaria
uma janela para entrar numa casa, logo aprende que com este mtodo o
barulho  grande e o roubo, apressado. Numa prxima vez, levar
instrumentos apropriados para arrombar com calma e escolher o que levar.
Minimizar o barulho e maximizar o lucro. Assim, o ladro refinou seu
M.O.
         Nathaniel Code Jr.25, de Shreveport, Louisiana, foi condenado por
assassinato. O jri determinou que, entre 1984 e 1987, ele matou oito pessoas
em trs ocasies diferentes.
         Veremos aqui que havia vrias disparidades entre as trs cenas do


25
     Nathaniel Code foi condenado  morte.
crime.

     a. o agressor amordaou a primeira vtima com uma pea de material
         obtida na cena do crime, mas trouxe sua prpria fita adesiva para
         usar nas outras sete vtimas.

     b. a primeira vtima foi apunhalada e retalhada pelo agressor, enquanto
         as outras sete, alm de apunhaladas e retalhadas, tambm levaram
         tiros e mostravam sinais de estrangulamento com algum tipo de
         tecido.

     c. as vtimas tinham idade entre 8 e 74 anos, incluindo os dois sexos,
         mas todas eram negras.

     d. o agressor roubou dinheiro na primeira cena, mas no nas outras
         duas.

     Considerando essas diferenas encontradas nas trs cenas, poderia s
um homem ser ligado a todas elas? Poderiam as caractersticas do M.O. e da
vitimologia eliminar as conexes entre o agressor e os trs crimes?
     No caso de Nathaniel Code, o M.O. e a vitimologia no o ligariam aos
trs crimes, mas ele deixou sua "assinatura" em todos eles (fita adesiva).


Assinatura
     O agressor serial sempre tem um importante aspecto comportamental
em seus crimes: ele sempre os assina.
     A "assinatura"  sempre nica, como uma digital, e est ligada 
necessidade do serial em cometer o crime. Eles tm necessidade de expressar
suas violentas fantasias, e quando atacar, cada crime ter sua expresso
pessoal ou ritual particular baseado em suas fantasias. Simplesmente matar
no satisfaz a necessidade do transgressor, e ele fica compelido a proceder a
um ritual completamente individual.
     Um exemplo de "assinatura"  um estuprador que abusa de linguagem
vulgar, ou prepara um roteiro para a vtima repetir, ou canta certa cano.
     Diferente do M.O., a "assinatura" nunca muda, mas alguns aspectos
dela podem se desenvolver, como serial killers que mutilam suas vtimas post
mortem cada vez mais. As "assinaturas" podem no aparecer em todas as
cenas de crime do mesmo criminoso, por contingncias especiais como
interrupes ou reao inesperada da vtima.
     So consideradas "assinaturas" quando o criminoso:

     -- Mantm a atividade sexual em uma ordem especfica.
     -- Usa repetidamente um especfico tipo de amarrao da vtima.
     -- Inflige a diferentes vtimas o mesmo tipo de ferimentos.
     -- Dispe o corpo de certa maneira peculiar e chocante.
     -- Tortura e/ou mutila suas vtimas e/ou mantm alguma outra forma
        de comportamento ritual.


Afinal, Qual a Diferena?
     Modus operandi  comportamento erudito.  o que o criminoso faz para
cometer o delito, e  dinmico, pode mudar.
     "Assinatura"  o que o criminoso faz para se realizar,  produto da sua
fantasia, e  esttico, no muda.
     Utilizando um exemplo fictcio, fica mais fcil entender a diferena
entre M.O. e "assinatura".
     Um estuprador entra numa residncia e encontra marido e mulher.
Manda que o marido se deite no cho de barriga para baixo, coloca uma
xcara com pires sobre suas costas e diz ao marido que, se ouvir um barulho
da xcara caindo ou se movendo, mata sua esposa. Em seguida, se dirige
com a mulher para o quarto e a estupra.
     Outro estuprador entra numa casa, s encontra a mulher. Faz com que
ela utilize qualquer desculpa e traga o marido para casa. Quando ele chega,
o amarra e o faz assistir ao estupro de sua esposa.
      O primeiro estuprador tem um M.O.,e no uma "assinatura". Seu
objetivo  apenas estuprar a mulher sem ser ameaado pela outra vtima.
      O segundo estuprador tem uma "assinatura". Estuprar a mulher no 
suficiente; para satisfazer suas fantasias ele precisa estupr-la na frente do
marido, para humilh-lo e domin-lo.
      Um assaltante de banco que manda as pessoas tirarem a roupa est
tendo um M.O. inteligente, pois todos tero que se vestir antes de chamar a
polcia e ningum sair correndo nu atrs dele. Agora, um assaltante de
banco que faz o mesmo, mas fotografa as pessoas em poses erticas, j
demonstra ter uma "assinatura", porque s roubar o banco no satisfaz suas
fantasias psicossexuais.
      Apesar do M.O. ter muita importncia, ele no pode ser utilizado
isoladamente para conectar crimes. J a "assinatura", mesmo que evolua,
sempre ter o mesmo tema de ritual, no primeiro ou no ltimo crime, agora
ou daqui a dez anos.
      John E. Douglas (F.B.I.) acha que  mais importante encontrar a
"assinatura" do que as semelhanas entre as vtimas, uma vez que o serial
killer sempre expressar seu dio atravs de um ritual, e no de um aspecto
fsico do agredido.


Exemplos Reais

Ronnie Shelton

Ronnie Shelton26, estuprador serial de Ohio,
apelidado de "The West Side Rapist"27, cometeu
mais de 50 estupros. Quando foi acusado e
condenado por 28 deles, sua sentena foi de 1.000


26
   Ronnie Shelton: State of Ohio versus Ronnie Shelton -- Cometeu seus crimes em Cleveland, 1989. Era
chamado pela mdia de "The West Side Rapist".
27
   The West Side Rapist: O Estuprador da Regio Oeste.
anos. Sua "assinatura" foi seu algoz.                                       28


         Verbalmente, Shelton era excepcionalmente vulgar e degradante. Ainda
fazia comentrios do tipo "vi voc com seu namorado", ou "voc sabe quem
eu sou". A informao de que aquele estuprador andava pelas vizinhanas
aterrorizava completamente as vtimas.
         O ritual de Shelton no ataque sexual era o centro de sua ao: ele
estuprava as mulheres e no final retirava seu pnis para ejacular sobre seus
estmagos ou seios. Freqentemente se masturbava sobre elas ou entre seus
seios, ou forava-as a masturb-lo manualmente. Tambm usava as roupas
das vtimas para limpar a ejaculao, as forava a fazer sexo oral e a engolir
seu esperma. Essa combinao de atos era a "assinatura" de Shelton.
         O M.O. de Shelton consistia em entrar na casa da vtima pela janela ou
entrada do ptio que dava para bosques, ou lugares onde pudesse se
esconder com facilidade. O horrio de ataque era sempre tarde da noite ou
de manhzinha. Usava uma mscara de esqui, meia ou cachecol. Convencia
a mulher de que no estava l para estupr-la e sim para roub-la. Assim,
quando tinha tudo sob controle, estuprava-a. No havia reao, pois s
percebiam a sua violncia quando ele as jogava no cho ou colocava uma
faca ou arma semelhante em suas gargantas. Falava para as vtimas no o
olharem, cobrirem seus olhos ou "no me olhe e eu no vou machucar voc
ou seus filhos". A conexo de Shelton com esses 28 ataques sexuais foi feita
atravs de seu M.O. e "assinatura", servindo para conden-lo.

David Vasquez

         David Vasquez29 foi condenado pelo assassinato de uma mulher de 34
anos, em Arlington, Virgnia. Foi violentada e morreu estrangulada. O
assassino a deixou deitada com o rosto para baixo e com as mos amarradas
s costas. Ele usou somente ns em excesso, e levou a ligadura dos pulsos


28
     Fotografia da Ficha Penitenciria
29
     David Vasquez cometeu seus crimes em Arlington, Virgnia -- 1984.
at o pescoo por sobre o ombro esquerdo. O corpo foi deixado exposto.
     O atacante havia gastado bastante tempo na cena do crime. Fez
extensas preparaes para amarrar a vtima, permitindo que a controlasse
com facilidade. Suas necessidades mandaram que ele a movesse por toda a
casa, exercendo total dominao sobre ela. Parecia at que a havia levado ao
banheiro e a obrigado a escovar os dentes.
     Vasquez era limtrofe de Q.I. Acreditando que iria dificultar o processo
para provar sua inocncia, seus advogados o convenceram que receberia
pena de morte no caso de ser levado ao tribunal. Assim, ele se declarou
culpado e optou por priso perptua.
     Trs anos depois, a polcia descobriu uma mulher de 44 anos morta
com o rosto virado para baixo em sua cama. Uma corda amarrava seus
pulsos s costas e o fio estava apertado em volta de seu pescoo com um n
de correr atrs. A corda continuava sobre seu ombro direito e para baixo
pelas costas, e dava ento trs voltas em cada pulso. Cientistas forenses
explicaram que ela morreu estrangulada pela corda e havia sido estuprada.
O assassino deixou o corpo exposto. Parecia ter gastado muito tempo na
cena do crime. Este assassinato ocorreu a quatro quadras daquele de 1984.
Vasquez j estava preso h trs anos.
     O departamento policial de Arlington, Virgnia, requisitou para o
National Center for the Analysis of Violent Crime (NCAVC) uma extensa
anlise desses dois casos, outros estupros em srie e muitos outros
assassinatos ocorridos entre 1984 e 1987. Ficou provado que esta
"assinatura" no era de Vasquez e sim de outro suspeito local, e Vasquez foi
libertado e inocentado deste crime.


Encenao
     Quando investigadores se aproximam da cena do crime, devem
procurar por pistas de comportamento deixadas pelo criminoso.
     Vrias questes precisam ser respondidas: como se encontraram vtima
e criminoso? O criminoso emboscou a vtima ou a trapaceou, como por
exemplo se fingir de polcia, para captur-la? Amarrou-a para control-la?
Qual foi a seqncia de eventos? A vtima foi estuprada antes ou depois de
morrer? As mutilaes foram feitas antes ou depois da morte? O criminoso
adicionou ou retirou alguma coisa da cena do crime?
     Alguns detalhes encontrados nas cenas de crime so desconcertantes e
contm mincias que aparentemente no tm nenhum propsito para a
execuo do ato criminoso e que ainda obscurece mais o motivo dele. Esta
confuso se d quando o criminoso "organiza" a cena antes da chegada da
polcia, alterando-a.  como se arrumasse um palco para uma apresentao
teatral.
     Essa encenao tem como objetivo afastar a polcia de um suspeito em
particular, para proteger a famlia da vtima ou a prpria vtima.  um
criminoso que no apenas atacou uma vtima, mas que a escolheu por
alguma caracterstica particular que se relaciona com ele, ou tinha algum
tipo de relacionamento ou associao com seu alvo. Em geral, quando esta
pessoa for procurada pela polcia na ordem de investigao dos fatos, ser
extremamente cooperativa ou estar totalmente transtornada pela perda.
Assim sendo, investigadores no devem jamais descartar inconsolveis
vivas ou amigos interessadssimos em esclarecer o crime.
     O segundo motivo para a encenao  proteger a vtima ou sua famlia,
e ocorre na maioria das vezes em estupros seguidos de morte ou acidentes
auto-erticos. A encenao, ento,  feita por um membro da famlia que
encontra o corpo, uma vez que  comum que alguns criminosos deixem suas
vtimas em posies degradantes. Quem encontra o corpo pretende devolver
alguma dignidade para a pessoa morta, como por exemplo um marido que
cobre ou veste o corpo nu da esposa.
     Estas pessoas no tm m inteno, elas apenas esto tentando prevenir
o choque que pode causar aos outros familiares a posio da vtima, sua
vestimenta ou falta dela, e suas condies. Tambm podem fazer com que
um acidente auto-ertico possa ser interpretado como homicdio, at mesmo
escrevendo uma carta de despedida ou, pior ainda, fazer com que se parea
com um suicdio.
     Nesses casos, o investigador deve obter uma acurada descrio de
como foi encontrado o corpo e determinar exatamente o que a pessoa que o
encontrou alterou na cena. A vitimologia pode revelar as reais circunstncias
do assassinato e ajudar na identificao do criminoso.
     Em algumas cenas de crime, os investigadores devem discernir entre
uma cena realmente desorganizada ou se houve por parte do criminoso uma
simulao para que aquela parea casual e descuidada. Esse fator ajudar na
montagem do perfil criminal, mas o discernimento pode ser muito difcil
quando se trata de um criminoso muito astuto.
     Existem alguns sinais que devem chamar a ateno dos investigadores
e alert-los de uma possvel encenao. Os criminosos que encenam as cenas
freqentemente cometem erros, uma vez que arrumam o local como eles
"acham" que deveria estar, ou que seria normal estar. Eles esto sob grande
stress e com muita pressa, portanto sendo difcil colocar tudo em uma ordem
lgica. Assim, inconsistncias podem aparecer e indicar aos investigadores
que aquela cena provavelmente foi alterada.
     Eles devem analisar todas as evidncias em separado e depois no
contexto total, incluindo-se aqui a atividade do criminoso, como entrou, sua
interao com a vtima e como arrumou o corpo.
     Vrios fatores devem ser considerados, como por exemplo se o motivo
aparente foi assalto, algo estranho foi levado ou deixado?
     Em um caso analisado pelo NCAVC, um homem voltando para casa
aps o trabalho flagrou um assaltante em sua casa e foi morto por ele na sua
fuga. O assaltante no levou nada, mas parecia estar desmontando um
grande aparelho de som e TV. Num inventrio mais acurado, a polcia
percebeu que bens pequenos e de maior valor do que o aparelho de som
foram deixados para trs, apesar de serem facilmente transportveis (jias,
coleo de moedas, etc). Depois da investigao, a polcia concluiu que a
esposa do morto pagou ao assaltante para assassinar seu marido neste
assalto encenado. Na verdade, ela estava tendo um caso com um dos
suspeitos.
     Outro ponto que merece bastante ateno  o modo de entrada no local
do crime. O criminoso entrou pelo modo mais fcil? Escolheu uma entrada
onde pudesse ser facilmente visto pela vizinhana ou por algum que
chamaria a polcia?
     Deve tambm ser observado se o criminoso se colocou em alto risco
cometendo o crime  luz do dia e em local movimentado.
     Sinais de alerta forenses devem tambm ser investigados quando no
se ajustam ao crime, indicando assim encenao. Ataques pessoais durante
assaltos levantam suspeitas, especialmente se ganhos materiais parecem ser
o motivo inicial. Esses assaltos podem incluir o uso de armas oportunas,
estrangulamento manual ou por fio, rostos espancados e trauma excessivo
daquele necessrio para causar a morte (overkill). Em outras palavras, os
ferimentos se adequam ao crime?
     Homicdios domsticos e sexuais usualmente so encenados como se
fossem ataques pessoais durante assaltos de bens.
     Devemos levar em conta que o assaltante, que  "perturbado" na
execuo de seu plano, mata de forma limpa e rpida, uma vez que seu
objetivo no  a vtima em si, mas sim o objeto do roubo. Alm disso,
diminui o seu tempo de permanncia na cena do crime.
     J nos homicdios domsticos e sexuais,  a vtima a prioridade do
criminoso; ela recebe grande ateno e demanda tempo.
     Outra discrepncia que merece ateno ocorre quando a histria da
testemunha no coincide com os fatos encontrados na autpsia. O
depoimento do sobrevivente  de importncia na anlise dos fatos.
     Um homem foi encontrado afogado numa banheira com a gua ainda
correndo e um ferimento na cabea. A primeira impresso era de que o
homem ia tomar banho, e ao entrar na banheira escorregou, desmaiou e se
afogou. Na autpsia, alguns fatos novos chamaram a ateno da polcia:
havia vrios ferimentos na cabea e foram encontradas nas anlises do
sangue altas dosagens de Valium, um sedativo poderoso. Insistindo ento
no interrogatrio da ex-esposa, descobriram que esta havia estado com o ex-
marido naquela noite. Mais tarde, confessou que temperou a salada dele
com aquele sedativo no jantar, e quando ele ficou desacordado ela deixou
trs homens previamente contratados entrarem na casa, matarem o marido e
fazerem parecer com que se tratasse de um acidente.
    Os investigadores freqentemente encontram discrepncias no caso de
encenao de estupro seguido de morte. Se o criminoso for prximo 
vtima, ele nunca a deixar completamente nua e exposta, coisa que
raramente acontece em homicdios verdadeiramente sexuais. Alm do mais,
apesar da posio do corpo e da retirada de algumas roupas, a autpsia
pode confirmar ou negar se alguma forma de ataque sexual aconteceu ou se
a cena do crime foi montada.
    Se os investigadores suspeitarem que a cena do crime foi montada,
devem procurar por sinais que associem a vtima ao criminoso, ou, como 
freqente em casos de violncia domstica, o envolvimento de uma terceira
pessoa, em geral aquela que encontrou o corpo. O criminoso manipula para
que o corpo seja descoberto por outro familiar ou vizinho, ou para
convenientemente estar acompanhado por algum quando da descoberta da
vtima morta.
    Quanto mais conhecimento os investigadores tiverem sobre todos esses
fatos, mais equipados estaro para fazerem as perguntas certas para
obteno da verdade, verem a histria do crime em cada cena que
analisarem e encontrarem o criminoso.
Exemplo Real de Encenao

     Num sbado pela manh, na pequena cidade de Northestern, um
intruso desconhecido atacou um homem e sua mulher. Tudo levava a crer
que o desconhecido, colocando uma escada no lado de fora da casa, pareceu
subir por ela at o terrao do segundo andar, removeu a tela da janela e
entrou. Tudo isso aconteceu numa rea residencial, em uma hora do dia em
que os vizinhos estariam fazendo suas tarefas de fim de semana.
     O marido alegou ter ouvido barulho no andar de baixo, e foi armado
com um revlver para investigar. Uma luta entre a vtima e o assaltante
comeou, e ela foi deixada inconsciente como resultado de uma pancada na
cabea.
     O assaltante ento subiu as escadas e matou a esposa estrangulando-a
manualmente. O corpo foi deixado com a camisola levantada at a cintura
da vtima, levando a crer que a havia atacado sexualmente. A filha de 5 anos
do casal dormia no quarto ao lado.
     Na investigao e anlise da cena do crime, os detetives perceberam
que no havia marcas da escada no cho mido ao lado da casa, mas quando
tentaram subir por ela imediatamente o cho ficou marcado. Alm disso, a
escada estava ao contrrio e muitos degraus de madeira estavam podres,
tornando impossvel agentar algum pesando mais de 25kg.
     A cena do crime tambm levantava questes que no podiam ser
respondidas com lgica: por que o criminoso escolheu entrar pelo segundo
andar e no pelo primeiro, aumentando as possibilidades de ser visto pelos
vizinhos? Por que assaltar numa manh de sbado? Por que escolher uma
casa em que os carros estavam estacionados na garagem, demonstrando que
os ocupantes estavam dentro dela?
     Dentro da casa, outras inconsistncias foram observadas: se a inteno
era assassinato, por que o criminoso no procurou as vtimas assim que
entrou, e sim desceu as escadas para o primeiro andar?
     Tambm no tinha vindo equipado para matar, porque de acordo com
a testemunha, o marido, nunca sacou um revlver. Alm disso, a pessoa que
mais ameaava o criminoso era o marido, e este s recebeu ferimentos leves.
Nessa anlise, que revelou grande atividade do criminoso e nenhum motivo
para o crime, a polcia concluiu que o marido encenou o homicdio para
fazer parecer ser trabalho de um intruso, e no dele mesmo. Foi condenado
pelo assassinato de sua esposa.
Casos da Vida Real
  ED GEIN



Uma Inspirao
para Hitchcock
                               ED GEIN

                                         Nasceu Edward Theodore Gein em
                                  27 de agosto de 1906, filho de Augusta e
                                  George Gein, em La Crosse, Wisconsin.
                                  Morava em uma pequena fazenda na
                                  cidade de Plainfield, no mesmo estado.
                                         Gein viveu uma repressiva e solitria
                                  vida na propriedade rural da famlia. O
                                  pai,   George,   era   alcolatra;   a   me,
                                  Augusta, religiosa, dominadora e abusiva.
                                  O irmo, Henry, era fraco e indiferente e,
                                  desde cedo, os dois meninos foram
                                  ensinados a temer o sexo, por ser
                                  altamente pecaminoso.
     A partir de 1940, sua vida mudou drasticamente com a morte do pai.
Os dois irmos herdaram a fazenda, tendo de fazer todo o trabalho,
enquanto a me dirigia suas vidas. Ela no se casou novamente. Fazia
questo de que os filhos acreditassem que mulheres iriam separar a famlia e
trair qualquer amor para elas oferecido. Segundo Augusta Gein, esta era a
natureza de qualquer mulher menos dela prpria, obviamente.
     Em 1944, houve um incndio na fazenda dos Gein. Segundo algumas
fontes, Henry morreu neste incndio florestal, depois de cair numa
armadilha do fogo e inalar muita fumaa. Outros dizem que ele teria
morrido no celeiro, lutando contra o fogo.
     Alguns acreditam que Henry teria sido assassinado pelo prprio irmo,
que desejava ficar sozinho com a me. A verdade nunca ficou comprovada.
No mesmo ano, Augusta Gein sofreu um derrame, que a incapacitou
seriamente. Seu filho a cercou de cuidados at que morresse, em 1945. Ed
ento ficou completamente sozinho pela primeira vez, aos 39 anos de idade.
Sua perturbao era profunda, e ainda se sentia escravo emocional da
mulher que havia tiranizado sua vida.
     Ed Gein trancou o quarto da me para que ficasse eternizado do modo
como ela o deixou. Passou a usar somente o andar inferior da casa, e seu
jeito desleixado fez com que tudo comeasse a se degenerar.
     Graas a subsdios federais, parou de cultivar as terras da fazenda e
passou a prestar pequenos servios para a vizinhana. Abandonou
completamente seus afazeres pegando servios extras para os residentes de
Plainfield, conseguindo ganhar assim algum dinheiro. Era inclusive bab de
crianas (baby-sitter).
     Morava sozinho na casa da famlia, perseguido e caado pelo fantasma
de sua me. Na comunidade, passou a ser conhecido como o "estranho
velho Eddie".
     Comeou a desenvolver um profundo interesse pela anatomia
feminina. Estudava o assunto em enciclopdias mdicas, livros de anatomia,
romances     de   horror   e   revistas   pornogrficas.   Eddie   interessou-se
principalmente pelas atrocidades cometidas pelos nazistas durante a
Segunda Guerra Mundial, e nos experimentos impingidos aos judeus nos
campos de concentrao.
     A fixao de Gein pelo corpo de mulheres o levou a querer examinar a
coisa real. Lia obsessivamente a seo de obiturios dos jornais, para saber
das mortes do dia e seus locais de enterro. Com a ajuda de um amigo, Gus,
desenterrava corpos recm-enterrados nos cemitrios de Wisconsin. Gus
acreditava que Eddie fazia "estudos cientficos".
     Gein levava os corpos para a sua casa, dissecava-os e guardava
algumas partes como cabeas, rgos sexuais, fgados, coraes e intestinos.
Os corpos que utilizava eram sempre de mulheres com a idade aproximada
de sua me quando morreu.
     Num certo momento, na progresso de sua insanidade, passou a retirar
a pele dos corpos que roubava e fazer "roupas", em volta de um velho
manequim de alfaiate. Certas noites vestia estas "roupas" e fazia um
estranho ritual ao redor de sua casa, danando, pulando e dando
cambalhotas esquisitas.
     Ed tinha especial fascinao pela genitlia feminina. Brincava e afagava
as partes ntimas das mulheres que desenterrava, e recheava "calas
femininas" com elas para poder sentir-se mulher. Tinha o desejo intenso de
ser mulher, e estudava anatomia pensando na possibilidade de uma
operao para mudana de sexo.
     Cada vez foi ficando mais isolado, desencorajando visitantes na sua
negligenciada e abandonada fazenda.
     As coisas continuaram assim at que seu amigo Gus, tambm um
solitrio, foi internado em um asilo. Agora, desenterrar corpos j no era to
fcil, e o desejo por "carne fresca" comeou a ficar intenso. Gein passou a
matar...
     Sua primeira vtima foi Mary Hogan, uma divorciada de 54 anos que
gerenciava a Taverna Hogan. Em 8 de dezembro de 1954, estava sozinha
quando Ed Gein chegou ao seu estabelecimento. Ele atirou em sua cabea
com uma arma calibre .32, colocou o corpo em sua pick-up e levou-a para a
sua casa.
     Um cliente que chegou logo em seguida ao acidente encontrou a
taverna vazia. Notificou a polcia. Uma grande poa de sangue manchava o
cho, e um cartucho calibre .32 jazia ali perto. As manchas seguiam pela
porta do fundo em direo ao estacionamento, at chegar s marcas de pneu
no cho que pareciam ser de uma pick-up.
     Apesar de concluir que Mary Hogan havia sido baleada e levada dali, a
polcia foi incapaz de encontrar qualquer pista sobre o desaparecimento da
mulher. Ningum percebeu que, fisicamente, Mary Hogan se parecia muito
com Augusta Gein.
     Em 1957, Eddie aproximou-se de Frank Worden, xerife substituto da
cidade. Demonstrava grande interesse pelos planos de caa de Frank, que
lhe contou seu projeto de sair para uma caada no dia 16 de novembro,
sbado. Eddie comentou que passaria em sua loja de ferragens naquele dia.
A loja era dirigida pela me de Frank, Bernice Worden, 59 anos.
     Ao chegar em casa na noite do dia 16, Frank encontrou tudo fechado e
apagado. Entrou chamando pela me, que no encontrou. Verificou as notas
de venda daquele dia, at se deparar com um recibo de venda de um galo
de lquido anticongelante feito com a letra de sua me, em nome de Ed Gein.
Um frio terrvel percorreu sua espinha.
     A mquina registradora da loja tambm havia sido levada. No cho da
loja, manchas de sangue. Um atendente de uma garagem local disse ter visto
um caminho da loja indo embora s 9h30min daquela manh. Frank
imediatamente chamou o xerife Schley. Os dois resolveram ir at a fazenda
de Eddie, s para uma verificao de rotina.
     Ao chegarem  fazenda, espantaram-se com a degenerao do local. Ed
no foi encontrado, e tudo estava trancado. Seguiram ento pelas
redondezas  sua procura, at que tiveram sucesso em sua busca numa
quitanda prxima. Ed jantava com os proprietrios, e j estava para sair.
                                 O xerife Schley o abordou e pediu que
                            entrasse no carro da polcia onde responderia
                            algumas perguntas. Gein reagiu mal. Respondeu
                            como algum poderia querer culp-lo do
                            assassinato de Bernice Worden. Foi preso
                            imediatamente:     ningum   havia    mencionado
                            ainda a morte de Bernice, mesmo porque ainda
                            no sabiam o que havia acontecido.
                                 J preso, Gein foi conduzido de volta para a
                            sua fazenda. Ali, uma horrvel evidncia provou
                            que a bizarra obsesso dele o havia tornado um
assassino... Bernice Worden jazia nua, pendurada de cabea para baixo num
gancho de carne como os de aougue, cortada de cima a baixo frontalmente.
Sua cabea e intestinos foram descobertos em uma caixa, seu corao em um
prato sobre a mesa da sala de jantar, alm de outras partes que cozinhavam
numa panela sobre o fogo.
    Aqui est uma lista dos itens encontrados na casa de Ed Gein:

    -- Uma poltrona feita de pele humana.
    -- Um cinto feito de mamilos.
    -- Uma cabea humana.
    -- Quatro narizes.
    -- Um corao humano.
    -- Um terno masculino feito inteiramente de pele humana.
    -- Uma mesa escorada com ossos de canela humana.
    -- Nove mscaras morturias feitas com faces de mulheres mortas, que
       decoravam seu quarto.
    -- Pulseiras de pele humana.
    -- Uma bolsa feita de pele humana.
    -- 10 cabeas de mulheres cortadas acima das sobrancelhas.
    -- Uma bainha para faca feita de pele humana.
    -- Um par de calas de pele humana.
    -- Quatro cadeiras onde a palha foi substituda por pele entrelaada.
    -- Uma caixa de sapatos contendo nove vulvas salgadas, sendo a de
       Augusta Gein pintada de cor prata.
    -- Uma cabea humana pendurada num cabide.
    -- Uma "camisa feminina" feita de pele humana.
    -- Vrias cabeas humanas encolhidas.
    -- Dois crnios enfeitando os ps da cama de Ed Gein.
    -- Dois lbios humanos pendurados num barbante.
    -- Uma coroa de um crnio transformado em prato de sopa.
    -- Uma geladeira repleta de rgos humanos.
     -- Cpulas de abajures feitas de pele humana.
     -- Cabeas recheadas com jornal e expostas como trofus.
     -- Um suti feito com o torso de uma mulher.

     Calcula-se que foram encontradas partes de quinze corpos humanos na
fazenda de Ed Gein, mas ele nunca conseguiu lembrar-se de quantos
assassinatos realmente cometeu. Foi processado apenas pelas mortes de
Mary Hogan e Bernice Worden.
     Aps passar 10 anos internado num hospital psiquitrico, Ed Gein foi
julgado competente para ir a julgamento. Foi considerado culpado pelos
crimes, mas criminalmente insano e enviado ao Hospital Estadual Central de
Waupon. Em 1978, foi removido para o Instituto de Sade Mental de
Mendota, onde morreu de velhice em 1984, aos 77 anos.
     Sempre foi um prisioneiro modelo: gentil, polido e discreto.  suspeito
de ter cometido pelo menos mais cinco assassinatos, mas nada foi provado.
Declarou  polcia que jamais teve relaes sexuais com os cadveres que
obtinha, mas gostava de tirar sua pele e vestir-se com ela.
     As suspeitas sem provas que pairavam sobre Ed eram vrias. Contava-
se na cidade que ele teria sido convidado, numa certa ocasio, para a casa de
seus vizinhos mais prximos, os Bankses. Ali estava uma parente da famlia
que usava shorts, e Eddie no tirava os olhos dela. Tarde da noite, um
intruso arrombou a casa da tal parente e pegou seu filho pequeno pela
garganta, perguntando por sua me. O intruso se assustou com algum
barulho e fugiu antes que o garoto pudesse responder. Ele acha que
reconheceu Ed Gein.
     Georgia Weckler, 8 anos, desapareceu vindo da escola para casa, em 1
de maio de 1947. A nica pista que a polcia tinha sobre o caso eram marcas
de pneu de um carro da marca Ford. O caso foi reaberto depois da priso de
Gein.
     Evelyn Hartley, 15 anos, desapareceu no caminho de sua casa, situada
em La Crosse, Wisconsin. O pai dela, depois de ligar insistentemente para
casa sem obter resposta, resolveu voltar mais cedo para a sua residncia e
verificar o que estava acontecendo. Como ningum atendia a campainha,
olhou pela janela e viu um dos sapatos e culos da filha no cho da sala.
Tentou entrar, mas todas as portas e janelas estavam trancadas, exceto uma:
a do poro. Marcas de sangue manchavam a janela e, dentro, sinais de luta.
Chamou a polcia, que encontrou outras evidncias, como uma planta
amassada com manchas de sangue, uma marca de mo em sangue numa
casa vizinha, pegadas e o outro p do sapato de Evelyn. Suas roupas
manchadas de sangue foram encontradas alguns dias depois numa estrada
perto de La Crosse, mas seu corpo nunca foi achado.
     Ed Gein inspirou vrios filmes e livros. Robert Bloch usou sua histria
para escrever a personagem Norman Bates, em Psicose. O filme de
Hitchcock, com o mesmo nome, baseia-se nele.
     Em 1974, os filmes clssicos de Tobe Hooper, The Texas Chainsaw
Massacre 1, II e III, tambm tinham toques de Gein.
     No livro de Thomas Harris, que originou o filme O Silncio dos
Inocentes, o assassino Buffalo Bill tambm costurava roupas com pele
humana e as vestia, como Ed, usando-as em estranhos e insanos rituais.
IVAN MARKO
   MILAT



O Assassino de
 Mochileiros
             IVAN ROBERT MARKO MILAT
        -- O ASSASSINO DE MOCHILEIROS

1990 -- Delegacia da Cidade de Bowral -- Austrlia

                                  Entram na delegacia um homem e uma
                             mulher, Paul Onions e Joanne Berry. O rapaz
                             est bastante aflito. Conta sua histria para o
                             investigador de planto.
                                  Paul, ingls, resolveu passar suas frias
                             na Austrlia, levando apenas uma mochila e
                             pouco dinheiro. Sua inteno era conhecer o
                             pas pegando carona. Era um mtodo barato e
                             eficiente.
                                  Na estrada, esperando ter um pouco de
                             sorte, ficou aliviado ao ver um carro parar. O
                             motorista era bem apessoado, musculoso e
usava bigodes estilo "Zapata". Simptico, concordou em dar carona a Paul.
    No caminho, iniciou-se uma agradvel conversa. O homem disse ser
divorciado, descendente de iugoslavos e proprietrio de terras perto de
Liverpool. Paul tambm contou que veio da Inglaterra para aproveitar bem
suas frias, conhecendo a Austrlia. No, no tinha nenhum parente ou
amigo naquele pas.
    No meio da conversa, e antes que Paul percebesse o que estava
acontecendo, o homem tirou uma arma de baixo do banco do carro e
anunciou um assalto.
    Paul, assustado demais para lembrar-se das recomendaes de nunca
reagir a um assalto, agiu por puro reflexo: abriu a porta do carro, pulou para
fora e comeou a correr desenfreadamente pela estrada.
     Joanne Berry vinha pela mesma estrada, quando viu o rapaz entrar com
desatino na sua frente. Freou o mais rpido que pde, desconfiada.
     O rapaz, desesperado, disse estar sendo perseguido por um assaltante,
e implorou sua ajuda. Joanne, ao mesmo tempo penalizada e desconfiada,
resolveu ajudar. Deixou o moo entrar no seu carro e levou-o at a delegacia
mais prxima onde fizeram um boletim de ocorrncia.




16 de Setembro de 1992 -- Floresta de Belangalo -- Austrlia

     Sbado. Ken Seily e Keith Caldwell, parceiros de motocross,
participavam de uma corrida na mata. Numa de suas paradas, sentiram um
forte odor de carnia. Ao procurarem por uma carcaa de animal,
encontraram o que parecia ser restos mortais humanos.
     Assim que a corrida terminou, a polcia de Bowral foi informada sobre
os restos mortais encontrados na Floresta de Belangalo.
     Para investigar a cena do crime descoberta pelos dois motoqueiros, foi
designada uma unidade policial de Goulburn, a maior e mais prxima
cidade de Bowral, juntamente com uma equipe de investigadores de
homicdios. Naquele momento, nenhum deles tinha idia de que estava se
iniciando a maior investigao criminal da histria australiana.
     Sua primeira providncia foi imediatamente levantar se havia
mochileiros desaparecidos naquela rea.
     No dia seguinte, a 40 metros da cena do crime que estava sendo
analisada, outro corpo foi encontrado. Estava parcialmente encoberto por
um tronco de rvore, e s se via um pedao de perna e um sapato, saindo
por debaixo das folhas secas espalhadas pelo cho.
     A mdia logo sugeriu que seriam os corpos de duas mochileiras
inglesas que haviam desaparecido na Austrlia cinco meses antes: Caroline
Clark e Joanne Walters. Elas haviam partido juntas de King Cross em
direo ao sul, tentando encontrar trabalho para pagar suas despesas de
frias.
     Antes que a identidade das vtimas fosse confirmada, a notcia j tinha
se espalhado pelo mundo. Vrias famlias comearam a acompanhar o
noticirio atentamente.
     A famlia Neugebauer, na Alemanha: seu filho Gabor e a namorada
Anja sumiram sem deixar vestgios depois de sair de um albergue para
mochileiros em King Cross, em 26 de dezembro de 1991.
     A famlia Schmidl, de Regensburg, perto de Munique: sua adorada
filha Simone havia desaparecido ao sair de Sydney, em 1991.
     A famlia Everist, de Frankston, Vitria, Austrlia, que no tinha
notcias de sua filha Deborah e seu amigo James Gibson desde 1989.
     Em 20 de setembro de 1992, a polcia identificou os corpos como sendo
de Caroline Clark e Joanne Walters.
     Os   pais   de     Joanne,   j   completamente   desesperados   com   o
desaparecimento da filha, encontravam-se na Austrlia, onde alugaram uma
van para tentar, sozinhos, encontrar sua menina.
     Ian e Jackie Clarke, pais de Caroline, receberam a triste notcia pelo
telefone. Voaram imediatamente da Inglaterra para a Austrlia.
     Quando as autpsias foram feitas, ficou claro que as duas meninas
tinham sido assassinadas de forma violenta e cruel.


Joanne Lesley Walters

     Joanne tinha sido esfaqueada repetidamente no corao e nos pulmes.
Os cortes eram to profundos, que um deles seccionou sua espinha dorsal.
     Ela ainda usava suas jias; vestia blue jeans e sapatos pretos.
Curiosamente, o zper de sua cala estava aberto, mas o boto no.
     Seu corpo estava em adiantadssimo estado de decomposio. Foi
pesada e radiografada, em busca de balas ou outros objetos metlicos, mas
nada foi encontrado.
     O Dr. Peter Bradhurst, legista encarregado do caso, iniciou ento um
exame externo, buscando quaisquer evidncias que pudessem trazer alguma
pista para as investigaes.
     As mos e roupas de Joanne continham cabelos escuros. Um pedao de
pano usado como mordaa foi retirado de seu crnio, e outros restos de pano
foram encontrados em sua garganta, sugerindo claramente tratar-se de um
caso de estrangulamento.
     No exame interno no foram encontrados sinais de penetrao vaginal
ou anal, mas o grave estado de decomposio do corpo poderia facilmente
mascarar esses fatos.
     Amostras de unha e cabelo foram retiradas e arquivadas. Tambm foi
feita uma lmina com material vaginal, pois indcios de smen podem ser
descobertos at meses depois da morte.
     O peito de Joanne mostrava trs facadas do lado direito, uma do lado
esquerdo e uma no pescoo. Quando o corpo foi virado de bruos, o Dr.
Bradhurst no pde acreditar no que via... Mais duas facadas do lado
esquerdo, cinco do lado direito e duas na espinha, na base do pescoo. Ao
todo, foram contadas e medidas 14 facadas, cinco delas propositadamente
tinham atingido a espinha dorsal. O Dr. Bradhurst conjeturou se o assassino
primeiro paralisou sua vtima, para depois esfaque-la at a morte.
     Duas costelas de Joanne foram totalmente cortadas. Mos e braos no
continham ferimentos defensivos, daqueles que aparecem quando as
pessoas tentam se defender de um ataque  faca com as mos. Este fato e as
amarras de tecido corroboravam a teoria de que o assassino estava em pleno
controle da situao no momento do crime.
     As medidas e o formato dos cortes indicavam que uma faca Bowie ou
similar havia sido utilizada.


Caroline Jane Clarke

     Caroline havia sido esfaqueada e levou inmeros tiros na cabea.
     Debaixo de sua cabea, foram encontrados trs cartuchos de bala.
     Em seu corpo, mais quatro balas. O estado de decomposio do corpo
de Caroline era mais grave do que o do corpo de Joanne.
     Os braos de Caroline estavam estendidos acima da cabea, que estava
envolvida por um pano vermelho. Os buracos de bala eram visveis no
tecido, indicando que sua cabea estava coberta no momento dos tiros.
     O pano foi cuidadosamente removido da cabea de Caroline, deixando
 mostra 10 buracos de entrada de balas, e apenas quatro de sada. Quatro
cartuchos completos de calibre .22 foram retirados de dentro de seu crnio.
Sua face e maxilares estavam esmigalhados, como resultado dos estragos
provocados na sada das balas.
     Caroline tinha levado uma facada na base do pescoo, idntica quela
sofrida por Joanne.
     As balas foram imediatamente enviadas para testes balsticos, e
posteriormente foi concludo que os tiros foram dados de trs direes
diferentes. O estranho  que as balas foram encontradas todas juntas,
indicando que o assassino tinha utilizado a cabea de Caroline como um
alvo, apenas mudando a posio de tiro. At os profissionais forenses mais
experientes ficaram chocados com a violncia e crueldade dos crimes.

A Cena do Crime

     Distante aproximadamente 4 metros do corpo de Caroline Clarke, os
detetives encontraram seis bitucas de cigarro, todas da mesma marca.
Obviamente, o assassino havia passado bastante tempo ali.
     No muito longe, acharam o cartucho deflagrado de uma arma calibre
.22, e perto dele um plstico verde do tamanho de uma moeda.
     Especialistas em balstica exploraram a rea com um detector de
metais, at recolherem mais nove cartuchos da mesma arma, a menos de 4m
do corpo de Caroline.
     Restos de uma fogueira feita de pedras estavam a 35m da cena do
crime.
     A polcia vasculhou toda a rea, procurando mais corpos e objetos
pessoais das vtimas. Nada encontrou. Anunciaram para a mdia que,
naquela rea, nenhum corpo mais seria encontrado, declarao que colocaria
o departamento de polcia de New South Valley em maus lenis pouco
tempo depois.

O Perfil do Criminoso

     Sem conseguir mais nenhuma pista, os trabalhos da polcia na captura
do assassino de Caroline Clarke e Joanne Walters estavam completamente
emperrados. Foi chamado ento o Dr. Rod Milton, psiquiatra forense com 20
anos de experincia, para fazer o perfil criminal.
     Em 1989, o Dr. Milton tinha tido sucesso ao montar o perfil de John
Wayne Glover, que havia estrangulado seis senhoras de idade avanada e
foi capturado graas  sua ajuda.
     O Dr. Milton foi at a cena do crime, pois, apesar da farta
documentao, preferia trabalhar in loco para obter dedues precisas sobre
o assassino em questo. Depois de andar calmamente por ali durante
bastante tempo, sentou-se no local para tentar imaginar a seqncia dos
fatos, por que a escolha daquele local e do modo e quais seriam as
motivaes do assassino.
     Sua primeira concluso foi a de que a rea escolhida era familiar ao
assassino, que raramente age em reas que no conhece, e aquele no era um
crime de oportunidade, e sim um assassinato planejado com extremo
cuidado.
     Seu passo seguinte foi comparar o modo como as duas vtimas haviam
sido mortas.
     Caroline Clarke foi morta de modo frio e calculado. A maneira como o
pano vermelho envolvia sua cabea indicava que o assassino tinha a
inteno de despersonaliz-la antes de mat-la. O ngulo dos tiros sugeria
que ela estava de joelhos quando foi dado o primeiro tiro. Suas roupas
estavam intactas, exceto pelo fecho frontal de seu suti, que estava aberto.
Suas roupas da parte inferior do corpo estavam intocadas na hora de sua
morte, o que demonstrava que aquele no era um crime de motivao
sexual. Tratava-se de uma execuo.
     O ferimento de faca nas suas costas havia sido feito aps a sua morte,
para demonstrar que o assassino estava no total controle da vtima durante o
crime. Se assim no fosse, havia um cmplice.
     A maneira como foi encontrado o corpo de Caroline, com os braos
acima da cabea, tambm indicava para o Dr. Milton que o assassino havia
planejado e controlado todo o crime, com a vtima suplicando por sua vida
at ser morta.
     O local e o modo como o corpo de Joanne Walters foi encontrado
indicavam uma situao totalmente diferente. Aqui, em comparao com o
assassinato de Caroline, havia marcas de frenesi e dio descontrolados.
     O desarranjo das roupas de Joanne indicava um ataque sexual. Sua
camiseta e suti estavam puxados para cima, com o fecho do suti ainda
abotoado. O zper da cala estava aberto, mas o boto fechado. Nenhuma
calcinha foi encontrada no corpo ou nas proximidades.
     O Dr. Milton teorizou que as calas de Joanne no foram tiradas, pois
seus sapatos estavam calados e amarrados. Deviam ter sido simplesmente
abaixadas para permitir o ato sexual antes ou depois da morte. A calcinha
provavelmente havia sido cortada, arrancada e levada como trofu.
     O nico motivo no qual o Dr. Milton pde pensar para a motivao do
crime foi... prazer!
     Se havia dois assassinos envolvidos neste crime, ento um era mais
velho e dominante e o outro, apesar de igualmente sdico, mais submisso.
Sugeriu que poderia se tratar de dois irmos, que dividiam o mesmo
interesse por armas de fogo e caa, alm de anteriormente j terem se
envolvido em crimes sexuais, juntos ou separadamente.
     Segundo o perfil elaborado, o assassino:

     1. Seria morador de rea semi-rural.
     2. Estaria empregado em trabalho de mdia habilidade, provavelmente
        externo.
     3. Estaria envolvido numa instvel e insatisfatria relao.
     4. Seria homossexual ou bissexual.
     5. Teria histrico de agresso a autoridades.
     6. Teria entre 30 e 40 anos.

     Em nenhum momento, o Dr. Rod Milton imaginou que se tratasse de
um assassino serial. Com o fim do ano se aproximando e o caso longe de
uma soluo, os investigadores comearam a pesquisar crimes parecidos.
Outubro de 1993

    Bruce Pryor, morador local da Floresta de Belangalo, coletava lenha nas
proximidades de sua casa sempre que podia. Acompanhou minuciosamente
o noticirio sobre os corpos encontrados naquela regio, mas. notou que as
buscas tinham diminudo consideravelmente. No que o nmero de
mochileiros desaparecidos fosse menor.
    Foi ento que decidiu, ele mesmo, em suas incurses na floresta,
pesquisar reas ainda inexploradas  procura de novas evidncias. Seu
trabalho teve xito. Descobriu um esqueleto humano.
    Bruce chamou imediatamente a polcia. As buscas recomearam, bem
como a cobertura do caso pela imprensa.
    Ao verificar o local para onde Bruce Pryor os levou, a polcia logo
encontrou um par de sandlias e um chapu de feltro preto. Um
investigador foi mandado de volta para pesquisar os arquivos, at concluir
que aquele chapu pertencia a James Gibson, desaparecido em 1989
juntamente com sua amiga Deborah Everist.
    Anteriormente, a polcia havia descartado Gibson como vtima deste
assassino, uma vez que sua mochila e cmara fotogrfica foram encontradas
 beira de uma estrada a 120km ao norte daquela floresta. A polcia estava
confusa: se Gibson era uma das vtimas ali encontradas, por que seus
pertences estavam do outro lado de Sydney? Teria o assassino agido
premeditadamente ao fazer a polcia crer que Gibson no era sua vtima?
    As buscas continuaram, e logo mais um corpo foi encontrado. Foi
chamado um dentista forense, para exame da cena do crime.
    Os dois esqueletos estavam incompletos, o que poderia ter sido
causado por animais da rea.
    Ao lado do primeiro esqueleto, foram encontrados uma corrente de
prata, um bracelete de pedras semipreciosas e um crucifixo de prata. Devido
aos tipos de objetos encontrados e ao pequeno tamanho do esqueleto,
presumiu-se que se tratava de restos mortais de uma mulher.
     O segundo esqueleto era maior, e ainda estava calado com tnis
brancos nos ps, devidamente amarrados. Comparando a arcada dentria
documentada de James Gibson com aquele esqueleto, a identificao foi
positiva.
     A identificao do corpo feminino seria feita depois, mas todos tinham
certeza de que se tratava de Deborah Everist.
     Todos os itens da rea do crime foram recolhidos, inclusive a cala
jeans de Gibson, que estava com o zper aberto, mas o boto fechado.
     No dia seguinte, os legistas iniciaram seu trabalho.


James Harold Gibson

     Seu esqueleto foi montado e os ossos, lavados com uma soluo que
evidenciaria qualquer ferimento neles.
     Um ferimento  faca estava localizado no meio de sua coluna,
secionando trs vrtebras e separando o canal da espinha dorsal. Como nas
outras vtimas, o Dr. Bradhurst conjeturou que esse tipo de ferimento havia
paralisado o rapaz. Fazer tamanho estrago na coluna de um jovem forte
como aquele requeria fora.
     Dois ferimentos de faca haviam perfurado os ossos do peito de James,
com cortes nas costelas. Apareciam mais cortes de faca nos lados esquerdo e
direito da frente do peito, e dois mais no alto das costas. Ao todo, sete
ferimentos maiores marcavam o esqueleto. Muitos outros poderiam ter sido
feitos ali sem atingir nenhum osso, impossibilitando que fossem
identificados tanto tempo depois da morte da vtima. O ferimento do peito
foi medido, e era bastante similar queles encontrados nos corpos de
Caroline e Joanne.
Deborah Phyllis Everist

     Este esqueleto estava em pssimo estado. Parte da mandbula estava
quebrada, e faltava um pedao. Vrias fraturas foram encontradas na parte
de trs do crnio. Quatro "talhos" na testa, dois de cada lado, foram
constatados. No eram profundos o suficiente para serem mortais, mas
haviam marcado o crnio na linha do cabelo. Uma facada havia penetrado o
corpo na regio lombar, perto da espinha.

A Cena do Crime

     Foi designado o superintendente Clive Small como responsvel pelas
investigaes. A investigao foi chamada oficialmente de "task force Eyre",
nome de um lago australiano, mas informalmente logo passou a ser
chamado "task force air". Small nomeou Rod Lynch como seu auxiliar, e
montaram uma equipe.
     O mapa da floresta foi dividido em partes, e quarenta oficiais andaram
por cada pedao, examinando centmetro por centmetro do cho da floresta.
Se algo estranho era encontrado, as equipes forenses eram chamadas
imediatamente para fotografar o local, marcar posies dos objetos no mapa
principal e levar a evidncia.
     Times acompanhados de ces especializados ajudaram nas buscas, para
detectar a presena de fsforo e nitrognio no solo, cheiros que corpos em
decomposio exalam mesmo muito tempo aps a morte.
     A dez metros dos corpos, a polcia encontrou um suti preto com a
marca de uma facada em um dos lados e cpsulas deflagradas pela arma do
crime, que demonstravam tratar-se de uma. "Ruger" de repetio. A polcia
levantou que 50.000 armas daquele tipo tinham sido importadas para a
Austrlia entre 1964 e 1982. Foi feita uma lista das lojas que venderam esse
tipo de rifle, pois era obrigatrio o registro completo da venda. Era como
procurar uma agulha num palheiro, pois venda particular muitas vezes no
tem registro.
     Membros do clube local de tiro foram contatados, suas armas
examinadas. Um dos membros comunicou  polcia que um amigo seu havia
testemunhado algo suspeito na floresta, no ano anterior.
     A polcia entrou em contato com o sujeito. Ele lhes deu uma
acuradssima descrio de dois veculos, um Ford Sedan e outro com trao
nas quatro rodas, que havia visto entrando numa trilha da floresta. Contou
em seu depoimento que, quando o primeiro carro passou, viu um homem
dirigindo e no banco de trs dois homens com uma mulher entre eles. Ela
estava com uma roupa amarrada em volta de sua cabea, como se fosse uma
mordaa. No segundo veculo, segundo a testemunha, havia dois homens.
Um dirigia, outro estava sentado atrs com outra mulher, tambm
amordaada.
     O homem deu  polcia detalhes de todos os ocupantes dos carros,
inclusive suas roupas, cores e idade aproximada. Afirmou que, na poca dos
fatos, havia anotado as placas dos veculos num carto, mas que acabou
perdendo-o. Depois do depoimento oficial, a testemunha assinou: Alex
Milat.


Novembro de 1993

     O sargento Jeff Trichter, em suas buscas, encontrou um par de jeans
femininos cor pink, juntamente com uma corda azul e amarela, largada ao
acaso. Perto dali, foi encontrada uma caixa de munio calibre .22.
     Ao entrar mais naquela clareira, outros artigos foram encontrados: latas
vazias de bebida com furos de bala, arame enrolado em laadas, cpsulas de
balas deflagradas e garrafas vazias. No fim da clareira, restos de uma
fogueira feita de pedras.
     Logo adiante, no fim do caminho, jazia um osso humano. Trs metros
depois, um crnio. Todas as equipes foram chamadas ao local. Dentro de
uma bota de caminhar de couro, outro grande osso. Nada mais foi localizado
nesta rea.
     Ao serem levados ao laboratrio forense, os ossos foram identificados
como sendo femininos. A mulher parecia ter estado ali sozinha. O crnio
tinha uma bandana roxa  sua volta.
     De posse da bandana e das roupas encontradas, a polcia comeou a
procurar nas fotos de pessoas desaparecidas algum que estivesse usando
algum desses itens. Logo encontraram a fotografia da alem Simone Schmidl
em que usava uma bandana semelhante.
     Outros equipamentos mencionados na queixa do desaparecimento,
como uma grande mochila e equipamento para camping, no foram
encontrados. Pela arcada dentria, o corpo foi oficialmente identificado
como sendo o de Simone. Esta jovem aventureira, chamada carinhosamente
pelos pais de "Simi", tinha sido vista pela ltima vez em 20 de janeiro de
1991, em Liverpool, oeste de Sydney, caminhando em direo ao sul. Os pais
de Simone, que estavam na Alemanha, souberam do caso do pior modo
possvel: pelo rdio. Sua filha voltou para casa apenas para ser enterrada.
     Simone foi encontrada ainda parcialmente vestida, com sua camisa e
roupa de baixo enroladas em seu pescoo. Um par de shorts verdes estava
sobre sua plvis, com o cordo desamarrado. Vrias jias e duas moedas
foram encontradas perto do corpo. O par de jeans pink no combinava com
a descrio do desaparecimento de Simone, e sim com o de outra alem,
Anja Habschied. Ela e seu namorado, Gabor Neugebauer, estavam
desaparecidos desde dezembro de 1991.


Simone Loretta Schmidl

     Nas anlises feitas pelo legista Dr. Bradhurst no corpo de Simone, no
restaram dvidas de que se tratava do mesmo assassino.
     No havia ferimentos no crnio. O peito e as costas mostravam
inmeras facadas, dos lados direito e esquerdo, frente e costas, incluindo o
famoso corte da espinha dorsal.
        Antes de terminar sua anlise, o Dr. Bradhurst foi chamado novamente
na floresta: mais dois corpos haviam sido encontrados!

A Cena do Crime

        No fim da rea demarcada no mapa da polcia como "rea A" estavam
os corpos de Gabor e Anja, como depois ficou confirmado pelos registros
dentrios.
        Os restos mortais de Gabor estavam embaixo de uma pilha de folhas,
parcialmente cobertos por um grande tronco de rvore. Foram necessrios
vrios policiais para que o tronco fosse afastado do corpo.
        O esqueleto estava completo, com os restos das roupas ainda aparentes,
inclusive uma cala jeans com o zper aberto e o boto fechado. Este parecia
ser o modo como o assassino assinava seus crimes.
        O segundo corpo tinha as roupas levantadas at os ombros, e nenhuma
roupa ntima foi achada por perto. O jeans pink tinha sido deixado longe
dali.
        A 60 metros do local dos corpos, foram localizadas 90 cpsulas de balas
deflagradas e pacotes vazios de munio. Depois de serem examinadas no
microscpio, a balstica concluiu que essas balas eram as mesmas
encontradas perto do corpo de Joanne Walters. A mesma arma que havia
matado Joanne Walters foi utilizada a apenas 60 metros dos restos mortais
de Anja e Gabor...


Anja Habschied

        A novidade nesta cena  que estavam faltando o crnio e as primeiras
duas vrtebras do esqueleto feminino. O Dr. Bradhurst deduziria depois que
a cabea da moa foi separada do corpo por um instrumento afiado,
provavelmente um machado ou uma espada. O ngulo de decapitao
indicava que a vtima estava de joelhos com a cabea abaixada quando o
corte foi feito.
         Eram os sinais de uma decapitao ritual. Nenhum outro ferimento era
evidente.


Gabor Kurt Neugebauer

         Ao examinar o corpo de Gabor, o Dr. Bradhurst descobriu que sua boca
continha duas mordaas: uma amarrada sobre a
boca, com um n "reef"30, e outra dentro da boca.
Desta vez, a mordaa estava amarrada com um n
diferente das outras: um n "granny"31.
         Gabor havia sido estrangulado, fato concludo observando-se a fratura
do       osso     hiide,     na    garganta,       o    que   ocorre   em   decorrncia   de
estrangulamento manual.
         A mandbula estava fraturada em vrios lugares. O crnio mostrava
seis entradas de balas, trs pelo lado posterior esquerdo e as outras por
baixo. Um buraco de sada foi encontrado do lado direito. Quatro balas
foram recuperadas de dentro do crnio de Gabor, e uma quinta se alojou nos
ossos da parte de cima do corpo.
         Um especialista em balstica no encontrou nada mais na cena do
crime, e o alinhamento entre os buracos de entrada e sada de balas no corpo
de Gabor indicava que ele havia sido alvejado sete vezes. Concluiu-se que
ele no havia sido morto no mesmo local em que seu corpo foi encontrado.

A Investigao

         A mais terrvel concluso dos mdicos e investigadores foi que sete


30
     N reef: n cego.
31
     N granny: n que ata duas pontas ou duas cordas.
pessoas haviam sido assassinadas de vrias maneiras pelo mesmo homem:
espancadas, estranguladas, alvejadas por arma de fogo, esfaqueadas e
decapitadas. A maioria foi molestada sexualmente de alguma maneira,
homem ou mulher.
     Como o nmero de ferimentos era crescente em cada vtima, o time de
investigao deduziu que o assassino passava cada vez mais tempo com
elas. Esse fato indicava que, alm de cruel e sdico, era calculista e tinha um
bocado de autoconfiana!!!
     A fora-tarefa para investigar o crime era to grande que a confuso
eventual era inevitvel. Perdiam-se dados importantes.
     Dois telefonemas vitais efetuados para a fora-tarefa passaram
despercebidos.
     O primeiro era de uma mulher, pedindo para a polcia verificar o
antigo patro de seu namorado. Ele era um homem estranho, que tinha uma
propriedade perto da floresta, guiava um carro tipo 4x4 e colecionava armas.
Seu nome era Ivan Milat.
     O segundo telefonema foi dado por Joanne Berry, contando a histria
da carona que havia dado para um ingls mochileiro que havia sido
atacado... lembram-se? O oficial que pegou seu depoimento no anotou seu
nome ou endereo, apenas agradeceu e desligou o telefone.
     As buscas oficiais foram suspensas em 17 de novembro de 1993. No
foi encontrado mais nenhum corpo ou evidncia.
     Em dezembro daquele ano, as pistas no pareciam levar a lugar
nenhum. Os telefonemas dados  linha quente da polcia foram listados, e
200 deles foram selecionados como importantes. Todos foram relidos e
reavaliados. Os depoimentos de Paul Onions e Joanne Berry foram
separados. Paul tambm havia ligado para a Austrlia depois das notcias
internacionalmente divulgadas, relatando sua histria.
1994

     No ano de 1994, 37 detetives trabalhavam nas investigaes do
assassino de mochileiros. Em trs depoimentos revistos por eles constava o
nome Milat.
     Logo descobriram que se tratava de uma enorme famlia: uma viva j
de idade com 14 filhos, homens e mulheres.
     As pesquisas da polcia mostraram que todos os homens integrantes da
famlia Milat eram familiarizados com armas de fogo desde a mais tenra
idade. Todos gostavam de atirar e colecionar armas.
     O pai, Stephen Milat, era imigrante croata, que serviu no exrcito
britnico durante a Segunda Guerra Mundial. Educou os filhos sob
disciplina militar.
     A polcia tambm levantou os endereos dos irmos, e muitos deles
viviam em subrbios perto de Sydney, prximos aos locais onde os
mochileiros assassinados tinham pegado carona pela ltima vez.
     A ateno dos investigadores logo se prendeu nos dois irmos mais
velhos, Richard e Ivan. Ambos haviam trabalhado juntos numa empresa de
nome "Readymix".
     Em seus questionamentos na empresa, souberam que os irmos Milat
tinham trabalhado ali ao mesmo tempo. Ivan era trabalhador duro e
respeitado, enquanto seu irmo Richard era lembrado como meio louco e
imprevisvel.
     A ficha de trabalho dos dois homens foi requisitada. Na sua
conferncia, Richard estava trabalhando em cada ocasio pesquisada pela
polcia. O mesmo no acontecia com Ivan.
     A folha de servio de Ivan Milat mostrava que ele estava de folga em
cada ocasio em que houve um desaparecimento e morte de mochileiro. Ele
acabava de se tornar o suspeito n 1 da polcia.
Ivan Milat

     O detetive Wayne Gordon, responsvel por investigar a famlia Milat,
logo descobriu que Ivan era um trabalhador de estradas, vido caador, no
fumante e abstmio.
     Ao verificar seus antecedentes criminais, descobriu-se que havia sido
condenado por vrios crimes, e passado anos na priso. Nenhum de seus
crimes anteriores indicavam que ele se tornaria um serial killer.
     Gordon aprofundou sua pesquisa, e logo se arrepiou com o resultado:
em 1971, Ivan tinha dado carona para duas mochileiras, de Liverpool para
Melbourne. Foi acusado de estuprar uma delas. As duas garotas
testemunharam que ele estava armado com uma faca e carregava vrios
metros de corda no carro. Ivan Milat havia sido inocentado desse caso por
falta de provas.
     O suspeito foi colocado sob vigilncia durante as 24 h do dia, por uma
equipe de quatro policiais. Este esquadro ficou conhecido como "Dog
Squad", e no saa da cola de Milat nenhum segundo.
     Foram chamados o Dr. Rod Milton e o Dr. Richard Basham, psiquiatras,
alm de Robert Young, socilogo e analista de dados. Os investigadores
queriam saber qual era o motivo dos crimes.
     Todos os depoimentos j dados para a polcia foram examinados por
esta equipe. Um deles chamou a ateno do Dr. Basham: o de um homem
chamado Alex Milat. Ou aquele senhor tinha memria fotogrfica, para que
se lembrasse de tantos detalhes com perfeio, ou... teria participado dos
acontecimentos!
     O Dr. Basham tambm concluiu que mais de uma pessoa estava
envolvida nos assassinatos, talvez um irmo. Milton contou a teoria para o
detetive superintendente Clive Small, responsvel pelas investigaes,
dizendo a ele que os irmos Milat poderiam sair juntos para caar ou
praticar tiro ao alvo em latas e garrafas. Small logo se lembrou dos Milat que
Gordon estava investigando.
     O uso de um silenciador, comprovado pela balstica, fez com que os
dois doutores concordassem que aquele assassino vivia em um mundo de
fantasias. Tambm deduziram, pelo material estudado, que o criminoso
provavelmente possua uma motocicleta.
     Outra deduo era que o criminoso se considerava acima da lei.
     O Dr. Milton sugeriu que o criminoso no necessariamente morava na
floresta, mas devia ir at l com freqncia ou ter alguma propriedade
alugada naquela rea. Depois de estudar vrios mapas, deduziram que o
assassino provavelmente vivia no norte. O fato de que todas as vtimas
haviam sido vistas perto de Liverpool e que seus corpos foram encontrados
na Floresta de Belangalo corroborou essa teoria.
     Cada vez mais a famlia Milat se encaixava no perfil montado por
aqueles especialistas.
     Os investigadores conseguiram os registros de todos os carros que os
irmos Milat possuram no passado. Um dos veculos, um Nissan Patrol 4x4
que havia pertencido a Ivan Milat, foi localizado com o novo dono. Ele
mostrou  polcia uma bala encontrada embaixo do banco do motorista. Era
uma calibre .22, mais tarde analisada e anloga com as das caixas vazias de
balas encontradas nas cenas dos crimes.
     Tambm descobriram que eles tinham em seu nome uma pequena
propriedade a 37km de Belangalo.
     O detetive Gordon continuava a juntar evidncias, mas precisava de
alguma coisa que amarrasse todas elas, que colocasse Ivan Milat e seu
veculo na cena do crime.
     Em 13 de abril de 1994, Gordon encontrou o relatrio do telefonema de
Paul Onions, cinco meses antes, para a linha quente da polcia. Ao l-lo,
reconheceu em Paul uma testemunha com credibilidade suficiente e levou a
informao imediatamente para seu chefe, Clive Small.
     Este, ao perceber a importncia da evidncia perdida at ali, ficou
furioso. Pediu os originais do boletim de ocorrncia de Paul Onions da
delegacia de Bowral.
     Sabendo que os dois irmos Milat, Richard e Ivan, eram fisicamente
muito parecidos, checaram que, na data do ataque a Paul, Richard estava
trabalhando, mas Ivan estava de folga. Tambm descobriram que Ivan
estava trabalhando na rea de "Galston Gorge" quando a mochila de James
Gibson foi encontrada perto dali.
     Vrios colegas de trabalho de Ivan Milat foram entrevistados, e todos
contaram  polcia sobre seu interesse por armas. Um amigo dele, Tony Sara,
disse aos investigadores que Ivan tambm possua uma motocicleta, alm de
um verdadeiro arsenal de armas em sua casa. Ivan, em conversa com ele,
tambm tinha se referido de maneira estranha e misteriosa  Floresta de
Belangalo.
     No fim do ms de abril, a polcia contatou Paul Onions na Inglaterra,
pedindo que ele fosse at Sydney o mais rpido possvel.
     Ao chegar, mostrou aos investigadores todo o caminho que andou no
carro de seu agressor, alm do local onde havia escapado, que ficava
distante l,5km da entrada da floresta.
     No dia seguinte, 13 fotos numeradas de suspeitos foram mostradas a
Paul Onions. Ele separou duas, resolvendo-se depois pela de n 4: Ivan
Milat.
     Small tinha agora evidncias suficientes para prender Milat pelo ataque
a Paul Onions. Conseguiram um mandado de busca para a sua residncia,
para a de sua me e irmos, pois se suspeitava que ele no agia sozinho.
     A logstica para que todas as buscas dessem certo foi extremamente
complicada. Trezentos oficiais de polcia estariam envolvidos na caa, e para
que o sigilo fosse mantido, a maioria no foi informada do local e hora das
buscas.
     Como as horas de trabalho de Ivan no eram regulares, foi decidido
que sua casa seria vasculhada s 6h30min do dia 22 de maio de 1994, um
domingo.
     O Dr. Rod Milton instruiu o chefe das negociaes, Wayne Gordon,
para a rendio de Milat, sobre qual deveria ser a melhor maneira de
aproximar-se de Ivan, que seria contatado por telefone. Milton sugeriu que
Gordon usasse um tom de voz firme e autoritrio, pois acreditava que Milat
tentaria exercer o controle da situao.
     A turma de viglia na casa de Milat reportou  polcia que sua
namorada, Chalinder Hughes, tambm estava l dentro. O plano era pedir a
eles que calmamente viessem para fora, efetuar a priso e fazer a busca, tudo
nesta ordem.
     Precisamente s 6h36min, o time inteiro da polcia estava no local. O
detetive Gordon discou o nmero de telefone de Ivan Milat. Uma voz de
homem atendeu a chamada. Quando perguntado se quem falava era Ivan
Milat, o homem respondeu que... NO!!!
     Gordon confirmou o endereo. Estava correto. Apresentou-se, e avisou
ao homem que a polcia j tinha cercado sua casa, e que estavam de posse de
um mandado de busca, o qual pretendiam executar. Ele aconselhou a Ivan
que sasse com sua namorada, e se rendesse  polcia. Ivan murmurou
alguma coisa, e desligou o telefone.
     Depois de vrios minutos, nada havia acontecido. Gordon ento
telefonou novamente para Milat, perguntando por que no havia sado. Este
respondeu que tinha achado que aquilo era um trote. Gordon esclareceu que
nunca falara to srio em toda a sua vida.
     Alguns minutos depois, a porta da casa se abriu, e ele e a namorada se
entregaram para a polcia. Ivan foi algemado e informado de seus direitos. A
busca em todas as casas da famlia Milat teve incio.

A Busca

     O primeiro item encontrado na casa de Ivan foi uma bala, em um dos
quartos. A polcia perguntou a Ivan se ele possua armas de fogo. Ele negou.
Quando perguntado sobre a bala, disse que devia ser da ocasio em que
havia sado para atirar com o irmo.
     Os quartos foram vasculhados. No segundo quarto, dois sacos de
dormir estavam guardados no armrio. Depois, seriam identificados como
pertencentes a Simone Schmidl e Deborah Everist.
     Em outro quarto, uma bolsa contendo
vrios artigos pessoais parecia ser a maleta de
trabalho de Ivan. Ele confirmou. Na bolsa, foi
encontrada   uma    faca    "Bowie"    com   12
polegadas de comprimento.
     No mesmo local, havia um manual tcnico para a utilizao de uma
Ruger .22. Ivan recusou-se a comentar o achado.
     Havia tambm um lbum com fotografias bastante esclarecedoras: uma
delas mostrava Ivan em sua motocicleta, armado de sua Colt .45, mesma
arma descrita por Paul Onions.
     Mais tarde acharam uma caixa de munio para esta arma.
     Tambm havia uma foto de Chalinder Hughes, namorada de Ivan,
vestida com um top Benetton idntico ao que pertencia a Caroline Clarke.
     A prxima busca se deu na garagem, onde estava uma capa de saco de
dormir contendo uma barraca enrolada. Em volta dela, uma bandana roxa
idntica  que estava amarrada ao redor do crnio de Simone Schmidl.
Quando Milat foi questionado, disse nunca ter visto aquela barraca antes.
Dentro de uma fronha de travesseiro, encontraram faixas similares quelas
com que os corpos foram amarrados. Uma delas estava manchada de
sangue, que depois se comprovou ser de Caroline Clarke.
     Outro item encontrado foi o rifle Ruger .22. Ele estava desmontado,
escondido num poro de inspeo do telhado da garagem, juntamente com
uma revista sobre a arma.
     Milat foi levado para a delegacia de Campbelltown, onde foi
interrogado. O interrogatrio foi gravado em vdeo e udio, e durante todo o
tempo Ivan no cooperou em nada. Os trabalhos se encerraram uma hora
depois, e Ivan Milat foi acusado formalmente de roubo e tentativa de
homicdio de Paul Onions.
     As buscas na casa dos Milat continuaram. Foram encontradas, na casa
de Ivan, fitas eltricas, cabos e um saco de cordas azuis e amarelas,
semelhantes quelas encontradas na cena de um dos crimes. Outras partes
do rifle Ruger .22 tambm foram encontradas, alm de equipamentos de
camping e cozinha, pertencentes a Simone Schmidl.
     Conforme as buscas progrediam, mais e mais evidncias eram
descobertas: a cmara fotogrfica de Caroline Clarke, um cantil com um
nome apagado (Simi), uma arma Browning automtica, rifles, revlveres,
facas e uma incrvel quantidade de munio. Um dos objetos encontrados
que mais impressionou os investigadores foi uma espada curva de cavalaria,
provavelmente utilizada na execuo de Anja Habschied. A espada foi
encontrada trancada em uma vitrine na casa de Margaret Milat, me de Ivan.
     A balstica depois comprovaria que as balas extradas dos corpos das
vtimas procederam da Ruger de Milat.
     Na propriedade rural de Walter, foram encontradas armas e munio,
alm de partes do rifle de Ivan. Trs meses antes de ser preso, Ivan, Richard
e Walter teriam levado caixas de munio e revlveres da casa de Ivan em
Sydney para uma alcova escondida na casa de seu irmo. Tambm ali foi
encontrada uma mochila que pertencia a uma das vtimas. Quando
questionado, Ivan disse nada saber sobre aquela mochila, que nunca havia
visto aquele objeto. Walter alegou que a mochila veio com as caixas de
munio e armas trazidas da casa de Ivan.

O Julgamento

     Ivan Robert Marko Milat foi formalmente acusado pelo assassinato dos
sete mochileiros. Desconfia-se que, antes de mat-los, gostava de ca-los.
     A primeira testemunha a depor no julgamento do pior assassino da
histria da Austrlia foi Paul Onions, que identificou positivamente Ivan
Milat como o homem que o atacou.
     Depois disso, os pais de cada vtima foram chamados para subir ao
banco de testemunhas. Todos na corte se emocionaram ao ouvir os relatos
das ltimas vezes que aqueles pais viram seus filhos vivos.
     O jri foi levado para a Floresta Belangalo, a 100km de Sydney, para
que visse a cena dos crimes e conseguisse entender melhor todas as
evidncias que seriam expostas. Foram apresentadas ao jri, num total de
356, e centenas de fotografias foram explicadas em detalhes.
     Houve uma grande comoo quando o Dr. Bradhurst mostrou a
camiseta toda esfaqueada de Joanne Walters e a espada que provavelmente
decapitou Anja Habschied. A cabea de Anja nunca foi encontrada.
     Outro depoimento que chamou a ateno de todos foi o da ex-esposa
de Ivan, Karen Milat, divorciada dele desde 1989. Ela descreveu o ex-marido
como um homem atltico, que praticava halteres todas as noites, e que s se
separava de suas armas quando ia tomar banho. Ivan dormia com uma arma
debaixo do colcho, tinha outra sob o assento de seu carro e, at quando ia
ao cinema, usava uma arma enfiada na cala jeans ou nas botas. Ivan negou
essas declaraes, mas a mala descrita por Karen como aquela que ficava
embaixo da cama guardando a arma dele, foi trazida como prova. Era
idntica  descrio feita pela moa.
     Karen tambm descreveu o acusado como vido matador de cangurus,
coisa de que se orgulhava, tanto que chegou a lev-la junto com o filho Jason
para ver uma demonstrao de suas habilidades na mesma floresta em que
se deram os crimes. O que mais espantou Karen foi que Ivan no precisava
de mapas para andar nas trilhas internas da Floresta de Belangalo.
     A defesa tentou desesperadamente provar que o responsvel pelos
assassinatos no era Ivan, e sim Richard e Walter Milat. Estes teriam
"plantado" provas na casa do irmo para incrimin-lo.
     Doze semanas de julgamento, 145 testemunhas... a acusao terminou
de expor seu caso.
     A primeira testemunha de defesa a ser chamada foi o prprio Ivan
Milat. Ele negou cada acusao que lhe foi feita. Ao ser questionado sobre
como tantas evidncias foram parar em sua casa, Ivan respondeu que
algum pretendia fazer com que ele parecesse mau.
     Tambm foi chamada como testemunha a cunhada de Ivan, Carolynne
Milat. Ela havia alterado datas de fotos no lbum de famlia, para que
servissem de libi para o cunhado. As fotos em questo, em que Ivan
aparecia numa confraternizao familiar, tinham se dado na Pscoa de 1991.
Carolynne havia dito para a polcia que as fotos eram de 1992, para que Ivan
tivesse um libi na data do desaparecimento de Joanne Walters e Caroline
Clarke.
     Carolynne Milat tambm testemunhou sob juramento que Ivan teria
passado todo o dia 26 de janeiro de 1993 com a famlia. Era a data do
desaparecimento dos mochileiros alemes.
     Os irmos Milat eram to unidos, que trocaram seus nomes com
freqncia nas declaraes dadas  polcia e ao jri, confundindo a todos
com a inteno de beneficiar Ivan.
     Na 15a semana de julgamento, comearam os pronunciamentos finais.
Em 27 de julho de 1995, o jri considerou por unanimidade que Ivan Milat
era culpado.
     Ivan, que j havia ficado em completo silncio durante todo o
julgamento, no demonstrou qualquer emoo.
     Pelo ataque a Paul Onions, Milat foi condenado a seis anos de priso.
Pelos sete assassinatos, uma sentena de priso perptua para cada um
deles, ou seja, ficar preso at a sua morte.
     Foi levado para uma priso de segurana mxima em Maitland,
sudoeste de Sydney.
     Pareceu bvio at para o juiz que ele no teria cometido os crimes
sozinho. Existem mais de uma dzia de mochileiros australianos, japoneses
e europeus desaparecidos na mesma regio nos ltimos 15 anos.
     Diane Pennacchio, 29 anos, desaparecida depois de sair de um bar em
Camberra, teve seu corpo encontrado em 1991. A forma como estava
disposto era exatamente igual  de todas as vtimas de Ivan Milat: foi
esfaqueada, estava de bruos ao lado de um tronco de rvore cado, com as
mos atrs das costas. Um dossel triangular de gravetos foi construdo sobre
seu corpo, e sobre ele folhas de samambaia. Perto do corpo, foram
encontrados restos de uma fogueira feita de pedras formando um crculo
perfeito.
     Ivan Milat agia sozinho? Ser que algum dia se provar que um de seus
irmos era seu cmplice?
     Em 17 de maio de 1997, envolveu-se numa tentativa de fuga, e foi
transferido para a priso de Goulburn, local de segurana mxima ao lado
da Floresta Belangalo.
     At hoje ele alega ser inocente, e formou um grupo que luta pela sua
soltura junto ao governo australiano. Milat sempre declarou que fugir na
primeira oportunidade que tiver. A polcia ainda investiga se a famlia de
Ivan tomaria parte nessa investida.
     Parece impossvel para todos que apenas um homem conseguiria
dominar sempre duplas ou trios, como no caso dos mochileiros alemes. O
pai de Gabor chegou a declarar para a imprensa que achava difcil que
apenas um homem conseguisse dominar seu filho ao mesmo tempo que
subjugava Anja. Ele era bastante forte e bom de briga.
     A prova cabal contra Ivan nestes crimes foi seu reconhecimento por
Paul Onions, que o colocou na cena do crime e modus operandi similar. Todas
as outras provas so circunstanciais, e isoladamente talvez no o tivessem
condenado.
     Outro irmo de Ivan, Bris Milat, que se afastou da famlia, declarou
para a mdia que ningum pode imaginar a violncia de sua famlia. Ele
acredita que tenham matado pelo menos 28 mochileiros, mas no tem fatos
nem provas para fundamentar suas suspeitas.
     A polcia australiana ainda tenta obter provas que comprometam
Walter ou Richard Milat. Os seis fios de cabelo castanho-claro encontrados
nas mos de Joanne Walters foram examinados por laboratrios forenses, na
tentativa de extrair seu DNA e confront-los com os do suspeito. Quatro fios
foram danificados nessas tentativas, e agora a polcia espera que novas
tcnicas sejam desenvolvidas para testar os dois fios restantes sem o risco de
ficar sem provas.
     Muitos    mochileiros    que    viajavam    pela    Austrlia   continuam
desaparecidos. Ningum sabe o que teria acontecido a eles.
     Ivan Robert Marko Milat continua preso na Penitenciria de Segurana
Mxima em Goulburn, Austrlia.
     Em fevereiro de 2001, foi levado s pressas para o hospital da
penitenciria, depois de ter informado s autoridades que havia ingerido
lminas de barbear, grampos para papel e uma pequena corrente que unia
dois cortadores de unha.
     Em maio de 2001, engoliu uma mola da descarga da privada de sua
cela. Segundo Milat, estes atos de automutilao fazem parte de uma
campanha para que sua apelao seja ouvida pela Corte Superior da
Austrlia. J as autoridades da penitenciria Supermax, de Goulburn, acham
que o objetivo deste facnora  ser transferido para um hospital ou outra
penitenciria, o que facilitaria sua fuga. Esta teoria ganhou peso quando os
mdicos descobriram que Milat havia embrulhado as lminas de barbear
com plstico adesivo antes de engoli-las, e por isso no sofreu danos em seu
trato digestivo. O pior serial killer da Austrlia hoje varre o cho da cadeia e,
infeliz, tenta manipular o sistema penitencirio.
     Em novembro de 2002, processou o Estado por desrespeito  sua
privacidade ao permitir a publicao das fotos dos raios-x a que foi
submetido quando se automutilou. Por causa desse processo, discute-se
hoje, na Austrlia, at onde vo os direitos de quem cometeu assassinatos
to brutais.
     Em dezembro de 2003, Ivan Milat foi interrogado sobre o
desaparecimento de duas enfermeiras em 1980: Gillian Jamieson e Deborah
Balkan. Colegas de quarto, as jovens de 20 anos de idade desapareceram
depois de terem sido vistas saindo do Hotel Tollgate, em Parramatta,
Sydney. Elas estavam acompanhadas por um homem vestindo sujas roupas
de trabalho e usando chapu preto estilo caubi. Nessa poca, Milat usava
um chapu similar e trabalhava a menos de 2 quilmetros do local, no
Departamento de Estradas Principais, em funo braal.
     Milat tambm  o principal suspeito na morte de outro mochileiro,
Peter David Letcher, de Bathurst. Ele foi encontrado morto por tiro, na
Floresta Estadual de Jenolan, em 1988.
THEODORE BUNDY




O Cidado Acima de
 Qualquer Suspeita
                     THEODORE BUNDY

25 de Novembro de 1973 -- Seattle -- Washington

     Katherine Merry Devine, 15 anos,
foge de casa.  vista pela ltima vez na
Rua 73 pegando uma carona rumo ao
Oregon.
     Em 6 de dezembro de 1976, um
casal desfrutava de um passeio no
Parque McKenny, quando se deparou
com o que parecia serem os restos
mortais de uma pessoa. Chamou a
polcia. Depois de examinados pelos
mdicos legistas, Kathy Devine foi
identificada.
     Segundo o relatrio da autpsia,
morreu logo aps iniciar sua jornada. A
decomposio do corpo dificultou o estabelecimento da causa da morte, mas
evidncias sugerem que foi sodomizada e estrangulada. Tambm  possvel
que sua garganta tenha sido cortada.


4 de Janeiro de 1974 -- Washington

     Joni Lenz, 18 anos, dormia em seu quarto na casa que dividia com suas
amigas. At hoje no sabe o que a atingiu... foi abatida, ainda adormecida.
Suas companheiras estavam preocupadas. Joni nunca dormia tanto, parecia
ter perdido a hora. Entraram no quarto para acord-la e se depararam com
uma cena de horror: ela jazia sobre uma piscina de sangue, com a cabea e o
rosto extremamente machucados. Ao levantarem as cobertas, constataram o
pior... Joni foi espancada com o cano de metal retirado de sua cama, e que
agora estava enfiado pela sua vagina adentro. Em meio a gritos de susto e
desespero, as colegas chamaram uma ambulncia.
     Joni sofreu leses cerebrais severas e permanentes, que deixariam
seqelas pelo resto de sua vida. Os danos em seus rgos internos seriam
irreparveis. No se lembra de nada sobre o ataque. Sobreviveu.


31 de Janeiro de 1974 -- Seattle -- Washington

     Lynda Ann Healley, 21 anos, estava se especializando em psicologia na
faculdade WSU. Morava numa casa com quatro colegas da faculdade, e
mantinha a mesma rotina todos os dias: acordava s 5h30min, trabalhava,
estudava e voltava para casa. Era extremamente responsvel e cuidadosa.
     No dia 31 de janeiro, sua colega do quarto ao lado ouviu quando o
despertador dela comeou a tocar no horrio de sempre. Voltou a dormir. s
6:00, quando seu prprio despertador tocou, estranhou ainda estar ouvindo
o alarme do relgio da amiga. Entrou em seu quarto, e tambm achou
estranho encontrar a cama da amiga imaculadamente em ordem. Lynda
costumava arrumar sua cama s quando voltava para casa.
     Logo em seguida, o chefe de Lynda ligou para a casa dela. Onde estava
Lynda? Ela no tinha ido trabalhar. As garotas desceram no poro, e
encontraram a bicicleta da amiga encostada na parede, e a porta lateral da
casa destrancada. O que teria acontecido? Sempre saa de bicicleta, nunca
faltava no trabalho, sempre dizia aonde iria... resolveram esperar.
      noite, quando os pais de Lynda chegaram para o jantar que a filha
nunca fez, a concluso foi imediata: algo grave tinha acontecido. Chamaram
a polcia imediatamente.
     Ao revistar seu quarto, os investigadores levantaram o colcho da cama
da moa. Foi com espanto que se defrontaram com um travesseiro e lenis
empapados em sangue. Sua camisola, com sangue seco na gola, estava
enfiada no armrio. As roupas que tinha usado no dia anterior no estavam
ali. Nada que indicasse seu paradeiro ou o que quer que tenha acontecido foi
encontrado.
     Seu crnio foi localizado em 3 de maro de 1975, em Taylor Montain,
Washington. Tinha indiscutveis marcas de grave espancamento. O resto de
seu corpo jamais apareceu.


Primavera e Vero de 1974

     Sete outras garotas somem de repente e sempre de maneira
inexplicvel, nos estados de Utah, Oregon e Washington.
     Os casos se pareciam: todas elas eram estudantes universitrias,
brancas, magras, solteiras, cabelos repartidos ao meio e usando calas na
ocasio de seu desaparecimento. Todas sumiram durante a noite.
     Muitos colegas de faculdade das vtimas declararam, em seus
depoimentos, ter visto um estranho no campus da Universidade, de brao
ou perna quebrados. Aparentemente, ele andava carregado de livros e pedia
ajuda para jovens mulheres para lev-los at o carro.
     Outra testemunha disse ter visto um homem engessado pedindo ajuda
para consertar seu carro, que aparentemente no dava partida. O carro era
um "Fusca".
     Coincidentemente, nas proximidades das casas das vtimas, tambm
havia sido visto um homem com a perna ou brao engessados.


14 de Julho de 1974 -- Lake Sammamish State Park --
Washington
     Janice Ott, 23 anos, parecia ser bem mais jovem. Casada, afastada do
marido que trabalhava na Califrnia, estava triste no feriado pelas saudades
que sentia dele. Deixou um bilhete para sua colega de quarto, dizendo que
iria ao parque e voltaria s 16:00. Pegou sua bicicleta e foi pedalando ao
encontro da morte.
     Desapareceu sem deixar vestgios.
     As ltimas pessoas que viram Janice, um casal que fazia um
piquenique perto do lago, lembraram ter ouvido a conversa dela com um
homem de brao engessado. Ele apresentou-se como "Ted", e pediu ajuda
para colocar seu barco no carro.
     Ela concordou em ajud-lo...
     Denise Naslund, 18 anos, estudava para ser programadora de
computadores e trabalhava para sustentar seus estudos. Passava o dia 14 de
julho no mesmo parque que Janice Ott, com o namorado e sua turma. Num
dado momento, disse a eles que iria ao banheiro acompanhada de seu co. O
cachorro de Denise voltou sozinho para o local do piquenique. Ela nunca
mais retornou.
     Com a demora da moa, a polcia foi chamada e comeou a interrogar
vrias pessoas no parque. Duas mulheres contaram a eles que um homem
muito atraente, com um brao engessado, pediu ajuda a elas para colocar seu
barco no carro. Elas negaram. Denise, com toda a sua gentileza e bondade,
resolveu ajudar o "pobre homem"...
     Parte dos restos mortais das duas garotas foi encontrada em 6 de
setembro, nas proximidades do parque. Entre eles, dois ossos de coxa,
cabelos de vrias cores e tipos, dois crnios e uma mandbula.


18 de Outubro de 1974 -- Midvale -- Utah

     Melissa Smith, 17 anos, morava com os pais na minscula cidade
mrmon de Midvale. O chefe de polcia Louis Smith sempre advertia a filha
para que no falasse com estranhos, no pegasse caronas, no aceitasse
nenhum presente de quem no conhecesse, fazia prelees sobre a violncia
que via todos os dias nas ruas... nada disso foi suficiente para proteger sua
filha de um terrvel assassino.
     No dia de seu desaparecimento, Melissa tinha uma festa, mas antes
passou numa pizzaria para consolar uma amiga que tinha brigado com o
namorado. Ao sair dali, disse que iria at sua casa trocar de roupa e ir
finalmente para a festa. O pior pesadelo de seus pais foi transformado em
realidade. Nunca chegou em casa, nem na festa. Depois de intensa busca, o
corpo da menina morta foi encontrado perto do Summit Park, nas
Montanhas Wasatch, em 27 de outubro, nove dias depois de seu
desaparecimento.
     Sua cabea tinha sido gravemente espancada, talvez com algum tipo de
alavanca de metal. Seu corpo tambm foi espancado antes de sua morte. Foi
estuprada, torturada, sodomizada e estrangulada.
     A polcia inteira de Utah procurava freneticamente pelo assassino da
filha de um de seus membros. Estavam atentos para qualquer pista que
pudesse surgir.


31 de Outubro de 1974 -- Lehi -- Utah

     Laura Aime, 17 anos, desapareceu sem deixar pistas. Seu corpo foi
encontrado um ms depois nas Montanhas Wasatch. Sua face estava
completamente destruda, irreconhecvel. Estava nua, estrangulada depois
de espancada com algum tipo de taco de ferro. Tinha sido atacada
sexualmente.
     Os investigadores acharam que ela foi morta em outro local e depois
deixada ali. A quantidade de sangue na cena do crime no era compatvel
com os ferimentos da garota. Nenhuma evidncia foi encontrada.
     As semelhanas entre os assassinatos nos estados de Washington,
Oregon e Utah foram percebidas pela polcia de Utah. Os investigadores
trocaram informaes e concluram que os crimes estavam sendo cometidos
pelo mesmo homem. Mais um serial killer estava  solta.
                                Atravs das testemunhas que haviam visto
                           o homem engessado que disse chamar-se "Ted",
                           a polcia fez um retrato falado do suspeito e o
                           divulgou em toda mdia.
                                Desde 1969, Ted Bundy estava "casado"
                           com Meg Anders. Assim que Lynn Banks viu o
                           retrato falado do suspeito no jornal, reconheceu
                           nele o marido da amiga Meg. Contatou-a
                           imediatamente e, seguindo seus conselhos, Meg
procurou a polcia. Ela no foi a nica. Naquele outono de 1974, outras
pessoas reconheceram Ted Bundy como a pessoa retratada. Por ironia, todos
os depoimentos dados  polcia reconhecendo-o foram engavetados e
esquecidos.
     Aquele era um respeitvel cidado, e a polcia achou que ali deveria
haver algum engano: aquele homem estava acima de qualquer suspeita.


8 de Novembro de 1974

     Carol DaRonch, 18 anos, estava na livraria Waldens de um shopping
em Murray, escolhendo livros. Um estranho e bonito homem aproximou-se
dela, perguntando se ela havia estacionado seu carro perto da Sears. Ela
confirmou. Ele ento pediu o nmero da placa do veculo. Ela deu. Disse
ento que algum tentara arromb-lo no estacionamento. Prontificou-se a
acompanh-la at l para verificar se algo havia sido roubado. O suposto
"segurana" do local havia se identificado como "Oficial Roseland". Carol
no parou para pensar como ele a havia localizado, entre todas as pessoas do
shopping center.
     Foram juntos at o estacionamento, verificou-se tudo e disse ao homem
que nada faltava. O "Oficial Roseland" no ficou satisfeito. Queria
acompanh-la at a delegacia para que desse queixa do arrombamento. Este
era o procedimento padro, segundo ele.
     A moa, sem perceber nada de errado naquilo, concordou. O "Oficial
Roseland" achou melhor que seguissem em seu carro, para que nada sasse
do lugar, caso a percia quisesse averiguar o veculo. Ela novamente
concordou.
     Quando chegaram no fusca do oficial, Carol desconfiou. Pediu sua
identificao. Rapidamente, o "Oficial Roseland" mostrou-lhe um distintivo
dourado e entrou no carro com ela. Deu a partida e comeou a dirigir-se
para o lado oposto ao da delegacia. Carol ficou apavorada e, para piorar a
situao, o oficial tirou do bolso um par de algemas, e tentou prend-las no
pulso da garota. Ela reagiu. Comearam a lutar e gritar. Na confuso, o
homem prendeu as duas algemas no mesmo pulso de Carol, que silenciou
quando ele sacou um revlver e a ameaou de morte se continuasse a fazer
escndalo.
     Carol foi puxada para fora e ameaada com uma alavanca de metal. J
totalmente desesperada e sem alternativa, acertou o oficial entre as pernas
com seu joelho e saiu correndo como nunca... Um casal que vinha pela
estrada avistou a moa e parou o carro. Ela entrou o mais rpido que
conseguiu, gritando histericamente que tinham acabado de tentar mat-la.
     O casal levou Carol DaRonch para a delegacia mais prxima. Ela seria
uma das testemunhas mais importantes no Caso Ted Bundy. Ao chegar 
delegacia, Carol ainda soluava. Pendia de seu pulso o par de algemas
colocadas ali pelo manaco. Ela relatou todos os fatos aos policiais, mas
nenhum "Oficial Roseland" foi encontrado. Foram at o local de onde ela
escapara, mas estava tudo deserto. Quem quer que a tivesse atacado, j tinha
ido embora. Pegaram ento uma descrio do suspeito e de seu carro e, do
casaco da moa, uma amostra de sangue. Depois se constataria que o sangue
tipo "O" no era de Carol DaRonch. S podia ser do criminoso.
     Na mesma noite, Jean Graham estava dirigindo uma pea de teatro no
Viewmont High School, em Bountiful, Utah, quando foi abordada por um
bonito homem que lhe pediu ajuda para identificar um carro. Ela recusou,
dizendo estar muito ocupada. O homem voltou mais duas vezes, insistindo
em ser ajudado. Ela recusou novamente.
     Debby Kent, 17 anos, estava no teatro, assistindo  pea com seus pais,
mas teve que sair mais cedo para buscar seu irmo no boliche. Ela pediu aos
pais que a esperassem ali, pois em poucos minutos voltaria para peg-los.
Jamais chegou ao seu carro. A nica pista do desaparecimento foi
encontrada perto do veculo ainda estacionado na escola: uma pequena
chave de algemas. Por incrvel que pudesse parecer, aquelas chaves abririam
as algemas de Carol DaRonch.
     Durante as investigaes sobre o caso, um homem telefonou para a
polcia, dizendo ter visto um fusca sair em alta velocidade do
estacionamento do auditrio da escola, na noite do desaparecimento de
Debby.


12 de Janeiro de 1975

     Caryn Campbell, 24 anos, era enfermeira, e estava noiva de um
cardiologista nove anos mais velho do que ela. O Dr. Raymond Gadowski,
Caryn e os dois filhos dele viajaram para o Hotel Wildwood Inn, em Aspen,
Colorado. Como o Dr, Gadowski tinha um seminrio mdico naquela
cidade, todos aproveitariam a ocasio para tirar umas frias.
     No dia de seu desaparecimento, Caryn no estava exatamente feliz.
Tinha discutido com o noivo sobre a data do casamento, que ele parecia no
ter pressa em realizar. Enquanto estava ocupado no seminrio, Caryn e as
crianas esquiaram, apesar de ela estar comeando a ficar com gripe.
Jantaram com amigos e voltaram para o hotel. Na recepo, Caryn disse ter
esquecido uma revista no chal. Iria at l busc-la e voltaria em minutos. A
famlia cansou de esper-la. O noivo saiu em seu encalo, pensando que
talvez ela estivesse com algum mal estar por causa da gripe, mas o quarto
estava   vazio.   J   de   madrugada,   completamente    confuso    com   os
acontecimentos sem lgica, o Dr. Gadowski chamou a polcia. Caryn foi
procurada por todo o hotel, mas nenhum rastro dela foi encontrado.
     Pouco mais de um ms depois, em 18 de fevereiro, seu corpo foi
localizado em Owl Crrek Road, apenas a alguns quilmetros do Hotel
Wildwood Inn. Sua cabea havia sido espancada; ela havia sido estuprada e
cortada. Segundo os legistas, morreu logo aps ter desaparecido.
     Alguns dias depois, em 1 de maro de 1975, foi encontrado o crnio de
Brenda Carol Ball, 22 anos. Ela era uma das sete mulheres desaparecidas no
vero anterior. Num daqueles dias de vero, foi para um bar e ficou l at as
2:00 da madrugada. Sem ter como voltar para casa pediu carona para um
dos msicos da taverna em que estava, mas ele ia para outro lado. Foi vista
pela ltima vez falando com um homem no estacionamento de um bar em
Burien, Washington. Ele tinha o brao engessado.
     A causa de sua morte no era diferente: espancamento da cabea com
um objeto contundente.
     O local, Taylor Mountain, logo se constataria ser uma espcie de
cemitrio particular do assassino, quando mais quatro corpos foram
localizados nos dias posteriores.
     Lynda Ann Healley, 21 anos, desaparecida em janeiro de 1974: seu
crnio tinha indiscutveis marcas de grave espancamento, e somente esta
parte de seu corpo foi encontrada.
     Donna Gail Manson, 19 anos, desaparecida em maro de 1974 da
Faculdade Estadual Evergreen. Era uma flautista talentosa, apesar de fumar
maconha diariamente. Adorava aventurar-se por a pegando caronas, mas
ultimamente andava bastante deprimida e envolvida com histrias de
morte, alquimia e magia negra. Em 12 de maro, deixou seu quarto s 19:00 e
foi caminhando em direo a um concerto de jazz no campus. Nunca mais
foi vista. S foi confirmado que alguns ossos lhe pertenciam com a posterior
confisso de Bundy.
         Susan Elaine Rancourt, 19 anos, desaparecida em abril de 1974, da
Faculdade Estadual Central de Washington, Ellensburg. Era diferente das
outras vtimas por ser loira, no to magra e de olhos azuis. Era
extremamente tmida, aluna brilhante e tinha aspiraes no campo da
medicina.
         A famlia se mudou para o Alasca, mas Susan ficou para cursar a
CWSC32. Tinha hbitos rotineiros: corria todas as manhs e praticava carat,
para tentar melhorar do pavor que tinha do escuro. Jamais andava sozinha 
noite.
         No dia 17 de abril, chegou  concluso que j era hora de superar seus
temores. Depois de um encontro de conselheiros da Universidade, resolveu
ir s e a p encontrar um amigo com quem tinha combinado ir ao cinema. O
amigo viu o filme sozinho... Susan nunca mais foi vista. Somente seu crnio
foi encontrado, brutalmente fraturado.
         Roberta Kathleen Park, 20 anos, desaparecida em maio de 1974, da
Universidade Estadual do Oregon, em Corvalles. Era uma menina magra,
alta, com cabelos longos e acinzentados. Estava se formando em religies
mundiais. Saiu para ir ao dormitrio de amigos tomar um caf e nunca
chegou l.
         Somente os crnios das garotas foram encontrados em Taylor
Mountain, local que ficou conhecido como o cemitrio de cabeas de Ted
Bundy. Todas as vtimas haviam sofrido graves ferimentos na cabea,
causados por um instrumento contundente, possivelmente uma alavanca de
metal. Outras quatro mulheres foram mortas ou desapareceram no
Colorado, nesse ano.
         Julie Cunninghamm, 26 anos, bonita e agradvel, trabalhava numa loja
de equipamentos esportivos e era instrutora de esqui em Vail. Depois de um
fim de semana desastroso com um rapaz em quem depositava esperanas de

32
     Central Washington St. College.
ter uma relao mais sria, saiu para encontrar-se com sua colega de quarto
numa cantina. Esse encontro nunca ocorreu. Desapareceu em maro de 1975.
Seu corpo no foi encontrado.
     Denise Oliverson, 24 anos, desaparecida em abril de 1975, em Grand
Junction. Depois de uma briga com o marido, saiu pedalando sua bicicleta
em direo  casa dos pais. Nunca chegou l. Sua bicicleta e sandlias foram
encontradas perto de um viaduto. Seu corpo no foi encontrado.
     Melanie Cooley, 18 anos, desaparecida em abril de 1975, em Nederland.
Ela poderia ser irm gmea de Debby Kent, to grande era a semelhana
entre as duas. Desapareceu depois de sair da escola secundria. Foi atingida
na nuca com o que parecia ser uma alavanca de metal. Suas mos estavam
amarradas e ela foi enforcada com uma fronha.
     Shelly Robertson, 24 anos, desaparecida em julho de 1975, em Golden.
Gostava de viajar para outros estados de carona, por pura diverso. Quando
no apareceu no trabalho, todos pensaram que havia sado para outra
aventura. Seu corpo foi encontrado nu. A causa da morte foi impossvel de
ser determinada, devido ao estado de decomposio do corpo quando
encontrado, em uma mina na cidade de Berthoud Pass.


16 de Agosto de 1975

     O guarda rodovirio Bob Hayward trabalhava na Utah Highway.
Tinha orgulho de conhecer bem a vizinhana de seu local de trabalho. Neste
dia, percebeu um Fusca rodando perto de Salt Lake. Como no conhecia
ningum que tivesse um carro como aquele, resolveu segui-lo e par-lo para
uma verificao de rotina. Ao se aproximar do Fusca, o motorista apagou
todas as luzes do veculo, alm de aumentar a velocidade. Foi perseguido.
Quando conseguiu det-lo, o guarda Hayward pediu seus documentos:
tratava-se de Theodore Robert Bundy. Pediu que o homem descesse do
veculo, para examinar seu interior. Alarmou-se ao perceber que no havia
banco do passageiro, e encontrou uma alavanca de metal, uma mscara de
esqui, corda, algemas, arame e um picador de gelo. Bundy foi preso
imediatamente por suspeita de roubo.
     Ao ser fotografado na delegacia, os
policiais perceberam sua semelhana com o
suspeito que tinha atacado Carol DaRonch.
As algemas encontradas no carro de Bundy
eram do mesmo tipo e marca daquelas que
estavam no pulso de Carol, e o carro igual
ao descrito por ela. A alavanca de metal
encontrada no Fusca tambm era similar
quela descrita pela moa.
     Imediatamente ligaram o suspeito ao rapto de Melissa Smith, Laura
Aime e Debra Kent. Eram muitas as semelhanas entre os casos para que a
polcia os ignorasse.


8 de Outubro de 1975

     Carol DaRonch, Jean Graham e uma amiga de Debra Kent so levadas 
delegacia de Utah, onde fariam o reconhecimento do suspeito numa fila de
sete homens. Todas elas reconheceram Bundy sem piscar.
     Apesar de Bundy alegar sua inocncia incansavelmente, era difcil que
as trs moas estivessem enganadas. Comearam as investigaes sobre
Theodore Robert Bundy.
     Ted era bom aluno, charmoso, comum como o vizinho da porta ao
lado, ltima pessoa da qual algum suspeitaria.
     Era filho de uma jovem me solteira que sempre pensou ser sua irm
mais velha, e assim se referiu a ela durante toda a vida. Para ele, seus pais
continuariam a ser seus verdadeiros avs, que o adotaram para proteger a
reputao da filha.
     Seu av era excessivamente violento e batia na esposa freqentemente.
     Aos quatro anos, Ted e sua "irm" mudaram de cidade e de nome: ela
havia casado com Johnnie Culppeper Bundy, de quem o "irmo" adotaria o
sobrenome. O casal teve mais quatro filhos, dos quais Ted cuidou grande
parte de sua infncia. Apesar de todos os esforos do padrasto para cri-lo
como seu verdadeiro filho, este jamais o aceitou. Para ele, o pai sempre seria
o av, e jamais perdoaria o casal por t-lo separado da pessoa que mais
amava no mundo.
     Na adolescncia, j se viam seqelas emocionais refletidas em seu
comportamento: era tmido, infantil, solitrio e divertia-se mutilando
animais.
     Ted era alvo de chacotas na escola, mas as diversas humilhaes que
sofreu jamais o impediram de ser um aluno brilhante. Suas mdias escolares
eram altssimas. Seria lembrado como estudante muito bem educado e
elegante.
     No colegial, comeou a interessar-se por poltica. Foi para a
Universidade de Washington, onde comeou a estudar chins. Para
sustentar-se, trabalhava em diversas atividades, desde engraxate at
cobrador de nibus. Ted nunca parava muito tempo em um emprego;
alguns diziam que ele no era digno de confiana.
     Em 1967, iniciou um relacionamento que mudaria toda a sua vida.
Stephanie Brooks, a garota mais linda e "alta classe" que j conhecera,
concordou em sair com ele. Formavam um belo par. Adoravam esquiar
juntos, e o esporte acabou aproximando-os. Saam para jantar e chegaram a
fazer vrias viagens juntos. Ted estava cada vez mais apaixonado por
Stephanie, mas o inverso no era verdadeiro. Ela apreciava sua companhia,
mas queria outro tipo de homem para compartilhar o futuro. Em 1968,
depois de descobrir algumas mentiras para impression-la, Stephanie
rompeu o relacionamento. Ted jamais superaria a rejeio.
     Foi nesse mesmo ano que ele ficou sabendo quem eram seus
verdadeiros pais. Isso o perturbou ainda mais, tornando-o uma pessoa fria e
dominadora. Retomou seus estudos, graduando-se em psicologia com honra
ao mrito. Parece que tinha uma necessidade compulsiva de provar a
Stephanie que era o melhor.
         Conheceu Meg Anders, e, desta vez, era mais amado do que amava. A
mulher de sua vida continuava sendo Stephanie, com quem ainda mantinha
contato ocasionalmente, apesar de estar morando com Meg.
         Entre 1969 e 1972, a vida de Ted ia "de vento em popa". Comeou a
estudar Direito e a trabalhar em campanhas polticas para o Partido
Republicano, e tudo parecia estar dando certo. Cada vez obtinha mais
prestgio, e chegou a ser condecorado por salvar um menino de trs anos
que se afogava em um lago em Seattle.
         Em 1973, durante uma viagem para o Partido Republicano, Ted e
Stephanie se encontraram novamente, na Califrnia. Estava muito
diferente... mais maduro, cheio de autoconfiana... Stephanie se apaixonou
novamente. Continuaram a se encontrar sem que Meg soubesse, mas depois
de algumas semanas, sem nenhum motivo lgico, ele parou completamente
de procurar Stephanie. A vingana havia sido feita: rejeitou a mulher que o
havia feito sofrer tanto. Nunca mais Stephanie Brooks33 ouviria falar dele.


A Investigao

         A polcia no demorou em procurar Meg Anders. Com sua ajuda,
montaram o perfil do suspeito, seus hbitos e personalidade.
         Em muitas datas apresentadas a ela, as noites dos assassinatos, Ted no
estava em sua companhia. Meg contou que, habitualmente, ele dormia
durante o dia e saa  noite. Ela no sabia aonde ia.
         O interesse de Ted por sexo tambm havia minguado no ltimo ano.
Quando ela levantou o assunto com o parceiro, ele props que realizassem

33
     Stephanie Brooks -- pseudnimo.
suas fantasias de escravido. Quando Meg chegou  concluso que no
suportaria por muito tempo aqueles jogos, ele se descontrolou.
     Meg tambm contou aos investigadores que, em seus primeiros
encontros com Ted, notou que ele guardava em casa gesso para bandagens.
Em seu carro, certa vez, tambm chegou a ver uma machadinha. Lembrou-se
que Ted havia visitado Lake Sammamish Park em julho, onde supostamente
havia ido praticar esqui aqutico. Uma semana depois da sua estada
registrada no lago, Janice Ott e Denise Naslund foram declaradas
desaparecidas.
     Depois de muitas horas de interrogatrio com Meg, os investigadores
resolveram procurar Stephanie Brooks. Ela contaria a eles sobre seu caso
com Ted, e como ele mudara seu comportamento repentinamente.
     No demorou para que fizessem as contas, e concluram que Ted se
relacionou com Meg e Stephanie ao mesmo tempo, mas nenhuma sabia da
outra. Era uma vida dupla, cheia de mentiras e traies.
     Outras evidncias foram descobertas. Lynda Ann Heally foi ligada a
Bundy atravs de uma prima dele, amiga comum, alm do fato de fazerem
algumas aulas de psicologia juntos na Universidade de Washington;
testemunhas oculares o viram no Lake Sammamish Park quando do
desaparecimento de Janice e Denise; um amigo disse ter encontrado cintas-
liga no porta-luvas do carro dele; Bundy havia estado bastante tempo em
Taylor Mountain, onde os diversos crnios haviam sido encontrados. Sua
credibilidade j estava praticamente arrasada, quando foram descobertas
compras de gasolina em seus cartes de crdito nas mesmas cidades e datas
do desaparecimento de suas vtimas.
     Um amigo de Bundy deu o golpe fatal: disse t-lo visto engessado
numa poca em que no havia nenhum registro de sua passagem por
hospital. Bundy continuava a se declarar inocente.
     Em 23 de fevereiro de 1976, foi a julgamento pelo seqestro de Carol
DaRonch.
      Sentou-se tranqilamente na Corte, confiante de que seria inocentado
das acusaes. Acreditava no haver provas concretas, nem fortes evidncias
contra ele. Mas, quando Carol contou sua histria e reconheceu Bundy como
o "Oficial Roseland", em meio a soluos, as coisas comearam a ficar mais
difceis para o acusado.
      Ele no tinha libi para essa noite, apesar de continuar alegando
inocncia.
      O juiz passou o fim de semana estudando o caso antes de dar um
veredicto: culpado por seqestro com agravantes. Theodore Bundy foi
sentenciado a 15 anos de priso, com possibilidade de condicional. Passou
ento por uma avaliao psicolgica34. Concluram que ele tinha uma forte
dependncia por mulheres e medo de ser humilhado em seu relacionamento
com elas.
      Enquanto estava detido na Priso Estadual de Utah, os investigadores
tentavam coletar provas que o ligassem aos assassinatos de Caryn Campbell
e Melissa Smith. Fios de cabelo encontrados em seu Fusca foram examinados
por peritos do FBI, que concluram que eram similares aos cabelos das
vtimas. As marcas de ferimentos deixadas na cabea de Caryn tambm
combinavam perfeitamente com a alavanca de metal retirada do carro de
Bundy. Em 22 de outubro de 1976, ele foi formalmente acusado pelo
assassinato de Caryn Campbell, no Estado do Colorado.


1977

      Em abril desse ano, Ted foi transferido para aguardar julgamento.
Estava comeando a ficar insatisfeito com seus advogados e demitiu todos
de uma s vez. Acreditava que, como advogado, ele prprio poderia fazer a
melhor defesa.

34
   Segundo o livro de Anne Rule, The Stranger Beside Me, no relatrio final constava que ele era
"psictico, neurtico, vtima de doena cerebral orgnica, alcolatra, viciado em drogas e sofredor de um
tipo de amnsia".
         Depois de marcado o julgamento para 14 de novembro, Ted foi
liberado para utilizar-se da Biblioteca de Aspen, com o objetivo de
pesquisar.
         Em 7 de junho, durante suas pesquisas na Biblioteca, Bundy pulou uma
janela aberta. Torceu o tornozelo, mas conseguiu sair livre. Como no usava
algemas, foi fcil misturar-se entre as pessoas de Aspen sem levantar
suspeitas.
         A polcia procurou-o pela cidade inteira. At
cachorros foram utilizados na tentativa de seguir
seu rastro, mas ele no foi encontrado.
         Durante dias, Ted viveu da comida que roubou
de cabanas locais e prximas a acampamentos.
Chegou a dormir em algumas delas, abandonadas.
Num certo dia, deparou-se com um carro com a
chave no contato. Entrou e tentou sair de Aspen,
mas foi preso na tentativa, seis dias aps sua fuga.
         Agora, usava algemas nos ps e nas mos quando ia pesquisar na
biblioteca da cidade.
         Em 30 de dezembro, Ted fugiu novamente. Arrastou-se pelo forro do
teto da "Garfield County Jailiand"35 at outra parte do edifcio. Procurou
com cuidado uma sada, e encontrou-a no interior do armrio do
apartamento do carcereiro. Sentou-se ali mesmo, e esperou pacientemente,
at ter certeza de que no havia ningum ali. Saiu andando pela porta da
frente.
         Sua fuga s foi descoberta na tarde do dia seguinte, mais de 15 horas
depois, o que lhe deu uma boa dianteira. Quando a polcia comeou a se
movimentar, Bundy j estava a caminho de Chicago.




35
     Priso onde estava aguardando julgamento.
1978

         Em janeiro, depois de um longo caminho, Bundy chegou  Flrida.
         Adotou o nome de Chris Hagen e alugou um apartamento de um
quarto em Tallahassee. Nesta cidade, ningum sabia nada sobre ele ou seu
passado.
         Bundy ficava a maior parte do tempo andando pelo campus da
Universidade Estadual da Flrida, muitas vezes participando de aulas como
ouvinte.
         Roubar tambm fazia parte da sua rotina. Desse modo, adquiria cartes
de crdito, e com eles comprava desde aparelhos eletroeletrnicos at
comida.
         Sbado. Madrugada. O namorado de Nita Neary a deixava na porta da
Fraternidade, depois de uma festa. Ao chegar na entrada, Nita estranhou ao
ver a porta aberta. Entrou com cuidado e assustou-se ao ouvir passos no
andar de cima. O som ficava mais alto. Algum estava descendo as escadas
apressadamente, aproximando-se de onde ela estava.
         Sem perder tempo, Nita escondeu-se atrs de uma porta, fora de vista.
         No escuro, viu um homem com um gorro de tric puxado sobre os
olhos, segurando na mo um pedao de pau com roupas enroladas nele. O
estranho que veio correndo escada abaixo saiu pela porta aberta.
         O primeiro pensamento de Nita foi que a Fraternidade havia sido
assaltada. Subiu correndo e acordou sua companheira de quarto, Nancy
Dowdy. "Acorda, Nancy, algum assaltou a gente e saiu correndo do
edifcio. Vamos buscar ajuda!".
         No caminho para o quarto da supervisora36, depararam-se com outra
colega, Karen Chandler. Ela estava cambaleando no hall de entrada, sua
cabea banhada de sangue... Seus dentes estavam quebrados, sua mandbula
e crnio fraturados, tinha vrios cortes no corpo e um dedo esmagado.

36
     Em ingls, "housemother".
     Enquanto Nancy parou para ajudar Karen, Nita foi at o quarto da
supervisora. Juntas, foram averiguar as outras colegas.
     A primeira vtima que encontraram foi Kathy Klein. Estava viva, mas
em pssimo estado. Sangue em abundncia saa de ferimentos em sua
cabea. Tinha laceraes e furos por toda a face, seus dentes estavam
quebrados (perdeu-os permanentemente), a mandbula fraturada em trs
locais e tinha a marca de uma chicotada no pescoo.
     Completamente histricas, gritaram por Nancy, que saiu correndo para
chamar a polcia.
     Os policiais no demoraram a chegar. Entraram com cuidado na
Fraternidade, mas o estrago j havia sido feito: Lisa Levy e Margaret
Bowman jaziam sem vida em suas camas. Algum as havia atacado
enquanto dormiam.
     Os legistas responsveis pelas autpsias constataram que Lisa havia
sido espancada na cabea com um pedao de pau. A clavcula esquerda
estava fraturada. Foi estuprada e estrangulada.
     Encontraram tambm marcas de mordidas na sua ndega esquerda e
mamilo direito. Na verdade, seu mamilo foi to mordido que estava pratica-
mente descolado do seio. Dentro da vagina da garota, encontraram um
frasco de spray para cabelo da marca Clairol.
     O corpo de Margaret Bowman mostrava que ela havia sofrido os
mesmos tipos de ferimentos fatais de Lisa, mas no tinha sido estuprada ou
mordida. Foi estrangulada com uma cinta liga, encontrada mais tarde na
cena do crime. Sua cabea foi to gravemente espancada, que parte de seu
crebro ficou exposta. Nem Lisa nem Margaret mostravam sinais de luta
com seu agressor.
     As entrevistas com as sobreviventes no ajudaram as investigaes.
Nenhuma das garotas se lembrava de nada, pois estavam dormindo quando
as amigas foram atacadas. A nica testemunha ocular era Nita Neary, que
tinha visto apenas o perfil do criminoso.
     A um quilmetro dali, Debbie Ciccarelli foi acordada por barulhos
repetitivos no apartamento vizinho. Como os sons no cessavam, acordou
sua colega Nancy Young e foram at a porta ao lado, onde morava Cheryl
Thomas. Passaram a ouvir gemidos. Telefonaram para a vizinha, mas
ningum atendeu a ligao. Chamaram a polcia, que chegou em segundos,
pois estavam ainda na Fraternidade.
     Entraram apressadamente no apartamento de Cheryl. Ela estava
sentada na cama, consciente, nua e viva..., isto , quase viva.
     Seu rosto estava prpura de tantas contuses, completamente inchado
e com graves ferimentos na cabea. Seu crnio havia sido fraturado em cinco
lugares, causando permanente surdez no ouvido esquerdo. Seu ombro
esquerdo foi deslocado, sua mandbula, quebrada e seu oitavo nervo
craniano ficou to danificado que Cheryl jamais conseguiu se equilibrar
normalmente outra vez. Ao p da cama, uma mscara.
     Os   investigadores    trabalharam    exaustivamente     na   procura   de
evidncias. Conseguiram extrair amostras de sangue e esperma do
criminoso, alm de algumas digitais borradas.
     Apesar do esforo, as provas ainda no eram conclusivas. O melhor
material que tinham eram os cabelos na mscara encontrada, a impresso
dos dentes na pele de Lisa Levy e o testemunho de Nita Neary.


A ltima Vtima

     9 de fevereiro de 1978. A polcia de Lake City recebe um telefonema
desesperado dos pais de Kimberly Leach, 12 anos. Estavam histricos com o
desaparecimento da menina.
     Kimberly havia sumido da porta da escola, e a ltima pessoa que a
tinha visto era a colega Pricilla Blakney. Ela viu Kim entrando no carro de
um estranho, mas no lembrava de detalhes sobre o carro ou o motorista.
     O corpo de Kim foi encontrado oito semanas depois, no Parque
Estadual Suwannee, Flrida. Estava em adiantado estado de decomposio.
     Dias antes do desaparecimento de Kimberly, um homem aproximou-se
de Leslie Parmenter, 14 anos, enquanto ela esperava que o irmo viesse
busc-la na escola. Ele guiava uma van branca. Disse ser do corpo de
bombeiros e perguntou se ela estudava na escola ao lado.
     Leslie achou estranho que o bombeiro estivesse  paisana. Filha de um
chefe de detetives da polcia de Jacksonville ouviu a vida inteira
recomendaes de no conversar com estranhos. Resolveu no responder ao
homem. Seu irmo chegou logo. Ela entrou no carro e foi embora, no sem
antes marcar num papel a placa do carro do desconhecido. Contaram a
histria ao pai e entregaram a ele os dados sobre o carro.
     Ao checar a placa da van, o detetive James Parmenter soube que o carro
pertencia a Randall Ragen. Decidiu fazer uma visita a ele.
     Ragen contou ao detetive que suas placas haviam sido roubadas, mas
que j providenciara outras.
     No satisfeito, Parmenter no demorou a descobrir que a tal van era
roubada. Resolveu levar os filhos at a delegacia e mostrar-lhes fotografias
de procurados. A fotografia de Bundy estava entre elas, e os dois irmos o
reconheceram imediatamente.
     Assustado com a visita do detetive, Bundy no perdeu tempo em
livrar-se da van e roubar outro carro, um Fusca. Desta vez, iria para
Pensacola, Flrida.


A Priso

     O Oficial David Lee patrulhava a rea de Pensacola Oeste h anos, e
conhecia a maioria dos moradores dali. Quando viu um Fusca cor-de-laranja
rodando ali s 22 horas, resolveu verificar a placa do carro. Logo soube que
se tratava de veculo roubado. Ligou as luzes da radiopatrulha e comeou a
seguir o suspeito.
    Ao alcan-lo, pediu ao motorista que descesse do veculo com as mos
 vista. Para surpresa de Lee, quando foi colocar as algemas nele, houve
reao e teve incio uma luta fsica. O suspeito conseguiu livrar-se do
policial, e saiu correndo. Lee, sem perda de tempo, sacou seu revlver e
atirou. Aparentemente atingido, o fugitivo caiu no cho. Ao chegar perto
dele, Lee foi atacado novamente, mas desta vez estava preparado e dominou
o homem rapidamente. Algemou-o e levou-o para a delegacia. Ted Bundy
estava preso novamente.
    Nos meses que se seguiram, os investigadores trataram de juntar
evidncias contra Bundy no caso Leach. A van branca roubada foi localizada
e trs testemunhas haviam-no visto dirigindo aquele carro na tarde do
desaparecimento de Kimberly. Testes forenses feitos no carro constataram
fibras das roupas de Bundy.
    Os testes tambm revelaram sangue do mesmo grupo sangneo de
Kimberly no tapete do veculo, alm de smen do tipo sangneo de Bundy
nas roupas de baixo encontradas ao lado do corpo da menina. Pegadas que
combinavam exatamente com os sapatos do suspeito tambm deixaram suas
marcas no solo da cena do crime.
    Em 31 de julho de 1978, Theodore R. Bundy foi formalmente acusado
do assassinato de Kimberly Leach. Logo depois, foi acusado tambm pelas
mortes de Lisa Levy e Margaret Bowman, da Fraternidade Chi Omega.


O Julgamento

    Durante o julgamento pelos assassinatos das meninas da Fraternidade
Chi Omega, Ted Bundy defendeu-se sozinho. Confiava na prpria
habilidade   para   convencer   o   jri   de   sua   inocncia,   mas   estava
completamente enganado: os testemunhos de Nita Neary, que o reconheceu
como o homem que descia as escadas da Fraternidade com um pedao de
pau na mo, e do odontologista Dr. Richard Souviron destruram suas
mentiras.
     Enquanto depunha, o Dr. Souviron descreveu as marcas de mordidas
encontradas no corpo de Lisa Levy, e mostrou fotografias em escala natural,
tiradas na noite do assassinato. As fotos foram comparadas com moldes
odontolgicos de Bundy, e combinavam nos mnimos e nicos detalhes.
Para ele, no havia nenhuma dvida de que o autor daquelas mordidas em
Lisa era o ru.
     O seguinte processo forense foi utilizado para provar que a mordida no
corpo da vtima era de Ted Bundy:




     O maior problema desta anlise odontolgica  que havia, no caso,
duas mordidas no mesmo local do corpo. Isso dificultou os trabalhos
forenses, pois cada uma das mordidas tinha que ser "separada" para uma
anlise independente, e cada arcada e seus respectivos dentes tinham que
ser definidos.
     Neste caso, as duas mordidas no eram concntricas.
     Foi utilizado um processo em que as marcas de mordida foram
fotografadas em duas transparncias separadas e sobrepostas. Sobre a
primeira transparncia, atravs de desenho  mo, foi dado "volume" aos
dentes frontais da arcada inferior de Bundy.
     Na segunda transparncia, foi desenhada a borda dos dentes de Bundy.
         Os argumentos de Ted Bundy, confrontados com esta exata prova
conectando-o ao crime, destruram sua defesa
         Em 23 de julho de 1979, depois de quase sete horas de deliberao, o
jri considerou Ted Bundy culpado. O ru ouviu seu veredicto de culpado
em todas as acusaes sem o menor sinal de emoo.
         Tambm foi considerado culpado dos ataques contra Kathy Kleiner e
Karen Chandler.
         Em 31 de julho de 1979, foi condenado  morte em cadeira eltrica.
         Em 7 de janeiro de 1980, iniciou-se o terceiro e ltimo julgamento,
agora pelo assassinato de Kimberly Leach.
         Novamente foi considerado culpado e condenado  morte em cadeira
eltrica. Desta vez, perdeu a pose!
         Com o tempo, confessaria ter assassinado 28 mulheres, mas acredita-se
que matou muito mais gente.
         Depois de muitas apelaes, Theodore Bundy foi eletrocutado em 24 de
janeiro de 1989, aos 42 anos. Na sua ltima refeio, comeu um fil, ovos,
pur de batatas e caf.
         Suas ltimas palavras foram dirigidas  sua me. Ele desculpou-se por
ter infligido a ela esta dor, e disse que um lado seu estava escondido todo o
tempo. Do lado de fora, uma multido gritava "Frite, Bundy, Frite!" e "BBQ
Ted"37. Em Tallahassee e Jacksonville, os habitantes se levantaram na hora
da execuo para acender uma vela em comemorao  sentena justa para o
homem que matou vrias de suas meninas.

37
     BBQ -- barbacue -- churrasco.
     Por ironia, foi uma mulher que abaixou a chave que ligou a cadeira
eltrica e deu fim  vida do assassino.


Comentrio Final

     Psicopatas so mentirosos crnicos. Ted Bundy no era uma exceo.
Sua vida era uma farsa e, apesar de ter matado inmeras mulheres, foi capaz
de manter um longo relacionamento ntimo com Meg Anders, ajudando-a a
criar sua filha.
     Ted trabalhava tambm em um centro de atendimento a suicidas, como
aqui no Brasil, o Centro de Valorizao da Vida -- CVV, onde o staff chegou
a provoc-lo por sua semelhana com o retrato falado de "um serial killer".
Ningum pensou, por um s momento, que aquele voluntrio que j tinha
salvado tantas vidas pudesse ser um assassino.
     Bundy tambm trabalhou em muitas campanhas polticas para o
Partido Republicano, nas quais muitos achavam que ele prprio seria
candidato a governador algum dia.
     Enganou a todos em sua volta. No fim, alegava ter se convertido ao
cristianismo e se arrependido de seus pecados, mas foi executado sem contar
a ningum a localizao dos corpos de algumas de suas vtimas.
     Os pais delas no conseguiram jamais acreditar em sua regenerao,
pois nunca puderam enterrar os corpos de suas filhas queridas.
     Bundy disse aos mdicos que sua raiva pelas mulheres foi causada por
sua me, que tinha a mesma aparncia das vtimas quando era jovem. Os
testes psicolgicos revelaram que Ted Bundy tinha uma personalidade
prpria     dos    esquizofrnicos:   mudanas   de   humor      repentinas,
impulsividade, falta de emoes, necessidade de aparecer, ataques de
histeria, dupla personalidade, depresso, complexo de inferioridade,
imaturidade, mentiras nas quais acredita, obsesso, egocentrismo, adaptao
de falsa realidade, mania de perseguio.
      Em seus depoimentos, contou que estrangulava suas vtimas olhando-
as nos olhos. Depois, com a ajuda de uma serra de metal, desmembrava seus
corpos pelas juntas e decepava-as.
      Cortava tambm suas mos, e como souvenir, guardava-as numa sacola
que carregava consigo por dias. Isso o fazia sentir-se poderoso e fora do
alcance da polcia.
      Segundo algumas fontes, Bundy guardava as cabeas das vtimas em
sua casa, at que incinerava os crnios na lareira e aspirava as cinzas.
      Vestia-as com roupas de sua escolha depois de mat-las, e chegou-se a
dizer que comia suas carnes.
      Para enganar jovens inocentes, alm do gesso, fingia mancar e adotava
vrios sotaques diferentes. Chegou a manter uma delas com ele durante
nove dias.
      Casou-se com Carol Boone e teve um filho, enquanto esperava sua
execuo no corredor da morte.
      Confessou 11 assassinatos no Estado de Washington, 8 em Utah, 3 no
Colorado, 2 no Oregon, 3 na Flrida, 2 em Idaho e 1 na Califrnia.
      Sua frase mais famosa?

      "Ns, serial killers, somos seus filhos, ns somos seus maridos, ns estamos
      em toda a parte. E haver mais de suas crianas mortas no dia de amanh.
      Voc sentir o ltimo suspiro deixando seus corpos. Voc estar olhando
      dentro de seus olhos. Uma pessoa nesta situao  Deus!... "38

      Ted Bundy ficou conhecido como o "Picasso" dos serial killers.


Outras Vtimas

      BRENDA BAKER: 15 anos, desaparecida em 25 de maio de 1974,
quando fugia de sua casa em Redmond, Washington. Seu corpo foi

38
  "We serial killers are your sons, we are your husbands, we are everywhere. And there will be more of
you children dead tomorrow. You feel the last bit of breath leaving their body. You're looking into their
encontrado em 17 de junho daquele mesmo ano, em Millersylvania Park. Por
causa do estado de decomposio do corpo, no foi possvel determinar a
causa da morte.
       GEORGEANN HAWKINS: 18 anos, desaparecida em 10 de junho de
1974, em Seattle, Washington. Estudava na Universidade de Washington,
onde era uma aluna brilhante e sempre preocupada com seu desempenho.
Foi a uma festinha num outro dormitrio, mas saiu cedo porque tinha que
estudar para a matria onde encontrava muitas dificuldades: espanhol.
Passou no dormitrio do namorado para pegar algumas anotaes de que
precisaria e saiu dali em direo ao seu prprio dormitrio, que ficava
apenas seis casas adiante. No caminho, parou para conversar com um amigo
que estava na janela. Mais adiante, ainda encontrou dois outros colegas, que
a viram dobrar a esquina. S faltavam 40 passos para chegar em casa. A
monitora da casa em que morava lembra-se de ter ouvido um grito, mas
achou que eram estudantes fazendo farra na rua. s 2:00 da manh, sua
colega de quarto estranhou que ela ainda no tivesse voltado e ligou para o
namorado dela. Ele foi at l, no entendia sua demora. Esperaram at de
manh, mas Georgeann no apareceu. Chamaram a polcia, que agiu com
rapidez, pois vrios casos como aquele estavam acontecendo naquela regio.
Nada foi descoberto.
       Bundy confessou seu assassinato pouco antes da execuo. Contou que
pediu a ela que o ajudasse a carregar sua pesada pasta at o carro, pois
estava com o brao engessado. Ao chegar, ele a "apagou", arrumou-a no
banco e saiu dali. Ela voltou a si antes que ele a matasse e, em sua confuso,
achou que o tivessem mandado para ajud-la em seu teste de espanhol do
dia seguinte. Ele a "apagou" novamente, recostou o banco e estrangulou-a.
Antes de ser executado, disse que seus restos faziam parte daqueles
encontrados perto do Lago Sammamish, em 6 de setembro de 1974.
       NANCY BAIRD: Utah. A jovem me de 23 anos desapareceu do posto

eyes. A person in that situation is God!..."
de gasolina em que trabalhava, em julho de 1975.
     NANCY WILCOX: Utah. Lder de torcida, esta jovem de 16 anos foi
vista pela ltima vez em outubro de 1974, num Fusca.
     SUE CURTIS: Utah. Esta menina de 15 anos desapareceu de uma
conferncia para jovens, em 28 de junho de 1975. Seu corpo jamais foi
encontrado. Bundy confessou t-la assassinado.
     DEBBIE SMITH: 17 anos, Utah. Desaparecida em fevereiro de 1976.
     RITA LORRAINE JOLLY: 17 anos, Oregon.
     VICK LYNN HOLLAR: 24 anos, Oregon.
     LYNETTE CULVER: 13 anos, Idaho.


Casos no Resolvidos

     Os casos de homicdio descritos a seguir so supostamente obra de Ted
Bundy, mas ele nunca os confessou. Todos tm muita semelhana com seu
modus operandi e "assinatura". Em muitos, ele estava perto dos locais dos
crimes quando aconteceram e sempre em pocas de grande stress em sua
vida pessoal. Coincidncia? Ted Bundy levou esse segredo para o tmulo.
     Anne Marie Burr, 9 anos. Desapareceu em agosto de 1961, em Tacoma,
Washington. Sua casa ficava a apenas 10 quarteires do garoto Ted Bundy,
ento com 15 anos, e o seguia por toda a parte. Acordou numa certa noite
para dizer aos pais que sua irm no estava se sentindo bem, e supostamente
voltou para a cama. No dia seguinte, tinha sumido para sempre. A janela
que dava para a frente da casa estava totalmente aberta.
     Lonnie Trumbell, atacada em 23 de junho de 1966, em Seattle,
Washington. Foi brutalmente espancada juntamente com sua colega de
quarto. No sobreviveu ao ataque.
     Lisa Wick, atacada em 23 de junho de 1966, em Seattle, Washington.
Era aeromoa da United Airlines. Foi brutalmente atacada com selvageria, e
s sobreviveu, provavelmente, porque dormia com os cabelos enrolados em
grandes "bobbies" de espuma.
     Rita Curran: assassinada em 19 de julho de 1971, em Burlington,
Vermont. Esta tmida moa tinha longos cabelos escuros, era professora de
crianas deficientes, e, nas frias, trabalhava como arrumadeira num hotel
vizinho  casa onde Ted Bundy nasceu. Seu corpo nu foi encontrado por sua
colega de quarto. Ela foi gravemente espancada, estrangulada e estuprada.
     Ao escrever a histria de Ted Bundy, notrio serial killer no mundo
inteiro, iniciei o captulo com o assassinato de Katherine Devine.
     Em 2002, quase trinta anos depois de seu assassinato e treze anos
depois da execuo do seu suposto assassino, esta vtima foi oficialmente
retirada da lista de pessoas mortas por Bundy.
     Exames de DNA efetuados em amostras de smen guardadas por trs
dcadas ligaram o crime a outro condenado, William E. Cosden Jr., 55 anos.
Cosden foi condenado em 1976 e cumpria sentena de 48 anos por estupro,
em Washington. Em 1967, j havia sido internado em um hospital
psiquitrico depois de ter assassinado outra mulher em Maryland, mas foi
liberado alguns anos depois. Foi o principal suspeito nas investigaes do
caso Devine, mas, na poca, foi liberado por falta de provas. Theodore
Bundy jamais confessou ter assassinado a moa.
     Em 31 de julho de 2002, William E. Cosden Jr. foi considerado culpado
pelo assassinato de Katherine Merry Devine, com a recomendao do juiz
para que nunca seja solto.  mais um caso de assassinato brutal resolvido
com evidncias irrefutveis providas por teste de DNA.
JEFFREY DAHMER




 O Mais Famoso
Canibal Americano
               JEFFREY LIONEL DAHMER

Maio de 1991
     Sandra Smith e Nicole Childress,
primas, estavam conversando na rua
em que moravam. De repente, um
garoto surge do nada, completamente
nu   e   sangrando.    Parecia    estar
desorientado, e as duas meninas, sem
demora, chamaram a polcia.
     Quando chegaram, os policiais se
depararam     com     uma     acalorada
discusso entre Sandra, Nicole e um
homem branco, de boa aparncia, que
alegava ser amante do garoto, que
ouvia tudo de forma aptica e ainda
estava nu. Os policiais envolveram o rapaz numa manta, e tentaram ouvir
sua verso da histria, mas no conseguiam entender uma palavra do que
ele falava. Parecia estar drogado ou bbado. Seu suposto "amante" dizia que
ele tinha 19 anos e mal falava ingls, que haviam tido uma briga, mas agora
ficaria tudo bem.
     As garotas estavam inconformadas. Tinham visto o garoto asitico
resistir com terror ao homem que dizia ser seu namorado. A polcia estava
ignorando completamente o depoimento das duas, em favor daquele
homem loiro que falava de modo coerente e calmo.
     Para que qualquer dvida fosse dissipada, os oficiais resolveram
acompanh-lo e seu "amante" at o apartamento dele. Sentiram um cheiro
esquisito depois que a porta foi aberta, mas tudo parecia estar muito bem
arrumado. A roupa do garoto estava dobrada sobre o sof, e havia duas
fotos dele vestindo apenas uma cueca preta.
     O menino sentou-se no sof, incapaz de falar com coerncia. No estava
claro se ele estava entendendo a explicao que estava sendo dada  polcia.
O loiro se desculpou por seu "amante" ter causado tanta confuso, e
prometeu que isso no se repetiria.
     A polcia acreditou... no havia nenhum motivo para que duvidassem
da histria. O homem falava bem, era inteligente e bastante calmo. O asitico
estava aparentemente bbado e incoerente. Resolveram no se intrometer no
que parecia ser uma briga de um casal homossexual e deixaram a casa sem
maiores verificaes.
     Se tivessem entrado no apartamento, os policiais teriam visto o corpo
de Anthony Hughes, decompondo-se h trs dias na cama de casal do
quarto principal.
     Assim que o loiro fechou a porta, estrangulou o garoto asitico e fez
sexo com seu cadver. Os policiais no ficaram para v-lo fotografar o corpo
j sem vida, seu esquartejamento e o escalpamento de seu crnio,
transformando-o num trofu.
     Se a identidade do loiro tivesse sido verificada, saberiam tratar-se de
Jeffrey Dahmer, condenado por molestar crianas e ainda sob observao. Se
tivessem verificado a identidade do rapaz, saberiam que ele no tinha 19
anos, e sim 14, era laosiano e, por uma infeliz coincidncia, seu irmo havia
sido molestado por Dahmer em 1988.
     Sandra e Nicole, inconformadas com a atitude da polcia, resolveram
procurar a me de Sandra, Glenda Cleveland (36), vizinha de Dahmer.
     Glenda ligou imediatamente para a polcia, tentando obter informaes
sobre o ocorrido com o menino asitico. Responderam que no se tratava de
um menino, e sim de um adulto que havia discutido com seu namorado, e
que no se intrometeriam em brigas homossexuais.
     Dois dias depois, Glenda telefonou novamente para a polcia ao ler no
jornal sobre o desaparecimento de um garoto laosiano chamado Dee
Konerak Sinthasomphone. Era o rapaz que sua filha havia visto tentando
escapar de seu vizinho Jeffrey Dahmer. A polcia nunca mandou ningum
para falar com ela ou verificar sua histria.
     Glenda tambm tentou contatar o oficial do FBI de Milwaukee, cidade
onde morava, mas no deu em nada. Logo todos descobririam que a morte
do garoto poderia ter sido evitada...


22 de Julho de 1991

     Dois policias faziam seu turno nas proximidades da Universidade de
Marquette, quando viram um homem algemado correndo pelas ruas.
Presumindo se tratar de um fugitivo, no demoraram em parar a
radiopatrulha para verificar os fatos.
     O homem identificou-se como Tracy Edwards, 32 anos, e dizia ter sido
algemado no apartamento de um estranho sujeito, mas que conseguira
escapar. Os policiais desconfiaram da histria. Resolveram acompanhar o
infeliz at o local apontado por ele, para verificar o inverossmil relato.
     A porta foi aberta por um bonito homem loiro, identificado como
Jeffrey Dahmer, 31 anos, que estava bastante calmo e racional. Ele ofereceu-
se para pegar as chaves da algema em seu quarto, enquanto os trs
esperavam na porta.
     Vendo Dahmer caminhar em direo ao seu quarto, Tracy lembrou-se
que ali estaria a faca com a qual foi ameaado, e avisou os policiais. Um
deles resolveu ir ao encalo de Dahmer, para dar uma olhada... no caminho,
fotografias espalhadas pelas paredes do corredor tiraram seu flego!
Continham corpos humanos esquartejados e crnios fotografados enquanto
estavam dentro da geladeira.
     Quando foi capaz de respirar novamente, gritou para seu parceiro
algemar Dahmer e dar-lhe voz de priso. Dirigiu-se para a geladeira, abriu a
porta e deu de cara com uma cabea encarando-o! Fechou-a o mais rpido
que pde...
      O pequeno apartamento era limpssimo, arrumado, com peixinhos de
estimao nadando no aqurio muito bem cuidado, mas o cheiro de morte
impregnava tudo.
      A cabea que estava na geladeira estava em estado de decomposio
avanada, e no freezer foram encontradas mais trs cabeas, guardadas em
sacos plsticos amarrados com elstico.
      Perto do quarto, havia uma porta trancada com cadeado. Ali havia um
recipiente de metal contendo mos e pnis decompostos. No closet estavam
guardados frascos com lcool etlico, clorofrmio e formol, juntamente com
outros onde encontravam-se genitlias masculinas preservadas.
      No apartamento de Jeffrey Dahmer jaziam restos mortais de 11 vtimas
diferentes; onze crnios, um esqueleto completo, ossos em geral, mos,
genitais embalsamados e pacotes de coraes, msculos e outros rgos
mantidos no cido ou refrigerador.
      As fotografias expostas registravam todos os estgios da morte das
vtimas. Havia uma mostrando a cabea recm-cortada de um homem,
escorrendo na pia. Muitas das fotos mostravam as vtimas antes de serem
assassinadas, em poses erticas.
      No total, este canibal matou dezessete pessoas.39


Histrico

      O mais famoso canibal americano nasceu em 1960, na cidade de
Milwaukee, e mudou-se para Ohio aos 6 anos de idade.

39
  Veja no Apndice 4 -- Frases famosas dos serial killers, a lista de objetos encontrados na casa de
Dahmer.
        Foi um garoto muito estranho. Fazia cruis experimentos com animais,
decapitando roedores, branqueando ossos de galinhas com cido,
empalando cabeas de cachorro e espalhando-as como espantalhos na
floresta.
        Aos 18 anos, Jeffrey cruzou a linha
entre       experimentos    mrbidos     e
assassinato. Conheceu Steve Hicks ao
dar-lhe carona, convenceu-o a tomar uns
aperitivos em sua casa e matou-o
quando        ele    quis    ir    embora,
estrangulando-o. Amassou seu crnio
com um haltere, desmembrou o corpo e
colocou seus pedaos em vrios sacos plsticos, que enterrou separadamente
na mata atrs de sua casa. Nesse mesmo ano, alistou-se no Exrcito e foi
locado na Alemanha. Foi dispensado dois anos depois, por alcoolismo.
        Em 1981, depois de ser preso por desordem e embriaguez, seu pai
achou melhor que fosse morar com a av em West Allis, Wisconsin.
        Por algum tempo, Jeffrey pareceu se acalmar, com exceo de pequenos
incidentes.
        Em 1986, foi preso por se masturbar na frente de dois meninos.
Condenado por conduta desordeira foi sentenciado a um ano de priso, cuja
pena fora depois modificada para aconselhamento.
        Em setembro de 1987, Jeffrey encontrou Steven Tuomi em um bar gay.
Beberam, conversaram, riram... ao acordar em seu hotel, Jeffrey tinha um
corpo ao seu lado e a boca cheia de sangue.
        Para desaparecer com o cadver, comprou uma grande mala, guardou
os restos de Tuomi nela e levou tudo para o poro da casa da av, onde fez
sexo com ele, desmembrou-o e depois jogou as partes no lixo.
        Aqui fica definido o modus operandi de Jeffrey Dahmer. Na maioria das
vezes, encontraria e selecionaria suas vtimas em bares gays ou saunas.
Atraa-as ento para seu apartamento, oferecendo dinheiro para que
posassem para fotos ou simplesmente convidando-as para tomar uma
cerveja e assistir a um vdeo.
     Drogava sua vtima, estrangulava-a com suas prprias mos ou com
uma tira de couro, masturbava-se sobre o corpo ou copulava com ele.
     Antes da "limpeza", Dahmer fotografava toda a experincia para
depois poder relembr-la em detalhes.




     Abria o trax da vtima. Ficava fascinado pelas cores das vsceras e
excitado com o calor que o corpo recm-morto podia proporcionar.
Finalmente esquartejava sua vtima, tirando fotos de cada etapa.
     Depois de destripar o corpo, masturbava-se com as vsceras. Comia
seus coraes e tripas, e fazia croquete de carne humana. Adorava fritar os
msculos das vtimas que achava mais atraentes e deliciar-se com a
"iguaria".
     Mantinha, muitas vezes, em seu apartamento, o corpo da vtima por
vrios dias aps o crime, com o objetivo de fazer sexo oral ou anal com eles a
qualquer momento.
     Livrava-se das partes dos corpos experimentando vrios produtos
qumicos e cidos, que reduziam carne e ossos num tipo de lama ftida,
capaz de escoar pelo ralo ou privada. Guardava o crnio e/ou genitais como
lembrana.
     Mais raro do que necrofilia  o canibalismo. Dahmer dizia comer a
carne de suas vtimas porque acreditava que assim elas viveriam novamente
atravs dele. Essas refeies lhe proporcionavam erees. Tambm tentou
beber sangue, mas no gostou do sabor.
     Dahmer contou  polcia que fez lobotomia em uma de suas vtimas,
pois assim teria em casa um zumbi que o serviria sexualmente. A
experincia no deu certo.
     Relatou tambm as vezes em que injetou uma soluo de cido
muritico ou gua quente nos crebros, mas no obteve o resultado que
esperava.
     Em janeiro e maro de 1988, matou James Doxator (14) e Richard
Guerrero, respectivamente. Foi ento que sua av pediu que ele se mudasse
dali, pois no suportava o cheiro que vinha do poro.
     Em setembro de 1988, mudou-se para um pequeno apartamento em
Milwaukee. No dia 26 do mesmo ms, ofereceu US$ 50,00 para um garoto
posar para fotos. Quando o menino chegou em casa, seus pais acharam que
ele estava drogado e o levaram para o hospital.
     A polcia foi chamada, uma investigao foi feita, e Jeffrey Dahmer foi
acusado de ataque sexual. Tratava-se do irmo mais velho de Dee Konerak
Sinthasomphone. Dahmer foi condenado e esperou sua sentena em
liberdade.
     Em maro de 1989, encontrou Anthony Sears em um bar gay. Como j
havia feito antes, ofereceu dinheiro ao aspirante a modelo para posar para
fotos. Desta vez, depois de mat-lo e esquartej-lo, ferveu sua cabea at
remover a pele e fazer de seu crnio um trofu. Pintou-o de cinza para que,
caso fosse descoberto, ele se parecesse com um modelo plstico usado por
alunos da escola de medicina. Guardou seu trofu at ser preso.
     Em maio de 1989, foi condenado a um ano de priso, do qual s
cumpriu 10 meses antes de ser libertado. Seguem-se ento vrias vtimas:
Edward Smith, RickyLee Beeks, Ernest Miller, David Thomas, Curtis
Straughter, Errol Lindsey, Anthony Hughes...
         Entre 30 de junho e 21 de julho de 1991, Jeffrey Dahmer matou e
canibalizou         Dee      Ronerak       Sinthasomphone,           Matt     Turner,      Jeremiah
Weinberger, Oliver Lacy e Joseph Bradehoft40.


O Julgamento

         O julgamento de Jeffrey Dahmer foi nico. Cachorros treinados
verificavam diariamente o tribunal, procurando por bombas e explosivos.
Todos os que entravam no recinto eram submetidos a um detector de metais,
para que ningum entrasse ali armado. Dahmer ficou isolado num tipo de
guarita construda de ao e vidro blindado, e o pblico assistiu a tudo
atravs dele.
         Dos 100 lugares disponveis, 23 foram designados para reprteres, 34
para os familiares das vtimas e 43 para o pblico em geral. Lionel e Shari
Dahmer, pai e madrasta de Jeffrey, compareceram no tribunal todos os dias
do julgamento.
         Em 13 de julho de 1992, contra os conselhos de seus advogados,
Dahmer se declarou culpado, porm mentalmente insano. Agora, em vez de
provar que no tinha cometido os crimes, seus defensores tinham que
convencer o jri que ele era completamente louco, o que no parecia ser
muito difcil diante dos atos que cometeu.
         A promotoria, por sua vez, precisava provar que Dahmer no era
louco, e sim um demonaco psicopata que atraa suas vtimas e as matava a
sangue-frio.
         A escolha dos jurados foi bastante polmica. Foram dispensados todos

40
     Lista de vtimas obtidas no Livro de Anne Schwartz, The Man Who Could Not Kill Enought.
aqueles com algum preconceito homossexual ou sob tratamento psiquitrico.
Quando apenas um afro-americano foi escolhido, protestos vieram de todos
os lados, pois a maioria das vtimas era negra. Parecia que a escolha de um
jri composto de seis homens e sete mulheres brancas era outro exemplo de
discriminao racial.
         O advogado de defesa apresentou 45 testemunhas que atestaram o
comportamento estranho de Dahmer, suas desordens mentais e sexuais, que
o impediam de entender a natureza de seus crimes.
         A acusao tentava demonstrar que ele era um mestre em manipulao
e falsidade, que sabia exatamente o que estava fazendo em cada passo do
caminho e era perfeitamente capaz de controlar suas vontades, uma vez que
no havia matado nenhum soldado no tempo em que serviu o Exrcito ou
um colega quando freqentava a escola.
         A grande discusso e discordncia entre psiquiatras, se o ru era capaz
ou no de controlar suas aes, chegou a confundir o jri.
         A defesa alegou que "... crnios trancados, canibalismo, mpetos
sexuais, perfuraes, fazer zumbis, necrofilia, alcoolismo, tentar criar
santurios, lobotomias, decomposio de cadveres, taxidermia41, idas ao
cemitrio, masturbao... este era Jeffrey Dahmer, um trem fugitivo nos
trilhos da loucura!".
         A acusao disse que ele no era um trem, e sim um engenheiro! Ele
estava satisfazendo seus extraordinrios desejos sexuais e enganou a todos.
         O jri deliberou por cinco horas. Jeffrey Dahmer foi considerado
legalmente so e culpado por mltiplas acusaes de homicdio. Foi
sentenciado a 15 prises perptuas consecutivas, ou um total de 957 anos de
recluso.
         Diante da sentena, Dahmer fez a seguinte declarao na Corte:

         "Meritssimo,


41
     Taxidermia: arte ou processo de empalhar animais.
         Agora est terminado. Este nunca foi o caso onde tentei me libertar. Eu nunca
         quis a liberdade. Francamente, eu queria a morte para mim mesmo. Este caso 
         para dizer ao mundo que eu fiz o que fiz, mas no por razes de dio. No odiei
         ningum. Eu sabia que era doente, ou perverso, ou ambos. Agora acredito que
         era doente. Os mdicos me explicaram sobre minha doena e agora tenho
         alguma paz... Eu sei quanto mal eu causei... Graas a Deus no haver mais
         nenhum mal que eu possa fazer. Eu acredito que somente o Senhor Jesus Cristo
         pode me salvar de meus pecados... no estou pedindo por nenhuma
         considerao."


Na Priso

         Dahmer se ajustou muito bem  vida na priso Columbia Corretional
Institute, em Portage, Wisconsin. Inicialmente, ele no fazia parte da
populao geral da priso, o que certamente o teria colocado em risco.
         Sendo um prisioneiro modelo, convenceu as autoridades a deix-lo ter
mais contato com os outros presos. Estava apto a comer nas reas comuns.
         Por alguma inacreditvel razo, foi colocado para trabalhar lado a lado
com parceiros altamente perigosos: Jesse Anderson, um homem branco que
matou sua mulher e culpava por isso um homem negro, e Christopher
Scarver, um negro desiludido e esquizofrnico, preso por assassinato em 1
grau42 e que pensava ser filho de Deus.
         No  difcil imaginar como Scarver via Dahmer, que havia retalhado
tantos homens negros, e Anderson, que odiava negros. Foi uma combinao
desastrosa.
         Na manh de 28 de novembro de 1994, um guarda deixou estes trs
"doces" homens sozinhos, trabalhando. Vinte minutos depois, os guardas
encontraram Dahmer com a cabea esmagada e o cabo de um esfrego
enfiado no olho. Anderson estava ferido mortalmente. Scarver disse que


42
     Nomenclatura utilizada nos EUA.
havia recebido ordens de Deus para mat-los.
         Jeffrey Lionel Dahmer foi declarado morto s 9h11min.
         Aps a sua morte, foi criada uma grande controvrsia sobre a doao
de seu crebro para estudos da medicina. Seu pai foi a favor, pois acreditava
na possibilidade de haver alguma explicao fsica ou gentica que
justificasse seu comportamento e o de outros serial killers. Sua me e o juiz do
caso foram contra, encerrando a possibilidade de estudo que poderia ter sido
criada.


Anlise Psicolgica

         A pessoa para quem Dahmer contou em detalhes seus 13 anos de
assassinatos foi o Detetive Patrick Kennedy. Segundo ele, a chave para
entender toda a sua histria se resume em uma palavra: CONTROLE.
         Dahmer no conseguia tolerar rejeio ou abandono. At em suas
relaes homossexuais ele no queria dar prazer ao seu parceiro, apenas
obter. Prazer, para ele, significava fazer sexo oral ou anal no parceiro, vivo
ou morto.
         Sua absoluta necessidade de controle o levou por caminhos estranhos:
havia uma espcie de lobotomia em algumas de suas vtimas. Depois de
drogadas, ele fazia um buraco em seus crnios e injetava cido muritico em
seus crebros.
         O controle tambm o levou ao satanismo. Tinha planos de construir um
santurio em seu apartamento, com todos os seus trofus expostos, sua
esttua de Griffin43, e incenso queimando nos crnios de suas vtimas. Dessa
maneira, poderia receber poderes especiais e energias que o ajudariam
sociofinanceiramente.
         A maioria das teorias onde se encontram respostas para que os serial
killers se tornem o que so se baseia em abuso infantil, maus pais, trauma

43
     Corpo de leo; cabea, asas e patas de guia.
craniano, alcoolismo e vcio em drogas. No caso de Dahmer, foge-se  regra.
         Seu pai, Lionel Dahmer, escreveu um livro chamado Father's Story44,
onde conta a histria bem comum de algum que v seu filho afastando-se
do caminho que o pai acha o melhor. Ele reconhece seus defeitos, uma vez
que nenhuma famlia  perfeita, mas nenhum dado  excepcional no caso
desta.
         Jeffrey, segundo seu pai, foi uma criana bastante normal at a
adolescncia, quando se tornou muito tmido, introvertido, distante e
isolado. A famlia achou que essa mudana de comportamento foi fruto de
uma mudana de cidade (Iowa para Ohio) e que tudo passaria com o tempo.
Na verdade, seus problemas s se agravariam.
         O alcoolismo foi se estabelecendo. A cada enrascada que Jeffrey se
metia, seu pai ficava ao seu lado, pagava os advogados, conversava com ele
e acreditava que tudo iria se resolver. A cada vez, o problema era mais srio.
         Lionel Dahmer comeou         a   compreender que      o   filho estava
completamente fora de alcance e controle quando, em 1989, foi condenado
por abuso infantil. Era a primeira vez que seus esforos no foram
suficientes para salv-lo. Alguma coisa estava perdida nele, sua conscincia
havia sumido ou talvez nem tenha existido.
         O Dr. James Fox, especialista em serial killers, diz que nada podemos
fazer para prever que algum ser um deles, no importa quo estranho seja
o seu comportamento.
         O quo Jeffrey ficou devastado com o abandono de sua me na ocasio
do divrcio de seus pais, mesmo que notado, no explicaria seu
comportamento. A culpa pelo que ele se tornou no pode ser atribuda a
ningum alm dele.
         O Dr. Fox acredita que Jeffrey Dahmer era um raro tipo de serial killer.
"Ele se adequa ao esteretipo de algum que realmente est fora de controle
e sendo dominado por suas fantasias. A diferena  que a maioria dos serial

44
     A histria de um pai.
killers pra de agir quando suas vtimas esto mortas!".
     Os serial killers amarram suas vtimas, gostam de ouvi-las gritar e
implorar por suas vidas. Isso os faz sentir grandes, superiores, poderosos e
dominantes. No caso de Dahmer, toda a ao era post-mortem... todo o seu
divertimento comeava aps sua vtima no reagir mais.
     Ele conduziu uma fantasia de vida focada em ter completo controle
sobre as pessoas. Essa imaginao de vida era misturada com dio de si
mesmo projetado em suas vtimas. Sentia-se desconfortvel sobre sua
preferncia sexual.
     Psicopatologia, necrofilia, canibalismo, etc., so as vrias explicaes
sobre esses "fenmenos" chamados serial killers. Hoje em dia, cresce a
especulao sobre causas genticas que expliquem o comportamento e o
motivo das pessoas se tornarem criminosos. Talvez no caso de Jeffrey
Dahmer, esta seja a nica explicao vivel. Jamais saberemos.
PAUL BERNARDO
        &
KARLA HOMOLKA



  "Ken e Barbie"
Brincando de Matar
                       PAUL BERNARDO
                     & KARLA HOMOLKA




1987 -- Scaborough -- Toronto -- Canad

     Um estuprador estava agindo neste bairro residencial de Toronto. Seu
modus operandi era sempre o mesmo: quando sua vtima descia de um
nibus, ele a agarrava por trs e empurrava-a para o cho. Forava a moa a
fazer sexo anal e felao. Falava com a vtima o tempo todo e depois a
deixava ir.


1988

     Os estupros continuavam. A polcia investigava e j tinha coletado
evidncias de vrios casos, alm de um bom retrato falado do suspeito que j
havia atacado e estuprado 13 vtimas, mas nada foi publicado na imprensa.
      Uma das vtimas alegou ter visto uma mulher junto com o estuprador,
com o que parecia ser uma cmara de vdeo nas mos. Ningum acreditou.
      Foi pedida ao NCAVC45 uma anlise do estuprador, e esta foi entregue
 polcia de Scaborough em 7 de novembro de 1988. Nela constava46:

1. Vitimologia

      Foi examinada a suscetibilidade das vtimas para um ataque sexual,
baseando-se em seu estilo de vida, histria passada e desenvolvimento social
e fsico. Nada elevava seu risco; eram pessoas de baixo risco.
      Observaram-se as seguintes similaridades: todas as vtimas eram
mulheres, idade entre 15 e 21 anos, viviam na mesma rea de Scaborough,
praticamente vizinhas. Todas tinham estatura baixa, entre l,55m e l,62m,
pesando entre 41kg e 61kg.

2. Anlise Criminal

      O processo pelo qual o criminoso escolhe ou
seleciona sua vtima  de bvia importncia. Parece
usar paradas de nibus para "caar". Algumas das
vtimas foram de oportunidade, enquanto outras
parecem ter sido escolhidas previamente. Ele poderia j
conhecer ou ter visto sua vtima passando pelo bairro,
mas no tinha urgncia, naquele momento, em atacar.
Outras vezes, o impulso de atacar era grande, mas o
momento inoportuno.
      Os ataques de sucesso aconteceram quando o assassino tinha urgncia,
oportunidade e vtima num mesmo momento. Ele seguiu as vtimas por
pouco tempo antes de atac-las.

45
   NCAVC: National Center for the Analysys of Violent Crime: FBI Profile of Scarborough Rapist --
Description: in Investigative Analysis, FBI Virgnia -- 17.11.88 -- Special Agent Gregg O. McCrary.
46
   Traduo fiel do relatrio original.
     Seis vtimas em Scaborough foram atacadas pelas costas, e uma pela
frente. Ele conseguiu control-las utilizando fora bruta, mantendo-as assim
atravs de ameaas fsicas e verbais, acompanhadas de uma faca.
     Todas as suas vtimas foram atacadas ao ar livre, enquanto andavam
sozinhas perto de suas residncias,  noite.
     Esse tipo de criminoso escolhe atacar, habitualmente, em reas onde
est familiarizado, por morar ou trabalhar ali. Desse modo, tem maior senso
de segurana no caso de ser visto: tem prontas vrias rotas de fuga.
     Acreditamos que nosso criminoso vive na rea de Scaborough,
especialmente a uma distncia a p de onde foram atacadas as primeira,
segunda e quinta vtimas. Por morar ali,  importante que as vtimas no o
vejam, o que o faz aproximar-se por trs. Logo depois, fora suas caras para
o cho e manda que fiquem de olhos fechados, para assegurar-se de sua no-
identificao.
     Com a vtima de Mississauga, agiu de modo diferente. Aproximou-se
de frente,  guisa de pedir informaes. A vtima viu seu rosto por alguns
segundos antes de ser atacada, o que leva a crer que o criminoso no mora
ali, pois se sentia seguro o suficiente para ser visto.
     Outro motivo para aproximar-se por trs so alguns desvios: em seus
scripts, a vtima deve falar que o ama, que est bom, que ela odeia o
namorado. So declaraes que tm como objetivo elevar o ego do
criminoso.
     Outra clara pista de sua inadequao fica evidente quando observamos
sua seleo de vtimas: mulheres que aparentemente no o ameacem,
desprotegidas.
     Raiva  o sentimento que primeiro demonstra. Desejo de punir e
degradar as vtimas mostra sua raiva de todas as mulheres. Sua aproximao
em estilo blitz e seu comportamento verbal, bem como a seqncia de atos
sexuais que ele obriga sua vtima em conjuno com a punio fsica usada
contra elas, demonstram isso.
     O comportamento verbal profano, combinado com um roteiro falado
para a vtima obrigando-a a se descrever como "puta", evidencia sua raiva e
necessidade de puni-la e degrad-la.
     Fora suas vtimas  felao, depois de atac-las repetidamente pela
vagina e nus, para humilh-las. Esse tipo de comportamento foi observado
em todos os seus ataques.
     O atacante usa mais fora que o necessrio para controlar suas vtimas,
o que demonstra seu dio. Tambm enfia peas de roupa em suas bocas e,
no caso da sexta vtima, quebrou sua clavcula e derramou terra sobre ela,
espalhando-a por seu cabelo e corpo, exprimindo a opinio do atacante
sobre as mulheres.
     No acreditamos que o criminoso ataca suas vtimas com uma
premeditada idia de assassin-las; no entanto, baseados em nossas
experincias, ao ser confrontado com uma vtima que vigorosamente resista
ao seu ataque, ele a mataria no intencionalmente no af de control-la.
     A violncia sexual do atacante para com suas vtimas vem vindo numa
escalada. Nos primeiros trs ataques, no houve penetrao peniana. A
escalada tambm ocorre fsica e verbalmente.
     O criminoso tem tendncias sdicas, e fez sua stima vtima implorar
por sua vida, apenas para satisfazer seu prazer.
     Sente-se completamente seguro e no controle da situao.

3. Caractersticas do Criminoso

     Homem, entre 18 e 25 anos, apesar de que nenhum suspeito deva ser
descartado pela idade, pois  questo de maturidade mental e emocional.
     Acreditamos que vive na regio de Scaborough. Esta rea lhe  familiar,
especialmente o local dos primeiros ataques, onde provavelmente vive.
     A raiva do atacante pelas mulheres deve ser conhecida pelos seus
amigos ntimos. Provavelmente fala com desprezo sobre mulheres em geral
em suas conversas. Deve ter tido um problema com alguma mulher
imediatamente antes de seus ataques comearem.
      sexualmente experiente, mas seus relacionamentos anteriores com
mulheres devem ter sido tortuosos e acabado mal. Provavelmente espancou
mulheres que se relacionaram com ele no passado. Coloca a culpa de todos
os seus fracassos nas mulheres.
     Se tiver passagens anteriores pela polcia, deve ter sido por perturbar a
paz, resistir  priso, roubo ou distrbio domstico.
     Seu comportamento agressivo deve ter surgido na adolescncia. Deve
ter terminado o colegial com registros de indisciplina. Deve ter tido
aconselhamento em relaes sociais e/ou abuso de substncias.
      inteligente, bomio e passa bastante tempo andando a p na rea do
ataque. Deve ser solteiro. Tem temperamento explosivo e "pavio curto".
Culpa todo mundo pelos seus problemas.
     No deve permanecer por muito tempo num mesmo emprego, pois no
aceita bem a autoridade. Deve ser sustentado pela me ou mulher
dominante em sua vida.
      do tipo solitrio. Relaciona-se com as pessoas superficialmente, mas
prefere ficar sozinho.
     Deve guardar as coisas que assalta de suas vtimas. So vistas como
trofus por ele e o ajudam a relembrar o ataque. Guarda as coisas em local
seguro, mas de acesso rpido.
     Todos os seus ataques so precipitados por situaes de stress que ele
passa. Deve continuar agindo assim, esporadicamente.
     O stress pode acontecer apenas em sua mente, e no na realidade.
     O criminoso reconhece suas falhas e inadequncias, tentando sempre
mascar-las.

4. Comportamento aps o crime

     No sente culpa ou remorso por seus crimes. Acredita que sua raiva 
justificada e, portanto, seus ataques tambm. Sua nica apreenso  sobre
ser identificado e preso.
     O detetive Steve Irwin, da polcia metropolitana de Toronto, tambm
tinha certeza de que se tratava de um s criminoso. Ele tinha notado uma
escalada nas fantasias daquele manaco. Primeiro, as mulheres no tinham
sido estupradas, o criminoso as havia acariciado sexualmente e a penetrao
tinha ocorrido com os dedos. Todas as descries falavam de um bonito
jovem, que tinha bons dentes, no cheirava mal e era bem vestido.
Ultimamente, a agressividade tinha aumentado e os estupros eram reais.
     Antes do Natal, uma das vtimas conseguiu dar uma descrio
detalhada do estuprador: tinha boa aparncia, aproximadamente 1,83m de
altura, bem barbeado e sem tatuagens. Seu retrato falado acabou no sendo
divulgado.
     Jennifer Galliganm, estudante, foi algumas vezes  polcia dar queixa
de seu antigo namorado, Paul Bernardo. As queixas eram de estupro brutal,
abusos fsicos e ameaas  sua integridade fsica. Havia coincidncias
ligando Bernardo aos estupros que estavam acontecendo: os dois guiavam
um carro modelo Capri de cor branca, e Bernardo vivia nas proximidades
dos locais de ataque. Nada foi investigado com profundidade.


1990

     Em maio, finalmente a polcia resolveu publicar o retrato falado do
"estuprador de Scaborough", com uma recompensa de US$ 150.000,00 por
pistas que levassem  sua priso.
     Assim que alguns empregados da Price Waterhouse viram o retrato
falado nos jornais, contataram a polcia. Achavam que se tratava de um ex-
funcionrio, o contador jnior Paul Bernardo.
     Um gerente de banco tambm identificou seu cliente, Paul Bernardo,
como a pessoa procurada.
     Naquele momento, a polcia estava abarrotada de ligaes e pistas, mas
no conseguia seguir todas elas.
     O detetive Steve Irwin decidiu ento levar todas as evidncias que
tinha para um laboratrio forense. Pelas amostras de smen, foi estabelecido
que o estuprador era no-secretor, e seu tipo sangneo o colocava entre
12,8% da populao.
     Tantos conhecidos de Paul Bernardo ligaram para a polcia, que o
detetive Irwin decidiu fazer-lhe uma visita. O suspeito no se parecia em
nada com um estuprador serial, mas mesmo assim foram retiradas amostras
de sangue, saliva e cabelo. As amostras, juntamente com outras de 230
suspeitos, foram levadas ao laboratrio para anlise da Dra. Kim Johnston.
Somente cinco amostras das 230 tinham o tipo sangneo do criminoso, e
Paul Bernardo era um deles.
     O problema foi que, at que todos os testes tivessem sido concludos, o
Estuprador de Scaborough tinha encerrado suas atividades abruptamente. O
caso no era mais uma prioridade. Os testes de Paul Bernardo foram
devidamente engavetados.


1991

     Em 14 de junho desse ano, Leslie Mahaffy, 14 anos, saiu  noite com
amigos e no voltou para casa na hora combinada. s 2:00 da madrugada,
estava trancada fora de casa. Os pais j estavam cansados da rebeldia
adolescente da filha, que descumpria trato aps trato.
     Leslie telefonou para uma amiga, pedindo para dormir em sua casa,
mas esta recusou, alegando que a me ficaria brava com visitas quela hora.
Leslie disse  amiga que voltaria para casa e acordaria seus pais. Nunca mais
foi vista com vida.
     Quando os pais acordaram no dia seguinte e no encontraram Leslie
em lugar nenhum, acharam que tinha fugido de casa, inclusive seus amigos.
Naquele ano, j tinha feito isso duas vezes, tendo ficado com seu amigo
Jason Booth num motel de Burlington. A diferena agora  que sempre
Leslie mantinha contato, e desta vez no se comunicou com ningum, nem
no seu aniversrio de 15 anos. Algo parecia estar errado.
     Na noite de 29 de junho, um casal de pescadores encontrou o corpo de
Leslie no Lago Gibson, quando uma represa foi aberta e abaixou o nvel da
gua naquele local em 3 ou 4 metros. Perto do limite da gua, eles repararam
num bloco quebrado de concreto, e dentro de um pequeno reservatrio
criado pelo prprio bloco sobre uma laje, encontraram pernas. A polcia foi
chamada.
     Eram cinco os blocos de concreto envolvendo as partes de um corpo na
rea rasa do lago. Quem quer que tenha feito o servio, no estava
familiarizado com a rea. Do contrrio, teria jogado os blocos de concreto
com o corpo por sobre a ponte, onde as guas eram mais profundas e teriam
encoberto os restos mortais para sempre.
     Primeiramente, foram encontrados apenas suas pernas e ps. Depois,
localizaram seu torso e braos, todos cortados com uma potente serra,
noutro ponto do lago. Foram os caractersticos suspensrios usados por
Leslie que possibilitaram sua identificao antes que sua cabea fosse
localizada e a arcada dentria identificada positivamente.
     Num domingo, em julho, uma moa de 21 anos chamada Rachel Ferron
estava a caminho de casa, guiando pelas desertas ruas de St. Catharine, s
2:00 da madrugada. Passou um Nissan esporte dourado, indo em direo
contrria. Com espanto, pelo espelho retrovisor, observou o carro fazer meia
volta e comear a segui-la. Ao virar na rua de sua casa, o carro seguiu em
frente. Rachel ficou aliviada; poderia ter sido apenas impresso sua. Uma
semana depois, o Nissan reapareceu. Desta vez, Rachel estava indo para a
casa do namorado, que no estava. Seguiu para a locadora de vdeos onde
ele trabalhava. Ao chegar, tomou nota da descrio do carro e da chapa: 660
HFH.
     Na mesma noite, quando Rachel voltou  casa do namorado, o Nissan
dourado ainda a estava seguindo. Ela permaneceu no carro, com as portas
travadas e as janelas fechadas, at que seu namorado chegasse em casa.
Assim que chegou, imediatamente percebeu um estranho espreitando o
carro de Rachel atrs de uns arbustos e resolveu ir at ele para question-lo,
mas o homem fugiu. Desta vez, Raquel no ficou calada. O casal parou uma
radiopatrulha e informou ao policial sobre o acontecido, entregando a placa
do veculo que a tinha seguido. O policial levantou os dados no computador
rapidamente. O carro estava registrado no nome de Paul Kenneth Bernardo,
um Nissan 240 SX. A polcia no deu muita ateno ao caso. Estavam
ocupadssimos com a investigao do assassinato de Leslie Mahaffy.
     Em 30 de novembro, a garota Terri Anderson, 14 anos, desapareceu. Ela
saiu de casa para andar trs quarteires at sua escola, vizinha da Igreja
Luterana, e nunca mais foi vista.




1992

     Em 29 de maro, por volta da meia-noite, as irms Lori Lazurak e Tania
Berges estavam sentadas numa cafeteria quando viram um carro esporte
dourado passando por elas repetidas vezes. Quando perceberam que
estavam sendo filmadas, no entenderam nada.
     Um ms depois, em 18 de abril, Lazurak estava dirigindo pela Rua
Martindale, em St. Catharine, quando viu o carro suspeito novamente.
Resolveu segui-lo, e antes de perd-lo de vista, anotou a placa. Reportou os
estranhos fatos  polcia, mas o caso no foi levado adiante. Estavam
novamente    envolvidos    numa      investigao   muito   mais   sria:   o
desaparecimento de uma estudante chamada Kristen French, em 16 de abril,
uma garota muito popular que tinha sido raptada do estacionamento de
uma Igreja Luterana, ao lado da escola em que Terri Anderson estudava.
Somente os sapatos da menina foram encontrados, abandonados no parking.
     Em 30 de abril, o corpo de Kristen foi encontrado numa vala. Estava nu,
mas no desmembrado como o de Leslie, o que levou os investigadores a
acreditar que os dois assassinatos de adolescentes no estavam interligados.
O cabelo de Kristen tinha sido totalmente tosado.
     Em 23 de maio, o corpo de Terri Anderson foi encontrado dentro
d'gua em Port Dalhousie, seis meses aps seu desaparecimento. O legista
no verificou nada de estranho na autpsia daquele corpo que estivera
mergulhado por tanto tempo. A causa da morte foi declarada oficialmente
como afogamento, provavelmente resultado da combinao de cerveja e
LSD. Queriam que a me de Terri acreditasse que sua linda menina,
estudante brilhante e lder de torcida da escola, muito bem ajustada
socialmente, tinha se embebedado, drogado e entrado nas congeladas guas
do Lago Ontrio, no ms de novembro do ano anterior. Teoria
completamente improvvel.
     Os crimes tinham acontecido na regio de St. Catharine, e as
investigaes eram da alada da polcia de Niagara Falls. Depois da morte
de Kristen French, o governo de Ontrio montou uma fora-tarefa, com
direito a linha direta e base de operaes. Especialistas forenses e o FBI se
uniram para descobrir o assassino.
     Nas entrevistas sobre o desaparecimento de Kristen, uma mulher
lembrou-se de ter visto uma luta dentro de um carro, no estacionamento da
Igreja Luterana. No muito familiarizada com marcas de veculos, a senhora
achou que fosse um Camaro ou Firebird, cor creme. O detetive Vince Bevan,
responsvel pelas investigaes, concentrou-se em levantar dados sobre
todos os Camaros da regio.
     Neste meio tempo, o nome de Paul Bernardo apareceu novamente nas
investigaes, e dois policiais foram at a sua casa entrevist-lo. Ele agiu
com elevada simpatia. Disse que tinha sido suspeito no caso do "estuprador
de Scaborough" devido  sua semelhana fsica com o retrato falado. A
polcia notou que aquele homem tinha muito boa aparncia, era inteligente e
cooperativo, alm do fato de sua casa ser limpa e organizada. Tambm
notaram que seu carro era um Nissan, "que no se parecia nada" com um
Camaro(!).
     Mesmo assim, os dois policiais resolveram fazer um trabalho completo
e contataram Steve Irwin, em Toronto, para saber dos resultados das
investigaes do caso do "estuprador de Scaborough". Oito dias depois, o
detetive Irwin respondeu a mensagem: os testes finais das amostras de
sangue e saliva de Paul Bernardo no haviam sido feitos; tecnicamente ele
ainda era um suspeito. Irwin mandou para a fora-tarefa algumas
informaes sobre o caso, mas negligenciou as entrevistas com amigos de
Paul e o caso Jennifer Galligan. No foi desta vez ainda que Bernardo seria
suspeito dos homicdios que estavam acontecendo em Ontrio.
     Se tivessem se aprofundado nas investigaes, descobririam fatos no
mnimo    interessantes.   Dos   dezesseis   ataques   do   "estuprador   de
Scaborough", oito tinham sido brutais. Todos ocorreram entre maio de 1987
e maio de 1990, nas proximidades do Metro Toronto, onde Bernardo morou
com a esposa at abril de 1991. Nesse ms, mudaram-se para Port Dalhousie,
em St. Catharine.
1993

     Em janeiro, Karla Homolka, esposa de Paul Bernardo, procurou abrigo
na casa de uma amiga depois que seu marido a espancou. Como o marido
desta amiga era policial em Toronto, informou a polcia de Niagara, que
levou Karla para o hospital imediatamente.
     Em fevereiro, as investigaes se intensificaram. As polcias de Toronto
e Ontrio quiseram entrevistar Karla, tiraram suas impresses digitais e a
questionaram sobre seu relgio de pulso com o personagem Mickey Mouse,
muito similar ao relgio desaparecido de Kristen French.
     Foi   tambm       nesse    ms,   depois      de     tomar   conhecimento    do
espancamento de Karla, que o detetive Irwin pediu que o laboratrio forense
examinasse as amostras de sangue, saliva e smen de Paul Bernardo. Os
testes foram conclusivos: combinavam exatamente com aquelas amostras
recolhidas das trs vtimas do "estuprador de Scarborough". Paul Bernardo
foi imediatamente colocado sob vigilncia.
     Depois de ser interrogada por quase cinco horas, Karla percebeu que a
polcia j tinha somado dois com dois e ligado o caso do "estuprador de
Scaborough"       com   os      assassinatos   em    St.     Catharine.   Ela   estava
compreensivelmente nervosa, e contou a um tio, disposto a ajudar, tudo
sobre Paul... que era um estuprador e que tinha assassinado Kristen French e
Leslie Mahaffy.
     Um timo advogado foi contratado, George Walker. Ele logo certificou-
se de que Karla no era realmente o anjo que tentava parecer. Talvez
conseguisse barganhar algum tipo de imunidade para ela em troca de total
cooperao com a polcia.
     No meio do ms de fevereiro, Paul Bernardo foi preso pelos estupros
em Scaborough e pelos assassinatos de Mahaffy e French. Karla ficou
apavorada. Acalmava sua angstia com toneladas de analgsicos e lcool.
     Em 19 de fevereiro, a polcia executou o mandado de busca na casa de
Paul e Karla. Vrias evidncias foram encontradas. Paul tinha escrito
detalhadamente sobre cada estupro, alm de possuir uma coleo de livros e
vdeos sobre desvios sexuais, pornografia e serial killers.
        A polcia tambm encontrou um vdeo caseiro, onde Karla aparecia em
relaes lsbicas entusiasmadas com outras duas mulheres.
        Uma semana depois, o advogado George Walker tentou um acordo
para sua cliente: ela pegaria 12 anos de priso por cada uma das duas
vtimas, com as sentenas cumpridas simultaneamente. Estaria elegvel para
livramento condicional em trs anos, por bom comportamento. Ningum
questionou, pois seu testemunho contra Paul Bernardo era importantssimo.
Os advogados ainda conseguiram que Karla no cumprisse sua pena numa
priso comum, e sim num hospital psiquitrico. Em troca, Karla contaria
toda a verdade sobre seu envolvimento nos crimes e tudo que sabia sobre
eles.
        Em maro, Karla foi internada num hospital, onde tomava altas doses
de drogas. Mesmo assim, escreveu uma importante carta para seus pais:

        Querida mame, papai e Lori,
        Esta  a carta mais difcil que tive que escrever, e vocs provavelmente vo
        todos me odiar depois de ler...

        Karla confessava o primeiro de seus muitos crimes...


Paul Bernardo

        Nasceu de uma famlia incomum, em 27 de agosto de 1964. Sua me,
Marilyn Eastman, era filha adotiva de um renomado advogado, e seu pai,
Kenneth Bernardo, filho de imigrantes italianos. Apesar de empresrio de
sucesso, o pai de Paul abusava da famlia inteira de vrias formas. Moravam
em uma rea classe mdia, Scaborough, Toronto. O casamento no ia bem,
Kenneth era muito violento com a mulher e, depois de ter um casal de filhos,
ela se tornou amante de um antigo namorado. Paul Bernardo era filho
ilegtimo dessa relao, mas foi registrado por Kenneth como seu prprio
filho, pois tinha a mente bastante aberta para aceitar a infidelidade da
esposa. Sua mente era to aberta que logo comeou a abusar de sua filha
adolescente.
         Marilyn, cada vez mais angustiada, engordava sem parar. Sua figura
tornou-se grotesca e apresentava sinais de severa depresso. Parou de cuidar
da casa e dos filhos, e passou a viver em total isolamento no poro de sua
casa.
         Paul era a criana perfeita. Bonito, bem educado, sorria sempre. Ia bem
na escola, era escoteiro... o garoto que toda me queria para namorar sua
filha.
         Quanto mais crescia, mais se envolvia com o escotismo. Trabalhava nos
veres e era muito popular com as crianas, que o adoravam. As
adolescentes tambm o amavam!
         Aos 16 anos, brigou seriamente com a me, que resolveu contar-lhe que
era filho bastardo, mostrando a ele a foto de seu verdadeiro pai. O efeito em
Paul foi devastador. Passou a odiar a me e trat-la de modo cada vez pior.
Odiava tambm o pai, por suas perverses sexuais.
         Juntou-se a um grupo da vizinhana que teve m influncia em seu
comportamento. Eram maches e ladres. Sua atitude com as mulheres
tambm deteriorou.
         Paul vivia em bares todas as noites, clamando que todas as
adolescentes caam em suas mentiras. Foi para a Universidade de Toronto,
na mesma poca em que suas fantasias sexuais comearam a desenvolver
um lado bastante obscuro. Sua preferncia era por sexo anal forado em
mulheres submissas. Agora tinha um temperamento terrvel, e adorava
humilhar mulheres publicamente. Tambm comeou a bater nas meninas
com quem marcava encontros.
         Como no encontrava emprego em que ganhasse o suficiente para
manter seus caros prazeres, comeou a contrabandear cigarros.
     Quando se formou, foi contratado pela Price Waterhouse como
contador jnior, e vivia uma poca sem namoradas, pois elas estavam
cansadas de ser amarradas e espancadas.
     Em outubro de 1987, encontrou a garota de seus sonhos, a linda Karla
Homolka.


Karla Homolka

     Nasceu em 4 de maio de 1970 em Port Credit, subrbio de Toronto. Era
assistente de veterinria, boa aluna, boa filha, boa irm de Lori, nascida em
1971, e de Tammy, nascida em 1975.
     Loira de olhos azuis, foi uma adolescente normal. Fazia parte de um
clube informal da escola, o Diamante Clube, onde as garotas se
"comprometiam" a casar-se com homens jovens e ricos. Vestia-se com
roupas que ela mesma inventava, sendo conhecida por ter um estilo prprio.
Tambm brincava bastante com seus cabelos, tingindo-os sempre das mais
diferentes cores. Depois de conhecer Paul, sua famlia e amigos notaram
mudanas em seu comportamento. De repente, Paul era o centro da vida da
garota: o que ele gostava de fazer, o que dizia, o que pensaria sobre as
coisas... depois de algum tempo, Paul passou a controlar a vida de Karla: sua
maneira de vestir, as msicas que ouvia, absolutamente tudo.
     Karla desistiu de fazer faculdade, pois pretendia se casar com Paul e ter
filhos.
     Em 1990, depois de ficarem noivos, os pais de Karla propuseram que
Bernardo se mudasse para a casa deles, realizando o maior sonho de sua
filha: ver o noivo mais que duas vezes por semana, uma vez que ele morava
longe. Paul, sem perda de tempo, foi viver na casa da famlia Homolka.
     Paul (23) e Karla (17) eram totalmente obcecados sexualmente um pelo
outro. Diferente das outras meninas, ela encorajava seu comportamento
sexual sdico.
      Quando Paul perguntou a Karla o que acharia se ele fosse um
estuprador, ela achou o mximo!
      Karla era totalmente obcecada em fazer Paul feliz. Seu grande temor
era no conseguir satisfazer seu futuro marido. Quando Paul ficava
entediado ou distrado, ela sempre fazia algo para excit-lo, ou encontrava
outra pessoa para faz-lo. Chegou a acompanh-lo em alguns estupros.
      Para o mundo, parecia um conto de fadas. A linda Karla estava noiva
de um belo e sofisticado contador. Ia ser um casamento incrvel. Ningum
jamais esqueceria.
      Antes do casamento, Paul disse a Karla que tinha dvidas sobre sua
virgindade quando seu relacionamento comeou. Como presente de
casamento, ela deveria promover seu encontro com a irm mais nova,
Tammy, sem que ela soubesse ou consentisse, para que ele lhe "tirasse a
virgindade".
      Para a grande maioria das pessoas, isso seria chamado de estupro, mas
no para a apaixonada Karla.
      Seu trabalho a fazia ter conhecimentos bsicos sobre sedativos usados
em animais, alm de ter total acesso a eles na clnica veterinria na qual era
empregada. O difcil era estabelecer a dose exata que iria ser utilizada para
que a irm no reagisse ao estupro.
      Decidiram usar halotano47, anestsico inalado por animais antes de
cirurgias.
      No livro Invisible Darkness, de Stephen Williams, o pensamento de
Karla  descrito da seguinte maneira: "ela no queria matar sua irm, apenas
tirar-lhe a conscincia para d-la de presente de Natal a Paul".
      Karla teria que colocar o anestsico numa roupa, e segur-la sobre a
face da irm, mas acompanharia seus sinais respiratrios. Era realmente um


47
  Halotano: substncia qumica utilizada em anestesias locais, atravs de aspirao. Este anestsico 
duas vezes mais forte que clorofrmio e quatro vezes mais forte que ter.
estupro assistido.
         Em 23 de dezembro de 1990, Paul filmou com sua cmera o agradvel
jantar de Natal da famlia Homolka. Deu a Tammy vrios aperitivos com o
sedativo diludo neles. Os efeitos da droga e do lcool foram mais rpidos
do que o imaginado, e a menina logo estava adormecida no sof. Quando os
outros familiares foram deitar-se, Karla e Paul comearam a "trabalhar"
Tammy.
         A ao foi filmada durante todo o tempo em que foi estuprada, e
molestada analmente. Enquanto Karla segurava o anestsico sobre a face da
irm, Paul ordenou que ela tambm fizesse carinhos sexuais nela, j
adormecida.
         De repente, Tammy vomitou. Teria sido melhor se a menina no tivesse
jantado naquele dia.
         Karla achou que sabia o que fazer, e levantou a irm de cabea para
baixo, tentando limpar assim sua garganta. Tammy entrou em choque.
         Como suas tentativas de ressuscitao falharam, eles a vestiram,
esconderam as drogas e a filmadora e chamaram uma ambulncia. Os pais
s souberam que havia algo errado quando a sirene chegou  sua porta.
Todos foram levados a acreditar que Tammy morreu de um choque
acidental, causado por seu prprio vmito.
         Paul acabou acusando Karla pela morte da irm. Agora a menina no
estava mais disponvel para ele, e necessitava que a namorada fizesse uma
reposio, algum bem jovem e virgem.
         Karla sabia exatamente quem procurar: a adolescente Jane, que se
parecia muito com Tammy. Ela seria seu presente de casamento para Paul.
         Jane idolatrava Karla como modelo de beleza e sofisticao. Aceitou
feliz o convite para ir at a nova casa alugada pelo casal. Durante o jantar,
Karla embebedou a garota com lcool e tabletes de halcion48. Quando ela j
estava desacordada, chamou Paul e surpreendeu-o com o presente.

48
     Halcion: droga utilizada como sonfero e ansioltico (benzodiazepine).
     O casal despiu Jane, e Paul filmou Karla fazendo sexo com ela
adormecida. Ento, tirou-lhe a virgindade, tudo gravado na fita. Jane estava
to drogada que nem percebeu quando Paul a submeteu a sexo anal
violento.
     Depois da "farra", Karla limpou o sangue da garota de 15 anos e a
colocou na cama. Na manh seguinte, Jane estava passando extremamente
mal do estmago e incompreensivelmente dolorida. Quando levantou e
encontrou Paul, achou que era a primeira vez que o via. No tinha a menor
idia do ocorrido.
     Logo depois, Paul Bernardo e Karla Homolka casaram-se numa
cerimnia perfeita, em 29 de junho de 1991, mesmo dia em que a polcia
encontrou o corpo de Leslie Mahaffy.
     Tiveram direito a carruagem, igreja histrica e cavalos brancos,
champanhe e jantar para 150 convidados sentados. Nenhuma despesa foi
poupada. Paul controlou cada detalhe da cerimnia e recepo: o vestido de
Karla, seu penteado, o menu do jantar e a incluso de "amor, honra e
obedincia" nos votos de Karla.


As Confisses de Karla e seu Julgamento

     No caso Leslie Mahaffy, a menina achou que teve a maior sorte do
mundo quando, ao voltar para casa na noite de seu desaparecimento,
encontrou Paul Bernardo na rua. Ele estava naquela vizinhana procurando
placas de carro para roubar. Precisava sempre de placas novas quando
contrabandeava cigarros dos EUA para o Canad; facilitava a passagem na
fronteira.
     Aquele simptico homem puxou conversa com Leslie, que ansiava por
algum que a ajudasse a entrar em casa sem que os pais a vissem. Depois de
alguns momentos de papo amigvel, Bernardo sacou uma faca, forou Leslie
a entrar em seu carro e levou-a para a sua casa.
     Enquanto Karla dormia, Paul filmou Leslie nua e vendada. Quando
acordou, Karla teve um ataque de raiva. Ele tinha usado seu melhor
champanhe para entreter o "novo brinquedinho"! Sob o domnio do marido,
acalmou-se e obedeceu as elaboradas instrues de como fazer sexo com a
garota. Era como se Paul dirigisse um filme pornogrfico.
     Depois das preliminares com Karla, Paul forou a menina a fazer sexo
anal brutal, enquanto Karla filmava os gritos terrveis de dor de Leslie...
     No caso de Kristen French, Karla teve participao ativa no seqestro.
Enganou a adolescente no estacionamento da igreja, fazendo-a ir at seu
carro para explicar um caminho. Enquanto olhavam mapas, Paul, armado de
uma faca, forou a garota a entrar no banco de trs do carro.
     Desde o incio, o casal sabia que Kristen tinha que morrer. Ela tinha
visto os dois, sabia onde moravam e conhecia at seu cachorro, mas no
queriam que a garota desconfiasse de seu destino. Kristen era maior e mais
forte do que Karla, e se reagisse complicaria muito as coisas...
     Kristen era bastante esperta, e fez de tudo para cooperar com o casal
depravado em suas ordens ultrajantes e humilhantes. Ela acreditava que agir
assim era sua nica chance de permanecer viva, mas estava enganada.
Quanto mais cooperava, mais sdico Paul se tornava. Ele chegou a urinar em
cima da garota, e tentou defecar nela.
     As indignidades continuaram por um ou dois dias, tudo devidamente
filmado em vdeo para futuro desfrute do casal. S o assassinato de Kristen
no foi filmado. As fitas onde todos os crimes estavam registrados no
foram encontradas. Quatro policiais vasculharam a casa de Bernardo e
Homolka de cabo a rabo. Quebraram o cho de concreto, removeram
painis, checaram o esgoto, os dutos e mveis fixos, cortaram carpetes,
roupas, vasculharam cartas... nada foi achado. Sem as fitas, Karla era a nica
arma contra Paul Bernardo. Outras evidncias encontradas na casa, mas
depois no aceitas como provas: uma cpia do controverso livro de Bret
Easton Ellis, American Psycho, que narra a histria de um loiro, narcisista
homem de negcios de 20 e poucos anos, que rapta, tortura e estupra jovens
meninas; o livro Perfect Victim49, a verdadeira histria de um homem na
Califrnia que raptou uma moa de 20 anos, a brutalizou e a manteve como
sua escrava sexual por sete anos; uma fita de "rap" de autoria de Bernardo,
chamada Inocncia Mortal, na qual as letras so lgubres lembranas de seus
crimes.
         O julgamento de Karla Homolka foi um verdadeiro circo para a mdia.
         Ela foi descrita como impassvel. Vestia roupas que pareciam ser
maiores do que seu nmero, querendo dar a impresso de ser mais velha do
que realmente era.
         Seu psiclogo, Dr. Malcom, concluiu seu depoimento dizendo que
Karla sabia o que estava acontecendo, mas estava impotente e incapaz de se
defender. Em sua opinio, a r estava paralisada pelo medo, permanecendo
obediente e subserviente.
         O juiz aceitou o acordo proposto pelos advogados de Karla. Seu
depoimento seria decisivo para o julgamento de Paul Bernardo.
         Em fevereiro de 1994, Paul Bernardo e Karla Homolka divorciaram-se.
         Karla Homolka cumpria pena na Priso para Mulheres de Kingston, e
dois meses aps ser levada para l comeou a fazer cursos por
correspondncia de Sociologia e Psicologia na Universidade de Queens. Sua
cela  totalmente decorada com posters do Mickey, e seus lenis so com
motivos da Vila Ssamo. Em junho de 1995, foi transferida para a Metro West
Detection Centre, em Toronto.


O Julgamento de Paul Bernardo

         O julgamento de Paul foi adiado para acontecer dois anos aps sua
priso. Um dos motivos para esse adiamento foi que Paul colocou seu
advogado Ken Murray numa situao tica muito complicada. Trs meses

49
     Perfect Victim: vtima perfeita.
aps sua priso e seis dias aps terminarem as buscas por evidncias na casa
do casal, seu advogado teve permisso para entrar no local dos crimes por
breves momentos. Recebeu ento uma ligao em seu celular: era Paul
Bernardo, dizendo a ele onde encontrar as fitas de vdeo, escondidas no
forro do teto da casa. Paul deu ao advogado as fitas que ele e Karla fizeram
de suas aventuras, acreditando que, ao fazer isso, elas jamais chegariam nas
mos dos promotores.
         Eles j sabiam, atravs de Karla, da existncia das fitas, e tinham
gravado as conversas entre Paul e seu advogado. Depois de muita presso,
Murray entregou as provas para a promotoria e abandonou o caso. Foi
substitudo pelo veterano John Rosen.
         As fitas de vdeo se tornaram a principal pea da promotoria. Bernardo
enfrentava duas acusaes de homicdio em 1 grau, duas acusaes de
ataque sexual com agravante, duas acusaes de confinamento forado, duas
acusaes de seqestro e uma acusao de causar constrangimento para um
corpo humano50.
         A promotoria comeou seu "show" mostrando a imagem de Karla se
masturbando para a cmera, o que causou grande comoo nos presentes. O
vdeo mostrava como Paul forava Karla a fazer coisas contra sua vontade, a
ser uma escrava sexual do "Rei Bernardo".
         Depois de todas as fitas exibidas, o jri tinha uma completa idia da
profundidade da depravao sexual de Paul Bernardo.
         Como se no fosse j o suficiente, Karla foi chamada como testemunha.
Seu depoimento mostrou a escalada de indignidades que o marido obrigava
a esposa. Ela usava uma coleira de cachorro, ele inseria garrafas em sua
vagina e quase a estrangulava com uma corda para satisfazer suas sdicas
fantasias sexuais.
         Karla tambm declarou que Paul cortou o corpo de Leslie Mahaffy em
10 partes, utilizando para isso a serra eltrica de seu av e encapsulou as

50
     Denominao dada aos crimes no Canad.
partes em concreto no poro da casa deles. Ela ajudou Paul a jogar os blocos
no rio, mas apanhou por ter esquecido de usar luvas. Depois da morte de
Mahaffy, segundo o depoimento de Karla, ela era espancada constantemente
e ameaada de morte a cada vez que hesitava em colaborar.
     Paul alegou que suas fantasias eram importantes para ele, e que nunca
machucaram ningum.
     A defesa resolveu atacar a credibilidade de Karla. Queria mostrar que
ela no era nenhuma vtima, e sim cmplice ativa nos estupros e homicdios.
     Paul contou sobre a frieza de Karla, que logo aps o estrangulamento
de Kristen, correu para secar os cabelos... tinham um jantar na casa dos
Homolka. Ficou claro para todos que Karla havia manipulado as
circunstncias de sua cooperao com o governo, num dos piores acordos
que o governo canadense j fez com uma testemunha criminal.
     As fitas de vdeo foram vistas apenas pela corte e jri. Pblico e mdia
puderam somente ouvi-las. Durante o ataque a Tammy Homolka, Karla
filmou enquanto Paul a penetrava violentamente na vagina e no nus, e
depois o rapaz ordenava que Karla fizesse sexo oral com a irm. Depois de
vrios "nos", a garota cede  vontade de seu parceiro. Aps a morte de
Tammy, o jri pde ainda ver as cenas filmadas no quarto da falecida,
quando Karla fingiu ser a irm e o casal manteve relaes sexuais entre as
bonecas da vtima.
     Karla tambm  vista comentando que "adorou ver Tammy ser
estuprada", dizendo que sua misso era fazer Bernardo sentir-se bem. Ela
oferece-se como sua provedora de novas virgens.,
     O casal tambm foi visto espancando e estuprando Mahaffy e French.
Enquanto um agia, o outro filmava e "dirigia" a cena. Numa delas,
particularmente perturbadora, Kristen French  obrigada a repetir 26 vezes
que ama Paul, com a voz bastante trmula e sob ameaas constantes,
enquanto  estuprada por ele. Algum tempo depois, foi socada, ouvindo
gritos de que morreria se o prazer de Bernardo no aumentasse.
         Homolka deu vrias ordens a Kristen French, mandando que ela
sorrisse enquanto estava sendo estuprada, e ensinando  garota o que fazer
para aumentar o prazer de seu marido. Homolka tambm ataca sexualmente
Mahaffy com uma garrafa de vinho. Nada nas fitas indicou qualquer
desprazer de Homolka ao agir em dupla com seu parceiro, ou que sentisse
qualquer repulsa pelo que fazia. Leslie Mahaffy e Kristen French foram
mortas por estrangulamento com um fio eltrico, mas os assassinatos no
foram filmados.
         A defesa tambm mostrou que Karla Homolka teve vrias chances de
cair fora, mas no usou nenhuma. Durante as duas semanas em que Leslie
Mahaffy ficou cativa na casa do casal, ela saiu todos os dias para trabalhar.
Em pelo menos duas ocasies, ficou de guarda com a garota, enquanto
Bernardo saiu para alugar fitas de vdeo ou comprar comida.
         Pelo acordo de Karla, ela teve imunidade no que se referiu ao
assassinato de Tammy Homolka e ao ataque sexual a "Jane Doe"51.
         No julgamento de Bernardo, ele era considerado culpado at que
provasse sua inocncia. Com Karla, a concepo era exatamente a oposta:
inocente at que sua culpa fosse comprovada. O acordo com Karla Homolka
foi feito antes que a justia soubesse das fitas de vdeo ou tivesse acesso a
elas, o que justificava a moa ser considerada testemunha-chave para a
acusao de Paul Bernardo. Enquanto a defesa tentava mostrar Homolka
como cmplice ativa para diminuir a culpa de Bernardo, a promotoria tratou
de mostr-la como uma mulher fraca, sofrendo da Sndrome da Mulher
Espancada. Esta sndrome foi oficialmente reconhecida pelas leis canadenses
pela Suprema Corte do Canad em 1990, numa deciso por escrito feita pela
Juza Bertha Wilson. Nela, foi endossada a idia que uma mulher na
armadilha de um relacionamento abusivo est justificada por atos
normalmente no tolerados, uma vez que age para proteger a si mesma.
Uma mulher que sofre dessa sndrome acredita estar indigna de ajuda e

51
     Jane Doe -- pseudnimo da garota que foi abusada e permaneceu viva.
merece ser abusada. Num certo momento, ela sente que a nica forma de
escapar  matando o abusador. Muitos no concordam, alegando que ao
tornar essa sndrome legalmente aceitvel, esto dando a algumas mulheres
licena para matar.
     A sentena de Homolka foi amplamente discutida durante o
julgamento de Bernardo, atravs da imprensa e de entrevistas com
advogados e psiclogos. Muitos disseram que a Justia do Canad vendeu
sua alma ao diabo para conseguir condenar Paul Bernardo.
     Em casos como o de Lorena Bobbit, que castrou o marido com uma faca
de cozinha enquanto ele dormia, sua insanidade foi comprovada atravs da
sndrome. Outro caso ficou bastante conhecido atravs do filme estrelado
por Farrah Fawcet, baseado em fatos reais, onde uma mulher espancada
freqentemente pelo marido coloca fogo em volta de sua cama enquanto ele
dorme, alcoolizado. Nos EUA, pas onde a Sndrome da Mulher Espancada
foi legalizada dez anos antes do que no Canad, vrias mulheres j foram
inocentadas ou consideradas insanas no momento de graves crimes, atravs
desse argumento.
     Muitos acreditam que no caso de Karla Homolka a sndrome no se
aplica. Defendem a idia de que ela  uma mulher extremamente egosta,
que s buscou ajuda quando sua prpria vida estava ameaada.
     Numa avaliao psicolgica de Paul Bernardo feita atravs dos
depoimentos de Karla, o psiclogo Dr. Chris Hatcher e seu colega Dr.
Stephen Hucker identificaram o ru em relao ao seu comportamento como
paraflico (desvios sexuais), sdico sexual, voyeur, hebfilo (ter atrao por
meninas pberes ou adolescentes), toucherismo (agarrador de mulheres
insuspeitas), coproflico (excitvel por fezes), alcolatra e com distrbio de
personalidade narcisista. Nenhum deles achou que Paul Bernardo fosse
psictico.
     Paul se defendeu em seu depoimento, dizendo que fazer sexo com
garotas amarradas e algemadas era sua idia de vdeo porn, mas que no
matou ningum. Disse que as vtimas morreram durante o espao de tempo
que as deixou sozinhas com Karla.
     Mahaffy teria morrido de overdose de drogas. Bernardo pretendia jog-
la em algum lugar ermo, desacordada. Quando viu que a menina estava
morta, resolveu esconder seu corpo. Segundo seu depoimento e
contradizendo Karla, enquanto ele cortava o corpo em partes, a esposa
limpava e lavava cada uma delas para que pudessem "concret-las".
     No caso da morte de French, Bernardo alegou ter deixado a jovem com
os ps amarrados e as mos algemadas, sob a guarda de Karla, enquanto foi
alugar fitas de vdeo e comprar comida. Por segurana, teria amarrado um
fio eltrico ao pescoo da garota, atando a outra ponta numa cmoda.
Enquanto estava fora, French pediu para ir ao banheiro. Quando Karla
desamarrou seus ps, ela saiu correndo para tentar escapar, enforcando-se.
     Em nenhum momento de seu depoimento, Bernardo perdeu a calma ou
a compostura. A alegao da defesa era de que no restavam dvidas de que
o casal tinha atacado sexualmente as jovens, mas precisava ser estabelecido
quem, realmente, as tinha matado.
     Nada disso salvou Bernardo. Em 1 de setembro de 1995, ele foi
considerado culpado por todas as acusaes contra ele. Faltava ainda ser
julgado pelo assassinato de Tammy Homolka e todos os estupros de
Scaborough.
     Segundo as leis canadenses, Bernardo pode apelar para obter liberdade
condicional depois de 25 anos de priso. Sua apelao imediata, feita aps o
julgamento, foi negada em 21 de setembro de 2000.
     Karla poder sair em liberdade condicional em 2001. Seus advogados
trabalham para que possa cumprir a pena em regime semi-aberto, pedido
negado at o momento.
     Os produtores da srie Law and Order pretendem fazer um episdio
baseado no caso Bernardo-Homolka.
     O advogado Ken Murray foi julgado, em 2000, por obstruo da Justia.
Ele manteve em segredo estar de posse das fitas de vdeo que retirou da casa
de Bernardo, onde o casal assassino aparece tendo relaes sexuais e
torturando Leslie Mahaffy e Kristen French. Murray alegou que pretendia
us-las na defesa de seu cliente, nas audincias preliminares. Deixaria que
Karla Homolka mentisse sobre seu envolvimento nos crimes e depois a
desmascararia com as fitas, destruindo sua credibilidade e demonstrando
que ela era a verdadeira assassina, e Paul, seu coadjuvante.
     Quando as preliminares foram canceladas e resolveu-se ir direto ao
julgamento, Paul Bernardo comeou a pressionar Murray para que no
utilizasse essas provas, as mantivesse em segredo, coisa entre advogado e
cliente. Paul alegava que, sem elas, seria a palavra dele contra a de Homolka.
     Murray ficou num dilema tico, mas decidiu largar o caso e entregar as
provas  Justia, com um atraso de 17 meses. A Justia alega que, se estivesse
em posse das fitas, no teria tido necessidade de entrar em acordo com Karla
Homolka. Ken Murray foi absolvido em 13 de junho de 2000.
     A casa de Karla Homolka e Paul Bernardo foi demolida, pois o
proprietrio no conseguiu nunca mais alug-la. Outra casa foi construda
no terreno.
     Os pais de Kristen French, Doug e Donna, ainda vivem em St.
Catherine. Donna trabalha com a polcia da regio de Niagara, falando sobre
o impacto do crime nas famlias das vtimas em geral.
     Os pais de Leslie Mahaffy, Dan e Debbie, tiveram seu casamento
destrudo durante o processo. O stress foi crucial. Debbie organiza
anualmente um dia em memria das vtimas de crime em Burlington e
trabalha no Programa para Vtimas de Crimes, da promotoria.
     O servio correcional do Canad resolveu que Karla Homolka  to
perigosa para a sociedade que deve ficar presa at o fim de sua sentena
(julho de 2005). Se at essa data nada ficar resolvido, Karla ser solta
automaticamente, pois ter cumprido 2/3 de sua sentena.
Comentrios Finais52

         No relatrio do NCAVC, em novembro de 1988, foi prevista uma
escalada de violncia nos crimes do "Estuprador de Scaborough" no caso de
qualquer stress que ele sofresse. Enquanto vivia com os pais, Bernardo era
mais controlado. Quando se mudou para St. Catharine, as atividades do
"Estuprador de Scaborough" cessaram. Agora que a casa era dele, o controle
era total. Podia esconder as vtimas e fazer com elas o que quisesse sem
nenhum risco. Essa mudana de circunstncias ajudou na escalada de seus
crimes.
         Seqestro  uma escalada previsvel nos sdicos sexuais. Tambm 
certo que o resultado final ser assassinato. Uma vez que tenha prendido a
vtima, em sua mente, ele no pode mais deix-la ir. Na sua fantasia
galopante, o criminoso precisa de mais controle, o que ganha atravs do
seqestro e confinamento forado da vtima em local "seguro". A ltima
fantasia do sdico sexual  a posse total e plena sobre sua "presa", fsica e
psicologicamente.  o poder de vida e morte.
         O fato de cabelos terem sido cortados em duas vtimas de Scaborough e
em Kristen French  grave indcio de que se tratava do mesmo homem. Tirar
o cabelo da vtima satisfaz a necessidade de Bernardo de punir, degradar e
desgraar suas vtimas. Tambm  um trofu.
         Em geral, criminosos seriais sdicos sexuais tm as seguintes
caractersticas:

         -- Homens.
         -- Brancos.
         -- Tm educao escolar alm de 2 grau completo.
         -- Se travestem para mudar de aparncia.
         -- Tm pais infiis ou divorciados.
         -- Foram fisicamente abusados na infncia.

52
     Baseados na Anlise Oficial feita em fevereiro de 1993.
     -- Foram sexualmente abusados na infncia.
     -- Tm experincia militar ou fascinao por armas.
     -- Direo compulsiva.
     -- Inicialmente apresentam uma imagem de sinceridade, cuidados
        especiais e cobrem de atenes seu objeto de amor.
     -- Obsesso por sadismo sexual.
     -- Personalidade dominadora.
     -- Colecionadores compulsivos e usurios de pornografia.
     -- Colecionadores de "trofus" adquiridos de suas vtimas.
     -- Casam-se na poca em que esto cometendo seus crimes.
     -- Tm conhecida histria de transformao de voz e/ou telefonemas
        obscenos, ou ainda cometeram atentado ao pudor.
     -- Conhecimento e interesse em assuntos policiais.
     -- Tm envolvimento incestuoso com seu prprio filho.
     -- Tm conhecida experincia homossexual.
     -- Compartilham parceiros sexuais com outro homem.
     -- Abuso de drogas.
     -- Tentativa de suicdio.

     Bernardo tem muitas caractersticas que se encaixam acima. Homem,
branco, completou quatro anos de estudos na universidade em apenas trs
anos. Limpo e bem vestido, comportava-se bem e estava sempre impecvel
em encontros sociais especialmente durante o dia. Mudava de aparncia 
noite, quando caava suas vtimas.
     Vrios membros de sua famlia reportaram s autoridades que
Bernardo expressava profundo dio por sua me, e pensava que ela era
totalmente louca. No perdoou sua infidelidade e a culpava por sua prpria
infelicidade. Tambm sofria abusos fsicos de seu "pai".
     Bernardo era completamente fascinado por armas, e carregava sempre
consigo uma faca especial com inscrio pessoal na lmina. Esta faca de
estimao foi utilizada em vrios de seus crimes. Tambm guardava um
revlver embaixo de sua cama.
     Dirigia compulsivamente: a vigilncia sobre ele estabeleceu que
chegava a guiar mais de 650km num s dia, durante vrios dias
consecutivos.
     Namoradas antigas e a famlia Homolka declararam que Bernardo, nos
primeiros estgios de relacionamento amoroso, cobria a amada de presentes
e ateno. Mantinha uma imagem de ser extremamente carinhoso e afetivo.
Conforme o tempo passava, esse comportamento dava lugar  sua
verdadeira personalidade. Uma namorada de Bernardo declarou que ele era
incapaz de obter uma ereo se no a amedrontasse ou infligisse dor a ela.
Tambm usava ligaduras em volta de seu pescoo enquanto fazia sexo anal,
alm de garrafas e espetos.
     Sua personalidade era extremamente dominadora. Escolhia a maneira
de vestir e pentear os cabelos da esposa, e nos ltimos tempos a isolou
completamente dos amigos. Um amigo ntimo de Bernardo, Van Smirnis,
declarou ter assistido as vrias vezes em que o amigo tratou Karla com total
falta de respeito.
     Era colecionador compulsivo e usurio de pornografia. Alm dos
vdeos pornogrficos dele mesmo e da esposa que fazia, Bernardo
colecionava videoteipes de todos os eventos que filmava.
     Os trofus colecionados das vtimas so perversamente gratificantes
para os criminosos e fonte para suas fantasias. Em sua casa, foram
encontrados sapatos, roupas ntimas, jias, carteiras e identidades. As
investigaes revelaram que cada vtima perdeu objetos pessoais durante o
ataque de Bernardo, inclusive cabelos da cabea e do pbis.
     As datas em que Mahaffy e French foram assassinadas coincidem
exatamente com o perodo em que Bernardo e Homolka foram viver juntos e
se casaram (fevereiro e junho de 1991).
     Em pelo menos um caso do "Estuprador de Scaborough", Bernardo
disse  vitima que a tinha observado antes, dentro de sua prpria casa.
Outras vtimas declararam ter recebido telefonemas obscenos depois do
ataque que sofreram.
     Em 93% dos casos envolvendo sdicos sexuais, os crimes so
planejados cuidadosamente. A vigilncia sobre Bernardo estabeleceu que ele
caava suas vtimas dia e noite. O mtodo como se livrou do corpo de
Mahaffy indica planejamento. As condies de limpeza do corpo de French,
eliminando qualquer evidncia, tambm. Bernardo chegava a obrigar suas
vtimas a engolir seu smen, para que qualquer amostra biolgica fosse
destruda.
     Os casos documentados historicamente demonstram que criminosos
como Bernardo no conseguem parar de estuprar e matar por vontade
prpria. S param quando so interrompidos por foras externas, como ser
preso, hospitalizado, morto, etc. Em 2000, Paul Bernardo teve a sua apelao
negada.
     Em 8 de maro de 2001, o Conselho Nacional de Condicional do
Canad resolveu, em Ottawa, no dar liberdade condicional para Karla
Homolka, que agora mudou seu nome para Karla Teale. Concluram que, se
solta, pode ainda cometer crime causando morte ou srio mal a outra pessoa.
Recomendaram que Karla Teale permanea em recluso at o final de sua
sentena, em julho de 2005.
     Karla ainda se recusa a receber qualquer terapia de apoio ou
tratamento psiquitrico.
     Outubro de 2002 -- Karla escreveu uma carta para a Comisso
Nacional de Condicional do Canad requerendo sua liberdade condicional
em julho de 2003. Na carta, diz que durante o tempo em que esteve presa foi
negligenciado o tratamento da Sndrome da Mulher Espancada, Desordem
de Stress Ps-Traumtico, etc. Com ironia, descreve como foi avaliada por
sete psiquiatras como portadora desses distrbios, revoltando-se com o fato
de que todos, repentinamente, mudaram de idia e passaram a diagnostic-
la como "psicopata". Apesar dos psiquiatras avaliarem a moa a distncia, j
que Karla Homolka negava-se a colaborar, alegaram que ela ainda se v
como vtima e  portadora de transtorno anti-social de personalidade.
     Novembro de 2002 --  lanado o livro de Stephen Williams, LE
PACTE AVEC LE DIABLE, somente em lngua francesa, pois os editores de
lngua inglesa se recusaram a public-lo. Contm correspondncias entre
Homolka e o autor durante um ano e meio. O advogado das famlias das
vtimas Mahaffy e French entrou com um processo, alegando que o livro
ofende o acordo de Karla Homolka com a Justia Canadense. Neste acordo,
ela se comprometeu a no falar sobre o caso com a imprensa, mdia ou
empenhar-se em propsito literrio/cinematogrfico.
     17 de janeiro de 2003 -- Pela terceira vez, desde 1999, a Comisso
Nacional de Condicional do Canad negou a proposta de condicional de
Karla Homolka para 2003. Justificaram que no houve nenhuma mudana
significativa no caso durante o ano de 2002.
     Trechos da carta de Karla:*
     (...)"De acordo com a lgica dos servios correcionais, quando eu for
libertada, em julho de 2005, livraro uma fmea de Hannibal Lecter, uma
monstra-assassina, inteligente, cnica e ironicamente criada pelo prprio
sistema prisional.
     Seria mais saudvel e razovel para os servios correcionais me liberar
em condicional e me prover de acompanhamento por oficiais de condicional,
para que eu pudesse ser progressivamente reintegrada na sociedade at que
minha sentena expirasse.
     (...)Na realidade, o que as autoridades esto fazendo neste momento 
prorrogar o inevitvel: minha liberao em julho de 2005. Quando eu sair,
enfrentarei um mundo que mudou muito desde que fui encarcerada. No
seria mais sbio me ajudar agora do que me atirar na rua em dois anos?"
     A Comisso justificou sua deciso alegando que a presa se recusou a
participar de programas de reabilitao e ainda tentou esconder um
relacionamento sexual na priso. Segundo eles, ela ainda nega seu papel de
agressora sexual e no faz terapia. O homem com quem Karla teria mantido
o suposto relacionamento foi transferido.
       Fevereiro de 2003 -- O livro de Stephen Williams  finalmente
publicado em ingls, com o ttulo A Pact with the Devil (Um Pacto com o
Demnio).




* Livre verso.
EDMUND KEMPER




   O Matador
  de Colegiais
                    EDMUND EMIL KEMPER III
                -- O ASSASSINO DE COLEGIAIS

                                             Quem hoje conhece Edmund Kemper
                                      jamais imagina os atos criminosos que ele foi
                                      capaz de cometer.
                                             Aps ser julgado por seus crimes, Kemper
                                      foi enviado para a priso de segurana mxima
                                      de Folsom pelo resto da vida53. Ele ainda est
                                      atrs das grades. Deu extensas entrevistas a
                                      Robert Ressler, agente do FBI54, ajudando na
                                      manufatura de perfis criminais de serial killers.
                                      Sua histria foi uma ajuda inestimvel para que
                                      pesquisadores            como        Ressler        pudessem
                                      entender melhor esse tipo de assassino.
                                             Em 1988, participou juntamente com John
                                      Wayne Gacy de um programa via satlite, onde
discutiram seus crimes. Como sempre, foi loquaz e explcito.
      Na priso,  considerado um serial killer genial, pois se no tivesse se
entregado jamais seria condenado.
      Hoje, aos 52 anos,  considerado um preso modelo, com um corao de
ouro!!! Utiliza seu tempo livre traduzindo livros para o Braille. Finalmente
sua inteligncia tem como objetivo construir. Nem sempre foi assim. Vtima
de uma infncia e adolescncia turbulentas e traumticas, Kemper
transformou-se numa espcie de monstro, dificilmente despertando piedade

53
   Hoje, Kemper est preso na California Medical Facility, em Vacaville. Trabalha na Biblioteca Legal da
priso.
54
   Federal Bureau of Investigation.
naqueles que investigaram e estudaram seus crimes.
     A histria problemtica teve incio na infncia. Aos 9 anos, assistiu com
raiva e impotncia a separao dos pais. Alm da intensa saudade que
sempre sentiu do pai, muito ausente depois de sair de casa, teve que aturar
uma grande sucesso de padrastos.
     Sua vida na casa da me, em Helena -- Montana, nunca foi fcil. Era
sempre menosprezado pelas mulheres que viviam ali. Sentia-se um pria em
sua prpria famlia.
     Jamais esqueceria o dia em que chegou da escola, aos 10 anos, e foi
levado direto para o poro. Seu quarto tinha sido transformado em um lugar
isolado, sem janelas, s porque as irms tinham medo do seu tamanho, e no
seria bom se continuasse a dividir um quarto com elas; agora j era um pr-
adolescente. No tinha culpa da altura atingida com to pouca idade, mas a
me achava seu tamanho ameaador. Tambm era mal visto porque gostava
de brincar de fazer teatro, fingindo estar sendo executado na cmara de gs.
Agora, vivendo no poro, estava definitivamente banido da famlia.
     Na escola, a vida no era melhor. Apesar de ser fisicamente assustador,
Ed morria de medo de apanhar dos colegas. Nunca conseguiu ter um amigo
por muito tempo; tambm no podia explicar para nenhum deles que ficava
trancado o resto do dia num poro escuro, que ningum poderia vir brincar
em sua casa, que sua me gritava com ele o tempo todo.
     Ed e a me mantinham um relacionamento mais que conturbado.
Travavam uma batalha verbal permanente e sem fim. Na vida adulta,
sempre escutaria os gritos dela dentro de sua prpria cabea, sem trgua. No
poro, o remdio que aliviava a solido do dia e o inferno da noite eram as
fantasias para as quais se entregava, criaes sexuais e violentas. Desta
maneira, o tempo passava rpido, enquanto ficava cada vez mais fora da
realidade.
     Segundo seus relatos, a me era a funcionria perfeita do Campus
Universitrio no qual trabalhava. J em casa, demonstrava extremo egosmo;
no cuidava de nada nem de ningum. Ed tambm apanhava muito dela,
que no se conformava com sua "brincadeira" de matar e desmembrar
gatos. Ele no entendia a irritao dela, pois no seu modo de ver as coisas
nada tinha a ver com animais que no lhe pertenciam.
     Apesar dos esforos dos pais, que na realidade eram mais engajados
em sua educao do que a maioria, Edmund era uma criana difcil e
problemtica.
     Aos 15 anos, a relao com a me ficou insustentvel. J atingira 2
metros de altura, e as mulheres da casa sentiam-se ameaadas pelo rapaz
cada vez mais circunspecto e intratvel, quieto e "estranho".
     Quando uma curta temporada na casa do pai, em Los Angeles,
fracassou, foi mandado para a residncia dos avs paternos, Maude e
Edmund Kemper Sr., em North Folk, Califrnia, em 1963. Era uma fazenda
de 17 acres, completamente isolada, e o menino estava agora definitivamente
 parte de tudo e todos. Passava o dia caando com seu rifle .22,
acompanhado do cachorro que tinha se transformado no nico amigo.
     Na escola, os professores o achavam quieto, um aluno normal, que no
causava problemas nem atraa ateno para si mesmo, apesar de seu
tamanho. Para os avs, a situao era tensa, mas suportvel.
     O que no sabiam  que a raiva crescia dentro dele. O relacionamento
com o av at era bom, mas a av o irritava tremendamente. No ano de 1964,
Ed passou o vero na casa da me, mas logo estava de volta  fazenda. A av
notou que ele estava diferente... Parecia mais sinistro e mal-humorado.
Terminara a escola e sumia por longos perodos de tempo. Achava a av
cada vez mais chata, e o av realmente entediante.
     Suas violentas fantasias voltaram, e desta vez incluam a av. De
alguma forma, Maude Kemper pressentia o perigo. Comeou a carregar a
pistola .45 do marido consigo, com medo de que casse nas mos do neto,
pois no confiava nele. Ed sentiu esse ato como uma ofensa pessoal, e a
tenso na fazenda comeou a crescer sem controle. A av passou a reclamar
que seu olhar a deixava nervosa, que parasse de fit-la. Ed no se
conformava. Agora nem olh-la ele podia.
     Em 27 de agosto de 1964, Edmund deu vazo  sua raiva. Estava
sentado junto da av na cozinha, olhando enquanto escrevia mais uma de
suas histrias infantis, quando novamente ela pediu que parasse de fit-la.
Pegou o rifle, chamou o cachorro e disse que sairia para caar... antes de
fazer uma besteira. A av resolveu emendar: "No atire em passarinhos,
hein?". Foi a gota d'gua para aquela mente perturbada.
     Ed ergueu o rifle e atirou na cabea da av. Ela despencou sobre a mesa
da cozinha. Ainda atirou mais uma vez, em suas costas. Correu para dentro
de casa, pegou uma toalha e enrolou-a na cabea dela, para que pudesse
levar o corpo para o quarto do casal.
     Depois de ajeit-la, sua nica preocupao foi o que diria ao av. Saiu
l fora para pensar com calma. At gostava dele, mas contar o que acabara
de fazer... no sei no. No teve muito tempo para pensar no assunto. Logo
viu o carro do av estacionando, chegando das compras que tinha ido fazer
na cidade. Todas as suas dvidas se dissiparam ao v-lo descendo do
caminho, cheio de sacolas nos braos. Ergueu novamente o rifle, fez
pontaria e o matou com um s tiro.
     E agora? O que fazer? Todos saberiam sobre seu ato criminoso.
Resolveu fazer um telefonema para a me, que o aconselhou a chamar a
polcia. Na hora, parecia a coisa certa, mas depois no teria tanta certeza.
     Ed chamou o xerife, e foi levado para interrogatrio. Mesmo
explicando a ele que tinha matado o av no intuito de poup-lo de ver sua mulher
morta e ter um ataque cardaco, foi levado preso. Ficou  disposio da Justia,
que decidiu envi-lo ao Hospital Estadual Atascadero, em 6 de dezembro de
1964. O rapaz ainda no tinha completado 16 anos. Foi diagnosticado
psictico e paranico.
     Ali foram seus tempos mais felizes. Atascadero estava longe de ser uma
priso. No tinha guardas nas torres, e o grande objetivo ali era tratar e
recuperar doentes mentais que haviam cometido crimes, no os punir.
     Ed demorou longo tempo para entender seus crimes, mas os amigos
internados entenderam rapidamente. Jamais assumiu a culpa por ter matado
os avs, foi algo alm de seu controle, mas estava to bem que tinha ficado
orgulhoso ao ser escalado para trabalhar de auxiliar no laboratrio de
psicologia e ajudar a aplicar testes em outros pacientes. Ele se esforava ao
mximo. Todos os dias esperava com ansiedade as horas vagas. Naqueles
momentos, os outros criminosos contavam as histrias de seus crimes com
todos os detalhes. As mais interessantes foram contadas pelos estupradores
seriais. O melhor de ouvir histrias e contar suas fantasias era que, ali,
comportamento violento e fantasias perversas no eram "coisa de louco". Os
outros internos o consideravam absolutamente normal.
     Quanto mais tempo passava internado, mais suas fantasias sexuais se
tornavam intrincadas e intensas. No via a hora de poder colocar em prtica
todos os seus sonhos...
     Sempre achou que os amigos estupradores haviam sido presos porque
no tinham sido espertos o suficiente: deixavam atrs de si muitas
testemunhas e evidncias. Atacavam mulheres que os conheciam, e o faziam
em locais pblicos. Ed tinha guardado cuidadosamente todos os detalhes e
informaes de que pudesse precisar um dia. Jamais dividiu com os mdicos
as violentas fantasias de assassinar incognitamente. Quando realizasse seus
mais ntimos desejos, jamais descobririam sua identidade secreta. Nunca
deixaria pistas.
     Para todos, Ed Kemper era um trabalhador esforado e comportado,
adolescente religioso que h muito tinha se arrependido de seus atos e se
regenerado. Com boa aparncia, extremamente inteligente e caseiro,
procurava na Bblia cada referncia religiosa que ouvia nas conversas dali.
     No demorou para sua alta mdica ser encaminhada, e comeou a
freqentar uma escola perto do hospital, ainda sob superviso. Ficava meio
deslocado no meio de gente que considerava to estranha. Seus colegas de
classe eram hippies com longos cabelos; desvalorizavam o que ele mais
admirava: a autoridade em geral.
         Ed, por sua vez, era extremamente quadrado. Tinha cabelos curtos,
usava bigodinho bem aparado e desejava ardentemente ser um oficial da lei.
No conseguiu, novamente por causa de sua altura. Nessa poca, j
alcanava os 2,05m e pesava cerca de 140kg. A polcia estadual mantinha
como regra uma faixa delimitada de altura, com mnimo e mximo. Ed no
estava dentro dos padres estabelecidos. Seu sonho terminava ali.
         Foi nessa poca que, para se consolar, comprou uma motocicleta. Pelo
menos assim, podia fingir ser um "tira".
         Bem dotado de inteligncia, no foi nada difcil ir bem na escola. Em
trs meses foi libertado condicionalmente por 18 meses. Apesar dos
conselhos dos mdicos de Atascadero de que ele no devia voltar a morar
novamente com a me, as autoridades da Califrnia o mandaram direto para
l.
         Clarnell tinha acabado de se mudar para Santa Cruz, e trabalhava no
campus da Universidade da Califrnia. Com a oficializao do divrcio,
agora seu sobrenome era Strandberg. Desde que Ed tinha sido internado, ela
estava mais feliz e tranqila. Com seu retorno, no demorou muito para que
as batalhas verbais entre me e filho comeassem outra vez. Para a me,
todos os problemas eram culpa dele. Discutiam to alto que todos os
vizinhos tinham conhecimento delas. Seus momentos de lazer aconteciam
quando ia ao bar "Jury Room"55, onde encontrava os nicos amigos... os
policiais da cidade. Ed tinha verdadeiro fascnio pelas histrias de polcia e
tudo o que dizia respeito a ela, e passava horas ali conversando sobre armas
e munies. Realmente o respeitavam, e o apelidaram carinhosamente de
"Big Ed"56.
         Ele no via a hora de morar sozinho. Trabalhou em vrios empregos,


55
     "Jury Room" -- Sala do Jri -- bar freqentado por vrios policiais nos dias de folga.
56
     Big Ed -- Grande Ed.
at estabilizar-se na Diviso de Estradas, onde ganhou dinheiro suficiente
para alugar um apartamento e dividir as despesas com um colega.
     Mas, apesar da mudana, as coisas novamente no correram como
esperava. A me continuou a menosprez-lo. Ficava to perturbado quando
a encontrava, que em duas ocasies caiu de sua moto, sendo obrigado a ficar
de licena para recuperar-se das fraturas sofridas.
     Ao sarar completamente, vendeu a moto e comprou um carro muito
parecido com o da polcia. Enfim, realizava uma grande vontade que tinha
desde a infncia. Equipou-o com um rdio transmissor, microfone e antena,
e logo comeou a dar caronas na estrada para lindas meninas.
     Sua grande diverso era observar como essas mocinhas reagiam a ele.
Tinha ps-graduao em fazer as pessoas confiarem nele, e as levava em se-
gurana ao destino escolhido. Ao chegar em casa, fantasiava como seria
mant-las cativas sem ser descoberto. Devagar, foi planejando como faria
para realizar suas fantasias sexuais. Quando j tinha todos os detalhes em
mente, passou  ao: tirou a antena do carro, ajeitou a porta do passageiro
de modo que no abrisse por dentro, armazenou plsticos, facas, revlveres
e cobertores no porta-malas e, finalmente, sentiu-se mais do que pronto.
     Em 7 de maio de 1972, sua vida realmente comeou a ficar mais
movimentada. Perto do campus, duas garotas estavam no acostamento
pedindo carona.
     Mary Ann Pesce e Anita Luchese, estudantes do Colgio Estadual de
Fresno, mal acreditaram na sua sorte quando um carro parou para peg-las.
Pretendiam passar os feriados em Berkeley. Entraram no veculo, felizes da
vida. A felicidade durou pouco tempo. Ficaram alarmadas ao verem aquele
simptico motorista enveredando o carro por um caminho completamente
deserto. Ao comearem a question-lo, j assustadas, ele calmamente tirou
uma arma debaixo do banco e mandou que ficassem quietas. Ed prendeu
Anita no porta-malas. A menina chorava sem parar, mas logo o som ficou
abafado.
      Conduziu Mary Ann at o banco de trs, deitou-a de bruos, algemada,
colocou um saco plstico sobre sua cabea e comeou a estrangul-la com
uma tira de tecido. A menina, apavorada, lutava pela vida. Ed estava
adorando a luta. Quanto mais ela lutava, mais prazer ele tinha. At que a
garota furou o plstico e quase estragou seus planos. Frustrado, tirou do
bolso uma faca e esfaqueou-a repetidas vezes, at que parasse de se mexer.
Por fim, cortou-lhe a garganta. Era hora de dar ateno a Anita.
      Tirou a menina do porta-malas e comeou imediatamente a esfaque-la
com uma faca maior ainda, matando-a rapidamente. Depois declararia que
seu maior prazer estava em observar as feies das vtimas enquanto
morriam.
      J tinha em mente todos os passos seguintes que executou: levou os
dois corpos para casa, onde havia comprado uma mesa para dissecao, e
comeou a trabalhar com Mary Ann. Dissecou-a inteirinha, matando todas
as suas curiosidades. Tirou fotos de todo o processo. Depois, enfiou os restos
na sacola plstica com que tentou sufocar Mary Ann, e enterrou-a. No se
livrou das cabeas nem do cadver de Anita57.
      Misso cumprida. Jamais a polcia suspeitou de Edmund Kemper.
      Na noite de 14 de setembro de 1972, Ed avistou Aiko Koo num ponto
de nibus. Parou o carro e ofereceu carona  garota, que prontamente
aceitou. Ela estava cansada de esperar e atrasada para a aula de dana.
Numa curva, Aiko viu uma arma apontada para sua cabea. Entrou
imediatamente em pnico e tentou sair do carro. A porta no abria. O
motorista, numa voz incisa e profunda, explicou que a garota no tinha nada
a temer. A arma era para seu prprio suicdio, e se ela no fizesse nenhum
sinal  polcia ou pedestres, nada aconteceria. Aiko, em silncio, tremia
incontrolavelmente.
      Ele guiou em direo s montanhas. Saiu da estrada principal, parou o


57
  O corpo sem cabea de Mary Ann Pesce foi encontrado e identificado em agosto daquele ano. Jamais a
cabea e o corpo de Anita Luchese foram encontrados.
carro e avanou para cima da garota. Tentou sufoc-la tapando-lhe a boca e
enfiando o polegar e o indicador em suas narinas. A menina desmaiou.
Quando despertou, Ed comeou a sufoc-la outra vez. Deliciava-se
observando todas as expresses dela, e esperou que parasse de respirar
completamente. Tirou-a do carro, deitou-a no cho e estuprou seu corpo
ainda quente. Depois, para ter certeza de que estava morta, estrangulou-a
novamente, desta vez com o prprio leno da menina. Quando estava
absolutamente seguro de sua morte, colocou o corpo no porta-malas e saiu
da cena do crime. No caminho para a casa da me, parou num bar local e
tomou umas cervejas. Toda a hora parava o carro e admirava sua conquista.
Tarde da noite, levou Aiko para sua cama e divertiu-se mais um pouco.
Depois, dissecou-a do mesmo modo que havia feito com Mary Ann e Anita,
e saiu para jogar fora os restos mortais. Jogou as mos e a cabea da vtima
em locais diferentes do resto do corpo.
     Durante as conversas com policiais no Jury Room, adorava ouvir os
detalhes das investigaes de seus crimes, entre uma cerveja e outra. Quase
se sentia um deles, ao ser includo no assunto e saber segredos que no
saam nos jornais. Ouviu dos amigos que nunca relacionaram o
desaparecimento de Aiko com o das primeiras vtimas. Nos prximos quatro
meses, vtimas de outros assassinos (Herbert Mullin e John Lindley Frazier)
tiveram seus corpos encontrados na mesma rea, mas jamais Ed Kemper foi
considerado um suspeito pela polcia. Em 8 de janeiro de 1973, sentiu-se
mais confiante e comprou uma arma calibre .22.
     A prxima vtima foi Cindy Schall. Levou-a s colinas de Watsonville,
onde matou-a com a nova arma. A bala alojou-se no crnio. Ed, que havia
acabado de se mudar para os fundos da casa da me, levou o corpo at o
quarto e esperou at que ela sasse para trabalhar. Teve ento todo o tempo
do mundo. Fez sexo com a garota sem correr o risco de ser descoberto.
     Sem a mesa de dissecao, que no trouxe na mudana, ajeitou o corpo
de Cindy na banheira para divertir-se. Teve muito cuidado para deixar tudo
limpo, sem nenhuma pista. Removeu a bala do crnio da garota no quintal
da me. Acondicionou os pedaos esquartejados em vrios sacos plsticos e
jogou-os de um penhasco perto de Carmel. Desta vez, os restos mortais
seriam descobertos em menos de 24 horas, mas esse fato no causou
nenhuma preocupao a Ed. Ele havia sido extremamente cuidadoso.
         Na noite de 5 de fevereiro de 1973, teve uma briga monumental com
sua me. Ficou totalmente perturbado. Trancou o apartamento nos fundos e
saiu na rua a esmo, pronto para caar outra vtima.
         A primeira presa que entrou em seu carro foi Rosalind Thorpe.
Conversavam animadamente, quando Ed parou para dar carona a outra
moa, Alice Liu. Nenhuma delas teve qualquer receio de entrar no carro. A
segurana estava garantida com o adesivo-passe da Universidade de Santa
Cruz, roubado da me. Rodaram por algum tempo, e desta vez o assassino
nem parou o carro para mat-las. Chamou a ateno de Rosalind para a bela
vista na janela do passageiro, enquanto sacou a arma e atirou na cabea dela.
Imediatamente apontou em direo  perplexa Alice, atirando vrias vezes.
Diferente de Rosalind, Alice no morreu imediatamente. Teve que atirar nela
novamente quando saram da cidade, terminando o servio. Estacionou num
beco sem sada e transferiu os dois corpos para o porta-malas. Ao chegar em
casa, tirou-os, decepou-lhes as cabeas e guardou tudo no porta-malas
novamente. Na manh seguinte, j na segurana de seu quarto, fez sexo com
o corpo sem rosto de Alice. Tambm trouxe para dentro a cabea de
Rosalind, extraindo a bala alojada no crnio, eliminando qualquer pista.
Jogou as partes esquartejadas longe de Santa Cruz, e afastou-se bastante,
livrando-se das mos e das cabeas, que poderiam identific-las
rapidamente.
         Nessa poca, Ed ainda passava suas noites no Jury Room, onde
constatava quo longe os policiais estavam da verdade. Todas as conversas
giravam em torno do ento chamado "Co-Ed Killer"58. Ningum imaginava

58
     Coed  o termo usado nos EUA para a escola educacional mista. Como s matou colegiais... nenhuma
que ele entrava no campus para escolher suas vtimas. A polcia no tinha
nenhuma pista. O assassino era esperto, variava de mtodo para matar:
atirava, esfaqueava ou sufocava.
      A violncia de Ed continuava crescendo. Sempre as levava para casa e
seus atos com os corpos progrediam, como fazer sexo com eles. Em uma das
ocasies que matou, foi  consulta do psiquiatra levando cabeas de vtimas
em seu carro. Testou assim a habilidade em faz-lo acreditar que tudo estava
bem e sob controle. A me tambm no desconfiava de nada.
      Num certo dia, resolveu que era hora de cometer seus ltimos crimes.
Pegou um machado, subiu vagarosamente as escadas em direo ao quarto
da me, abriu com cuidado a porta e admirou Clarnell, que dormia
pacificamente. Aproximou-se e ajoelhou ao lado da cama. Observou-a por
um tempo, lembrando mais um pouco o quanto a tinha amado e o quanto
fora rejeitado por ela. Ed ficou em p. Pegou o machado com as duas mos e
decapitou sua me de um s golpe. Ela jamais soube o que a atacou.
      Ento, num ritual enlouquecido, deu vazo aos seus desejos. Estuprou
o corpo sem cabea at saciar-se por completo. Mas, como sempre, os gritos
dentro de sua cabea voltaram. Ed ouvia ainda os gritos dela por todo o
lado. Desceu at a cozinha e pegou uma faca afiada. Subiu as escadas de dois
em dois degraus, rpido, com pressa, antes que os gritos o enlouquecessem.
Pegou desajeitadamente a cabea da me no colo, e arrancou rapidamente
todas as suas cordas vocais. Finalmente os gritos pararam de atorment-lo.
Levantou-se e ajeitou o que sobrou da cabea dela em cima da prateleira. Foi
at o quarto, pegou seus dardos, e ficou por muito tempo acertando aquele
alvo perfeito. Essa prtica comeou a fazer com que raciocinasse com
clareza.
      A polcia encontraria logo o corpo de sua me, e as suspeitas no
demorariam a recair sobre ele. Precisava disfarar o acontecido sem perda de
tempo, e a melhor maneira era fazer a polcia pensar que aquele era o

alcunha era mais adequada do que esta.
trabalho de um doido qualquer.
     De repente, uma idia comeou a formar-se em sua mente. Desceu
correndo as escadas, pegou o telefone e convidou Sarah Hallet, a melhor
amiga de sua me, para um jantar ntimo naquele dia, uma surpresa para
Clarnell. Sem perda de tempo, arrumou a mesa para as duas.
     Ao entrar, Sarah no teve tempo nem de pensar. Levou uma pancada
na cabea, foi agarrada por aquele enorme homem e estrangulada
manualmente at a morte. Ainda inseguro de sua morte, Ed utilizou o leno
de Aiko para estrangul-la mais um pouco. Finalmente, deu-se por satisfeito.
     Removeu ento as roupas de Sarah e colocou-a em sua cama; fez sexo a
noite inteira com o corpo sem vida. Na manh seguinte, ao acordar do transe
em que tinha estado, ficou extremamente perturbado com a cena que
encontrou.
     Era domingo de Pscoa. Entrou no carro de Sarah, deu a partida e
comeou a viajar sem rumo. Depois de um tempo, abandonou-o num posto,
alegando que precisava de reparos. Trocou de carro vrias vezes, alugando
vrias marcas e modelos, com medo de ser pego. Mesmo sem saber para
onde estava indo, ele comeou a alimentar expectativa de ficar famoso
atravs de seus crimes. Finalmente o mundo saberia o quanto era
inteligente...
     Ed percorreu todo o caminho at Pueblo, Colorado. Parava para
comprar jornais e assistir ao noticirio, esperando ouvir as notcias sobre sua
faanha. Mas algo deu errado. No estava se tornando famoso como
esperava. Nem sequer era suspeito de ter matado Clarnell e Sarah.
     Sem perder mais tempo, alugou um quarto num motel e ligou para a
polcia de Santa Cruz, dizendo-se responsvel por oito crimes. Ningum na
polcia acreditou: "Pare de brincar, Big Ed, esta no  hora de passar trotes!
Voc no assiste  televiso? No sabe o quanto estamos ocupados tentando
pegar o assassino de sua me? Onde voc se meteu, afinal?".
     Para a polcia, Ed era s um moo que queria ser "tira", e vivia na
delegacia perguntando detalhes sobre crimes. Ed foi obrigado a fazer
diversas ligaes para que finalmente acreditassem nele. Deu detalhes sobre
os crimes que s o assassino conheceria, e informou sua localizao. A
polcia atravessou trs estados para prend-lo. Ele esperou-os sentado.

Sobre os Crimes

     Em seus depoimentos, Kemper admitiu guardar cabelo, dentes e pele
de algumas vtimas como trofus. Tambm admitiu praticar canibalismo,
dizendo preferir a carne da coxa das vtimas para fazer carne  caarola com
macarro. Alegava com-las para que fizessem parte dele.
     Enterrou vrias cabeas no jardim, viradas de frente para o quarto de
sua me, j que ela adorava "ser vista" por todos.

O Julgamento

     Ed Kemper levou os policiais de Santa Cruz a todos os lugares que
utilizava para se livrar dos corpos. James Jackson foi designado pela corte
como seu advogado de defesa, e a ele s restou alegar que seu cliente no
estava de posse das plenas faculdades mentais no momento dos crimes.
     Vrias testemunhas foram trazidas para depor e tentar estabelecer a
insanidade de Kemper, mas o promotor destruiu o depoimento de cada
uma. O Dr. Joel Fort, testemunha da acusao, foi quem fez o maior estrago
na estratgia da defesa: afirmou que Ed Kemper no era paranico
esquizofrnico. Para tanto, utilizou-se de todos os registros referentes ao
assassino desde o Hospital Psiquitrico Atascadero, alm de entrevistas com
o ru. Afirmou que o ru era obcecado por sexo e violncia, to carente de
ateno que tinha tentado o suicdio at durante o julgamento, mas de forma
nenhuma insano. Fort tambm afirmou que, se fosse solto, mataria
novamente o mesmo tipo de vtima.
     Durante as trs semanas de julgamento, nenhuma testemunha,
incluindo suas irms e mdicos de Atascadero, conseguiu convencer o jri
que Ed era insano. Quando perguntado a que pena deveria ser submetido
para pagar seus crimes, respondeu:

     -- "Pena de morte por tortura".

     O jri deliberou por cinco horas. Consideraram Edmund Kemper
culpado de assassinato em 1 grau nos oito crimes. Foi condenado  priso
perptua sem possibilidade de condicional. S escapou da pena de morte
por, na poca, ela ter sido abolida do Estado da Califrnia.
 JOHN WAYNE
      GACY



O Palhao Assassino
                          JOHN WAYNE GACY
                  -- O PALHAO ASSASSINO

Maro de 1978 -- Chicago

     Jeffrey Ringall, 27 anos, tinha
acabado de chegar das frias que
passara na Flrida. Antes de ir para
casa, resolveu dar uma passeada em
New Town, uma popular rea de
Chicago onde ficam vrias discotecas
e bares.
     Quando andava por ali, seu
caminho    foi    bloqueado   por   um
Oldsmobile       preto.   O   motorista,
homem grande e pesado, colocou a
cabea para fora da janela e elogiou o bronzeado fora de poca de Ringall.
     Riram, conversaram um pouco, e ele convidou Ringall para dar uma
volta pela cidade em seu carro. Ringall adorou a idia de sair do frio e
dividir um "baseado" com aquele estranho to amigvel. Entrou no carro e,
no meio da diverso, o homem agarrou-o, colocando sobre seu nariz um
pano encharcado com clorofrmio.
     Ringall perdeu a conscincia. Acordou vrias vezes durante os
acontecimentos, tentando entender onde estava, mas antes que isso fosse
possvel, o estranho novamente cobria seu rosto com clorofrmio e ele
perdia os sentidos.
     Quando recobrou a conscincia, estava completamente vestido embaixo
de uma esttua, em pleno Lincoln Park. No fazia a menor idia de como
tinha ido parar ali. Foi at a casa da namorada, sentindo-se muito mal. Ao
tirar a roupa, no puderam acreditar no que viam: laceraes na pele,
queimaduras, hematomas. Ringall ficou seis dias internado, e sofreu
estragos permanentes no fgado causados pelo clorofrmio que inalou em
grande quantidade. O trauma emocional foi intenso.
     Ao ser interrogado pela polcia, aquela vtima s se lembrava que um
homem gordo o havia atrado para seu carro, um Oldsmobile preto.
Lembrava-se tambm de ter sido levado a uma casa, onde foi atacado
sexualmente e espancado com um chicote, mas no lembrava da localizao
dela. Ficou difcil para a polcia investigar com to poucos dados...


11 de Dezembro de 1978 -- Des Plaines -- Chicago

     Robert Piest, 15 anos, trabalhava em uma farmcia. Sua me tinha ido
busc-lo no horrio de sada, mas o garoto pediu que ela aguardasse um
pouco, pois iria l fora conversar com um empreiteiro que estava lhe
oferecendo um emprego. A me ficou por ali olhando as prateleiras
pacientemente, torcendo pelo esforado filho que tinha. Pediu que ele no
demorasse, pois o bolo de seu aniversrio o esperava pronto, em casa.
Robert nunca iria apagar aquelas velinhas.
     O tempo foi passando, e ele no voltava. Depois de sair e entrar na
farmcia vrias vezes sem conseguir encontrar o filho, a me do menino
resolveu chamar a polcia. Comeou a ficar desesperada.

A Investigao

     O tenente Joseph Kozenczak respondeu seu apelo. Depois de ser
informado do nome do empreiteiro que havia oferecido emprego a Robert,
Kozenczak resolveu ir at a casa dele. J fazia trs horas que o garoto estava
desaparecido.
     Quem atendeu a porta foi o prprio empreiteiro, John Wayne Gacy. O
tenente explicou-lhe sobre o garoto desaparecido e pediu que o
acompanhasse at a delegacia, para prestar depoimento. Gacy disse ao
tenente que no podia sair de casa naquele momento, pois havia acontecido
uma morte na famlia e ele precisava atender algumas ligaes telefnicas.
Assim que pudesse, iria at l.
     Horas depois, em seu depoimento para o tenente Kozenczak, o
empreiteiro John Wayne Gacy disse nada saber sobre o desaparecimento do
tal menino.
     Assim que o homem saiu da delegacia, o tenente resolveu checar o
passado dele. Surpreendeu-se com sua ficha criminal!
     Em 1968, John Gacy tinha sido condenado em Iowa por abusar
sexualmente de um menino. Pegou 10 anos de priso, mas foi solto em
liberdade condicional por bom comportamento, depois de cumprir 18 meses
da pena. Em 1971, foi acusado novamente de atacar um adolescente que
trabalhava para ele na franquia do Kentucky Fried Chicken, onde o sogro
era proprietrio.
     O caso acabou sendo arquivado, pois o garoto no compareceu 
audincia. Em 1972, foi acusado de molestar e matar um gay. Alegou que se
tratara de um acidente.
     Quanto mais pesquisava a vida de Gacy, mais espantado o tenente
Kozenczak ficava. Tratava-se de homem de grande prestgio na cidade, e
ningum parecia saber de seus antecedentes. Agora, aos 36 anos, era
membro do Conselho Catlico Inter-clubes, membro da Defesa Civil de
Illinois, capito-comandante da Defesa Civil de Chicago, membro da
Sociedade dos Nomes Santos, eleito homem do ano, presidente da Jaycees
(sociedade comunitria local) e tesoureiro do Partido Democrata. Sua foto
havia aparecido nos jornais quando foi recebido pela primeira-dama
Rosalind Carter. Muitos de seus amigos haviam ouvido boatos sobre sua
homossexualidade, mas no deram muita ateno, pois Gacy havia sido
casado duas vezes, tinha filhos...
      Tambm se tratava de um homem tremendamente caridoso, que se
fantasiava de Palhao Pogo e entretia crianas em festas beneficentes e
hospitais.
      Tinha uma firma empreiteira chamada PDM Contractors, Incorporated:
executava servios de pintura, decorao e manuteno. Gacy habitualmente
contratava menores de idade, alegando que os custos eram mais baixos.
      De posse de todas essas informaes, confuso e desconfiado, o tenente
Kozenczak obteve um mandado de busca para a casa do suspeito. Ele
acreditava que iria encontrar Robert Piest ali. Encontrou muito mais...
      Ao vasculhar a residncia do empreiteiro, a polcia se deparou com
vrias evidncias suspeitas:

      -- Anis gravados com iniciais, entre outros.
      -- Sete filmes erticos suecos.
      -- Vrios comprimidos do sedativo Valium e nitrato de amido59.
      -- Fotos coloridas de farmcias.
      -- Livros sobre homossexualidade.
      -- Um par de algemas com chaves.
      -- Uma tbua com dois buracos de cada lado, de uso desconhecido.
      -- Uma pistola.
      -- Emblemas da polcia.
      -- Um pnis de borracha preta.
      -- Seringas hipodrmicas.
      -- Roupas muito pequenas para serem de Gacy.
      -- Um recibo de filme fotogrfico da Farmcia Nisson (que depois se
          descobriria ter pertencido a Robert Piest).
      -- Uma corda de nilon.
      -- Duas licenas de motorista, no no nome de Gacy.

59
  Nitrato de amido: preparado qumico voltil com propriedades vasodilatadoras que pode ser usado para
realar a sensao sexual.
     -- Um anel com a inscrio "Maine West High School -- class of 1975"
        e as iniciais J.A.S.
     -- Maconha e papis para enrolar "baseados".
     -- Um canivete.
     -- Uma mancha no tapete.
     -- Um livro de endereos.

     Trs automveis tambm foram confiscados. Em um deles, foram
encontrados fios de cabelo que depois de examinados por um laboratrio
forense seriam identificados como de Robert Piest.
     Durante todo o tempo em que recolhiam essas evidncias, os policiais
sentiam um odor muito forte, que parecia vir debaixo da casa.
Provavelmente se tratava de esgoto ou gua servida, mas no custava
verificar. A casa de Gacy foi construda de forma a ter um espao entre o
cho e a laje do piso, onde uma pessoa s conseguia entrar rastejando. Alm
do odor, nada chamou a ateno.
     John Gacy foi intimado a comparecer  delegacia para explicar os
objetos encontrados em sua casa. Chamou seu advogado imediatamente.
Alm da acusao por porte de maconha e do sedativo Valium, a polcia no
tinha nada contra ele. Tiveram que liber-lo, mas mantiveram vigilncia 24
horas sobre o suspeito.
     Outras novidades comearam a aparecer no caso de John Gacy. Jeffrey
Ringall, que sofreu profundos abalos emocionais depois de sua aventura,
estava determinado a encontrar seu estuprador. Lembrava-se de ter visto
uma certa avenida no caminho at a casa do homem que o estuprou, num
dos breves momentos em que esteve consciente dentro do carro. No teve
dvidas: pegou seu prprio carro e estacionou-o nesta avenida durante
horas, todos os dias, at ver passar um Oldsmobile preto. Seguiu-o at a casa
do motorista, obteve o nome do morador e imediatamente entrou com uma
queixa-crime de ataque sexual contra John Wayne Gacy.
     Os exames forenses nos artigos recolhidos como evidncia na casa de
Gacy tambm comeavam a frutificar.
     Um dos anis encontrados pertencia a John Szyc, desaparecido um ano
antes. Szyc, garoto de 19 anos, saiu de casa guiando seu carro Plymouth
Satellite 1971, em 20 de janeiro de 1977, e nunca mais foi visto. Pouco tempo
depois, outro adolescente foi preso guiando esse mesmo veculo, quando
tentava sair de um posto de gasolina sem pagar o combustvel. Ele disse 
polcia que o homem com quem morava podia explicar a situao. Este
homem era Gacy, que afirmou que Szyc havia vendido o carro a ele. A
polcia nunca checou que o documento, assinado aparentemente por Szyc 18
dias depois de seu desaparecimento, continha uma assinatura falsificada.
     Tambm descobriram, nas investigaes, que vrios empregados de
John Gacy haviam desaparecido.
     John Butkovich, 17 anos. Empregou-se na PDM Contractors para finan-
ciar sua paixo por carros. Dava-se muito bem com Gacy, at que este se
recusou a pagar-lhe duas semanas de servio. Butkovich foi at a casa do
empreiteiro cobr-lo, acompanhado de dois amigos. Tiveram uma grande
briga. O garoto ameaou seu empregador, dizendo que iria procurar as
autoridades competentes para contar que ele sonegava imposto. Gacy ficou
furioso. Butkovich e seus amigos deixaram a casa; ele deixou cada colega em
sua casa, e desapareceu para nunca mais ser visto.
     Michael Bonnin, 17 anos, gostava de fazer servios de carpintaria, e
sempre estava ocupado fazendo diversos projetos. Em junho de 1976, no
caminho para encontrar o irmo de seu padrasto, desapareceu. Estava
restaurando um toca-discos automtico para John Wayne Gacy.
     Billy Carroll, Jr., 16 anos. Desde que os pais se lembravam, sempre foi
um garoto problema. Aos 9 anos j estava num lar juvenil por roubar uma
bolsa. Aos 11 anos, foi preso portando uma arma. Passava a maior parte do
tempo nas ruas da rea residencial da cidade. Aos 16 anos, fazia dinheiro
arrumando encontros entre meninos homossexuais e clientes adultos, por
uma pequena comisso.
     Desapareceu em 13 de junho de 1976. John Wayne Gacy era um de seus
clientes.
     Gregory Godzik, 17 anos. Amava seu trabalho na PDM Contractors.
No se incomodava em fazer nenhum tipo de servio, pois o que mais lhe
interessava era o dinheiro que recebia. Comprava partes de seu Pontiac 1966
para restaur-lo, seu hobby permanente.
     Em 12 de dezembro de 1976, depois de levar a namorada em casa,
seguiu em direo  sua. No dia seguinte, a polcia encontrou seu Pontiac
abandonado. Nunca mais foi visto.
     Robert Gilroy, 18 anos. Desapareceu em 15 de setembro de 1977. Seu
pai, um sargento da polcia de Chicago, comeou a procur-lo assim que ele
no compareceu a um encontro com colegas para andar a cavalo, esporte
que era sua paixo. Sua busca no resultou em nada. Jamais encontrou seu
filho.
     A polcia tambm descobriu que o recibo de filme da Farmcia Nisson
encontrado na casa de Gacy era de um colega de trabalho de Robert Piest,
que havia entregado a ele no dia de seu desaparecimento para que fosse
revelado. Resolveram investigar novamente a casa de Gacy.
     Pressionado pela polcia, Gacy acabou confessando que havia matado
uma pessoa, mas que o crime havia sido em legtima defesa. Fez um mapa
para os investigadores, assinalando um local na garagem onde havia
enterrado o corpo.
     Antes de cavarem o local marcado por Gacy, resolveram dar outra
olhada embaixo da casa do empreiteiro, de onde vinha um odor terrvel.
     Logo foram encontrados trs corpos em decomposio, e um mdico
legal foi chamado para dar continuidade s buscas. Jamais a polcia
imaginou a magnitude do que seria encontrado ali.
     Gacy era o responsvel por mais de 30 vtimas de tortura e assassinato.
Quando o cho de sua casa foi removido, vrios corpos em covas rasas
foram encontrados. Para evitar a decomposio, Gacy os havia coberto com
cal. Acabou fazendo um meticuloso mapa para a polcia, indicando com
preciso 27 corpos enterrados ali. Outros dois cadveres foram encontrados
embaixo de sua garagem.
     A casa de Gacy foi escavada at suas fundaes, e mais corpos foram
encontrados. No rio Des Plaines tambm foram encontradas vtimas, pois
Gacy explicou  polcia que comeou a jog-las ali por no ter mais locais
disponveis para enterr-las em sua casa. Alm disso, a constante dor nas
costas o impedia de cavar tanto!
     O corpo nu de Frank Wayne "Dale" Landingin foi localizado no rio Des
Plaines, antes da priso de Gacy. A conexo entre este assassino e Landingin
no foi feita de imediato, e sim quando descobriram em sua casa a carteira
de motorista da vtima.
     Em 28 de dezembro a polcia removeu do mesmo rio o corpo de James
"Mojo" Mazzara, com sua cueca na garganta, o que havia causado seu
sufocamento.
     Do rio Illinois, foi retirado um corpo com a tatuagem "Tim Lee" em um
dos braos. Quando lia os jornais, um amigo do pai da vtima reconheceu os
dizeres da tatuagem: eram os restos mortais de Timothy O'Rourke, to f de
Bruce Lee que havia aderido o sobrenome do dolo ao seu prprio nome. 
possvel que Gacy tenha conhecido o jovem em algum bar gay em New
Town.
     O corpo de Robert Piest s foi encontrado em 1979, no rio Illinois. Na
sua autpsia, ficou comprovado que ele morrera sufocado com toalhas de
papel que foram encontradas em sua garganta. A famlia do garoto
processou Gacy, o Departamento Condicional do Estado de Iowa, o
Departamento Correcional e o Departamento Policial de Chicago para obter
uma indenizao de US$ 85 milhes, por procedimento negligente.
     Apesar de todos os esforos e mtodos utilizados para a identificao
das vtimas, apenas 9 corpos foram identificados, de um total de 33
encontrados. Hoje, com a possibilidade de exames de DNA, tudo seria mais
fcil.



Modus Operandi

         Gacy atraa as vtimas para sua casa com promessas de emprego em
construo civil ou pagamento em troca de sexo.
         Uma vez ali, eram algemados para a demonstrao de um truque: a
pessoa no podia mais se soltar!!!
         A maioria de suas vtimas era atacada sexualmente, torturada e
estrangulada com uma corda apertada vagarosamente atravs de uma
machadinha, ao estilo garrote. Gostava de ler passagens bblicas enquanto
fazia isso.
         Quase todos os garotos morreram entre 15:00 e 18:00. Algumas vezes
Gacy se vestia como seu alter ego, o palhao Pogo, enquanto torturava suas
vtimas. Para abafar os gritos delas, colocava uma meia ou cueca em sua
boca. Essa era sua assinatura: todas as suas vtimas tinham as roupas de
baixo na boca ou na garganta.
         Tambm contou  polcia que guardava o corpo da vtima sob sua cama
ou no poro antes de enterr-lo embaixo da casa. Segundo ele, seus crimes
eram cometidos por sua outra personalidade, que ele mesmo chamava de
Jack Hanson. Esse argumento nunca ficou comprovado pelos 13 psiquiatras
que testemunharam em seu julgamento.
         Em certas ocasies, chegou a matar mais de uma vtima no mesmo dia.


Anlise Psicolgica

         John Wayne Gacy nasceu em 1942, nico filho entre duas irms.
         O pai alcolatra moldaria o seu carter. Em sua vida adulta, assumiria
vrias caractersticas dele, tornando-os cada vez mais parecidos.
         John Wayne Gacy Sr., o pai, era guiado pelo medo de no ser bom o
bastante (deficincia de percepo).
     Sempre achava que os outros eram melhores do que ele e o
ultrapassavam na carreira profissional. Tinha um profundo desprezo por
homossexuais e polticos.
     John Wayne Gacy Jr., o filho, adotaria posteriormente essas crenas
como John, mas seu alter ego Jack seguiria o padro de comportamento
oposto ao do pai.
     Para corrigir sua deficincia de percepo, o pai tinha que ser melhor
que todos  sua volta, especialmente melhor que seu filho.
     A me de John Gacy explicava a ele que seu pai tinha um tumor
crescendo no crebro, e que quando se descontrolava no devia ser
enfrentado. Se ficasse muito nervoso, o tumor poderia se romper e causar
sua morte.
     Gacy era punido por qualquer coisa que o pai dele considerasse "um
erro". Nada do que fazia parecia ser suficiente para agrad-lo.
     Este assassino tambm tinha problemas fsicos: aos 11 anos, um balano
bateu em sua cabea, causando um cogulo que s seria descoberto cinco
anos depois. Aos 16 anos, depois de vrios desmaios e hospitalizaes do
que pareciam ser ataques epilpticos, o cogulo foi descoberto e tratado com
medicamentos. Jamais os mdicos conseguiram convencer o pai de Gacy que
ele realmente desmaiava, e no apenas fingia para chamar a ateno dos
adultos.
     Aos 17 anos foi diagnosticado como portador de uma desconhecida
doena do corao. Teria se iniciado por causa das vrias internaes de
Gacy durante sua vida, mas as dores que sofria jamais foram explicadas.
Nunca sofreu um ataque cardaco.
     Todas as refeies na casa da famlia Gacy eram regadas a briga. Aps
este "delicioso" encontro, o pai descia para o poro, onde se embebedava.
     Muito cedo, acusou seu filho de ser homossexual.
     Entre 1965 e 1967, John W. Gacy Jr. era um modelo de cidado, ao
mesmo tempo que colecionava jovens vtimas que adorava punir. Na escola,
nunca foi popular entre os amigos, mas seus professores gostavam bastante
dele.
        Gacy teria tido uma infncia absolutamente normal, no fosse por seu
relacionamento com o pai. Sua relao com a me e as irms, por outro lado,
era bastante forte. A me tambm apanhava do marido e dividia com o filho
as dores e humilhaes causadas pelas surras.
        Apesar de ter como pai uma pessoa to desagradvel, Gacy Jr. o amava
profundamente e desejava desesperadamente conseguir sua aprovao e
devoo. Desafortunadamente, jamais conseguiu ter intimidade ou
proximidade com ele, problema que o perseguiria por toda a vida e causaria
as insnias incurveis de que sofria.
        Quando foi preso pela primeira vez, John Gacy alegou que havia
quatro Johns: o empreiteiro, o palhao, o poltico e o assassino (denominado
por ele de Jack Hansen). Muitas vezes, durante seu depoimento, ao ser
questionado sobre algum detalhe dos crimes, ele respondia: "Voc tem que
perguntar isso para o Jack".
        Ao terminar o diagrama do local onde estavam enterrados os corpos,
embaixo de sua casa, Gacy dramaticamente desfaleceu. Ao acordar, disse
que Jack havia feito o diagrama.
        Declarou lembrar-se, e de forma incompleta, de apenas cinco dos
assassinatos que cometeu. Alegava que mesmo essas memrias no
pareciam ser dele, e sim de outra pessoa. Ele era apenas uma testemunha.
        A grande maioria dos assassinos hediondos alega ter mltiplas
personalidades, como meio de escapar da pena de morte. Por esta razo,
essas alegaes so vistas muito ceticamente pelos mdicos, advogados e
policiais.
        Nos testes psicolgicos a que foi submetido pelo Dr. Thomas Eliseo,
Gacy se negou veementemente a desenhar um corpo humano do pescoo
para baixo, como se fosse algo ruim ou que devesse se manter longe.
     Quando examinado pelo Dr. Robert Traisman, Gacy foi mais
cooperativo e desenhou o corpo todo. Em sua anlise, achou significativo o
fato de Gacy desenhar a mo esquerda cheia de detalhes, e a direita muito
pequena, coberta com uma luva. Sua explicao para isso no tribunal foi que
o lado direito era seu lado masculino, enquanto o esquerdo simbolizava o
feminino. Interpretou esse desequilbrio como se Gacy tivesse dificuldades
na sua identidade sexual.
     Ao desenhar uma figura feminina para o mesmo psiclogo, esta foi
considerada "macia, com aparncia masculina e braos de jogador de
futebol americano". A figura feminina usava um cinto de duas voltas, as
pontas caindo sobre sua rea genital, o que o Dr. Traisman considerou um
bvio smbolo flico, sugerindo forte ansiedade sexual.
     Quando solicitado a desenhar qualquer coisa de sua escolha, Gacy
desenhou sua prpria casa, com os tijolos excessivamente detalhados, tudo
numa fiel reproduo. Para o Dr. Traisman, isso refletia uma "tremenda
compulso e perfeccionismo".
     Todos os sete psiquiatras que examinaram Gacy para seu julgamento
concordaram que ele era inconsistente e contraditrio, mas nenhum deles o
diagnosticou como tendo mltiplas personalidades. Nenhum deles achou
que era incompetente para ser julgado.
     O Dr. Lawrence Freedman diagnosticou-o como um pseudoneurtico
esquizofrnico paranico. Disse que Gacy era um homem que no tinha
certeza quem era, e de tempos em tempos manifestava diferentes aspectos
de sua personalidade.
     O Dr. Richard Rapport o descreveu como tendo uma personalidade
fronteiria e que, invariavelmente, tudo que dizia apresentava dois lados.
     O Dr. Eugene Gauron diagnosticou Gacy como um sociopata.
     O Dr. Robert Reifman o achou narcisista e mentiroso patolgico.
O Julgamento

     O julgamento de John Wayne Gacy iniciou-se em 6 de fevereiro de 1980
em Chicago, Illinois.
     A acusao falou ao jri, composto de cinco mulheres e sete homens,
sobre a vida e morte de Robert Piest e outras 32 vtimas daquele que seria
um dos mais famosos assassinos seriais dos EUA. Toda a investigao foi
detalhada, alm da descoberta de corpos embaixo de sua casa. Gacy foi
descrito como assassino sdico, racional e calculista.
     Os advogados de defesa descreveram seu cliente de maneira
completamente oposta: irracional, impulsivo e insano, incapaz de controlar
seu comportamento. Se fosse declarado insano, seria internado numa
instituio psiquitrica para tratamento, da qual s sairia, se isso
acontecesse, depois de curado.
     A primeira testemunha da acusao a dar seu depoimento foi Marko
Butkovich, pai de John Butkovich. Foi o primeiro de muitos familiares de
vtimas que dariam seu depoimento entre lgrimas e profunda tristeza.
     Em seguida foram chamados aqueles que trabalharam com Gacy e
sobreviveram aos encontros violentos com o patro. Alguns contaram sobre
o "truque" com as algemas, outros do assdio que sofreram no local de
trabalho.
     Muitos psiquiatras tambm testemunharam sobre a sanidade de Gacy
durante os ataques, como descrito na anlise psicolgica. Todos concluram
que ele estava na total posse de suas faculdades mentais quando de seus
atos, e que sabia muito bem diferenciar o certo do errado.
     A primeira testemunha de defesa chamada para depor, para surpresa
de todos, foi Jeffrey Ringall. Esperava-se que ele fosse testemunha da
acusao, e no da defesa. Seu testemunho foi curto. A acusao queria que
ele dissesse ao jri que achava que Gacy no tinha o menor controle sobre
suas prprias aes. Enquanto contava os detalhes do estupro e tortura que
sofreu,   Ringall   comeou    a   vomitar   incessantemente   e   a   chorar
histericamente. Foi retirado da corte, enquanto Gacy no demonstrava
qualquer sinal de emoes.
     Para provar a insanidade de Gacy, seus advogados chamaram seus
amigos e famlia para depor. Sua me contou como ele havia sofrido abusos
fsicos e verbais do pai. Suas irms disseram ter presenciado as inmeras
vezes em que foi abusado e humilhado. Outros que testemunharam em sua
defesa contaram ao jri como ele era generoso e bom, ajudava os
necessitados e sempre tinha um sorriso para todos. Alguns depoimentos
acabaram atrapalhando a defesa de Gacy, pois seus amigos se negaram a
declarar que o achavam insano, e sim homem dotado de uma inteligncia
brilhante!
     Outros psiquiatras foram chamados para dar seu prprio diagnstico.
Todos declararam que Gacy era esquizofrnico e sofria de mltiplas
personalidades e comportamento anti-social. Declararam que sua doena
mental o impedia de perceber a magnitude de seus crimes.
     Demorou apenas duas horas de deliberao para que o jri decidisse
em quem acreditou: John Wayne Gacy foi considerado culpado da morte de
33 jovens, e recebeu a pena de morte por injeo letal.
     Foi mandado para o Menard Correctional Center, em Chester, Illinois,
onde, depois de anos de apelaes, foi executado.


Os Anos na Priso

     Durante os 14 anos em que ficou preso, Gacy teve a mesma rotina:
acordava s 7:00, esfregava o cho de sua cela de l,80m por 2,5m, olhava sua
correspondncia volumosa e trabalhava em suas pinturas. Ao ir para a cama,
s 3:00 da manh, j tinha anotado cada ligao telefnica, visitantes (mais
de 400) e cartas recebidas (27.000), assim como cada pedao de comida que
havia ingerido. Essas anotaes tinham se tornado uma obsesso.
     Na priso, John Wayne Gacy se dedicou principalmente  pintura
artstica. Seu tema principal eram palhaos, e muitas pessoas pagaram caro
para obter algumas de suas telas.
     Seus quadros foram exibidos em galerias por toda a nao americana.
     Gacy pintou vrios auto-retratos, palhaos, Jesus e Hitler, chegando a
vender cada pea de US$ 100,00 at US$ 20.000,00.
     Pintava tambm artistas pop como Elvis Presley, e personagens Disney,
como Roger Rabbit e Branca de Neve e os Sete Anes. Criminosos notrios
tambm foram retratados, como Charles Mason, Al Capone e John Dillinger.
Chegou a ganhar perto de US$ 140.000 com sua arte macabra.
     Ficou to conhecido que foi habilitado a instalar um nmero de
telefone 0900, onde se podiam ouvir mensagens gravadas com sua voz
clamando sua inocncia, pagando-se US$ 1,99 o minuto. Acredite, muitas
pessoas ligavam para ouvir essas mensagens, e pagavam por esse servio!
     Nos 14 anos em que esteve preso, Gacy divorciou-se, fez psicoterapia,
tentou suicdio e se tornou alcolatra.
     Sua ltima vtima foi seu filho Rob, que na poca da execuo (1994)
estava com 15 anos. Ele teve que suportar a tragdia de ter um pai como
Gacy e v-lo executado. A herana que Gacy deixou para a famlia no
apagou as marcas deixadas por seus crimes.


A Execuo -- Stateville Penitentiary -- Joliet, Illinois

     No seu ltimo dia de vida, 10 de maio de 1994, Gacy recebeu a visita de
sua famlia e amigos.
     A ltima refeio foi escolhida por ele, e era composta de um balde de
frango frito (Kentucky Fried Chicken), camaro frito, batatas fritas e
morangos frescos.
     s 21:00, foi pedido que todos os familiares e amigos se retirassem, mas
Gacy poderia ficar at s 23:00 em companhia de um ministro religioso, se
assim fosse sua vontade.
     s 23:00 iniciaram-se os preparativos finais. Foi oferecido a Gacy um
sedativo. Exatamente s 24:01 ele foi retirado de sua cela, amarrado a uma
maca e recebeu uma soluo salnica intravenosa em seu brao.
     Foi dada a ele, ento, a chance de pronunciar suas ltimas palavras,
que foram "Kiss my ass!" (Beije meu cu).
     A identidade dos executores sempre  mantida em sigilo, e  um
trabalho voluntrio.
     Todas as testemunhas da execuo, atravs de uma janela, observaram
a dose de sdio pentathol, um anestsico, ser ministrada em sua veia,
automaticamente. Era a droga que o faria dormir pela ltima vez.
     Em seguida, o brometo de pancuronium comeou a ser injetado, para
que seu aparelho respiratrio fosse paralisado. Na seqncia, deveria entrar
automaticamente em suas veias o clorido de potssio, para parar seu
corao. O processo todo no deveria demorar mais que cinco minutos...
     John Wayne Gacy levou 18 minutos para morrer. O tubo por onde o
soro estava sendo ministrado, entupiu. Gacy bufou! Os atendentes da
cmara da morte imediatamente fecharam as cortinas em volta dele, e
comearam a lutar para desentupir o tubo. Trocaram por outro. Os olhos do
prisioneiro se abriram pela ltima vez.
     Finalmente, as duas ltimas drogas tiveram seu caminho livre para
dentro do corpo de Gacy. O monstro estava morto...
     Se pudesse ter assistido o que se passava do lado de fora, o Palhao
Pogo teria adorado o circo que se instalou ali.
     Todas as redes de rdio e televiso estavam no local, alm de
espectadores em geral. Quanto mais o relgio se aproximava da meia-noite,
mais o povo ali presente cantava, brindava e se comportava como se
estivesse num show de rock. Pouqussimas pessoas estavam ali para
protestar contra a pena de morte.
     Adolescentes vestiam camisetas com inscries criativas, como:
     "Meus pais vieram  execuo de Gacy e tudo o que consegui foi esta
estpida camiseta", ou "Nenhuma lgrima para o palhao".
     Minutos depois da meia-noite, todo mundo comeou a brindar e cantar
mais alto. Garotas subiam nos ombros de seus namorados, segurando
lanternas.
     Nada disso melhorou a tristeza dos pais que perderam seus filhos para
sempre... Morria, nessa data, o misterioso assassino, que se escondia atrs da
mscara de um palhao. Morria aqui um louco com uma mortal necessidade
de jovens vtimas, e com ele o segredo da identidade de vrias delas.
     Em 1998, vinte anos aps os crimes de Gacy, novas buscas foram feitas
num local perto de onde a me dele morava. Vrios investigadores
acreditam que Gacy matou muito mais gente do que o nmero de corpos
encontrados, porm nenhum corpo alm dos 33 anteriores jamais apareceu.
ANDREI CHIKATILO




O "Aougueiro" Russo
                              ANDREI CHIKATILO
                               -- A BESTA LOUCA

22 DE DEZEMBRO DE 1978

                                            Lena   Zakotnova,    9    anos,     chamada
                                      carinhosamente    por   todos   de      Lenochka60,
                                      esperava por sua conduo no ponto de nibus.
                                      Aproximou-se dela um senhor muito bem
                                      vestido, que lhe prometeu chicletes importados
                                      se ela viesse busc-los na casa dele. A menina,
                                      com toda a sua inocncia, acompanhou aquele
                                      gentil senhor, at o que parecia ser um barraco.
                                            Svetlana Gurenkova, que esperava um txi
                                      do outro lado da rua, assistiu  linda menina de
casaco vermelho seguir alegremente um senhor de aproximadamente 40
anos, vestido com um capote preto e usando um culos de muitos graus. O
txi chegou, e a Sra. Svetlana seguiu seu caminho.
         Assim que chegaram ao barraco, o homem comeou a tirar a roupa da
menina, que comeou a gritar desesperadamente! Para silenci-la, foi
sufocada com seu antebrao, at que desfalecesse.
         Imediatamente o homem deu seguimento aos seus desejos, despindo a
menina desacordada. Acariciou-a um bom tempo, mas quando falhou em
estupr-la, por conta de sua prpria impotncia, enfureceu-se: apunhalou a
pobre criana trs vezes no estmago e saiu do barraco com ela no colo,
para jogar seu corpo no rio Grushovka. Nem percebeu que o sangue da

60
     Diminutivo em russo de Lena, como Leninha.
garota manchou os degraus da frente de seu barraco. Tambm esqueceu a
luz acesa.
     Ao chegar  beira do rio, afundou a criana com sua mochila escolar...
     No dia seguinte, quando o corpo da menina apareceu boiando, vestida
com um casaco vermelho, todos os jornais noticiaram o fato. Svetlana
Gurenkova procurou imediatamente a polcia, e descreveu o que tinha visto
no ponto de nibus. Um retrato falado foi feito na hora, e distribudo por
toda a cidade.
                                               O estilo do crime logo levou a
                                         polcia    a    lembrar-se      de    um
                                         estuprador conhecido, que estava
                                         em    liberdade      condicional.     Seu
                                         nome era Alexander Kravchenko,
                                         que havia estuprado e matado uma
                                         garota     de   17   anos      em    1970.
                                         Cumpriu seis anos de um total de
                                         10 anos de sentena aos quais foi
                                         condenado. As diferenas entre
                                         Kravchenko e o retrato falado eram
                                         absurdas. Ele tinha apenas 25 anos,
                                         e    no   usava     culos.    Ao     ser
                                         entrevistado pela polcia, negou o
crime. Mas os investigadores queriam solucionar o caso rapidamente, e
persuadiram a esposa do suspeito a depor contra ele no tribunal. Tinham
certeza de que ele era culpado; afinal, com aqueles antecedentes... Apavora-
do, Kravchenko mudou seu depoimento e assumiu a culpa por um crime
que no havia cometido.
     Enquanto Kravchenko era questionado pela polcia, o diretor de uma
escola local ficou bastante impressionado ao ver o retrato falado que
circulava pela cidade. Tratava-se de um ssia de um professor que lecionava
em sua escola, Andrei Chikatilo.
     Era muito estranho. Parecia inconcebvel que pudesse se tratar da
mesma pessoa. O diretor da Escola Vocacional 32, em Novoshakhtinsk,
voltou rapidamente ao seu escritrio, indo diretamente pesquisar na pasta
de Chikatilo sobre seu histrico.
     O professor tinha chegado  cidade de Shakhty naquele ano. Era casado
e tinha um par de filhos. Diplomado em Artes Liberais, em Literatura Russa,
Engenharia e Marxismo-Leninismo, parecia impossvel que fosse um
assassino.
     Segundo as informaes que tinha, Chikatilo era um cidado acima de
qualquer suspeita: casado, pai de famlia, bom vizinho, membro do Partido
Comunista e professor.
     Mesmo assim, procurou a polcia, mas esta pediu que ele no
comentasse com ningum sobre essa identificao positiva.
     A investigao continuou. Ao verificarem as ruelas em volta das
margens do rio, perceberam um barraco com os degraus da frente sujos de
sangue. Tambm notaram que, dentro do barraco, a luz estava acesa. Ao
interrogar a vizinhana, a polcia descobriu que o barraco pertencia a
Andrei Chikatilo, que foi imediatamente chamado para depor.
     Chikatilo foi liberado em pouco tempo: sua esposa declarou que ele
havia passado todo o tempo em questo com ela, em casa.
     Mesmo com evidncias to fortes contra Chikatilo, a polcia achou mais
fcil acreditar que Alexander Kravchenko era culpado. Ele foi julgado, e
condenado  priso perptua. Por ironia do destino, a famlia da menina
recorreu da sentena, e conseguiu imputar-lhe a pena de morte. Kravchenko
foi fuzilado em julho de 1983. Esse engano da polcia russa custaria muitas
vidas...
1981

     Depois de seu primeiro crime, Chikatilo ficou sem matar durante trs
anos. Devido  escassez de recursos da escola, ele foi demitido como
excedente nesse ano, mas membros do comit o recompensaram: foi
nomeado gerente de suprimentos de uma fbrica, na rea industrial perto de
Shakhty.
     Agora Chikatilo tinha um modus vivendi que sempre sonhou, e que iria
permitir que ele finalmente usufrusse seus prazeres. Passava a vida
viajando de estao em estao, e podia escolher suas vtimas com calma e
tranqilidade. Ele seria uma exceo entre os assassinos seriais, ao comear
sua trilha de matana aos 42 anos de idade.
     Sua segunda vtima foi a menina Larisa Tkachenko, 17 anos. Ela estava
cabulando aula na cidade de Rostov, quando foi seduzida por Chikatilo a ir
ao bosque fazer sexo com ele. Cometeu um erro fatal; comeou a rir quando
a performance dele falhou! Foi imediatamente estrangulada. Chikatilo,
totalmente enfurecido e humilhado, roeu sua garganta, braos e seios.
Sorveu um de seus mamilos depois de cort-lo com os dentes, e empalou-a.
Ento, calmamente, pegou sua maleta e seguiu viagem.


12 de Junho de 1982

     Ningum jamais saber que argumento Chikatilo usou para persuadir
Lyuba Biryuk a acompanh-lo. Esta menina de apenas 12 anos foi
esfaqueada pelo menos 40 vezes no silncio de uma floresta. Seus ferimentos
incluam a mutilao dos olhos, que seria a assinatura de Chikatilo em todos
os seus crimes. Os restos mortais de Lyuba s foram encontrados um ano
depois de seu desaparecimento.
1983

     Durante esse ano, Chikatilo fez mais trs vtimas, incluindo-se aqui sua
primeira vtima masculina, Oleg Podzhidaev, de 9 anos. O corpo do menino
nunca foi encontrado, mas segundo os depoimentos posteriores do
assassino, Oleg foi castrado e seus genitais foram levados por ele, outra
assinatura freqente de seus crimes.
     Nessas investigaes, a polcia suspeitava que dois assassinos
diferentes estavam agindo na rea, pois serial killer era coisa de pas
capitalista.


1984 -- As Investigaes

     Durante esse ano, Andrei Chikatilo matou 15 pessoas, entre os meses
de janeiro e setembro. Entre essas vtimas, estavam Lyuda Kutsyuba (24
anos), Igor Gudkov (7 anos) e Laura Sarkisyan (10 anos).
     A polcia estava extremamente alarmada com o nmero de
assassinatos, principalmente de crianas, e obteve o reforo do Major
Mikhail Fetisov e seu time de investigao. Finalmente algum chegava 
concluso que eram obra de um nico louco.
     Como a maioria dos crimes havia ocorrido na rea de Rostov,
particularmente na cidade de Shakhty, Fetisov montou um esquadro ali
como base para as investigaes. Para liderar o esquadro, foi escolhido
Victor Bukarov, experiente analista forense, considerado por muitos o mais
talentoso investigador de cenas de crime do departamento de polcia.
     O caso foi oficialmente denominado como "Lesopolosa", ou "Os
assassinatos do estripador da floresta".
     A primeira ao do esquadro foi pesquisar arquivos de hospitais
psiquitricos e similares, porque acreditavam que o criminoso s poderia ser
algum obviamente anormal. Os arquivos da polcia tambm foram
totalmente vasculhados, mas nada parecido com aqueles crimes foi
encontrado nos registros.
     Apesar dessa falta de pistas, todas as pessoas que tinham sido suspeitas
em crimes similares tiveram uma amostra de sangue recolhida para exame
de tipo sangneo, pois o smen extrado dos restos mortais de algumas
vtimas estabelecia o tipo de sangue do agressor como "AB". Andrei
Chikatilo estava includo nessa lista.
      pouco conhecido o fato de que, em raros casos, tipos sangneos
definidos pela amostra de sangue e smen podem no combinar -- Chikatilo
era um desses casos, e foi liberado quando seu tipo de sangue foi definido
como diferente daquele.
     As investigaes prosseguiram, agora investigando cada motorista que
trabalhava naquela rea industrial da cidade. Nada foi descoberto.
     A polcia estava desesperada. O nmero de mortes era cada vez maior.
Bukarov ento pediu para vrios psiclogos, psiquiatras e patologistas
sexuais do Instituto Mdico de Rostov que preparassem um perfil do
assassino. Muitos deles se negaram a ajudar, alegando terem poucas
informaes, mas o Dr. Aleksandr Buchanovsky concordou, e forneceu um
perfil aos investigadores:

     -- O assassino sofria de distrbios sexuais.
     -- Sua altura era de, aproximadamente, l,67m.
     -- Sua idade estava entre 25 e 50 anos.
     -- Calava n 41 ou mais.
     -- Tinha tipo sangneo comum.
     -- Provavelmente sofreu alguma forma de violncia sexual inadequada
        e brutalizava suas vtimas para compensar o fato.

     Sem muitas informaes que o ajudassem, Bukarov resolveu tentar a
sorte estreitando a vigilncia nas estaes de nibus, trem e bonde,
conseguindo para tanto pessoal extra que o ajudasse nessa tarefa.
         O lugar que recebeu maior ateno da polcia foi a estao de nibus de
Rostov, que era a ltima localizao conhecida das duas vtimas recm-
encontradas. A tarefa de vigiar a estao ficou sob a responsabilidade de
Alecsandr Zanosovsky, que devia estar atento a qualquer pessoa que agisse
de modo suspeito em relao a mulheres e crianas.




         Ao final do primeiro dia de vigilncia, chamou a ateno de
Zanosovsky um homem de meia-idade, que usava culos de grau. Aquele
senhor olhava insistentemente para jovens garotas.
         O policial se aproximou e pediu para ver os documentos do homem,
que parecia muito nervoso por ter sido abordado. Alegou que estava em
viagem de negcios, finalmente indo para casa. Zanosovsky examinou todos
os documentos do homem, que incluam um carto vermelho que o
identificava como empregado autnomo de uma das divises da KGB61.
Constatando que tudo estava em ordem, devolveu os documentos e
desculpou-se pelo incmodo.
         Dias depois, Zanosovsky e um parceiro estavam novamente vigiando a

61
     Komitet Gosudarstvemoy Bezopastmosti -- Comit de Segurana do Estado.
mesma estao quando Andrei Chikatilo foi visto novamente. O policial
ainda se lembrava da estranha maneira de agir daquele senhor. Resolveram
segui-lo por algum tempo. A espreita durou vrias horas, pois Chikatilo
embarcou em vrios nibus e viajou por todo o distrito antes de retornar 
estao de Rostov.
     Durante todo o percurso, o homem se aproximava de vrias mulheres
com idades diferentes, sempre tentando entabular uma conversa. Mesmo
quando rejeitado, no desistia. Parecia que seu objetivo era conversar com
todas as mulheres que cruzassem seu caminho.
     Pareceu obter sucesso com uma delas, com quem iniciou carcias, mas
depois de algum tempo ela se aborreceu e levantou gritando com o homem.
Zanosovsky e seu parceiro, sem perda de tempo, interpelaram o sujeito e
pediram seus documentos.
     Andrei Chikatilo comeou a suar profusamente. Com relutncia, abriu
sua valise para que os policiais examinassem seu contedo: uma corda, um
pote de vaselina e uma afiadssima faca. Foi imediatamente levado sob
custdia sob a acusao de assdio sexual, crime que dava direito  polcia
de det-lo para averiguaes por 15 dias.
     Durante esse tempo, foi descoberto um registro criminal anterior de
Chikatilo, que havia roubado um linleo e bateria de um carro de
propriedade de uma fbrica do estado. No era muito, mas esse crime
dilatava o prazo de deteno por vrios meses, dando aos investigadores a
chance de examinar seu passado com mais cuidado.
     Nos meses que se seguiram, vrias descobertas foram feitas.


Histrico

     Andrei Romanov Chikatilo nasceu na Ucrnia, em 16 de outubro de
1936. Filho de uma me desequilibrada, acreditou piamente nela quando lhe
contou que seu irmo mais velho, Stephan, tinha sido raptado e canibalizado
por aldees vizinhos, durante a poca da grande fome dos anos 30 na
Ucrnia.
     Apesar da grande emoo e transtorno da me ao contar essa histria
para os outros filhos, no existem registros de nascimento ou morte de
nenhum Stephan Chikatilo, ou ocorrncias de canibalismo nesses anos na
Ucrnia.
     O pai de Andrei, soldado russo, tinha sido acusado de traio quando
foi capturado como prisioneiro da Segunda Guerra Mundial. Segundo o
prprio Andrei, esse fato causou nele uma angstia que o acompanhou
durante toda a vida.
     Chikatilo, que de to mope era quase cego, tambm sofria de um
distrbio   sexual desde    o   incio   da adolescncia,      que   o   deixava
periodicamente impotente. Ele acreditava que havia sido cegado e castrado
ao nascer, crena que iria abastecer suas mrbidas fantasias de vingana
violenta.
     Foi um estudante vido por livros, mas seu jeito estranho e quase
afeminado sempre provocava risadas constantes dos colegas. Chikatilo era
alvo de ridicularizaes interminveis. Tinha pouqussimos amigos, e s
admitiu que precisava de culos quase aos 20 anos. Sua enurese noturna
tambm era motivo de grande vergonha e segredo.
     Na adolescncia, parou de ser provocado. Tinha se tornado um rapaz
muito alto e forte, impondo algum respeito atravs do tamanho que
adquiriu. Aos 16 anos j era o editor do jornal escolar e do escritrio de
informao poltica, cargos que lhe davam algum prestgio. Ainda assim, sua
vida social era completamente inexistente, especialmente no que dizia
respeito a mulheres.
     Casou-se em 1963, e teve dois filhos: Lyudmilla e Yuri.
     Sua timidez profunda dificultou muito sua vida como professor, no
controle de seus alunos. Eles sempre o ridicularizavam e humilhavam. Seus
colegas de profisso tambm riam dele, por ach-lo muito estranho.
     Desde o incio de sua carreira, os alunos o interrompiam toda hora com
zombadas, apelidando-o de ganso por causa de seu longo pescoo e postura
inadequada. Com o passar dos anos, ele passou a molestar sexualmente os
estudantes. No princpio, apenas os observava no banheiro. Depois,
diretamente nos dormitrios. Sentindo-se ameaado, andava sempre com
uma faca.
     Em suas investigaes, a polcia no demorou a descobrir os incidentes
sexuais nas escolas que trabalhou, seus atos de voyeurismo e o ataque a um
aluno num dormitrio.
     As evidncias indicavam que ele poderia ser o assassino to procurado.
Resolveram ento tirar uma amostra de seu sangue, para identificar seu tipo
sangneo: era tipo "A". Se, nessa altura dos acontecimentos, a polcia
tivesse colhido amostras de sua saliva e smen, teriam descoberto que seu
tipo sangneo, na verdade, era "AB". Ocorria que os antgenos "B" em seu
sangue no estavam presentes de forma suficiente para ser detectados.
     A nica evidncia real que restou para a polcia, e que poderia lig-lo
aos crimes, era o contedo de sua pasta. Chikatilo ento foi condenado
apenas por roubo; cumpriu trs meses de uma pena de um ano e foi solto
novamente, ainda em 1984.


Os Crimes Continuam

     Em dezembro de 1984, Chikatilo j estava empregado numa fbrica de
locomotivas perto de Novocherkassk. Como antes, seu servio inclua
muitas viagens...
     Permaneceu sem matar at 1 de agosto de 1985, quando se aproximou
de uma menina de 18 anos, com problemas mentais. Ela concordou em
segui-lo at uma mata perto da linha do trem, e algum tempo depois estava
morta, com marcas de 38 facadas pelo corpo.
     Ainda em agosto, Chikatilo encontrou uma jovem na estao de nibus
de Shakhty, que disse a ele no ter onde dormir. Oferecendo a ela seu
barraco em troca de favores sexuais, guiou-a pelo caminho da floresta.
Novamente ele falhou sexualmente. Novamente, uma mulher riu de seu
pobre desempenho. Foi morta imediatamente, sem d nem piedade.


1986
     Apesar do esquadro de investigao ainda estar trabalhando, extra-
oficialmente o caso foi passado para as mos de Issa Kostoyev, diretor do
Departamento de Crimes Violentos de Moscou. Ele reorganizou os trabalhos
em trs times: Shakhty, Rostov e Novoshakhtinsk.
     Decidiu que qualquer pessoa que tivesse sido condenada por qualquer
crime    motivado   sexualmente   fosse   checada   novamente.   Profundas
investigaes comearam a ser feitas, e talvez por esse motivo Chikatilo,
assustado, parou de matar por quase dois anos.


1987
     Durante uma viagem para a cidade de Revda, nos Urais, Chikatilo
matou um menino de 13 anos que concordou em segui-lo atrs de alguma
recompensa. Seu corpo foi encontrado nas proximidades da estao de trem
local.
     Em julho desse ano, sua viagem a Zaporozhye, Ucrnia, resultou na
morte de outro garoto que o seguiu floresta adentro. O ataque a esse garoto
foi to brutal, que a faca de Chikatilo quebrou na cena do crime, sendo
encontrada pela polcia.


1988

     Chikatilo matou novamente em abril desse ano. Desta vez, sua vtima
foi uma mulher de 30 anos, na cidade de Krasny-Sulin. Na cena do crime, foi
encontrada uma pegada do assassino, tamanho 41-42.


1989

     Mais oito vtimas foram mortas por Chikatilo. Uma delas no
apartamento vazio de sua filha, agora divorciada. Ele embebedou Tatyana
Ryshova e a seduziu. Depois de esfaque-la e estupr-la, se deu conta de que
no poderia deixar seu corpo em local to bvio. Utilizando-se de uma faca
de cozinha, decapitou-a, amputou suas pernas e embrulhou tudo em panos.
Amarrou a trouxa no tren de um vizinho e levou os restos mortais para um
local de despejo seguro.
     Outro crime foi cometido quando Chikatilo estava indo ao aniversrio
de seu pai. Ao ver Yelena Varga, 9 anos, no pde se conter: enganou-a para
que o seguisse at a floresta e esfaqueou-a. Deixou ali seu corpo depois de
arrancar seu tero e parte de sua face.
     A ltima vtima de 1989 foi um menino de 10 anos, que ele conheceu
numa locadora de vdeo. Foi morto a facadas e enterrado no cemitrio de
Rostov pelo prprio assassino.


1992

     Entre janeiro e novembro desse ano, Chikatilo matou mais nove
pessoas. A preferncia dele agora se definia por meninos. Uma dessas
vtimas era o menino Vadim Tishchenko, que teve seu corpo encontrado
perto da estao de trem de Leskhoz, em Rostov.
     Depois do assassinato de Tishchenko, foi montado um grande esquema
de vigilncia permanente em todas as estaes de trem e nibus das
redondezas, com policiais usando at culos especiais para viso noturna.
     Todos os passageiros dirios eram observados. Foram utilizadas
tambm iscas humanas, com policiais femininas bonitas vestindo roupas 
paisana bastante provocativas. Era o desespero instalado na polcia, que
pretendia capturar finalmente aquele terrvel criminoso que j agia h quase
15 anos.
     Outro esquadro foi escalado para identificar quem havia vendido a
passagem de nibus que foi encontrada ao lado do corpo do menino.
Finalmente, depois de um trabalho exaustivo de entrevistas, um atendente
da estao de Shakhty reconheceu a foto do garoto. Contou  polcia que ele
havia comprado sua passagem acompanhado de um senhor alto, bem
vestido e grisalho, que usava culos de muitos graus. O atendente tambm
informou que sua filha j havia visto esse mesmo senhor um ano antes,
quando estava em um trem conversando com um outro menino e tentando
convenc-lo a descer do trem com ele. O garoto se recusou e fugiu.
     A polcia foi imediatamente conversar com a tal filha, que deu uma
descrio detalhada do sujeito. Afirmou que ele era freqentador constante
dos trens, sempre tentando descer acompanhado de algum jovem.
     Antes que a polcia pudesse chegar a Andrei Chikatilo, mais uma moa
foi vtima do monstro: Svetlana Korostik, 20 anos. Foi surrada, esfaqueada e
mutilada. Desta vez, o animal arrancou sua lngua e ambos os mamilos,
antes de cobrir o corpo dela com galhos e folhas.
     A polcia comeou ento a ler todos os relatrios anteriores sobre fatos
estranhos que seus investigadores poderiam ter observado nas estaes. Ao
ler o relatrio do sargento Ribakov, o chefe Kostoyev surpreendeu-se. Como
aquele relato tinha passado despercebido?
     O sargento Igor Ribakov contava que, num certo dia, trabalhando na
estao de trem, reparou em um homem andando pela plataforma, suando
abundantemente.
     Ao chegar perto dele para examinar melhor, notou que o senhor em
questo tinha mancha de sangue na bochecha e no lbulo da orelha, alm de
estar usando um curativo num dos dedos da mo.
     Pediu os documentos do tal homem: Andrei Chikatilo, engenheiro
snior de uma fbrica de locomotivas em Rostov.




    O policial ia fazer mais perguntas, quando um trem chegou e Chikatilo
insistiu que tinha que seguir viagem naquele momento. No havendo
nenhuma razo real para segur-lo ali, Ribakov o deixou seguir seu
caminho.
    Apreensivo, o chefe Kostoyev resolveu checar os registros de viagem
                                    deste tal Chikatilo.
                                         Neste meio tempo, outro corpo
                                    foi encontrado na cidade de Ilovaisk, o
                                    da    menina       Alyosha    Voronka.
                                    Kostoyev      logo     descobriu     que
                                    Chikatilo havia estado nessa cidade a
                                    negcios,     na     mesma   data.   Os
                                    esquadro principal decidiu ento
                                    montar um esquema de vigilncia
                                    permanente sobre aquele suspeito,
                                    para tentar peg-lo com a "boca na
                                    botija".
     Em 10 de novembro de 1992, Chikatilo resolveu procurar um servio de
raios X para descobrir por que seu dedo, mordido por uma das vtimas,
ainda doa tanto. Realmente seu dedo estava quebrado. Recebeu tratamento
e foi dispensado.
     Ao chegar em casa, resolveu sair novamente para comprar cervejas. No
caminho, parou para conversar com um garoto, mas afastou-se rapidamente
quando a me dele apareceu.
     Logo adiante, encontrou outro menino e se engajou numa conversa, at
que a me dele tambm o chamou. Foi ento que trs homens, vestindo
jaquetas de couro, aproximaram-se dele e se identificaram como policiais.
Chikatilo foi algemado e preso para averiguaes, levado para o escritrio
de Mikhail Fetisov, principal chefe de todos os esquadres.
     Ao verificar a pasta que carregava, constataram que o contedo era o
mesmo de seis anos antes: uma corda, vaselina e uma faca afiada.
     Encontrar mais evidncias no foi difcil. Uma busca em seu
apartamento revelou 23 outras facas diferentes, um machado e um par de
sapatos que combinava com a pegada encontrada ao lado do corpo de uma
das vtimas. O difcil para a polcia estava sendo acreditar que aquele gentil
e educado senhor de fala mansa fosse o terrvel monstro procurado h tanto
tempo pela polcia russa.
     Desta vez, ao ser interrogado, Chikatilo confessou em detalhes todos os
seus crimes. Perfaziam um total de 53 vtimas, sendo 21 meninos, 14
meninas e 18 jovens mulheres.
     Sua memria era brilhante. Ele se lembrava de datas, locais e at da
roupa que suas vtimas estavam vestindo no momento do crime. Tambm
descreveu o mtodo especial que tinha desenvolvido para matar com facas,
de modo que o sangue no espirrasse nele mesmo.
     Suas vtimas eram to severamente mutiladas que, quando as
autoridades do Uzbequisto encontraram o corpo de uma jovem no trigal,
achou que ela tivesse cado embaixo de uma mquina agrcola. Em outros
trs casos, a polcia achou que tivesse localizado corpos de meninas, mas,
depois de examinados, constatou-se que se tratava de meninos.
     Chikatilo seguia suas desprevenidas "presas", que escolhia em estaes
de nibus e trens, entabulava uma conversa e as convencia a acompanh-lo a
bosques nas proximidades.
     Jamais obrigou uma vtima a acompanh-lo.
     Ao chegar nos bosques, aquele senhor to quieto e intelectual passava a
se comportar como uma fera selvagem. Ele mesmo se descreveu como "lobo
enlouquecido". Golpeava ento suas vtimas, prendendo-as contra o cho, e
imediatamente arrancava suas lnguas com mordidas, para evitar que
gritassem.
     Na seqncia, as violava e mutilava. A primeira mutilao a que as
submetia era nos olhos: ele os arrancava com a faca, de modo que no
pudesse ser observado na sua performance sexual. Depois de satisfeito,
desmembrava-as ainda vivas, infligindo nelas entre 40 e 50 feridas
profundas.
     Muitas vezes arrancava o rgo sexual de suas vtimas usando como
arma a prpria boca. Em outras oportunidades, enchia seu estmago com
terra e depois as destrinchava. Fervia e comia os testculos e mamilos
arrancados; arrancava seus narizes e dedos. Muitas das crianas que matou
foram mutiladas ainda vivas.
     O julgamento do tambm chamado "Aougueiro de Rostov" teve incio
em 14 de abril de 1992. Estavam presentes os parentes das vtimas e a
imprensa.
     Chikatilo descreveu detalhadamente seus sangrentos crimes e seu
comportamento psictico, causando diversos desmaios na platia.
     Durante todo o tempo, foi mantido numa jaula de metal para sua
prpria proteo
     Ao final, o juiz declarou, com base no depoimento dos psiquiatras, que
aquele assassino estava em seu perfeito juzo mental quando cometeu os
crimes.
     Chikatilo apresentou-se como uma alma atormentada e enlouquecida
por sua impotncia sexual.




     Em 15 de outubro de 1992, Andrei Romanovich Chikatilo foi declarado
culpado de 52 assassinatos e condenado  morte. Escapou de um de seus
crimes por falta de provas.
     Quando ouviu sua sentena, declarou:

     "Quero que meu crebro seja desmontado pedao por pedao e
     examinado, de maneira que no haja outros como eu".

     Foi fuzilado com um tiro na nuca em 14 de fevereiro de 1994.

     O filme Cidado X, com Donald Sutherland e Stephen Rhea, foi baseado em
seus crimes.
LEONARD LAKE
      &
 CHARLES NG



Uma Dupla Letal
                        LEONARD LAKE
                   & CHARLES CHITAT NG

2 de Junho de 1985

     O policial Daniel Wright, de So Francisco, atendeu a um chamado
bastante comum: numa loja da cidade, um asitico foi visto furtando um
torno mecnico e guardando-o dentro de seu casaco. O cliente que
presenciou a cena denunciou-o para a gerncia, que chamou a polcia.
     Logo que estacionou, o policial Wright j encontrou,  sua espera, o
gerente da loja acompanhado de um senhor barbudo, gordo e meio hippie.
Foi relatado a ele que o asitico era amigo deste senhor, que j havia pagado
a "compra" no valor de US$ 75,00, teoricamente encerrando a questo. O
torno j estava no porta-malas de um Honda Prelude 1980, que o policial
resolveu checar.
     Ao revistar uma sacola de ginstica que estava dentro do automvel,
foi encontrada uma arma calibre .22 com silenciador. Portar armas com
silenciador  ilegal nos Estados Unidos. O policial Wright, apesar dos
                           protestos do hippie que acenava com a nota fiscal
                           do torno, resolveu checar pelo rdio a placa do
                           automvel.
                                Ao ser perguntado a quem pertencia o
                           carro, o hippie explicou que era de um amigo seu,
                           Lonnie Bond, que no momento estava viajando
                           pelo norte do pas.
                                Ao receber a resposta de sua checagem pelo
                           rdio, o policial ficou intrigado. A        placa
realmente estava registrada em nome de Lonnie Bond, mas pertencia a um
"Buick", e no a um Honda. A carteira de motorista do hippie foi pedida.
     Outra surpresa... o documento estava em nome de Robin S. Stapley,
residente de San Diego de 26 anos. Aquele homem parecia ter bem mais que
a idade apresentada no documento.
     Wright perguntou a "Stapley" sobre o porte de arma, mas ele
respondeu que a arma pertencia a Lonnie. Pela segunda vez, Wright acionou
seu rdio e pediu a verificao do nmero de srie da arma. Estava
registrada sob o nome de Robin Stapley.
     Achando tudo muito confuso, o policial resolveu prender o hippie sob a
alegao de portar uma arma ilegal. Algemou-o, leu seus direitos, trancou-o
no carro e pediu ao gerente da loja uma descrio do asitico para futuras
investigaes.
     "Stapley" foi levado para a delegacia, seus bolsos foram esvaziados e
ele foi colocado numa sala de interrogatrio. Entre seus pertences, foi
encontrado um recibo em nome de um tal Charles Gunnar.
     Antes que "Stapley" pudesse responder de quem se tratava, outro
policial entrou na sala informando que o nmero de identificao do Honda
Prelude revelou que era propriedade de Paul Cosner, declarado
desaparecido na cidade de So Francisco h nove meses.
     "Stapley" ficou completamente plido. Pediu aos policiais um copo
d'gua e uma caneta, para que pudesse escrever uma nota para a esposa.
Depois de redigir algumas linhas, declarou:

     "O nome do meu amigo asitico  Charles Chitat Ng; Chitat se pronuncia
     `Cheetah', e Ng pronuncia-se `Ing'. Meu verdadeiro nome  Leonard Lake".

     Sem dizer mais nada, Lake tirou algo da lapela, colocou na boca e
bebeu a gua. Em segundos, diante do policial estupefato, estava
convulsionando pelo cho. Tinha ingerido duas cpsulas de cianureto, e foi
levado para o hospital ainda com vida, mas com danos cerebrais
irreversveis. O bilhete encontrado em seu bolso dizia:

     "Querida Lyn: eu te amo. Por favor, me perdoe. Eu te perdo. Por favor, diga
     para mame, Fern e Patty que eu sinto muito".

     O policial Wright no acreditava nos acontecimentos que se
desenrolavam  sua frente. Por que algum cometeria suicdio por roubar
um veculo? Nada fazia sentido.
     As investigaes prosseguiram, enquanto Lake vegetava no hospital. A
polcia tcnica de So Francisco foi chamada para fazer uma verificao no
Honda. No banco do passageiro, foram encontradas manchas de sangue.
Havia um buraco de bala perto do pra-sol do mesmo lado, e duas caixas de
explosivos embaixo do banco.
     Paul Cosner, em nome de quem o carro estava registrado, tinha 39 anos
e era comerciante de carros usados. Havia desaparecido em 2 de novembro
de 1984, depois de comentar com sua namorada que sairia para mostrar um
carro a um homem de "aparncia estranha". Nunca mais voltou.
     No porta-luvas do Honda foram encontrados vrios cartes de banco e
de crdito, alm de outros documentos em nome de Robin Scott Stapley,
declarado desaparecido em abril daquele ano, em San Diego. Nesta cidade,
Stapley era membro fundador dos "Anjos da Guarda", organizao nacional
formada para proteger cidados de ataques criminosos e para auxiliar a
polcia. Que ironia.
     Outro carto encontrado estava em nome de Randy Johnson.
     A pista mais importante foi uma conta de luz em nome de Claralyn
Balasz, ex-esposa de Leonard Lake e cidad de San Bruno, perto da loja onde
Lake havia sido preso. O endereo que constava na conta era de um imvel
localizado em Wilseyville, Califrnia, regio distante 220km de So
Francisco, aos ps das montanhas de Serra Nevada.
3 de Junho de 1985
     Os detetives Tom Eisenmann e Irene Brunn, ambos da Delegacia de
Pessoas Desaparecidas, foram escalados para entrevistar Claralyn Balasz.
Segundo ela, a conta de luz era de uma cabana que pertencera a seu pai,
numa regio de difcil acesso e localizao. S uma pessoa da regio poderia,
segundo ela, chegar ao local. Marcaram ento a viagem para o dia seguinte.
Os policiais encontrar-se-iam com Balasz e a me de Lake, Glria Eberling,
numa quitanda no meio do caminho.


4 de Junho de 1985

     Conforme o combinado, os detetives Tom e Irene foram acompanhados
at a tal cabana. Imediatamente ficaram intrigados com a facilidade de
acesso ao local, contradizendo as informaes anteriores.
     A cabana era composta de dois quartos, sala, cozinha e um banheiro.
     Estranhamente, o teto era todo pintado com manchas vermelhas. Na
parede, um pequeno buraco de bala. Na cozinha, outro, desta vez no cho.
     A cama do quarto do casal era de dossel, e havia fios eltricos
amarrados em cada uma das quatro colunas da cama. Em cada esquina da
cama estavam fixados parafusos tensores e acima deles um holofote de 250
Watts na parede. De um lado da cama havia um armrio cheio de lingeries,
muitas manchadas com o que parecia ser sangue.
     A Detetive Irene foi at a cama e levantou a colcha, encontrando uma
manta toda manchada de vermelho-escuro.
     Na sala, ficavam equipamentos para duplicao de fitas de vdeo, com
seus nmeros de srie apagados.
     Diante de uma cabana to suspeita, a Detetive Irene Brunn foi at o
procurador do distrito de San Andreas e pediu um mandado de busca para
toda a propriedade, uma vez que tinha evidncias suficientes que o
justificassem.
         Com o mandado nas mos, voltou  cabana. Logo descobriu que Balasz
e sua ex-sogra haviam estado na cabana antes dela, com a desculpa de retirar
uma fita de vdeo que conteria imagens de Balasz nua. A me de Lake se
negou a responder qualquer pergunta relacionada a essa visita  cabana, e
Balasz foi extremamente evasiva.
         Do lado de fora da casa, o Detetive Tom encontrou um incinerador,
com paredes  prova de fogo, capaz de agentar altssimas temperaturas.
         Devido  ligao do caso com pessoas desaparecidas, iniciou-se uma
busca mais detalhada, com especial ateno a este incinerador e a um
bunker62 de concreto estabelecido prximo  cabana. A detetive Irene teve
que pedir autorizao a Balasz para averiguar o bunker, pois o mandado no
cobria esta rea. A mulher ficou descontrolada, disse que no tinha nada a
ver com isso, e que se queriam a autorizao deviam procurar o scio de
Lake, Charles Ng.
         Segundo ela, os dois eram procurados e resolveram fugir e esconder-se
morando na cabana de Wilseyville. Como no estava de acordo, separou-se
do marido em 1982.
         Irene no sabia nada sobre Ng, e perguntou a Balasz onde poderia
encontr-lo. Tarde demais. Ela confessou que havia ajudado o rapaz a fugir
no dia anterior, levando-o at um terminal da American Airlines. No tinha
a menor idia de para onde o amigo ia, apenas que usava o nome falso de
Mike Kimoto.
         Quando a detetive aprofundou suas perguntas sobre o relacionamento
entre Balasz e Ng, ela ficou furiosa. Negou permisso para que o bunker fosse
revistado, pediu a presena de um advogado e foi embora acompanhada da
ex-sogra.
         Os detetives resolveram no perder mais tempo. Informaram  polcia
sobre a fuga e pseudnimo de Ng e encontraram-se novamente com o
procurador, a fim de obter um mandado de busca para o bunker.

62
     Bunker: espcie de abrigo antiareo.
Imediatamente, foi montada uma fora-tarefa para que toda a propriedade
de Lake e Ng fosse vasculhada. O responsvel pela investigao seria o
Xerife Ballard.
     Aos iniciarem as buscas, logo foram detectados traos de gua sanitria
num dimetro de 3 metros em volta do bunker, ao longo de um fosso que
parecia conter artigos de pano. Preocupado com a possibilidade de descobrir
ali um cemitrio, Ballard pediu que as terras vizinhas fossem investigadas.
     Elas pertenciam a Bo Carter, que foi questionado por telefone. Suas
declaraes foram surpreendentes...
     Segundo ele, a casa estava alugada para Lonnie Bond, sua esposa
Brenda O'Connor e o filho do casal, Lonnie Jr., de apenas 1 ano de idade.
Algumas semanas antes, depois de um grande atraso no pagamento dos
aluguis, Carter havia mandado um agente ao local para cobrar a dvida.
     Ao chegar, o vizinho, que se identificou como Charles Gunnar, disse
que os inquilinos haviam deixado a casa 10 dias antes. Completando o seu
servio, o agente de cobrana informou Carter que havia outro homem
morando com Lonnie Bond e sua famlia antes que desaparecessem, dado
que poderia facilitar a localizao dos devedores. Seu nome era Robin
Stapley.
     No mesmo relatrio, Carter foi informado que sua propriedade havia
sido bastante escavada.
     Como achou toda a histria muito estranha, Carter resolveu investigar
pessoalmente sua propriedade. Quando estava examinando o local
escavado, o vizinho "Charles Gunnar" aproximou-se, e acompanhou sua
inspeo. Nada de especial sobre o homem chamou a ateno dele, at que,
semanas depois, viu no noticirio a fotografia do sujeito que havia tomado
plulas de cianureto na delegacia. "Charles Gunnar" era Leonard Lake.
     O Xerife Ballard, intrigado com a histria relatada, mandou que sua
equipe, agora composta por cachorros treinados e um especialista forense,
vasculhasse a rea que teria sido escavada na propriedade de Carter.
Concomitante-mente, abririam o bunker.
     A sala principal da estranha construo tinha aproximadamente 18m2.
Numa parede de compensado, dezenas de ferramentas e serras potentes ja-
ziam penduradas, ao lado de uma banca de trabalho. Ao olhar de perto,
perceberam vrias manchas marrom-escuro encardindo as ferramentas,
possivelmente de sangue seco. Atarraxado  banca, estava um torno
mecnico quebrado.
     Ao sair do bunker, os policiais ficaram intrigados novamente. O local
parecia bem menor por dentro do que por fora. Como podia ser isso? Ser
que havia algum aposento escondido? Dito e feito! A parede de compensado
onde as ferramentas ficavam penduradas era, na verdade, uma porta que
levava a um pequeno quarto.
     Dentro, havia uma cama de casal, um criado-mudo, livros e um abajur
para leitura. Na parede, uma placa com a inscrio "Operao Miranda".
     As investigaes posteriores mostrariam que essa inscrio foi retirada
do livro The Collector, de John Fowles, tambm encontrado no aposento. Este
livro conta a histria de um colecionador de borboletas que rapta uma linda
mulher, mantendo-a trancada em seu celeiro at a sua morte.
     Dentro do quarto tambm foram encontrados equipamentos militares
como armas, rifles de assalto, uniformes, botas e pistolas automticas. Entre
essas armas, estava uma mira militar, usada por soldados de tocaia que
necessitam acertar tiros no escuro. No cho, estavam um macaco e bon
com a inscrio "Dennis Moving Service". Na prateleira, entre livros sobre
explosivos e produtos qumicos, foi encontrada uma pequena janela feita de
vrias camadas de vidro, completamente  prova de som.
     Penduradas na parede do pequeno quarto estavam 21 fotografias de
jovens mulheres em vrias etapas de um strip-tease, muitas tiradas no jardim
da propriedade. Duas fotos tinham como fundo um papel de parede
desenhado com personagens de desenhos animados, mais tarde identificado
como sendo do South City Juvenile Hall, onde Claralyn Balasz trabalhava
como assistente de professora. Todas as 21 mulheres foram posteriormente
encontradas vivas e bem de sade.
     Os detetives novamente checaram as medidas externas e internas do
bunker. Novamente, suas contas no fechavam. Tinha que existir mais um
quarto escondido, talvez atrs da janela de vidro  prova de som.
     As novas buscas teriam que esperar que os tcnicos forenses coletassem
evidncias nos aposentos j encontrados. A primeira foi a impresso digital
de um adulto, na pequena janela da prateleira. Muitas outras foram
detectadas, todas de Ng ou Lake.
     Do lado de fora, dois ossos foram desenterrados e enviados ao Dr.
Boyd Stephens, mdico legista de So Francisco.


5 de Junho de 1985

     Tcnicos forenses retiraram um projtil calibre .22 da parede do quarto
principal. Embaixo da cama, estava o dirio de Leonard Lake. O contedo
parecia um livro de horror. Ali estava descrito, em detalhes, como a dupla
de amigos selecionava, estuprava e matava suas numerosas vtimas. Lake
tambm escreveu nesse dirio sobre sua compulso em dominar mulheres e
fazer delas suas escravas. Elas eram obrigadas a lavar, passar, cozinhar e o
servir sexualmente.
     Tambm estavam descritas as teorias de Lake sobre guerras nucleares,
de sua crena sobrevivencialista e seu plano de construir bunkers por todo o
pas, repletos de suprimentos, armas e escravas que repopulacionariam o
mundo.
     No fim do dia, o bunker foi liberado pela polcia forense para que a
procura por outro quarto fosse iniciada. No demorou para que a detetive
Irene Brunn encontrasse uma porta secreta atrs da prateleira de livros, que
levava a um quartinho de apenas 2,00 x 2,50m. O pequeno aposento
continha uma cama estreita, um banheiro qumico, ventilador e jarra de
gua. Buracos haviam sido feitos na parede para prover alguma ventilao,
mas foram abafados para que no entrasse luz.
     Ao examinar simultaneamente os dois quartos, perceberam que a
pequena janela era especial, ou seja, quem estava no quarto principal podia
ver tudo o que se passava no quartinho, mas quem estava no quartinho via
apenas seu prprio reflexo. Tambm foi encontrado um boto ao lado da
janela, que, quando apertado, permitia que os ocupantes do primeiro quarto
ouvissem qualquer som que viesse do segundo.
     O detetive Eisenmann apagou todas as luzes do bunker e, usando a mira
militar para ver atravs da janelinha, pde observar com perfeio a detetive
Brunn do outro lado. Enfim, aquilo parecia ser uma cela para "hspedes",
controlados sem que tivessem qualquer conhecimento.
     A partir dessa descoberta, a investigao passou a ser de grande
assassinato, incluindo o FBI, o Departamento Florestal Californiano e o
Departamento de Justia da Califrnia.


6 de Junho de 1985

     Neste terceiro dia de investigaes, as buscas tiveram o auxlio de um
especialista da Associao de Resgate por Cachorros da Califrnia. O Xerife
Ballard tambm requisitou equipamentos pesados para que a propriedade
pudesse ser cuidadosamente escavada.
     Glria Eberling, me de Lake, e Claralyn Balasz, ex-esposa, estavam
presentes. Nesta altura, Leonard Lake j apresentava morte cerebral e a
famlia estava sendo pressionada a autorizar o desligamento dos aparelhos
que o mantinham vivo. Glria tambm confessou  nora sua preocupao
com o desaparecimento de seu outro filho, Donald Lake, de quem no tinha
notcias h dois anos.
     O caso estava se tornando um verdadeiro circo de horrores. As
evidncias sugeriam mltiplos raptos, estupros, assassinatos e dois
principais suspeitos: um morto e um foragido. Tudo que se podia fazer no
momento era coletar o maior nmero de provas possvel.
     As investigaes do FBI mostraram que Charles Ng havia embarcado
em um vo de So Francisco para Chicago, mas as pistas acabavam a. Sabia-
se, por sua ficha, que tinha irms morando em Toronto e Calgary, no
Canad; um tio em Yorkshire, Inglaterra, e muitos amigos que serviram com
ele na Marinha americana morando no Hava. O mais interessante foi a
descoberta de que Ng no era cidado americano, mas alegou ter nascido em
Bloomfield, Indiana, para conseguir seu alistamento. Serviu  Marinha,
roubou armas militares de uma base em Kaneohe, Hava, foi preso e
mandado para a Corte Marcial, condenado a dois anos de priso. Tudo como
se fosse um verdadeiro americano.
     O FBI concluiu que, cedo ou tarde, Ng procuraria sua famlia ou
amigos. A Interpol e a Scotland Yard foram avisadas e a descrio de
Charles Chitat Ng, distribuda por todo o mundo.


7 de Junho de 1985

     No quarto dia de buscas na cabana de Wilseyville, o xerife Ballard foi
avisado de que os ossos que ali haviam sido encontrados eram humanos.
Outro osso, serrado nas pontas, juntou-se s provas do crime.
     Vrios outros itens achados nas escavaes j somavam uma lista de
evidncias:

     -- Uma bolsa plstica contendo uma carta endereada a Ng.
     -- Um recibo no nome de Harvey Dubs.
     -- Uma camiseta com a inscrio "Scott".
     -- Itens variados, fotografados e embrulhados para anlise.
8 de Junho de 1985
     Os primeiros cadveres so encontrados. Os esqueletos de duas
pessoas, aparentemente completos, foram desenterrados. Os ossos haviam
sido serrados e queimados.
     Por ironia, no dia em que os corpos comearam a ser descobertos,
Leonard Lake morreu. Segundo a descrio de um jornalista, na reportagem
sobre o caso, "Leonard Lake era muito pattico e humano para ser chamado
de Diabo, mas muito frio e cruel para ser considerado humano".
     Na seqncia das escavaes, foram desenterrados cinco baldes
ensacados. Dentro deles, um livro de cheques no nome de Robin Scott
Stapley, jias, cartes de crdito, carteiras de motorista, carteiras de dinheiro
e trs fitas de vdeo. Ao assisti-las, o choque foi tremendo. A realidade podia
ser pior que a fantasia...
     Uma mulher, identificada como Kathy, foi filmada amarrada numa
cadeira. Depois, foi forada a fazer um strip-tease completo para deleite de
Lake e Ng. As cenas de sexo entre a moa e Ng estavam tambm registradas
ali, com Lake aparecendo ao tirar fotografias do casal.
     Em outra parte do filme, Kathy aparece algemada em uma poltrona.
Lake diz a ela para cooperar, e ele a deixar ir embora em 30 dias. Se
recusasse, atirariam em sua cabea e a enterrariam junto com seu namorado,
j morto por eles. Na verdade, Kathy Allen havia sido atrada at a cabana
da dupla quando Lake foi cham-la, no supermercado em que trabalhava,
alegando que seu namorado Michael Sean Carrol havia levado um tiro.
Michael havia sido companheiro de cela de Charles Ng na priso.
     Lake tambm avisa a aterrorizada moa que a manteria ocupada
lavando suas roupas, passando-as, cozinhando e mantendo relaes sexuais.
Ao longo do vdeo, ele continua fazendo vrias ameaas, explicando que se
sentia mal pelo que estava fazendo, mas que no podia evitar suas aes e
do amigo Ng. Kathy tambm foi avisada para parar de bater na porta de seu
quartinho, pois as dobradias j estavam ficando danificadas. Se fizesse isso
outra vez, seria severamente castigada.
     A cena ento  cortada para a moa, que est sendo forada a escrever
uma carta aos parentes de seu namorado, dizendo que haviam mudado de
endereo e que no seriam mais encontrados. O vdeo volta para Kathy,
sendo obrigada a escolher entre ser escrava sexual ou morrer. Ela concorda
com a escravatura,  libertada das algemas e amarrada  cama. Lake aparece,
ento, tirando fotos suas vestida com diversos lingeries.
     Outras fitas incluam cenas de Brenda O'Connor, esposa de Lonnie
Bond e vizinha de Lake. Ela implora desesperada que lhe dem informaes
sobre seu beb. Lake responde que ele est "dormindo como uma pedra".
Depois de torturada e ameaada, o vdeo mostra uma Brenda mais
cooperativa, e pode-se ouvir o som dos trs tomando banho juntos. A polcia
acredita que o marido e filho de Brenda foram mortos antes mesmo que
Lake e Ng comeassem as gravaes da fita.
     As escavaes progrediam, e foram achados parte de um crnio, outro
balde contendo itens pessoais e o que parecia ser mais um cadver
queimado. Em alguns minutos, outros quatro corpos emergiram da terra.
Tratava-se de um homem negro, duas mulheres e uma criana.
     Mais tarde foi desenterrado um recipiente plstico e um longo tubo de
metal, com 30cm de dimetro. Foram encontrados US$ 1.863,00, carteiras e
cartes de crdito. Dentro do tubo, um rifle Colt AR-15 semi-automtico.
     Outros dois corpos foram desenterrados, ambos assassinados por uma
nica bala calibre .22, ao estilo execuo. Um deles era Randy Jacobson, um
dos raros a serem identificado. Randy era um sem teto, veterano da guerra
do Vietn que havia sido companheiro de Lake, recrutado para ajudar na
construo do bunker e depois executado.
     Ao todo, foram encontrados os corpos de sete homens, trs mulheres,
dois bebs e mais de 20kg de fragmentos de ossos. As evidncias sugerem
que 25 pessoas foram mortas por esta dupla; vrios desaparecimentos foram
relacionados ao caso. Como muitos corpos foram incinerados, esquartejados
e espalhados pela propriedade, a identificao de todos tornou-se
impossvel.
     As vtimas identificadas foram as seguintes:

     -- Kathleen Allen, gerente de um supermercado em Milpitas.
     -- Michael Carrol, seu namorado, traficante e companheiro de cela de
        Ng.
     -- Robin Scott Stapley, membro fundador dos "Anjos da Guarda" em
        San Diego.
     -- Randy Johnson, veterano de guerra e amigo de Lake.
     -- Charles Gunnar, amigo e padrinho de casamento de Lake e Balasz.
     -- Donald Lake, irmo de Leonard Lake.
     -- Paul Cosner, dono do Honda Prelude.
     -- Brenda O'Connor, Lonnie Bond e Lonnie Bond Jr., vizinhos.
     -- Harvey, Deborah e Sean Dubs, famlia que ps  venda
        equipamentos de udio atravs de um anncio de jornal e foi
        raptada e morta pela dupla.

     A arma que matou o DJ Donald Giuletti e feriu seu amigo Richard
Carraza, atingidos por um asitico que invadiu seu apartamento para
assalt-los, tambm foi encontrada na cabana de Wilseyville. Carraza,
posteriormente, identificaria Charles Ng como o asitico que os atacou em
julho de 1984.
     O FBI localizou e efetuou uma busca no apartamento de Charles Ng em
So Francisco. Ali foram encontradas armas, pertences de algumas vtimas e
um recibo de pagamento emitido pela Dennis Moving Company. Um dos
empregados desta empresa era Cliff Peranteau, colega de Ng e visto vrias
vezes envolvido em srias discusses com ele. Cliff desapareceu em janeiro
de 1985, e seus pertences foram encontrados no apartamento de Ng.
Aparentemente, todas as pessoas que estiveram envolvidas na construo do
bunker da cabana de Wilseyville foram executadas por Lake e Ng.
     Em sua fuga, ao chegar em Chicago, Ng hospedou-se no Chateau Hotel
sob o nome de Mike Kimoto, ficando ali por quatro dias. Encontrou-se ento
com um amigo no identificado, que viajou com ele por Detroit antes que
cruzasse a fronteira com o Canad, sozinho.
     Durante 34 dias, conseguiu fugir da caada internacional deflagrada
pela polcia de So Francisco. Depois disso, sua compulso em roubar o
denunciou, como j havia acontecido na priso de Leonard Lake.


6 de Julho de 1985

     Numa loja em Calgary, Canad, Ng novamente no pde conter sua
compulso em furtar, e foi abordado por dois seguranas que pediram para
verificar sua mochila, carregada de itens de mercearia, que levaria sem
pagar.
     Ao ser acusado de furto, sacou sua arma e ameaou os seguranas.
Alguns tiros foram trocados; um segurana foi atingido na mo. Ng foi
imobilizado e levado em custdia, indiciado por roubo, posse ilegal de arma
e tentativa de assassinato.
     Quando ia ser levado a julgamento, notcias de sua captura chegaram
ao conhecimento da fora-tarefa que investigava o caso Lake-Ng nos EUA,
que imediatamente pediu sua extradio.
     Calculada ou no, sua escolha em fugir para o Canad foi bastante
acertada. Naquele pas, a pena de morte foi abolida, e no costumam
extraditar presos que possam enfrentar esse tipo de pena em outros pases.
O Ministro da Justia do Canad, John Cosbie, negou o pedido.
     Com as mos amarradas, as autoridades americanas resolveram enviar
dois detetives de So Francisco para entrevistar Charles Ng em sua cela, em
Calgary. Nessa entrevista, ele alegou que Leonard Lake era o responsvel
pelos assassinatos em Wilseyville, mas admitiu ajudar a esconder o corpo de
Paul Cosner. Segundo sua verso dos fatos, teria encontrado com Lake no
Boulevard Geary, So Francisco. Paul Cosner tinha acabado de ser
assassinado, e seu corpo ainda estava no carro.
     Depois dessa "confisso" na entrevista, o Departamento de Justia
americano fez novo pedido de extradio, novamente negado pelas
autoridades canadenses. Queriam que Ng fosse julgado pelos crimes
cometidos em seu pas, onde acabou sendo condenado por assalto e
sentenciado a quatro anos e meio de priso.
     Enquanto cumpria sua pena, estendia-se uma longa batalha entre os
governos canadense e americano pela sua extradio. A luta demorou quase
seis anos, tempo que o preso aproveitou estudando as leis americanas.
     Durante o processo, outras provas foram anexadas ao caso. Existem
evidncias de que Ng teria desenhado vrios esboos dos assassinatos em
Wilseyville, com detalhes que s o prprio assassino poderia ter
conhecimento. Num deles, intitulado "25 Anos Depois", ele aparecia sentado
em sua cela, cercado pelas pessoas que tinha assassinado, com seus nomes
escritos sobre cada um.
                                Um homem que cumpriu pena com Ng em
                           Leavenworth, anos antes, disse a reprteres que
                           haviam se comunicado por telefone vrias vezes
                           entre 1984 e 1985. Nessas conversas, Ng teria
                           pedido conselhos de como se livrar dos corpos de
                           suas vtimas, e descreveu vrias de suas
                           "performances" para o colega. Chegou a relatar
                           como certa vez criou um jogo com a vtima,
                           soltando-a para depois ca-la como um animal
                           pela propriedade, at mat-la.
     Depois de dzias de apelaes e audincias sem fim, o governo
canadense concordou em extraditar Charles Ng no dia 26 de setembro de
1991. Minutos depois do acordo ser estabelecido, e sem dar tempo do
advogado de defesa de Ng tomar qualquer atitude, o preso foi transferido
para a Base Area de McClellan. Na seqncia, foi levado para a priso de
Folsom, Sacramento, para esperar julgamento.
     Os procedimentos criminais do processo contra Ng foram os mais caros
da histria criminal americana, ultrapassando at mesmo o dinheiro gasto
com a promotoria do caso O. J. Simpson. Ng utilizou-se de todos os artifcios
estudados durante sua priso no Canad e, com a ajuda de seus advogados,
adiar por anos o julgamento de seus crimes.
     Finalmente, o local eleito para que o julgamento se realizasse foi San
Andreas. Ng continuou tentando adiamentos, movendo aes contra o
Estado onde alegava maus-tratos na priso, ingesto de comida estragada,
medicamentos administrados  fora que teriam causado sonolncia e
incapacidade de tomar parte nos procedimentos do pr-julgamento, etc.
     Demitia seus advogados em intervalos regulares e contratava novos,
que pediam mais tempo para estudar o caso. Chegou a processar seus
prprios advogados por incompetncia, pedindo uma indenizao de US$
1.000.000,00. Tambm foi pedida a troca de local de julgamento para o
Condado de Orange, onde acreditavam que Ng teria um veredicto mais
justo que em San Andreas. Na cidade escolhida para o julgamento foi feita
uma pesquisa onde demonstrou-se que 95% das pessoas da cidade,
absolutamente informadas sobre o caso, consideravam Charles Ng culpado
pelos crimes em Wilseyville.
     Em 8 de abril de 1994, o juiz do caso em San Andreas deferiu a moo
feita para a mudana de local, definindo Santa Ana, no Condado de Orange,
como novo local de julgamento. O Condado de Orange, financeiramente
falido, negou-se a julgar Charles Ng, alegando no poder arcar com os
custos do caso. Por fim, o Estado da Califrnia concordou em arcar com os
gastos.
     Novamente Charles Ng trocou de advogados, exigindo mais prazo
para que ficassem aptos a defend-lo.
     Antes do julgamento principal, compareceu  frente de seis diferentes
juizes, num caso que acumulou seis toneladas de evidncias e documentos
legais, com um custo aproximado de US$ 10.000.000,00.
     Em outubro de 1998, depois de 13 anos de procedimentos legais, teve
incio o julgamento de Charles Chitat Ng. Por meses a fio, a promotora
Sharlene Honnaka relatou ao jri, familiares das vtimas e mdia como
Leonard Lake e Charles Ng selecionaram suas vtimas, as levaram para a
cabana em Wilseyville, torturaram-nas sadicamente, estupraram e mataram
sem nenhuma piedade.
     Os vdeos que mostravam Kathy Allen e Brenda O'Connor sendo
torturadas e abusadas por Lake e Ng foram assistidos por todos. Quilos de
evidncias, incluindo pertences das vtimas, foram mostrados aos jurados.
     A defesa alegou que o assassino era Leonard Lake, e que Ng apenas
havia participado de algumas ofensas sexuais contra algumas das vtimas.
     Charles Ng, com sua prepotncia, acabou cavando sua prpria
sepultura quando pediu para testemunhar. Ao fazer isso, permitiu 
promotoria que fossem mostradas ao jri fotografias dele na sua cela em
Calgary. Na parede da cela, exatamente atrs de sua figura, apareciam seus
esboos incriminatrios. Aparecia tambm a inscrio "No Kill, No Thrill --
No Gun, No Fun" (Sem morte no h emoo -- Sem revlver no h
diverso).
     Depois de oito exaustivos meses de trabalho, todos adoraram quando o
jri considerou Charles Chitat Ng culpado pelo assassinato de seis homens,
trs mulheres e dois bebs, no dia 24 de fevereiro de 1999.
     Em 8 de maro do mesmo ano, o juiz John J. Ryan, seguindo a
recomendao do jri, sentenciou Ng  pena de morte, mesmo tendo a opo
de conden-lo  priso perptua.
     No momento, Charles Ng est apelando de sua sentena, por
consider-la "muito spera". O julgamento da apelao pode demorar pelo
menos mais seis anos, e custar mais alguns milhes de dlares.
     No sabemos se, agindo separadamente, esses homens teriam cometido
assassinatos to brutais. Ser que "a unio faz a fora"? Tambm se especula
que motivos teriam esses dois para se tornarem assassinos seriais. No caso
de Lake, a Guerra do Vietn pode ser considerada como ingrediente dessa
personalidade demonaca, mas no caso de Ng... nada parece ser significativo
o suficiente em sua vida para causar seu comportamento monstruoso.
     S se pode afirmar que muito tempo e dinheiro foram gastos para
condenar um homem que cometeu os crimes mais documentados e
comprovados da histria americana.
     O livro Eye of Evil, de Joseph Harrington e Robert Burger, entre muitos
outros, conta a histria verdica e completa deste crime.
 ALBERT FISH



O Vov que Comia
   Criancinhas
                           ALBERT FISH

     Nasceu em 1870, numa famlia respeitosa, mas perdeu o pai aos 5 anos
e foi para um orfanato. Ali ficou conhecido como "criana problema", pois
molhava a cama at os 11 anos e fugia constantemente.
     Em 1917, sua jovem mulher o abandonou por outro homem, deixando
para trs os seis filhos do casal. Albert Fish, que j no era uma pessoa muito
equilibrada, comeou a piorar emocionalmente a cada dia.
     Seus filhos foram os primeiros a perceber as mudanas de atitude.




     Suas obsesses agora eram temas religiosos, pecados, sacrifcio e
expiao atravs da dor. Forava seus prprios filhos a v-lo se autoflagelar,
surrando-se na ndega nua com um pau at sangrar. Outros "passatempos"
masoquistas de Albert incluam inserir agulhas na virilha e na regio entre a
bolsa escrotal e o nus, comer matria fecal humana e colocar algodes
embebidos em lcool dentro do nus e atear fogo.
     Aos 55 anos, em 1925, Albert comeou a experimentar alucinaes.
Tinha vises de Cristo e seus anjos e comeou a especular sobre
autopurgao de iniqidades e pecados, expiao por autoflagelao,
sacrifcios humanos, etc.
     Albert Fish tinha certeza de que, se estivesse agindo errado matando
crianas, Deus mandaria um anjo para impedi-lo, assim como impediu
Abrao de matar seu filho.
     Fish era um compulsivo molestador de crianas. Os promotores de seu
caso tm certeza de seu envolvimento em ataques a mais de 100 crianas,
enquanto Albert alega ter molestado mais de 400.
     Em 1928, o rapaz Edward Budd colocou um anncio oferecendo seus
prstimos. O rapaz, primeiro de trs filhos do casal Budd, pensava em
ganhar algum dinheiro e assim ajudar sua famlia a melhorar de vida. Quem
respondeu o anncio foi o fazendeiro Frank Howard, na verdade Albert
Fish, que usou esse nome falso para alcanar seus perversos objetivos.
     O Sr. "Frank Howard" foi pessoalmente conhecer Edward e no s o
contratou como tambm o seu colega. Combinou de ir buscar os dois
rapazes no fim de semana, a fim de irem com malas e bagagens para "sua
fazenda".
     No domingo, "Frank Howard" chegou  casa dos Budd cheio de
gentilezas, trazendo um pote de queijo e morangos para Delia Budd, a dona
da casa. Conheceu tambm o pai do rapaz, que estava tremendamente
orgulhoso do filho e satisfazendo seu desejo de conhecer o seu empregador,
para ter certeza de que este estaria em segurana.  neste domingo que
Albert Fish conheceu a irm de Edward, Grace, ento com 8 anos.
     "Frank Howard" era j idoso e tinha uma aparncia bastante frgil.
Eram bvios os motivos que o levaram a querer contratar Edward e seu
colega para ajud-lo na fazenda.


Grace Budd

     Depois de animada e longa conversa, "Frank" disse que precisaria ir at
a casa de sua irm, na festa de aniversrio da sobrinha, e que na seqncia
viria buscar finalmente os garotos.
     Na hora em que j estava saindo, convidou a filha de seus "novos
amigos" a acompanh-lo  festa, dizendo que a traria de volta quando viesse
buscar Edward e o colega. Os pais da menina ficaram um pouco inseguros,
mas afinal aquele bom velhinho estava sendo to gentil... Foi a ltima vez
que viram sua filha.
     Este no foi o primeiro crime de Albert Fish. Quando os policiais foram
procurados pelos pais de Grace e verificaram que o endereo da festa de
aniversrio dada pelo velho no existia, bem como seu nome era falso, foi
uma pena no terem se lembrado de outro crime ocorrido apenas um ano
antes, em Nova Iorque.




     No ptio de um prdio nesta cidade, dois meninos, ambos chamados
Billy, 3 e 4 anos, brincavam tranqilamente aos cuidados de um vizinho de
12 anos. Quando a irm caula do vizinho acordou chorando em seu bero, o
garoto entrou em casa para peg-la. Ao retornar ao ptio, os dois Billys no
estavam mais l. O vizinho, desesperado, foi chamar o pai do Billy mais
novo, que imediatamente comeou uma frentica busca pelo prdio. S
encontraram o menino mais novo no terrao da cobertura. Quando o pai
perguntou a ele onde estava seu amiguinho Billy Gaffney, ele respondeu:

         -- O boogey man63 o pegou.

         Ningum ligou muito para o que disse a testemunha de 3 anos de
idade, imaginando que aquele relato era apenas fantasia.
         Iniciaram uma busca nas vizinhanas, imaginando se Billy havia
entrado em alguma fbrica do bairro ou cado no canal Gowanus, que se
localizava nas cercanias do prdio.
         As buscas no deram em nada. Finalmente, um policial resolveu ouvir
a descrio da testemunha de 3 anos sobre o tal boogey man: era magro, velho
com cabelo e bigode grisalhos.
         Apesar da clara descrio, os policiais no ligaram este caso ao caso do
"Homem Grisalho", acontecido alguns anos antes.
         Em julho de 1924 o garoto Francis McDonnell, 8 anos, brincava com
seus amigos em frente  sua casa em Staten Island. A me estava junto, e viu
um velho homem, de cabelos e bigode grisalhos, observando os garotos.
Naquela tarde, o velho estava de volta e desta vez chamou Francis. Os
outros meninos continuaram a jogar bola. Alguns minutos depois, Francis e
o velho tinham desaparecido. Um vizinho distante diria depois que viu os
dois entrando num matagal, o velho atrs do menino.
         O desaparecimento do menino s foi percebido na hora do jantar. Seu
pai, um policial, organizou imediatamente uma busca.
         O garoto foi encontrado na mata, debaixo de alguns galhos de rvore,
terrivelmente agredido. Suas roupas haviam sido arrancadas, estavam
despedaadas, e ele foi estrangulado com seus prprios suspensrios.
         O menino foi surrado de uma forma to violenta, que os policiais
concluram que, de duas, uma: ou o velho frgil no era nem to velho, nem
to frgil; ou tinha um cmplice.


63
     Boogey man: figura o monstro aterrador; bicho-papo.
     As investigaes se concentraram na descrio feita pela me do
menino sobre o velho frgil e estranho que naquela manh ela tinha visto em
frente  sua casa. Era idoso, esguio e tinha cabelos e bigode grisalhos. Os
policiais o apelidaram de "Homem Grisalho".
     Apesar dos concentrados esforos policiais, nunca foi encontrado.
     Em 1934, seis anos depois do desaparecimento de Grace Budd, o caso
ainda estava oficialmente aberto, mas ningum mais esperava que ela fosse
achada ou seu raptor. Apenas um homem, o detetive William F. King,
continuava a trabalhar incansavelmente. De vez em quando, juntamente
com o jornalista Walter Winchell, plantava uma notcia falsa sobre o
andamento do caso no jornal para que o assunto continuasse em pauta.
     Em novembro desse ano, na coluna do jornalista, foi veiculada a
seguinte notcia: "Eu verifiquei sobre o mistrio de Grace Budd, ela tinha 8
anos quando foi raptada, h seis anos.  seguro informar-lhes que o
departamento de pessoas desaparecidas vai anunciar surpresas no caso, ou
assim esperam, em quatro semanas".
     Dez dias depois, Delia Budd, me de Grace, recebeu uma carta. Por
sorte e por conta de seu analfabetismo, a pobre mulher entregou-a sem ler ao
filho, Edward Budd. O rapaz, completamente chocado com o contedo da
leitura, apressou-se em entregar a carta ao detetive King:

     "Minha querida Senhora Budd,
     Em 1894 um amigo meu embarcou como trabalhador braal de convs no navio
     Steamer Tacoma, capito John Davis. Eles velejaram de So Francisco para
     Hong Kong, na China. Ao chegarem ali, ele e dois outros foram para terra e
     ficaram bbados. Quando voltaram, o navio tinha ido embora. Aqueles eram
     tempos de fome na China. Carne de qualquer tipo custava de US$ 1,00 a US$
     3,00 a libra. To grande era o sofrimento entre os muito pobres, que todas as
     crianas com menos de 12 anos foram vendidas como comida, a fim de evitar
     que outros ficassem famintos. Um menino ou menina de menos de 14 anos no
     estava seguro nas ruas. Voc poderia ir a qualquer loja e pedir um bife, cortes
de carne ou picadinho. Do corpo nu de um menino ou menina seria trazida
exatamente a parte desejada por voc, que seria cortada dele. A parte de trs de
meninos ou meninas  a parte mais doce do corpo e era vendida como costela de
vitela, no preo mais alto. John ficou l tanto tempo que adquiriu gosto por
carne humana. Quando voltou para Nova Iorque ele roubou dois meninos, um
de 7 e um de 11 anos. Levou-os para sua casa, tirou sua roupa e amarrou-os
nus no armrio. Ento queimou tudo o que eles tinham. Vrias vezes, todo dia
e noite, ele os espancou e torturou -- para fazer com que sua carne ficasse boa e
tenra.
Primeiro ele matou o menino de 11 anos, porque ele tinha o traseiro mais gordo
e,  claro, mais carne nele. Cada parte do seu corpo foi cozida e comida, exceto a
cabea -- ossos e tripas. Ele foi assado no forno (todo o seu traseiro), fervido,
grelhado, frito e refogado. O menino pequeno foi o prximo, e foi da mesma
maneira. Naquela poca, eu estava morando no 409 em 100 Street, perto --
lado direito. Ele me falou com tanta freqncia como a carne humana era
gostosa, que eu fiz minha cabea para prov-la.
No domingo, 3 de junho de 1928, eu telefonei para vocs no 406W 15 Street.
Trouxe para vocs um pote de queijo -- morangos. Ns almoamos. Grace
sentou no meu colo e me beijou. Eu me convenci a com-la, com a desculpa de
que eu a levaria a uma festa, voc disse que sim, ela poderia ir. Eu a levei a uma
casa vazia em Westchester que eu j tinha escolhido. Quando chegamos l, eu
disse a ela para ficar no quintal. Ela colheu flores selvagens. Eu subi as escadas
e tirei toda a minha roupa. Eu sabia que, se no o fizesse, eu ficaria com seu
sangue nas roupas. Quando eu estava pronto, fui na janela e a chamei. Ento
eu me escondi no armrio at ela estar dentro do quarto. Quando ela me viu
completamente nu, comeou a chorar e tentou correr escadas abaixo. Eu a
agarrei e ela disse que ia contar para sua mame. Primeiro eu tirei sua roupa,
deixando-a nua. Como ela chutou, mordeu e arranhou! Eu a asfixiei at a
morte, ento a cortei em pequenos pedaos para poder levar a carne para meus
aposentos. Cozinhar e comer. Como era doce e tenro seu pequeno traseiro
assado no forno. Levou-me nove dias para comer seu corpo inteiro. Eu no `a
         fodi', apesar de ter podido se eu desejasse. Ela morreu uma virgem".64

         Ningum quis acreditar que esta carta era verdadeira. Tinha que ser os
delrios de algum completamente louco, pervertido e sdico. Mas o detetive
King percebeu que os detalhes de seu encontro com os Budd e Grace eram
acuradssimos. Realmente, "Frank Howard" havia levado queijo e
morangos; a carroa na qual havia comprado foi localizada pela polcia e
ficava no East Harlem, o que direcionou as investigaes para aquele bairro.
Alm do mais, o anncio de Edward respondido por Albert Fish/Frank
Howard seis anos antes no jornal Wester Union continha a mesma caligrafia
da carta enviada.
         O envelope tinha uma pista crucial: um pequeno emblema hexagonal
com as letras N.Y.P.C.B.A., que pertenciam a "Associao Benevolente de
Motoristas Particulares de Nova Iorque". Com a cooperao do presidente
da associao, uma reunio de emergncia dos membros foi convocada.
Durante a reunio, a polcia ficou verificando a caligrafia de todos para
achar aquela que fosse idntica  de "Frank Howard". Como nenhuma
caligrafia combinou, o detetive King contou a todos a histria do assassinato
de Grace, e pediu aos membros que se algum tivesse pegado da associao
algum papel de carta ou envelope timbrado e dado para outra pessoa, por
favor, se apresentasse e relatasse para a polcia o acontecido. Um jovem
porteiro admitiu que ele havia pegado um par de folhas e alguns envelopes,
que levou para casa. O rapaz morava numa penso, no 200 East 52nd Street.
A senhoria da penso ficou chocada quando a descrio de "Frank Howard"
foi dada a ela: era a exata descrio do idoso homem que tinha ali morado
por dois meses. Havia sado da penso h apenas dois dias.
         O inquilino chamava-se Albert H. Fish. A senhoria mencionou que ele
havia pedido que ela guardasse uma carta que seu filho mandaria de onde
trabalhava, Civilian Conservations Corps na Carolina do Norte. O filho


64
     Traduo da carta original.
regularmente mandava dinheiro para o seu velho pai. Finalmente, dias
depois, o correio avisou a polcia que deteve uma carta para Albert Fish.
Depois de a carta chegar, nada dele aparecer. O detetive King estava ficando
preocupado se o tinha afugentado.
     Por que Fish no mais contatou sua senhoria?
     No dia 13 de dezembro de 1934, ela telefonou para o detetive King
dizendo que Albert Fish estava na penso procurando por sua carta.
     O velho homem estava sentado tomando uma xcara de ch quando a
polcia chegou. Fish ficou em p e, quando questionado, confirmou para
King que era Albert Fish. De repente, enfiou a mo no bolso e tirou uma
gilete, a qual ficou segurando na sua frente.


Priso de Albert Fish

     Furioso, King agarrou a mo do velho homem e torceu-a rapidamente.
"Agora eu te peguei", disse triunfante.
     Vrios homens da lei e psiquiatras acompanharam as confisses de
Albert Fish. Elas foram censuradas com severidade para a imprensa, devido
ao seu contedo chocante.
     Fish confessou para King que sua sede de sangue comeou em 1928. Ao
responder ao anncio de Edward Budd, sua inteno era castrar o menino e
deix-lo sangrar at morrer.
     Ao chegar  casa dos Budd e ver Grace, Fish teve a certeza de que era a
menina que ele queria matar. Apesar de ter tudo planejado para matar
Edward e seu colega, ambos recm-contratados, Fish modificou sua ao e
levou a menina com ele.
     Levou-a numa viagem de trem ao interior. Quando chegaram na
estao que deveriam descer, Grace acabou sendo responsvel pela sua
prpria "sorte": ao se levantarem de seus assentos, Fish ia deixando para
trs a maleta que continha todos os instrumentos que havia comprado para
executar a planejada chacina dos garotos. Inocentemente, a menina chamou
sua ateno, fazendo-o levar aqueles que seriam suas ferramentas de tortura.
     O que aconteceu na casa de Wisteria Cottage foi exatamente o descrito
por Albert Fish na carta para a Sra. Budd. Ao retornar para l com a polcia,
sem absolutamente nenhuma emoo, observou o recolhimento dos restos
mortais da menina.
     Budd pai e filho foram levados  polcia para identificar Fish como
sendo "Frank Howard". Apesar do descontrole dos dois, Fish no
demonstrou emoo de nenhum tipo.
     A ficha criminal dele no era assim to pequena. Desde 1903 havia
registros de prises por furto, pequenos crimes como enviar cartas obscenas,
coisas desse tipo. Ele havia estado internado em instituies mentais mais de
uma vez.
     Durante o tempo em que toda a burocracia legal se realizava, aconteceu
uma surpresa no caso: um maquinista que viu a foto do acusado no jornal
veio at a delegacia reconhec-lo como o velho homem que tentava calar o
menino Billy Gaffney, em fevereiro de 1927.
     Fish confessou coisas impensveis que teria feito com Billy, inclusive
forneceu as vrias receitas que utilizou para com-lo.
     Alguns dias depois, um homem de Staten Island veio identificar aquele
como o homem que quis atrair sua filha de 8 anos para um matagal. O local
ficava perto de onde Francis McDonnel fora assassinado e o fato ocorreu
apenas trs dias antes do crime. O "Homem Grisalho" havia sido
encontrado.
     Fish tambm foi identificado como o homem que matou a menina de 15
anos, Mary O'Connor, em Far Rockaway. Seu corpo foi encontrado num
matagal perto da casa em que Fish estava trabalhando como pintor de
paredes.
     Com todas essas evidncias contra ele, a nica chance de no ser
condenado  morte era ser declarado mentalmente insano por psiquiatras
forenses.
         Os psiquiatras da defesa o diagnosticaram como psictico paranico e
insano. Os quatro psiquiatras da acusao o consideraram so.
         A famlia de Fish era abarrotada de loucos: um tio paterno sofria de
psicose religiosa e morreu em um hospital estadual. Seu meio-irmo
tambm morreu em um mesmo tipo de hospital. Um irmo mais novo era
retardado e morreu de hidrocefalia. Sua me era considerada esquisita e
conhecida por ouvir e ver coisas. Uma tia paterna era considerada
completamente louca. Um irmo sofria de alcoolismo crnico. Uma irm
tinha um tipo de "aflio mental".
         Fish viveu em 23 estados americanos e alega ter matado pelo menos
uma criana em cada local em que morou.
                                                      Inicialmente o Dr. Wertham, psiquiatra
                                               da defesa, achou que Fish estava mentindo
                                               e exagerando sobre as histrias que contava,
                                               especialmente quando relatou que durante
                                               anos enfiava agulhas em seu corpo, na
                                               regio entre o nus e o escroto. No comeo,
                                               ele colocava e tirava as agulhas, mas,
                                               algumas         vezes,   ele   as   enfiava   to
                                               profundamente que a sua retirada se
                                               tornava impossvel. Depois dessa histria, o
                                               mdico resolveu colocar Fish  prova e
                                               solicitou raios X da regio plvica: foram
encontradas pelo menos 29 agulhas no seu corpo.
         O julgamento de Albert Fish foi controverso. O advogado de defesa,
James Dempsey, adotou como estratgia tentar provar a insanidade de seu
cliente. Queria demonstrar que Fish sofria de uma demncia comum em
pintores de parede, chamada lead colic65.

65
     Lead colic: intoxicao por chumbo, contido nas tintas antigas.
     Para isso, colocou no banco de testemunhas todos os seus seis filhos,
contando das autoflagelaes do pai que foram obrigados a observar.
     Tambm argumentou que homens que cozinham e comem criancinhas
no podem ser normais. Quando interrogou o pai de Grace, Dempsey teve a
coragem de argumentar que, afinal de contas, os prprios pais entregaram a
filha para Fish. Na opinio dele, ela no havia sido seqestrada.
     Depois dessa alegao, a comoo foi to grande que o tribunal quase
veio abaixo. O pai de Grace soluava copiosamente. Uma caixa com os restos
mortais da menina foi trazida para a Corte. O promotor abriu-a e retirou o
crnio de Grace para que todos vissem. A defesa pediu um recesso
imediatamente!
     A estratgia da acusao, atravs do promotor Elbert F. Gallagher, foi
demonstrar que Albert Fish era mentalmente so, apesar de ser um
psicopata sexual.
     Sabia exatamente o que fazia, premeditou o crime comprando
instrumentos para execut-lo e, ao seqestrar e matar Grace Budd, tinha
perfeita conscincia de que agia errado.
     Tinha uma memria tima para sua idade e conscincia absoluta de
onde e com quem estava.
     Querer provar que aquele homem no sabia o que fazia na hora do
crime, para a acusao, era quase um desaforo.
     Albert Fish foi julgado mentalmente so e culpado por assassinato
premeditado. O juiz o sentenciou  morte, na cadeira eltrica. Adorou a
sentena, devido ao seu sadomasoquismo.
     Foi eletrocutado na priso de Sing Sing, Nova Iorque, em 16 de janeiro
de 1936.
     Foram necessrias duas descargas eltricas para mat-lo, pois as 29
agulhas que ele deixou em seu corpo ao longo de toda a vida causaram um
curto-circuito na cadeira eltrica.
     Sua ltima frase foi: "A emoo suprema, a nica que nunca
experimentei".
     ARTHUR

  SHAWCROSS



Libertado para Matar
                            ARTHUR SHAWCROSS
                       -- O ASSASSINO DO RIO GENESEE

                                 A   infncia   de   Arthur   Shawcross   foi   to
                            perturbada quanto  da maioria dos assassinos seriais.
                            Nasceu em 1945, na cidade de Kittery, Maine, filho de
                            um soldado e uma dona de casa.
                                 Seu comportamento comeou a ficar estranho
                            logo aps o nascimento do irmo menor, Jimmy.
                            Arthur passa a molhar a cama diariamente, e fala
                            como um beb at os 6 anos. Tambm foge de casa
                            constantemente, para chamar a ateno dos pais.
                                 Obcecado por sexo, compartilha seus interesses
com colegas, e pratica sexo oral a partir dos 7 anos.
         Aos 8, j detesta qualquer criana pequena. Provoca todas as que
encontra, at que chorem.
         Sua irm mais velha, Jeannie, tambm  uma obsesso. Apesar dela
negar a informao, Arthur diz que fez sexo com ela desde os 12 anos.
         Na adolescncia, Arthur passa a ter amigos imaginrios. Suas
conversas com eles se do imitando vozes muito estranhas. Seus colegas
zombam dele sempre. Quando  chamado pelo apelido de Oddie66, Arthur
tem intensas crises de raiva.
         Constantemente fica sozinho na classe durante o recreio. Sua
comunicao com os outros  pobre e rara. Curiosamente, suas notas so
bem acima da mdia.
         Quando seu comportamento comea a ficar insuportvel para os que


66
     Odd: esquisito.
convivem com ele,  levado a fazer vrios testes psicolgicos. Os
profissionais concluem que Arthur sofre de grande sentimento de
inadequao e rejeio. Sua crescente hostilidade aos pais, principalmente
contra a me, chama a ateno dos psiclogos.
     Desde os 9 anos, quando a me descobriu que o marido mantinha outra
famlia na Austrlia, o assunto "mulher" em sua casa era praticamente
proibido. A me se torna amarga e explosiva, e passa a gritar histericamente
com todos depois de qualquer meno ao sexo feminino. Arthur vai se
tornando cada vez mais agressivo, explosivo e espancador de meninos
menores da vizinhana.
     Aqui comeam os pequenos furtos e roubos a residncias. Seu
problema social tambm comea a agravar-se s constantes repetncias
escolares. Passa horas isolado, sem encontrar nada em comum com seus
colegas de classe bem mais jovens do que ele. Justo ele, que detesta crianas
menores,  obrigado a conviver com elas diariamente.
     Arthur passa a distrair-se andando pela floresta e falando consigo
mesmo. Seus parceiros de sexo, agora, so vacas, ovelhas, cavalos e at
galinhas, que acabam morrendo durante as suas investidas.
     Sua tia, Tina, tambm o obriga a fazer sexo oral com ela desde a mais
tenra idade, desenvolvendo aquele que seria seu modo sexual de ao
predileto por toda a vida.
     Shawcross alega ter feito sexo oral com a irm, o irmo, a prima, mas
nunca relatou ter feito sexo com penetrao. Isso indica que, provavelmente,
tinha problemas em manter a ereo.
     Alm da tia, Shawcross colocar a culpa de suas perverses em sua
primeira experincia sexual com violncia: numa certa tarde, um homem
num conversvel vermelho o teria obrigado a fazer sexo oral nele segurando-
o pela garganta. Como seu desempenho foi pobre e o homem no conseguiu
atingir o orgasmo, ele o sodomizou. Depois desse episdio, Arthur diz s
conseguir atingir o orgasmo quando sente dor ao fazer sexo.
     Aos 19 anos, casa-se pela primeira vez. A unio dura trs anos e produz
um filho.
     Em 1968, foi recrutado pelo Exrcito. Este soldado americano lutou no
Vietn por seu pas, e no houve tempo mais feliz em sua vida. Finalmente,
tinha permisso para matar. A guerra foi uma fantasia ao vivo e em cores
para este homem que, alm de possuir um cromossomo Y a mais67, tinha
tambm leses cerebrais.
     Segundo o especialista Jonathan Pincus68, existem trs fatores que,
quando inter-relacionados, causam condutas de extrema violncia anormal,
como o canibalismo. So elas: ser maltratado e/ou abusado na infncia,
parania e dano cerebral. As pessoas que tm, em seu histrico, esse trip
deixam-se levar por seus impulsos sem considerar regras ticas ou sociais.
Uma pessoa que sofre de leso do lbulo frontal  capaz de fazer xixi no
meio da sala de visitas s porque teve vontade; os eletroencefalogramas de
Arthur Shawcross mostram claras evidncias desse tipo de leso, alm da
presena de um quisto na regio lbulo-temporal.
     No Vietn, matou, desmembrou, mutilou e comeu vrias vtimas
vietnamitas, mas na guerra se perdoa tudo o que se faz contra o inimigo.
Nessa poca, ele acreditava estar "possudo" pelo esprito de Ariemes69, que
o levava a estuprar, matar e praticar canibalismo.
     A alegria vivida no Vietn dura pouco. Ali, matar era "coisa normal",
uma rotina seguida por todos. Quando volta para casa, em 1969,  um
veterano de guerra, homem bem diferente daquele que havia sido no
passado. Observe-se aqui que, antes da guerra, j no se tratava de pessoa
com equilbrio dentro dos padres considerados "normais".
     J casado pela segunda vez,  transferido para o Fort Sill Oklahoma,
para terminar seu servio militar. Nessa poca, tm incio as violentas vises


67
   Homem normal = cromossomos XY; Shawcross = cromossomos XYY
68
    Departamento de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Georgetown --
Washington.
69
   Ariemes: canibal e assassino do sculo XII.
da guerra e os pesadelos sem fim. Shawcross passa a consultar-se com um
psiquiatra, que indica a internao do paciente. A esposa nega-se a assinar a
autorizao necessria, e, sem tratamento, seu estado mental comea a piorar
sensivelmente.
     Episdios de incndio comeam a permear sua vida, at que  preso
por colocar fogo na fbrica de queijos em que trabalha.  condenado a cinco
anos de priso.
     Durante o tempo na cadeia, Shawcross alega ter sido estuprado por trs
prisioneiros negros. Vingou-se deles surrando-os e estuprando-os em trs
incidentes separados. Foi transferido para a Penitenciria de Auburn.
     Sai em liberdade condicional no ano de 1971, como prmio por ter
salvado a vida de um guarda da priso em meio a um motim. Volta para a
cidade de Watertown em 1972, j divorciado, para tentar recomear sua
vida. A priso no tinha feito muito bem ao seu j frgil estado mental.
     Arrisca-se num terceiro casamento, desta vez com uma amiga de sua
irm, Penny Nichol. O fracasso  completo. Arthur  incapaz de manter a
ereo, no consegue ter filhos e ainda  acusado pelos sogros de assediar
sexualmente a cunhada mais nova. Nessa poca, passa cada vez mais tempo
fora de casa, pescando em riachos e rios das proximidades.
     Fica conhecendo a maioria das crianas da cidade, que freqentemente
brincam por ali. Entre elas, est o garoto Jack Blake, de 10 anos. Shawcross se
encanta por ele. Chega a pedir  me do garoto autorizao para lev-lo pes-
car, mas ela nega.
     Quatro meses depois do convite, Jack Blake desaparece do local onde
estava brincando, perto do condomnio onde morava Arthur Shawcross.
Naquela noite, Mary Blake bate  porta de Shawcross para perguntar onde
est seu filho, mas ele disse no t-lo visto naquela manh.
     Infelizmente, a verdade era outra. Ele havia levado o garoto para a
mata, onde o molestou sexualmente, estrangulou-o e bateu em sua cabea
at mat-lo. O corao e os genitais da criana foram retirados e comidos por
ele.
        Imediatamente se transforma em suspeito n 1 da polcia, mas no h
provas suficientes para acus-lo.
        Trs meses depois, enquanto a polcia ainda procura por Jack Blake, a
menina Karen Ann Hill foi encontrada morta. Seu corpo estava embaixo de
uma ponte sobre o rio Black. Aos 8 anos, ela havia sido estuprada, mutilada
e estrangulada.
        As investigaes levam aos fatos: Shawcross tinha sido visto com a
garota no dia de seu desaparecimento, tornando-se novamente suspeito de
assassinato. Quando os policiais descobrem que os dois tomaram sorvete
perto da mesma ponte embaixo da qual o corpo foi encontrado,  preso para
interrogatrio.
        Depois de algumas horas de presso, ele confessa ter matado a pequena
Karen.
         julgado e condenado a 25 anos de priso pelo assassinato de Karen
Ann Hill, mas, curiosamente, nunca foi acusado pelo assassinato de Jack
Blake. Nem quando confessou o crime e mostrou s autoridades onde estava
o corpo do menino. Nem mesmo quando admitiu aos psiquiatras da priso
ter voltado vrias vezes ao local onde estava o corpo para fazer sexo com o
cadver.
        Os primeiros anos de priso so um tormento para Shawcross. At
mesmo presidirios consideram molestadores e assassinos de crianas
indefesas como a mais vil espcie de ser humano.
        Depois de oito anos de pena cumprida, a vida dele foi entrando numa
certa    rotina.   Shawcross   era   agora   o   prisioneiro   modelo   daquela
penitenciria. Durante os 15 anos em que ficou preso, foi avaliado por vrios
psiquiatras. Seus laudos diziam que, sob condies normais, era um
indivduo passivo, mas sob stress, seria incapaz de controlar seus desejos
sexuais.
        Apesar de todos os pareceres desfavorveis,  colocado em liberdade
condicional em abril de 1987. Foi considerado "pronto" para ser reintegrado
 sociedade. Depois de sua soltura, seu oficial de condicional, Robert T.
Kent, escreveu a seguinte carta aos seus superiores:

     "... Correndo o risco de ser melodramtico, considero este homem como
     possivelmente o mais perigoso indivduo liberado nesta comunidade em muitos
     anos ".

     Seriam profticas as suas palavras. Por que liberar sob condicional um
homem que s pode sair de casa durante o dia, no pode sair do municpio,
no pode estabelecer contato com ningum menor de 18 anos, est proibido
de se aproximar de escolas ou outros locais onde ficam crianas, no pode
beber lcool... isto  estar pronto para a reintegrao?
     Shawcross casou-se ento com Rose Walley, mas no conseguia
estabelecer moradia em cidade nenhuma. Toda comunidade que tomava
conhecimento de seu passado o queria fora dali o mais rpido possvel. O
casal tentou morar em Binghamton, Delhi, Fleichmanns... e finalmente
estabeleceu-se em Rochester, NY.
     Arthur no possua carro. Trabalhava  noite como empacotador de
saladas no "Bognia's", regio central da cidade. Morava perto do emprego e
se locomovia de bicicleta ao longo do rio Genesee.
     Tudo corria bem em sua vida at o Natal daquele primeiro ano em
liberdade, quando sua famlia se recusou a visit-lo e devolveu todos os
presentes de Natal que Arthur havia enviado. A rejeio tornou seu humor
sombrio...
     Foi nessa poca que conheceu Clara Neal, que se tornaria sua amante.
Clara possua um carro, que emprestava freqentemente para Arthur, que
explicava para a esposa ser este o motivo de tratar a amiga to bem. Tudo
parecia normal para o casal durante aquele inverno... Shawcross, que no
estava livre de seus problemas sexuais, era freqentador assduo da avenida
Lake, reduto conhecido das prostitutas de Rochester. Entre elas, era
conhecido como "Mitch".
     Em maro de 1988, foi encontrado o corpo de Dorothy "Dotsie"
Blackburn, prostituta de 27 anos, boiando em "Salmon Creek", conhecida
rea de pesca da regio de Rochester.
     O corpo estava pouco decomposto, devido  neve, mas todas as
evidncias tinham sido destrudas. O mdico legista que fez a autpsia
relatou que a moa tinha marcas de uma grande mordida na vagina, onde
faltava um pedao de carne. Shawcross a matou depois de ter seu pnis
mordido por ela. Segundo ele, ouviu uma srie de xingamentos antes de
"calar sua boca".
     As investigaes imediatamente comearam, tendo como ponto de
partida a avenida Lake. As prostitutas pouco tinham a declarar: mal
conheciam os homens com quem saam e ningum ultimamente parecia
estranho ou assustador.
     Em setembro de 1988, o patro de Shawcross descobre seu passado e o
demite. Uma nova onda de raiva toma conta dele.
     Outro corpo foi logo encontrado, Anne Marie Steffen, 27 anos, tambm
profissional da rea. O modus operandi do serial killer ainda parecia ser o
mesmo, mas a polcia continuava sem nenhuma pista de sua identidade.
     Shawcross consegue novo emprego, na G&G Food Services, e no mata
novamente at meados de 1989.
     Em junho daquele ano, Dorothy Keller, uma velha sem-teto de 59 anos,
foi encontrada morta. Seu corpo foi localizado no rio por pescadores, com a
cabea decapitada. Esse crime no parecia ter relao com os anteriores e sua
investigao no recebeu muita ateno. Se tivessem se aprofundado, a
polcia saberia que Dorothy trabalhava eventualmente como garonete, e
ficou amiga de Shawcross quando o conheceu num jantar.
     Shawcross convidou Dorothy para uma tarde buclica: iriam para o
campo pescar e fazer amor, mas tudo comeou a dar errado quando ela
acusou-o de ter roubado seu dinheiro. Tambm ameaou contar para Rose e
Clara sobre seu caso com Arthur, como ele podia j ter duas mulheres e
ainda engan-la, bl, bl bl... Shawcross no perdeu tempo. Encerrou a
desagradvel conversa assassinando a colega.
         As prximas vtimas foram as prostitutas Patty Ives, 25 anos, e Frances
M. Brown, 22 anos. A polcia finalmente percebeu as similaridades entre os
crimes e comeou a procurar por um s assassino. A mdia imediatamente
passou a explorar o caso e aterrorizar a todos: um assassino serial estava a
solta na cidade! Foi chamado, nos noticirios, de "The Rochester
Nighstalker" (O Caador Noturno de Rochester), "The Rochester Strangler"
(O Estrangulador de Rochester) e "The Genesee river Killer" (O Assassino
do rio Genesee)70.
         Muitos chegaram a especular sobre a semelhana com os assassinatos
do "Green River Killer" (Assassino do rio Green), em Seattle, mas nenhuma
prova que corroborasse essa hiptese conclusiva. Nesse caso, foram
encontrados 49 corpos assassinados na rea do rio num perodo de dois
anos, mas o assassino nunca foi identificado.
         Arthur Shawcross acompanhou o caso pela mdia minuciosamente.
"Preocupa-se" com a segurana de sua esposa e amante. Chega a pedir que
elas tenham cuidado ao andar pelas ruas.
         Como sua sexta vtima, ele escolhe June Stotts, 29 anos. Ela  amiga do
casal e assdua freqentadora de sua casa. June era limtrofe, e aceitou uma
carona oferecida pelo amigo num dia quente em que se encontraram  beira
do rio. Foram brincar num local deserto, e fizeram sexo. Quando Shawcross
reclamou que June no era mais virgem, ela comeou a gritar histericamente.
No mpeto de silenci-la, sufocou-a. Depois, comeu sua vagina e alguns de
seus rgos internos.
         Ainda no ms de novembro, mais duas prostitutas foram assassinadas:
Maria Welch, 22 anos, e Darlene Trippi, 32.
         Dezembro no foi um ms mais calmo. Elizabeth Gibson, 29 anos, e

70
     Rio Genesee: localizado nesta rea do Estado de NY, cruza a cidade de Rochester.
June Ccero, 34, foram assassinadas com duas semanas de intervalo. Para
Shawcross, elas mereciam isso, pois tinham tentado roubar sua carteira ou
zombado de sua performance sexual. As duas eram prostitutas, e saram
para um programa "sob as barbas da polcia", que j estava vigiando a
avenida Lake.
     Sua ltima vtima foi Felicia Stephens, 20 anos, prostituta negra. Jogou
seu corpo no mesmo local onde se livrou de June Ccero e Dorothy
Blackburn, para poder voltar a utiliz-los quando quisesse. Foi essa
necessidade de voltar para "desfrutar" dos restos mortais de suas vtimas
que o levaria  priso.
     A polcia, j sem saber o que fazer, solicitou ao FBI que a ajudasse na
soluo desses crimes, pois parecia que o "Assassino do Rio Genesee" no
iria parar de matar to cedo. O FBI fez um perfil do assassino:

     -- Homem branco.
     -- Casa dos 30 anos.
     -- Possua carro.
     -- Usufrua a confiana das prostitutas.

     Parecia bvio para os criminalistas que as prostitutas mortas conheciam
seu agressor. Provavelmente ele j havia se relacionado com elas
anteriormente e at feito sexo, e nada anormal tinha acontecido. No era um
estranho. Quando se espalha a notcia que existe um assassino serial
matando prostitutas em determinada rea, elas tendem a se preocupar s
com os estranhos. Tambm deve se considerar o fato das prostitutas serem
um alvo fcil e seguro para assassinos seriais, pois pouca gente denuncia seu
desaparecimento e a polcia no  to cobrada por resultados nas
investigaes. Mas agora j se somavam 11 vtimas.
     A vigilncia sobre a rea de Northampton Park foi multiplicada
drasticamente. Agora, helicpteros patrulhavam as imediaes do rio
Genesee.
     Em 3 de janeiro de 1990, Shawcross resolveu ter novamente relaes
sexuais com o corpo de June Ccero. Agora, ele no mais seguia os avanos
das investigaes pela mdia. Sentia-se totalmente seguro. Ficou feliz em
poder estacionar facilmente seu carro sobre uma ponte, onde teria uma vista
perfeita do corpo de June enquanto almoava.
     Nesse momento, um helicptero da polcia sobrevoando aquela rea
avistou um corpo abandonado em "Salmon Creek". Ao mesmo tempo, os
mesmos policiais observaram um homem parando seu carro sobre uma
ponte em cima do rio. O homem desceu do carro. Parecia estar olhando
fixamente na direo do corpo recm-avistado.
     O   pessoal   do   helicptero   avisou    as   radiopatrulhas   da   rea
imediatamente.
     Arthur Shawcross viu o helicptero enquanto almoava. Rapidamente,
entrou no Chevy de Clara e foi em direo ao trabalho dela.
     Os policiais no demoraram a localizar o veculo. Minutos depois,
levaram o suspeito para prestar esclarecimentos na delegacia.
     Ele no combinava com o perfil elaborado pelo FBI, mas confessou
voluntariamente ao delegado seus crimes anteriores. Quando seus registros
criminais foram verificados, o interesse da polcia se intensificou totalmente.
     Shawcross, depois de algumas horas, foi liberado por falta de provas,
mas o carro que utilizava foi confiscado para exames pela polcia tcnica.
     Durante o exame do veculo, foi encontrado um brinco idntico ao que
faltava na orelha de uma das vtimas. Alm desse fato, uma prostituta da
avenida Lake contou  polcia que Shawcross era um assduo usurio dos
servios das prostitutas daquela rea. Foi levado novamente  delegacia na
manh seguinte, para esclarecimentos.
     Depois de negar seu envolvimento nesses 11 crimes por horas,
finalmente resolveu confessar todos eles em detalhes.
     Continuava acreditando estar possudo, desta vez pelo esprito de sua
me. Segundo ele, ela divertiu-se durante sua infncia, enfiando paus de
vassoura em seu nus. Para ele, no existia culpado pelo seu descontrole.
     Quando o delegado perguntou o que achava que devia ser feito com
ele, Shawcross respondeu: "Devem me trancar e jogar a chave fora. Se eu for
libertado, matarei outra vez".
     Em seu julgamento, ele se recusou a testemunhar. Sentou, dia aps dia,
como um zumbi na cadeira do ru. Sua defesa tentou alegar insanidade, e
relatou o canibalismo numa tentativa de reforar essa alegao. Nunca
foram encontradas provas de que ele seria realmente canibal.
     Shawcross foi submetido a vrias baterias de testes psicolgicos nos
meses que antecederam seu julgamento. Segundo o depoimento do Dr.
Kraus, psiquiatra, ele era "emocionalmente instvel, tinha deficincia de
aprendizado,    era   geneticamente   prejudicado,    sofria   de   desordens
bioqumicas, era lesionado neurologicamente e psicologicamente alienado
de outras pessoas durante toda a sua vida, no controlava suas frustraes e
raivas, misturadas com medo e escalada de violncia e agresso destrutiva, a
que ultimamente transformou-se em fria assassina".
     Outros psiquiatras relataram suas opinies. Entre eles, o Dr. Park Dietz,
conhecido por seus trabalhos consultivos para o FBI. Segundo ele, Shawcross
estava fingindo ter uma doena mental para escapar da priso.
     A nica testemunha mdica pela defesa foi a Dra. Dorothy Otnow
Lewis. Segundo ela, Shawcross "foi horrivelmente traumatizado quando
criana, o que teria causado mltiplas personalidades nele". Tambm
insistiu na "desordem ps-traumtica de stress", advinda atravs das
experincias de guerra, e que resultaram em seu comportamento atual.
     Shawcross disse ter matado prostitutas que ele acreditava terem AIDS,
numa tentativa de livrar o mundo deste mal.
     A alegao de sofrer de "desordem ps-traumtica de stress" (DPTS)
como conseqncia de suas experincias no Vietn caiu por terra quando
descobriram que ele havia forjado os registros militares para fingir ter
recebido medalhas por herosmo.
      Em nenhum momento, demonstrou qualquer arrependimento por seus
crimes.
      O jri no foi misericordioso. Shawcross foi considerado culpado por
10 assassinatos (depois constatados 11) e condenado a 10 sentenas de 25
anos cada, a serem cumpridas no "Sullivan Correctional Facility"71. Ainda
est preso, sem possibilidade de liberdade condicional.
      Em 1997, casou-se oficialmente com sua amante Clara Neal, aps a
morte de Rose Walley. Segundo o casal, s dessa maneira sua unio seria
correta aos olhos de Deus.
      Em setembro de 1999, Shawcross foi punido com dois anos de
confinamento em solitria. Tambm perdeu todos os seus privilgios
penitencirios por cinco anos, depois de vender suas pinturas atravs de
agentes, em leiles na Internet pelo site "eBay". A Lei "Son of Sam" probe
que um criminoso lucre com seus crimes72.
      Ainda vive isolado, nos dias de hoje, em uma cela individual, 23 horas
por dia.




71
  No Estado de Nova Iorque, no existe a pena de morte.
72
  Lei Son of Sam: foi feita para impedir que criminosos possam lucrar monetariamente com seus crimes,
como vender sua histria para livros ou filmes.
AILEEN WUORNOS




A Prostituta Mortal
                      AILEEN WUORNOS

13 de Dezembro de 1989

                               Dois homens que procuravam sucatas e
                          ferro velho ao longo de uma estrada perto da
                          Interestadual 95, em Volusia, Flrida, depararam-
                          se com um corpo enrolado num tapete. Tratava-
                          se de Richard Mallory, que fora morto com trs
                          tiros de uma arma calibre .22.
                               Este cidado, homem de meia-idade, tinha
                          um negcio de reparos eletrnicos na Flrida.
                          Divorciado cinco vezes, era conhecido por sua
vida de luxria; bebida e sexo. Quando no apareceu para abrir sua loja no
incio de dezembro, ningum estranhou muito. Aquele vizinho vivia
viajando por simples divertimento. Dias depois, seu Cadillac 1977 foi
encontrado abandonado, juntamente com sua carteira sem dinheiro. No
cho, uma garrafa de vodka pela metade e um pacote de preservativos
rasgados...
     Depois de investigar profundamente a srdida vida de Richard
Mallory, a polcia no tinha muito mais pistas do que no incio. Nada ajudou
a elucidar o caso.


5 de Maio de 1990

     Outro corpo nu  encontrado no Condado de Brooks, Gergia, perto da
Interestadual 75, na divisa estadual com a Flrida. Duas balas calibre .22
jaziam ao lado dos restos mortais. Os policiais daquele estado no tinham
nenhuma pista nem de quem morreu, nem de quem matou.


1 de Junho de 1990

     Mais um corpo nu no identificado  encontrado na Floresta do
Condado de Citrus, Flrida, a 60km ao norte de Tampa. Uma semana
depois, o corpo foi identificado como sendo de David Spears, de Bradenton,
Flrida. Spears era proprietrio de um pesado equipamento, visto pela
ltima vez em 19 de maio daquele ano. Seu caminho foi localizado logo
depois na Interestadual 75, com as portas destravadas e sem placas.


6 de Junho de 1990

     Condado de Pasco, poucos quilmetros da Interestadual 75. Foram
encontrados restos mortais de um homem em tal estado de decomposio
que os legistas no conseguiram extrair impresses digitais ou estimar a data
da morte. Nove balas de uma arma calibre .22 foram recolhidas da cena do
crime. O detetive de Pasco, Tom Muck, sem conseguir identificar a vtima, j
havia ouvido falar do caso do Condado de Citrus, e notificou o xerife de l.
Procurando pistas que levassem  soluo dos casos, entraram em contato
com a Central de Investigao da Gergia e relataram seus casos. As
informaes eram muito parcas para que fossem unidas em um s caso.
     Algum tempo depois, o corpo encontrado em Pasco seria identificado
como sendo de Charles Carskaddon, 40 anos. Empregado de rodeio em
Booneville, Missouri, estava desaparecido desde 31 de maio passado. Sumiu
em algum ponto da Interestadual 75, quando estava a caminho do encontro
com sua noiva em Tampa. Levou nove tiros de uma pistola calibre .22. Seu
carro foi encontrado no Condado de Marion. Entre seus itens pessoais que
foram roubados, estava uma arma automtica calibre .45.
4 de Julho de 1990

     Enquanto Rhonda Bailey estava sentada em sua varanda  beira da
Estrada Estadual 315, Orange Springs, assistiu um carro perder a direo e
bater num arbusto. Duas mulheres desceram, jogaram fora vrias latas de
cerveja e gritaram bastante uma com a outra, sem se dar conta da presena
de Rhonda. A de cabelos castanhos falava muito pouco; a loira, com um
ferimento no brao causado no acidente, falava sem parar. Rhonda se fez
notar, perguntando se precisavam de ajuda e dizendo que iria chamar a
polcia. A loira implorou para que nenhuma providncia fosse tomada.
Segundo ela, seu pai morava logo adiante. Saram dali sem demora.
     Alguns quilmetros adiante, o carro enguiou. Elas ento resolveram
seguir a p at seu destino, abandonando o veculo.
     Hubert Hewett, voluntrio do corpo de bombeiros da cidade de Orange
Springs, foi quem recebeu o chamado de Rhonda Bailey sobre o acidente
ocorrido em frente de sua casa. No caminho, encontrou duas mulheres
caminhando pela estrada, e perguntou se eram as mesmas envolvidas no
acidente para o qual fora chamado. A loira respondeu que no tinham nada
a ver com este acidente e que no, no precisavam de nenhuma ajuda.
     O xerife do condado de Marion encontrou o veculo. Era um Pontiac
Sunbird 1988, cinza, quatro portas, com os vidros e quebra-ventos
arrebentados. Manchas de sangue foram encontradas no interior do veculo.
     Imediatamente a polcia comeou a investigar quem era o proprietrio.
Logo descobriram que se tratava de Peter Siems, desaparecido desde 7 de
junho, quando voltava do trabalho para sua casa, na cidade de Jupiter. Siems
tinha 65 anos, era aposentado e religioso. A polcia de sua cidade foi
contatada e mandou para Orange Springs um sumrio do caso e o retrato
falado das duas mulheres vistas por Rhonda Bailey no carro de Siems.
30 de Julho de 1990

     Troy Burress saiu para fazer entregas para a empresa Gilchrist Sausage,
onde trabalhava. Quando no retornou, j  tarde, o gerente da Gilchrist
comeou a fazer telefonemas. Logo descobriu que pouqussimas entregas
haviam sido feitas naquele dia. Juntamente com a esposa de seu funcionrio,
saiu para procur-lo. s 2 horas da manh do dia seguinte, sem encontr-lo,
deram queixa de seu desaparecimento na polcia. Duas horas depois, o xerife
de Marion encontrou o caminho de entregas de Troy numa estrada vicinal
da Estadual 19, perto da cidade de Ocala. Estava destravado, sem as chaves
e vazio.
     O corpo de Troy Burress foi encontrado cinco dias depois por uma
famlia que fazia um piquenique na Floresta Nacional de Ocala, perto da
Estadual 19, 12 quilmetros de onde seu caminho havia sido localizado. O
calor da Flrida causou a acelerao da decomposio de seu corpo, mas sua
esposa o reconheceu pela aliana de casamento, que ainda estava em seu
dedo. Burress foi assassinado com dois tiros de uma arma calibre .22, uma
bala encontrada no peito e a outra nas costas.


12 de Setembro de 1990

     Mais um corpo  encontrado no Condado de Marion. Desta vez trata-se
de Dick Humphreys, 56 anos, antigo chefe de polcia no Alabama. Dick era
atualmente oficial do Departamento de Sade da Flrida e fazia servios de
reabilitao. Era investigador especializado em abuso e ferimento em
crianas e estava sendo transferido para o escritrio da entidade em Ocala.
Desapareceu no dia anterior, logo depois de completar 35 anos de
casamento.
     Humphreys havia levado sete tiros de uma arma calibre .22. Seis balas
ainda estavam alojadas em seu corpo. Seu carro s foi localizado no fim do
ms, em Suwanee.


19 de Novembro de 1990

     O corpo de Walter Gino Antonio foi encontrado nu, somente de meias,
numa estradinha no Condado de Dixie.
     Caminhoneiro de 60 anos, s vezes era guarda de segurana e membro
da polcia reserva. Dias depois foram encontradas suas roupas numa remota
rea nas vizinhanas da cidade de Taylor. Seu assassino roubou um anel de
ouro, seu distintivo, algemas, cassetete e lanterna.
     Walter havia levado quatro tiros de uma arma calibre .22. Seu carro foi
localizado cinco dias depois em Brevard.
     O capito Steve Binegar, comandante da diviso de investigao
criminal do Condado de Marion, sabia sobre os crimes de Citrus e Pasco.
No ignorou as semelhanas entre eles e formulou uma teoria, juntamente
com a fora-tarefa que havia sido montada reunindo representantes dos
condados onde as vtimas foram encontradas. Binegar achava que, diante
dos noticirios, ningum naquela rea era louco o suficiente para estacionar
na estrada e dar carona para um desconhecido. No seu entender, o
criminoso inicialmente no era uma figura ameaadora para suas vtimas.
Ele imediatamente suspeitou das duas mulheres que arruinaram o carro de
Peter Siems e fugiram. Pediu ajuda  imprensa e, no fim de novembro, a
Agncia Reuters divulgou uma histria sobre os assassinatos, dizendo que a
polcia procurava pelas duas suspeitas.
     A mdia logo detectou os padres do assassino serial que a polcia
relutava em aceitar, e pressionou para publicar o retrato falado das duas
mulheres suspeitas no caso. Finalmente, os jornais da Flrida publicaram as
notcias juntamente com os retratos falados das mulheres em questo.
     Um homem em Homosassa Springs comunicou-se com a polcia,
dizendo que duas mulheres haviam alugado um trailer dele no ano anterior.
Seus nomes eram Tyria Moore e sua amiga Lee.
     Uma mulher de Tampa reconheceu as mulheres do retrato falado. Elas
haviam trabalhado em seu motel, localizado ao sul de Ocala. Chamavam-se,
segundo ela, Tyria Moore e Susan Blahovec.
     Um telefonema annimo identificou as mulheres suspeitas como Tyria
Moore e Lee Blahovec. Segundo esse telefonema, Lee Blahovec era a lder
das duas e uma conhecida prostituta em paradas de caminho. Ambas eram
lsbicas.
     A pista decisiva veio de Port Orange, prximo a Daytona. A polcia de
l estava seguindo os passos de Blahovec e Moore, que j haviam sido
localizadas, e providenciou um apurado relatrio sobre seus movimentos
desde o fim de setembro at dezembro.
     Primeiro as duas se hospedaram no Fairview Motel, em Harbor Oaks,
onde Blahovec se registrou sob o nome de Cammie Marsh Greene. Ficaram
pouco tempo vivendo num pequeno apartamento atrs de um restaurante
prximo ao Fairview, mas voltaram a se hospedar no motel. No incio de
dezembro, saram da cidade. Logo depois, Blahovec/Greene voltou sozinha ao
motel, e ali ficou at 10 de dezembro.
     Atravs dos computadores da polcia, pesquisaram as licenas de
motorista em nome de Tyria Moore, Susan Blahovec e Cammie Marsh
Greene. Moore no tinha registros graves. Blahovec tinha uma priso por
invaso. No nome de Greene, nada constava.
     A fotografia da licena de motorista de Blahovec no combinava com a
de Greene.
     Os investigadores de Volusia resolveram checar as lojas de penhores da
toda aquela rea, e encontraram em Daytona a cmera e o radar de Richard
Mallory, penhorados em 6 de dezembro. No recibo, estava a assinatura de
Cammie Marsh Greene, alm de sua impresso digital, como  de praxe nas
lojas de penhores americanas. Noutra casa de penhores, desta vez em
Ormand Beach, foi encontrada a mala de ferramentas que combinava com a
descrio daquela roubada de David Spears. No dia 7 de dezembro, em
Volusia, foi penhorado o anel de ouro de Walter Antonio, identificado por
sua noiva e pelo joalheiro que o havia confeccionado.
     A digital nos recibos era a chave do mistrio. Jeny Ahern, do Sistema de
Identificao Automatizada de Impresses Digitais, nada obteve em sua
busca pelo computador. Foi ento at Volusia, onde comeou o paciente
trabalho de uma busca manual. No demorou muito para que encontrasse a
digital que procurava num mandado contra Lori Grody. A impresso de
uma palma de mo em sangue deixada no carro de Peter Siems combinava
com as impresses de Lori Grody.
     Todas essas informaes reunidas foram encaminhadas para o Centro
Nacional de Informao Criminal. As respostas no tardaram, e vieram dos
estados de Michigan, Colorado e Flrida: Lori Grody, Susan Blahovec e Cammie
Marsh Greene eram todos pseudnimos da mesma mulher. Seu verdadeiro
nome era Aileen Carol Wuornos.
     A caa a esta mulher iniciou-se em 5 de janeiro de 1991. Foi montado
um esquema utilizando investigadores federais disfarados sob as
identidades de "Bucket" e "Drums", traficantes do Estado da Gergia. Eles
varreram as ruas  procura de Wuornos.


8 de Janeiro de 1991

     Finalmente,    os   investigadores   disfarados   encontraram   Aileen
Wuornos num pub chamado Port Orange. Agiam com o mximo cuidado,
mas os policiais da cidade, nem tanto. Entraram no pub e pediram que
Wuornos os acompanhasse. Desesperados, os federais conseguiram que a
fora-tarefa ordenasse para que ela no fosse presa sob nenhuma
circunstncia, e a mulher voltou para o pub. Era a vez de "Bucket" e
"Drums" agirem...
     Entraram no pub, sentaram ao seu lado e entabularam uma conversa
com a suspeita, enquanto juntos tomavam vrias cervejas. Wuornos deixou o
local s 22h, recusando uma carona. Mais uma vez, por culpa de dois
policiais da Flrida que resolveram segui-la, quase a investigao vai por
gua abaixo. Com mais uma ligao telefnica, os federais conseguiram
afastar os policiais intrometidos do local.
     A prxima parada de Wuornos foi num bar de ciclistas chamado "Last
Resort". Os investigadores disfarados tambm se dirigiram para l;
encontraram-se novamente com a "amiga" e continuaram a beber juntos.
Saram dali logo aps a meia-noite. Aileen Wuornos se dirigiu para um
velho carro no estacionamento do bar, onde passou a noite.
     "Bucket" e "Drums" voltaram ao Last Resort no dia seguinte,
equipados com transmissores para gravar sua conversa com Aileen
Wuornos. Convidaram a mulher para subir com eles ao seu quarto de motel.
Ela aceitou a oferta sem pestanejar, e deixou o bar, acompanhada dos dois.
Do lado de fora, um oficial do escritrio do xerife, que j os esperava,
aproximou-se deles e deu voz de priso pelo antigo mandado, em nome de
Lori Grody. Nenhuma meno foi feita aos assassinatos que estavam sendo
investigados. Nada foi falado nos jornais para que a investigao fosse
preservada, uma vez que ainda no tinham a arma dos crimes nem sabiam o
paradeiro de Tyria Moore.


10 de Janeiro de 1991

     Tyria Moore foi localizada em Pittston, Pennsylvania, na casa de sua
irm. Dois policiais, Munster e Thompson, pegaram o primeiro avio para a
cidade, com o objetivo de interrog-la. Foram lidos seus direitos, mas
nenhuma acusao contra ela foi feita. Os policiais deixaram claro o que
significava "perjrio", Tyria prestou juramento e comeou seu depoimento.
     Ela sabia sobre os assassinatos cometidos por sua amiga desde que Lee
tinha chegado em casa com o Cadillac de Richard Mallory. Quando
perguntou a ela de quem era o carro, Lee confessou tudo espontaneamente.
Tyria a interrompeu, pedindo que no dissesse mais nada sobre este
assunto, com o qual no queria se envolver.
     Todas as vezes que Lee chegou em casa querendo contar como obteve
certas coisas, Tyria no quis ouvir. Suspeitava, mas se limitava a saber o
mnimo possvel. Se soubesse muito, acabaria entregando a amante para as
autoridades. Tyria Moore disse, em seu depoimento, que vivia assustada,
apesar de Lee ter garantido que nunca a machucaria.


11 de Janeiro de 1991

     Tyria Moore acompanhou os policiais Munster e Thompson de volta
para a Flrida, a fim de ajudar nas investigaes. Com uma confisso de Lee,
os investigadores teriam meios para efetuar uma acusao bem estruturada.
Orientaram Tyria, para que Lee pudesse confessar atravs da amiga.
     Ela ficou hospedada em um motel em Daytona. O plano da polcia era
que entrasse em contato com Lee na cadeia, dizendo que havia conseguido
dinheiro com a me e tinha voltado para pegar o resto de suas coisas. Sua
conversa no telefone seria toda gravada. Tyria tambm contaria a Lee que as
autoridades haviam questionado sua famlia, e que ela tinha medo que a
culpa dos assassinatos da Flrida recasse tambm sobre ela. Com este plano,
Munster e Thompson esperavam gravar a finalmente uma confisso.


14 de Janeiro de 1991

     Foi feita a primeira ligao telefnica de Moore para Wuornos. Esta
ltima estava certa que havia sido presa pela violao de uso de armas sob o
nome de Lori Grody. Quando Moore falou sobre suas suspeitas, ela
respondeu:

     "Eu estou aqui apenas pelas acusaes de ocultar armas e comrcio ilegal de
     licenas, e vou lhe dizer, cara, eu li os jornais e no sou uma das suspeitas".

     Aileen, por intuio, sabia que os telefones da cadeia poderiam estar
grampeados, e se esforou para falar dos crimes em cdigo e construir libis
que poderiam ser posteriormente utilizados.
     Por trs dias, as ligaes continuaram, e Tyria insistia cada vez mais
que os investigadores estavam atrs dela. Com os dias se passando, Aileen
foi ficando cada vez mais descuidada em suas conversas com a amiga.
Acabou dizendo a Tyria que esta poderia dizer toda a verdade para os
policiais e, se fosse o caso, ela mesma confirmaria sua inocncia.
     Disse que jamais deixaria a amiga ir para a cadeia e acabou a conversa
com a frase:

     "Escute, se eu tiver que confessar, eu o farei".

     Uma das conversas entre as amigas levou a polcia at um armazm
alugado por Aileen. As buscas revelaram as ferramentas roubadas de David
Spears, o cassetete roubado de Walter Antonio, outra cmera e barbeador
eltrico que pertenciam a Richard Mallory.


16 de Janeiro de 1991

     Finalmente, Aileen Wuornos confessou seus crimes. Primeiro deixou
claro que Tyria Moore era inocente. Depois, alegou que tambm no tinha
culpa de nada, uma vez que havia matado em legtima defesa. Segundo seu
depoimento, cada vtima a tinha atacado, ameaado e estuprado. Quando
achava que havia dito algo que a incriminava, voltava atrs e mudava
alguns detalhes.
     Segundo Aileen, ela havia sido estuprada inmeras vezes nos ltimos
anos. Quando cada uma das suas vtimas tinha ficado agressiva, ela as havia
matado sem medo. Vrias vezes, o defensor pblico de Volusia, que iria
defend-la, avisou-a que se calasse. Aileen no obedeceu. Dizia que, de certa
forma, merecia ser castigada.
     Foi ficando cada vez mais famosa com a divulgao, pela mdia, de
seus crimes e declaraes. S pensava no dinheiro que receberia por sua
histria, esquecendo que as leis da Flrida se opem a que prisioneiros
obtenham lucro com seus crimes. Sentindo-se bem com a fama recm-
conquistada, confessava para quem quisesse ouvir.
     Neste momento, surge nesta histria uma personagem que iria
modificar todo o rumo dos acontecimentos. Entrou na vida da assassina uma
mulher chamada Arlene Pralle, dizendo estar seguindo as ordens de Jesus ao
entrar em contato com Lee. Pralle, aos 44 anos, dizia ter renascido para Jesus.
Comeou a trabalhar arduamente na defesa de sua mais recente amiga.
Pralle avisou-a de como seus advogados e todo o mundo estavam lucrando
com sua histria, e imediatamente contratou novos advogados.
     Deu entrevistas a reprteres, descrevendo seu relacionamento com Lee
como sendo "um encontro de almas gmeas", que tudo que uma sentia a
outra sentia tambm. Durante o ano de 1991, apareceu em entrevistas na
televiso, revistas e jornais, contando para quem quisesse ouvir sobre a
natureza pura e boa de Aileen Wuornos, que ela mesma havia descoberto.
     Os problemas da infncia dela foram enfatizados, para que os
reprteres e o pblico se sentissem penalizados.
     O pai de Aileen, Leo Dale Pittman, era um molestador de crianas e
sociopata. Foi estrangulado na priso em 1969. Sua me, Diane Wuornos,
casou-se aos 15 anos e teve duas crianas. Elas foram adotadas pelos avs
maternos, Lauri e Britta Wuornos, que as criaram como se fossem suas, na
cidade de Troy, Michigan. A descoberta de que Lauri e Britta eram seus avs
aconteceu somente quando j estava com 12 anos.
     A av de Lee bebia pesadamente e era muito severa na educao das
crianas. Ao descobrirem que ela no era sua me de verdade, revoltaram-se
contra sua forma de educ-los e tornaram-se incorrigveis.
     Aos 6 anos, Aileen sofreu queimaduras faciais enquanto brincava com
o irmo Keith de fazer jogos com fluido de isqueiro. Mais tarde, diria 
polcia ter feito sexo com ele desde a mais tenra idade, mas ele j no vivia
para confirmar ou negar suas declaraes.
     Aos 14 anos, Aileen estava grvida. Ficou num abrigo para mes
solteiras durante toda a gestao. Ali, as pessoas a achavam hostil, no
cooperativa e anti-social. Em janeiro de 1971, nasceu seu filho, que foi
imediatamente entregue para a adoo.
     Em julho do mesmo ano, Britta Wuornos faleceu. Diane Wuornos se
ofereceu para receber seus filhos, no Texas, mas eles recusaram. Aileen, j
conhecida nessa poca como Lee, saiu da escola, deixou sua casa e saiu pelo
mundo se prostituindo. Dormia em um carro abandonado, embebedava-se,
usava drogas constantemente e comia ocasionalmente.
     Poucos anos depois, Keith morreu de cncer na garganta, e Lauri
suicidou-se. Lee, ento, seguiu para a Flrida, onde se casou com um
homem bem mais velho do que ela, Lewis Fell. O casamento durou pouco.
Lewis conseguiu anul-lo depois da priso da esposa por arremessar um
taco de bilhar na cabea de um barman em Michigan. Para obter uma ordem
restritiva, Lewis alegou que ela havia desperdiado seu dinheiro e
espancado-o com um basto quando ele se negou a lhe dar mais.
     Lee voltou para a Flrida, e entrou em fracassados relacionamentos,
crimes de falsificao, roubo e assalto  mo armada. Em maio de 1974, foi
presa sob o nome de Sandra Kretsch, no Colorado, por conduta desordeira,
dirigir alcoolizada e por ter disparado uma arma calibre .22 de um veculo
em movimento. Em 20 de maio de 1981, Lee foi presa na Flrida por assalto
 mo armada em uma loja de convenincia, e cumpriu pena de 13 meses.
Sua prxima priso foi em 1984, por falsificao de cheques.
     O nome que adotou a seguir, Lori Grody, era de uma tia que morava
em Michigan. Foi presa sob este nome em 1986, por policiais em Volusia,
depois que um homem a acusou de sacar um revlver contra ele dentro de
seu carro e exigir US$ 200,00. Debaixo do assento que ocupava foi
encontrada uma pistola calibre .22 e munio. Uma semana depois
encontrou Tyria Moore em um bar gay em Daytona, solitria e revoltada.
     Lee e Ty, como chamava sua namorada, apaixonaram-se. No se
desgrudavam uma da outra e Lee continuava se prostituindo para ganhar a
vida. Fazia ponto em bares e paradas de caminho, suplementando seu
sustento com furtos e roubos.
     Penalizada com a vida errante de Aileen Wuornos, Arlene Pralle e seu
marido a adotaram legalmente em novembro de 1991. Segundo o casal,
apenas cumpriam a ordem de Deus.
     Os advogados de Lee ofereceram um trato  promotoria: ela se
declararia culpada de seis acusaes de assassinato, e receberia pena de seis
prises perptuas consecutivas. A promotoria no aceitou, pois acreditavam
que neste caso se aplicaria a pena de morte.


14 de Janeiro de 1992

     Aileen Wuornos foi a julgamento pelo assassinato de Richard Mallory.
As evidncias e testemunhas contra ela eram bastante slidas e fizeram um
irreparvel estrago em sua defesa.
     O Dr. Arthur Botting, que havia autopsiado o corpo de Mallory,
declarou que ele havia agonizado entre 10 e 20 minutos, antes de morrer.
Tyria Moore testemunhou que Lee no se abalou muito com o assassinato,
quando contou a ela o que havia ocorrido. No estava nervosa nem
alcoolizada.
     Doze homens declararam ter tido encontros com Aileen pelas estradas
da Flrida, atravs dos anos. Este Estado tem uma lei conhecida como
"Williams Rule", que permite que evidncias relacionadas a outros crimes
sejam admitidas no julgamento em questo para demonstrar um certo
padro de comportamento. Wuornos alegava ter matado em legtima defesa.
Se o jri soubesse apenas do assassinato de Richard Mallory, poderia ter
acreditado nesse argumento. Depois de tomar conhecimento de todos os
assassinatos cometidos por Aileen Wuornos, oito no total, era improvvel
que ela tivesse matado tantas pessoas em legtima defesa.
         Depois de assistirem aos vdeos de sua confisso, a alegao de legtima
defesa pareceu ridcula. Em seu depoimento, Lee parecia extremamente
autoconfiante e desafiadora, alm do fato de ter declarado merecer morrer
por ter tirado vidas.
         A defensora pblica de Wuornos, Tricia Jenkins, no queria de maneira
nenhuma que sua cliente ocupasse o banco das testemunhas. Lee, sempre
com excesso de autoconfiana, insistiu em contar sua histria. Segundo ela,
Mallory a havia sodomizado e estuprado, alm de t-la torturado. Quando o
advogado de defesa a inquiriu, acabou com sua credibilidade, trazendo uma
lista de todas as suas mentiras e inconsistncias em seu relato. Ela ficou
muito agitada e brava. Seus advogados a advertiram sem parar para que no
respondesse s perguntas que estavam sendo feitas, e foi invocada a 5a
Emenda 25 vezes73.
         Aileen Wuornos era a nica testemunha de defesa de Aileen Wuornos.
As outras pessoas que depuseram a seu favor eram especialistas. Elas
declararam que ela era mentalmente doente e sofria de desordem da
personalidade fronteiria. Alm disso, depuseram que sua infncia
tumultuada havia arruinado qualquer chance de normalidade na vida
adulta.


27 de Janeiro de 1992

         O jri se retirou, e levou menos de duas horas para chegar a um
veredicto: culpada de assassinato em 1 grau.
         Aileen Wuornos teve uma crise histrica, praguejando contra o jri. No
dia seguinte, era este mesmo jri insultado que definiria a sua pena.

73
     5a Emenda: d ao acusado o direito de no responder perguntas que possam incrimin-lo.
     Por unanimidade, a r foi condenada  morte em cadeira eltrica, em 31
de janeiro de 1992.
     Aileen Wuornos no foi novamente a julgamento. Em 31 de maro de
1992, ela no contestou as acusaes pelos assassinatos de Dick Humphreys,
Troy Burress e David Spears. Segundo ela, estes trs homens no a tinham
estuprado violentamente, como havia feito Richard Mallory. Aproveitou
para praguejar contra o promotor pblico, dizendo que desejava que sua
mulher e filhos fossem sodomizados. Em 15 de maio de 1992, foi condenada
a mais trs sentenas de morte.
     Em junho, ela se declarou culpada pelo assassinato de Charles
Carskaddon, e em novembro recebeu sua 5a pena de morte. Em fevereiro de
1993, foi condenada  morte novamente depois de declarar-se culpada pelo
assassinato de Walter Gino Antonio. Aileen Wuornos nunca foi acusada pelo
assassinato de Peter Siems, e seu corpo nunca foi encontrado.
     Durante algum tempo, especulou-se sobre outro julgamento para
Wuornos pelo assassinato de Richard Mallory, depois que seus advogados
descobriram que ele havia cumprido pena de 10 anos por violncia sexual.
No entanto, nada de novo aconteceu, e a condenada deve ter sua sentena
executada dentro de sete anos. Aguarda a execuo de sua pena no corredor
da morte do Condado de Broward.
     Em 1992, Wuornos se ofereceu para mostrar  polcia onde estava o
corpo de Peter Siems, escondido perto de Beaufort, Carolina do Sul. Nada foi
encontrado no local indicado por ela. A polcia de Daytona acredita que essa
histria foi inventada para tirar umas "frias" da cadeia e dar um passeio de
avio. Sobre a localizao dos restos mortais de Siems, especula-se que foi
jogado em um pntano perto da Interestadual 95, ao norte de Jacksonville.
     Esse caso  bastante controverso. Muitos acreditam que ela s matou os
homens que a ameaaram e/ou estupraram, uma vez que inmeros clientes
da prostituta saram ilesos de seus encontros. Agresses contra prostitutas
pouco so investigadas ou sequer levadas em conta. Parece sempre mentira
que uma pessoa que exera tal "profisso" possa ser estuprada, mas isso
realmente acontece, segundo os depoimentos de muitas delas. So mais
vulnerveis a este tipo de agresso do que as outras mulheres, pela prpria
profisso de risco que tm.
       A casa de Aileen Wuornos foi vandalizada. Os arquivos do caso foram
roubados. O nico advogado que se atreveu a questionar seu primeiro
julgamento recebeu ameaas de morte e foi afastado do caso. Existe ainda a
suspeita de que o Conselheiro Municipal, em Volusia, havia negociado
contratos para livros e filmes sobre o caso.
       Todos esses fatos fazem muita gente duvidar da culpa real dela nos
assassinatos pelos quais foi responsabilizada. Essas pessoas organizaram
protestos pblicos, escreveram para a Suprema Corte da Flrida pedindo
novo julgamento, criaram comits de ajuda e defesa de Aileen Wuornos em
So Francisco e constantemente escrevem cartas para o Departamento
Correcional de Broward.
       Aileen Wuornos , atualmente, extremamente catlica. Pediu perdo
para os familiares das vtimas, dizendo que se arrepende e quer estar com
Jesus depois de sua merecida execuo. Voc acredita que ela seja inocente?
       Manh de 9 de outubro de 2002, 9h29m. Quem assistia  execuo de
Aileen Wuornos viu a cortina se abrir pela ltima vez para aquela que foi
chamada de "A Prostituta das Estradas" e "A Senhorita da Morte". A
condenada fez cara de surpresa antes de fazer sua bizarra declarao final:
       "Eu s gostaria de dizer que estou velejando com a Rocha74 e voltarei
como em `Independence Day' com Jesus, 6 de junho, como no filme, na nave
me e tudo. Eu voltarei."75
       Exatamente s 9h30m, a injeo letal foi administrada em seu brao
direito. Dois minutos depois, ela parou de se mexer e s 9h47m foi
pronunciada morta, aos 46 anos de idade.

74
   A Rocha  uma referncia bblica a Jesus.
75
   "I'd just like to say I'm sailing with the Rock and I'll be back like `Independence Day' with Jesus, June
6, like the movie, big mother ship and all. I'll be back."
       No ltimo ano no corredor da morte, Aileen Wuornos foi voluntria
para a pena de morte, dizendo que iria matar novamente e que estava
cansada de mentiras. Ela confessou ter conhecimento de que seria executada
pela morte de seis homens, mas que, na realidade, havia assassinado sete.
       Aileen Wuornos despediu-se dizendo a todos que voltaria. Espero que
no.


Mulheres Executadas nos EUA desde 1976

       09/10/2002 -- Aileen Wuornos, 46 anos, por injeo letal, na Flrida,
pelo assassinato de seis homens.
       10/05/2002 -- Lynda Lyon Block, 54 anos, eletrocutada no Alabama por
matar um policial.
       04/12/2001 -- Lois Nadean Smith, 61 anos, por injeo letal, em
Oklahoma, pelo assassinato da ex-namorada de seu filho.
       01/05/2001 -- Marilyn Plantz, 40 anos, por injeo letal, em Oklahoma,
pelo assassinato de seu marido.
       11/01/2001 -- Wanda Jean Allen, 41 anos, por injeo letal, em
Oklahoma, pelo assassinato de duas mulheres.
       02/05/2000 -- Christina Riggs, 28 anos, por injeo letal, em Arkansas,
por sufocar seus dois filhos pequenos.
       24/02/2000 -- Betty Lou Beets, 62 anos, por injeo letal, no Texas, pelo
assassinato de um de seus maridos.
       30/03/1998 -- Judy Buenoano, 54 anos, eletrocutada, na Flrida, por
matar seu filho e marido.
       3/02/1998 -- Karla Faye Tucker, 38 anos, por injeo letal, no Texas,
pelo assassinato de duas pessoas.
       2/11/1984 -- Velma Barfield, 52 anos, por injeo letal, na Carolina do
Norte, pelo envenenamento de seu noivo.
RICHARD TRENTON
       CHASE



O Vampiro de Sacramento
               RICHAED TRENTON CHASE
           -- O VAMPIRO DE SACRAMENTO

29 de Dezembro de 1977 -- Sacramento --
Califrnia -- E.U.A.

                                 Ambrose Griffin, 51 anos, engenheiro e pai
                           de dois filhos, estaciona o carro na garagem de
                           sua casa, na zona leste de Sacramento. Ele e a
                           esposa comeam a descarregar as compras que
                           acabaram de fazer no supermercado. Sua mulher
                           abriu o porta-malas e, seguida pelo marido,
                           comeou a levar as sacolas para a cozinha. O
                           marido voltou para o carro antes dela. Segundos
                           depois, ele estava gritando com algum na rua.
Quando sua esposa saiu para ver o que estava acontecendo, viu seu marido
cado no cho. A princpio, pensou que sofrera um ataque do corao.
Ambrose Griffin foi levado imediatamente para o hospital mais prximo,
onde a famlia, completamente perplexa, descobriu que no havia sido um
enfarte, e sim um tiro calibre.22 a causa de sua morte.
     A polcia foi chamada. Quando inquirida, a Sra. Griffin disse ter ouvido
dois estampidos, mas no havia dado importncia a isso. A polcia conclui
que algum que passava de carro havia acertado Ambrose Griffin.
     As investigaes comearam pela prpria vizinhana da vtima. Dois
cartuchos de bala foram encontrados no cho, perto da residncia deles.
Tambm foram feitos alguns relatos sobre um estranho e suspeito carro que
estivera rondando aquele bairro, mas no foi obtida nenhuma descrio
clara sobre o fato.
     Na tarde do dia seguinte ao atentado a Griffin, um garoto de 12 anos
relatou para a polcia que havia sido atacado por um homem, cabelos
castanhos, com idade por volta de 25 anos, guiando um Pontiac Trans Am
marrom. O homem havia atirado em sua direo enquanto pedalava sua
bicicleta pelo bairro. O garoto no lembrava a placa do carro.
     Sem muitas alternativas, a polcia resolveu chamar um profissional
para que hipnotizasse o menino. Em alguns casos, sob hipnose, uma pessoa
 capaz de se recordar de detalhes de uma determinada cena que
inconscientemente bloqueia.
     A deciso foi acertada; a placa do carro era 219EEP. Fim da trilha... a
descoberta no levou os investigadores a nenhum resultado.
     Pesquisando nas queixas feitas  polcia em datas prximas,
encontraram a de uma mulher que havia sido vtima de tiros vindos da rua.
Ela morava a apenas alguns quarteires de Griffin, e uma busca em sua
cozinha resultou em duas balas calibre .22. A balstica comprovaria que elas
tinham sado da mesma arma que havia matado Griffin, mas a polcia no
tinha novas pistas para resolver o caso.


23 de Janeiro de 1978 -- Zona Leste de Sacramento

     Jeanne Layton estava no jardim de sua casa quando percebeu um
estranho homem de cabelos longos perambulando em direo  sua porta.
Passou reto por ela, testou a porta e encontrou-a trancada. Foi ento at as
janelas, mas como tambm estavam fechadas voltou para a porta, onde
Jeanne j o esperava. Ficaram face a face, mas o estranho no se assustou ou
demonstrou qualquer emoo. Olhou-a de cima a baixo, deu-lhe as costas,
acendeu um cigarro e saiu andando pelo jardim dos fundos.
     Mais abaixo, na mesma rua, Robert e Barbara Edwards estavam
descarregando suas compras de supermercado e levando-as para a cozinha,
quando ouviram um barulho dentro de casa. Quem quer que fosse, saiu
correndo. O casal ainda ouviu a janela do fundo sendo batida e ento,
estranhamente, um jovem desgrenhado virou a esquina em direo a eles.
Antes que Robert pensasse em segur-lo, ele j havia se distanciado e pulado
a cerca da casa. Chamaram a polcia.
     A casa estava na maior baguna, obviamente feita por algum que
procurava coisas de valor para roubar. Ao examinar o local com mais
ateno, os investigadores se surpreenderam: o intruso havia feito xixi numa
pilha de roupas recm-lavadas do beb Edwards e havia fezes em seu bero.
     A polcia no sabia que aquele intruso havia continuado seu passeio
pelo bairro, tentando encontrar alguma casa com portas ou janelas abertas...
obteve sucesso na rua Tioga Way n 2360.


O Assassinato de Teresa Wallin

     Mais tarde, reconstituindo o crime, a polcia concluiria que
provavelmente a porta da casa da famlia Wallin estava aberta. Teresa
Wallin (Terry), de 22 anos e grvida de trs meses, estava retirando o lixo
para fora quando o intruso entrou porta adentro e apontou-lhe uma arma. O
saco de lixo caiu no cho, e antes de perceber Terry estava baleada
duplamente. Uma das balas atingiu-a na mo, que havia levantado para
defender-se, saiu pelo cotovelo e cortou seu pescoo. O segundo tiro foi
dado diretamente em seu crnio, sem deixar nenhuma chance de vida para a
me e seu beb. Uma terceira bala foi encontrada em sua tmpora.
     Terry foi arrastada para o seu quarto, deixando atrs de si uma trilha
de sangue.
     Por volta das 18h, David Wallin chegou em casa. Estranhou estar tudo
s escuras. Entrou e encontrou seu cachorro, um pastor alemo,  sua espera,
mas no viu a esposa. O fato de o som estar ligado tambm causou
estranheza, alm do saco de lixo aberto no cho da sala e das manchas
escuras sobre o carpete. David seguiu a trilha de manchas que o levaram ao
seu quarto. O pavor do que via descontrolou-o...
     Terry estava cada de costas, sua malha levantada descobrindo os seios
e sua cala e calcinha abaixadas at seus tornozelos. Seus joelhos estavam
afastados, indicando um ataque sexual. Seu mamilo esquerdo havia sido
arrancado, seu torso estava aberto do osso externo para baixo, e seu bao e
intestino estavam para fora do corpo. A moa foi esfaqueada repetidamente
nos pulmes, fgado, diafragma e seio esquerdo. Seus rins tambm foram
retirados e recolocados juntos dentro de seu corpo, e seu pncreas cortado
em duas partes.
     Havia sangue por todo o banheiro, e um pote vazio de iogurte retirado
do lixo de Terry jazia sujo e vazio ao lado do corpo, como se tivesse sido
utilizado para beber sangue.




     O ato mais hediondo do assassino tinha sido encher a boca da vtima
com fezes de animais. Em volta do corpo foram encontrados anis de
sangue, como se um balde molhado tivesse sido movimentado em volta do
cadver.
     Dois dias depois da terrvel tragdia, dois filhotes de cachorro foram
encontrados mutilados no muito longe da casa de Teresa Wallin. Nas
investigaes,    descobriu-se   que   um   homem   estranho,   de   cabelos
embaraados e guiando um carro modelo "Ranchero" havia comprado dois
filhotes de uma famlia do bairro, os mesmos encontrados mortos e na lata
do lixo.


27 de Janeiro de 1978 -- O Caso Miroth

     Evelyn Miroth, que morava apenas a l,5km de distncia de Teresa
Wallin, estava em casa cuidando de seu sobrinho de 1 ano e 10 meses e de
seu filho Jason, 6 anos. Seu amigo Dan Meredith, 51 anos, veio lhe fazer
companhia.
     Numa casa prxima, a amiga de Evelyn estava esperando que ela
trouxesse Jason em sua casa, como haviam combinado anteriormente.
     Devido  demora, resolveu mandar sua filha at a casa vizinha, saber se
alguma mudana de planos havia sido feita. A menina tocou a campainha
vrias vezes, e chegou a ver algum movimento pela janela da frente, mas
ningum atendeu. Relatou o ocorrido para a me, que, com o tempo
passando, ficava cada vez mais preocupada. Finalmente, alguns vizinhos
resolveram entrar na casa para ver se tudo estava bem...
     Dan Meredith jazia no hall de entrada, em meio a uma enorme poa de
sangue. A polcia foi chamada imediatamente. O delegado que veio atender
ao chamado no demorou a perceber um ferimento a tiro na cabea de Dan.
Olhando pela casa, constatou que o banheiro estava sujo de sangue, a
banheira cheia de "gua avermelhada".
     No quarto de Evelyn, encontrou-a morta e nua sobre a cama, suas
pernas abertas. Ela tambm tinha um ferimento de bala na cabea, seu
abdmen estava cortado e seus intestinos retirados para fora. Duas facas de
entalhar, ensangentadas, estavam largadas prximas ao corpo.
     Aparentemente, Evelyn tomava banho quando foi surpreendida pelo
assassino. Foi trazida para sua cama, sodomizada, esfaqueada atravs do
nus at seu tero pelo menos seis vezes e tinha vrios cortes pelo pescoo.
O assassino tambm havia tentado extirpar-lhe um dos olhos.
     Anis de sangue no carpete, parecidos com aqueles encontrados na
casa dos Wallin, indicavam que novamente o assassino tinha usado algum
tipo de recipiente, talvez um balde, para recolher o sangue da vtima. Evelyn
tambm tinha vrias facadas em rgos internos. Posteriormente, em sua
necropsia, foi encontrada grande quantidade de smen em seu reto.
     Do outro lado da cama, jazia o corpo de Jason. Ele havia sido baleado 
queima-roupa duas vezes na cabea. O criminoso havia deixado pegadas
ensangentadas que lembravam as marcas deixadas na casa de Teresa
Wallin.
     Entrevistando toda a vizinhana, descobriram uma menina de 11 anos
que havia visto um homem rondando aquela casa por volta das 11h daquela
manh. Ele parecia ter 20 anos, e pela sua descrio era conhecido na regio
por andar ali pedindo revistas velhas para as pessoas. O carro vermelho de
Dan Meredith, que havia sido visto estacionado na frente da casa de Evelyn
durante boa parte da manh, havia sumido.
     Sem ser esperada, chegou na cena do crime Karen Ferreira, procurando
por seu beb que havia ficado todo o dia com Evelyn. Nenhum rastro dele
havia sido encontrado, mas o prognstico foi pssimo quando os
investigadores encontraram um furo, produzido por um tiro, no travesseiro,
alm do bero coberto de sangue.
     Mais tarde, a percia encontrou partes de seu crebro na banheira, onde
o assassino deve ter comeado a mutil-lo e parou ao ouvir barulho na porta
da frente, provavelmente fugindo com o corpo.
     O carro de Dan Meredith logo foi localizado, abandonado no muito
longe da cena do crime, num estacionamento perto do complexo de aparta-
mentos da Watt Avenue.


O FBI Entra na Caada

     Os agentes Robert Ressler e Russ Vorpagel desenvolveram um perfil do
criminoso.
     O definiram como um serial killer desorganizado, e algumas pistas
indicavam a possibilidade de se tratar de pessoa psictica.
     Era claro que o criminoso no havia planejado seus crimes, alm do
fato de no ter se preocupado muito em destruir evidncias relacionadas aos
mesmos. Deixou pegadas e impresses digitais, e provavelmente havia
andado pelas ruas, com manchas de sangue na roupa, em plena luz do dia.
Parecia no passar por sua cabea as conseqncias de seus terrveis e
hediondos crimes.
     A sujeira e baguna que havia deixado nos lugares que saqueou
indicavam que sua prpria casa devia permanecer imunda e desorganizada.
O fato de as cenas dos crimes serem razoavelmente perto umas das outras
indicava que o assassino andava a p, no possuindo um automvel. Como
roubou o carro de uma das casas, os peritos concluram que aquele teria sido
seu ltimo crime e que ele morava nas vizinhanas.
     Ressler e Vorpagel tinham certeza de uma coisa: aquele assassino
mataria novamente sem parar, at que fosse preso. Tinham que trabalhar
com rapidez e preciso.
     O perfil criminal do serial killer em questo
indicava que ele tinha aproximadamente 25 anos
de idade, era magro e subnutrido. Com certeza,
evidncias dos crimes seriam encontradas em sua
casa, e caso tivesse um carro ali tambm seriam
encontradas provas de seus atos.
     Provavelmente ele teria um histrico de
doena mental ou uso de drogas, ou ambos, e seria
do tipo solitrio. Caso estivesse empregado, seria
como domstico, ou estaria recebendo dinheiro
por diagnstico de incapacidade para trabalhar,
devia viver sozinho e seria paranico.
A Caada

     Muitas   pessoas,   moradoras   das     cercanias   dos   crimes,   foram
entrevistadas na busca de pistas, e algumas tinham visto um homem branco
de aparncia estranha dirigindo uma perua.
     Na tentativa de fazer um retrato falado, uma jovem acabou sendo
pessoa principal na tarefa. Nancy Holden estava fazendo compras no Town
and Country Village Shopping Center, no muito longe da avenida Watt
(perto da residncia dos Wallin) quando um estranho se aproximou dela. O
homem parecia bastante confuso. Ela, assustada, tentou desviar-se dele, mas
antes que pudesse faz-lo, ele lhe fez uma pergunta estranha: "No era voc
que estava com Kurt em sua motocicleta quando ele foi morto?".
     Nancy parou, pasma. Dez anos antes ela havia tido realmente um
namorado chamado Kurt, que havia falecido em um acidente de moto.
Olhando bem para aquele estranho homem que havia surgido do nada,
comeou a notar algo familiar em seu rosto. Perguntou quem era, e ele
respondeu: "Sou Rick Chase".
     Nancy no podia acreditar no que via. Rick Chase havia sido seu amigo
de escola, estudioso e muito bem arrumado naqueles tempos. Ela tinha
ouvido falar que ele havia se envolvido com drogas, e sua aparncia atual
demonstrava que no tinham sido apenas rumores. Chase estava sujo, com
as roupas manchadas, e agia de maneira bastante agitada e nervosa. Nancy
falou com ele o mnimo possvel e saiu da loja rapidamente.
     Quando a mdia comeou a noticiar os crimes e a polcia descreveu o
suspeito como homem desgrenhado, visto naquelas vizinhanas vestindo
uma parca de esqui laranja, Nancy no teve dvidas de que se tratava de
Rick Chase e procurou a polcia imediatamente. Agora, o procurado tinha
um nome.
     Ao mesmo tempo, a informao de Nancy foi confirmada pelo registro
de todas as armas semi-automticas vendidas em 1977: havia uma em nome
de Richard Chase, residente na avenida Watt. Em 10 de janeiro de 1978, ele
havia voltado  loja e comprado munio.
        Dawn Lawson, ao ouvir o noticirio, tambm se lembrou de seu
estranho vizinho, Richard Chase. Durante os seis meses em que moraram no
mesmo complexo de apartamentos, ela havia visto aquele homem
carregando trs animais para dentro de sua casa, o que era completamente
contra as regras de condomnio. Ela pensou em denunci-lo, mas como no
viu mais os animais e tinha pena do solitrio homem, deixou-o em paz. No
dia 11 de janeiro, teve um encontro com o rapaz. Ele pediu-lhe cigarros, mas
barrou sua partida at que ela lhe desse todo o mao. Apesar de reconhec-
lo pelos jornais, ficou com medo de denunci-lo e ganhar um perigoso
inimigo, bem na porta ao lado.
        Depois do depoimento de Nancy Holden, a polcia resolveu investigar
o passado deste tal Richard Chase. Descobriram seu registro de doenas
mentais, incluindo uma fuga do hospital, pequenas acusaes por porte de
arma e drogas e uma priso, em agosto de 1977, em Nevada.
        No foi difcil localizar seu endereo, e um dia depois do triplo
homicdio na casa de Evelyn Miroth a polcia foi fazer-lhe uma "visita".
        O gerente do complexo contou aos investigadores que a responsvel
pelo pagamento do aluguel do suspeito era sua me, que havia dito que o
filho tinha sido vtima de abuso de LSD. Ela era proibida de entrar em sua
casa.
        Os detetives bateram na porta de Chase vrias vezes, mas ningum
atendia. Fingiram desistir, mas ficaram de tocaia, aguardando, pois em
algum momento ele teria que sair dali.
        No demorou muito. Chase saiu de casa com uma caixa em seus
braos, indo em direo a um carro. Os detetives o detiveram, no antes que
ele tentasse escapar deles. Repararam que ele ainda usava a tal parca laranja,
e que ela estava bastante manchada. Seus sapatos tambm pareciam estar
cobertos de sangue seco.
     Richard Chase foi desarmado de sua semi-automtica calibre .22,
tambm manchada de sangue. Em seu bolso, foi encontrada a carteira de
Dan Meredith, juntamente com um par de luvas de ltex.
     O contedo da caixa que carregava tambm era bastante interessante:
pedaos de papel e trapos manchados com sangue.
     Chase foi levado para a delegacia e interrogado, mas ele s admitiu
matar cachorros e se recusou a falar sobre os assassinatos. Enquanto estava
sob custdia, os detetives foram dar uma busca em seu apartamento, atrs
de novas evidncias ou pistas sobre o beb desaparecido.
     Quando entraram, o cheiro ptrido era insuportvel, e o lugar
totalmente sinistro. Absolutamente tudo dentro da casa estava manchado de
sangue, inclusive copos. Na cozinha, encontraram vrios pedaos de ossos e
alguns pratos guardados na geladeira, contendo partes humanas. A
batedeira estava imunda e cheirava muito mal. Tambm foram encontradas
trs coleiras de cachorro, mas nenhum animal.
     Em cima da mesa, estava um livro aberto em pgina que mostrava
fotografias de rgos humanos, alm de um jornal com vrios anncios de
venda de filhotes de cachorro marcados com crculos.
     Um calendrio mostrava a inscrio today nas datas dos assassinatos de
Wallin e Miroth, alm de recentes marcas idnticas feitas em 44 datas futuras
naquele ano.


O Julgamento

     As evidncias encontradas foram para anlise em laboratrios forenses,
para serem comparadas com amostras das vtimas, de sangue e cabelo.
Precisavam tambm retirar sangue de Chase, mas essa tarefa foi a mais
difcil. S conseguiram essas amostras depois de amarr-lo. Ningum
entendeu seu pavor descontrolado de "perder" sangue.
     Dr. Farris Salamy foi designado como defensor de Chase, que logo o
protegeu de ficar sob interrogatrio na delegacia.
     A polcia continuava a busca pelo beb Ferreira, usando cachorros da
raa bloodhound. Foram at a casa da me de Chase para tentar obter alguma
informao, mas ela recusou-se a cooperar.
     Na cadeia onde aguardava julgamento, Chase acabou confessando para
um colega de cela que bebia o sangue de suas vtimas porque tinha seu
prprio sangue envenenado, sempre precisando de "reposio". Havia se
cansado de fazer isso caando e matando animais.
     Em 24 de maro de 1978, o zelador de uma igreja encontrou uma caixa
com os restos de um menino bem pequeno e chamou a polcia. O beb
Ferreira foi reconhecido pelas roupas que usava no dia de seu
desaparecimento. Havia sido decapitado, e sua cabea jazia embaixo do
torso, parcialmente mumificado. Um buraco no centro da cabea indicava
que ele havia sido morto com um tiro de arma de fogo. Vrios ferimentos
feitos  faca foram encontrados em seus restos mortais, e muitas de suas
costelas haviam sido quebradas. Ao lado do corpo, estavam as chaves do
carro de Dan Meredith.
     O promotor do caso Califrnia vs Richard Trenton Chase foi Ronald W.
Tochterman, que queria a pena de morte.
     A defesa alegou inocncia por insanidade, mas Tochterman estava
determinado a provar que Chase sabia a diferena entre certo e errado e que
no matava compulsivamente. Parte de sua estratgia foram as diversas
lendas sobre o Conde Drcula, alm de rituais de sangue em diversas
culturas diferentes, onde se acreditava que ingerir sangue humano de outra
pessoa a tornaria mais forte. Ele queria demonstrar que, apesar de ser uma
crena, no era razo vivel para assassinato.
     O local de julgamento de Chase foi transferido para o Condado de
Santa Clara, a quase 200km de distncia do local dos crimes, pois o clamor
da mdia influenciaria os jurados.
     O ru foi avaliado por dzias de psiquiatras. No havia evidncias de
que matava compulsivamente, e sim de que acreditava que beber sangue era
teraputico. Um dos psiquiatras o diagnosticou como portador de
personalidade anti-social, no esquizofrnico. Ele sabia exatamente o que
estava fazendo.
     Em 2 de janeiro de 1979, iniciou-se o julgamento. Chase foi acusado de
seis assassinatos. O promotor alegou que ele tinha tido escolha,
mencionando as vrias vezes que havia comprado luvas de borracha e as
levado  casa das vtimas com a inteno de matar. A acusao tambm
mostrou 250 provas da autoria dos crimes por Richard Chase, entre elas seu
revlver e a carteira de Dan Meredith encontrada em seu bolso. A primeira
testemunha da acusao foi David Wallin, seguido por quase uma centena
de outros depoimentos.
     Chase foi chamado a depor em sua prpria defesa. Sua aparncia era
horrvel. Havia perdido muitos quilos, e agora pesava cerca de 48kg. Suas
olheiras eram profundas, e seus olhos sem nenhum brilho. Ele alegou ter
ficado inconsciente durante o assassinato de Teresa Wallin e descreveu em
detalhes como havia sido maltratado por toda a sua vida.
     Admitiu ter bebido o sangue de Teresa, mas no se lembrava muito
bem da segunda srie de assassinatos. Recordava-se de ter atirado na cabea
de um beb e decapitado-o, deixando sua cabea num balde, na esperana
de obter mais quantidade de sangue. Chase disse que seus problemas
advinham de sua incapacidade de fazer sexo na adolescncia e disse que
sentia muito pelos assassinatos.
     A defesa pediu por um veredicto de homicdio em 2 grau, para salvar
Chase da pena de morte, uma vez que ele era claramente insano e no havia
tido eficiente ajuda mdica. Tochterman argumentou que ele era um sdico
sexual, um monstro que sabia o que fazia e no deveria ser salvo de tal
destino.
     Em maio de 1979, Richard Trenton Chase foi julgado legalmente so
depois de uma hora de deliberao. Com mais quatro horas de discusso, os
jurados decidiram que ele deveria ser executado na cmara de gs da
Penitenciria de San Quentin.


A Morte de Chase

     Um dia depois do Natal de 1980, um guarda da priso deu uma olhada
na cela de Richard Chase. O condenado estava deitado de costas em seu
catre, respirando normalmente. Quando chamou seu nome, Chase no
respondeu, mas esse fato era usual.
     s 11h05min o mesmo guarda foi novamente verificar o prisioneiro.
Chase estava de bruos, as pernas para fora do catre e os ps apoiados no
cho. Sua cabea estava apoiada contra o colcho e seus braos sobre o
travesseiro. O guarda chamou seu nome, mas ele no se moveu. Entrou na
cela e constatou imediatamente que o prisioneiro estava morto. O "Vampiro
de Sacramento" havia se auto-executado.
     Na cela foi encontrada uma estranha nota de suicdio que fazia meno
a plulas. Chase tomava uma dose diria de um medicamento chamado
Sinequan, para tratamento de depresso e alucinaes. Aparentemente,
guardou uma grande quantidade delas e tomou-as juntas, morrendo de
ingesto txica.
     Em 1992, um filme chamado Unspeakable foi baseado em Chase como o
modelo para o assassino da histria.
     At os dias de hoje, o caso de Richard Trenton Chase  usado, pelo FBI,
como o modelo perfeito de um serial killer desorganizado.


Entrevista para Bobert Ressler -- FBI

     Na poca em que os agentes do FBI entrevistaram serial killers de todo o
pas para obter dados sobre a psicologia criminal, Robert Ressler estudou
profundamente a personalidade de Richard Chase e escreveu um famoso
livro sobre ele, chamado Whoever Fights Monsters.
     Ele descreve como, em 1976, Chase passou a acreditar que seu sangue
estava se tornando p e a nica cura possvel seria retirar sangue de outras
criaturas para reposio. Apesar disso, os psiquiatras da clnica onde estava
internado o soltaram, mesmo sob o protesto de alguns funcionrios que o
consideravam perigoso.
     Sua mente passou por uma progressiva degenerao desde ento.
Matou o gato de sua me e comprou dois cachorros para matar. Coletou
vrios artigos sobre o caso "Hillside Strangler", ocorrido em Los Angeles
nessa poca. Em dezembro de 1977, adquiriu uma arma.
     Depois do assassinato de Ambrose Griffin, comprou o jornal e guardou
com ele um editorial sobre a falta de sentido daquele atirador. Comprou
mais munio e atirou perto da garagem de vizinhos, cuja msica que
ouviam em alto volume o incomodava.
     Contou ao psiquiatra que seu primeiro assassinato aconteceu depois de
sua me no permitir que ele a visitasse no Natal. Ele saiu de carro, atirando
a esmo pela janela, e acabou acertando Griffin.
     Chase disse aos criminalistas do FBI que matou para preservar sua
prpria vida, e estava baseando sua apelao nesse argumento.
     Mencionou a Ressler "envenenamento por barra de sabo", explicando
que se voc levanta o seu sabo de lavar pratos e o lado de baixo est seco,
tudo est bem com voc. Caso contrrio, se estiver grudento, voc est
envenenado e seu sangue se tornar p.
     Chase tambm afirmou ser judeu, o que no era, e que estava sendo
perseguido por nazistas, por ter uma Estrela de David desenhada em sua
testa (no tinha).
     Tambm explicou que os nazistas estavam conectados com Objetos
Voadores no Identificados, que telepaticamente o comandaram a matar
para repor seu sangue. Os Ovnis o seguiam por todo o tempo, e se o FBI
quisesse encontr-los era s colocar um radar em Chase.
    Ressler   descobriu    que    muitos     prisioneiros   provocavam   e
ridicularizavam Chase, encorajando-o a suicidar-se. Ningum queria sua
companhia.
    Ressler, alm de outros profissionais da sade mental da priso,
concluiu que Chase deveria ser transferido para um hospital psiquitrico, o
que ocorreu por um curto perodo de tempo.
    Foi mandado de volta  San Quentin, onde se suicidou
  O ZODACO



O Caso que Ningum
    Resolveu!!!
                               O ZODACO

     Este  um dos mais famosos serial killers dos EUA. Agiu durante anos
na Califrnia, impunemente, escreveu cartas para jornais, desafiou e
provocou a polcia. Nunca foi identificado.
     Sobre o assunto, diversos livros foram escritos, documentrios foram
feitos, web sites foram criados...
     Quase 30 anos depois, em alguns dos assassinatos ligados a ele,
investigaes     ainda     esto    sendo    feitas.   O   site   na   Internet
"www.zodiackiller.com", que as acompanha, atrai mais de 20.000 pessoas
por semana.  um dos maiores mistrios do crime americano.
     Alguns escritores chegaram a sugerir que o Zodaco poderia estar
ligado a Charles Mason ou ao Unabomber, outros dois casos americanos
famosos.
     Nunca se chegou a uma concluso definitiva... pode ser at que o
assassino tenha sido entrevistado pela polcia, sem que o identificassem...


Os Fatos

30 de Outubro de 1966

     Nesse fatdico dia, Cheri Jo Bates, 18 anos,
decidiu ir at a biblioteca da Riverside City College
estudar. Filha dedicada, estudante impecvel, pessoa
extremamente responsvel, ligou para alguns colegas,
convidando-os para ir com ela, mas ningum estava
disponvel.
     Um pouco depois das 16h30min, deixou um
bilhete para seu pai pregado na geladeira, dizendo onde estaria. Pegou seu
fusca e foi estudar. Em nenhum momento percebeu que estava sendo
seguida.
     s 17h, Joseph Bates, pai de Cheri Jo, chegou em casa e no viu o carro
da filha. Entrou em casa, encontrou o bilhete e no se preocupou mais.
     Cheri Jo permaneceu na biblioteca por horas. Enquanto estudava, o
homem que a seguiu abriu o cap de seu carro e retirou a bobina do
distribuidor e condensa-dor. O distribuidor foi desconectado.
     s 21h, Cheri Jo decidiu que j era hora de voltar para casa. Quando
tentou ligar seu carro... nada. Tentou novamente... nada. J de noite, sem ter
a quem recorrer, no sabia o que fazer, quando um gentil homem lhe
ofereceu carona at a sua casa. Cheri Jo aceitou.
     Caminhando em direo ao carro do homem, ele de repente a agarrou,
tapou sua boca e colocou uma faca em sua garganta.
     Desesperada, a menina tentava gritar e fugir, atacando seu agressor
como podia, arranhando seu rosto.
     Nos depoimentos posteriores, a polcia saberia que dois gritos
horrendos foram ouvidos: o primeiro s 22h15min, o segundo s 22h45min.
No se sabe o que aconteceu nesse intervalo de tempo, mas o resultado foi
que o estranho homem cortou a jugular de Cheri Jo e deu outras trs facadas
em sua garganta, aniquilando suas cordas vocais. A menina foi praticamente
decapitada e esfaqueada 42 vezes, sete s na garganta, mas o assassino ainda
no estava satisfeito... deitou-a no cho e deixou sua lmina enterrada no
ombro da vtima. No ataque, perdeu seu relgio Timex, que marcava
12h23min. A origem do relgio foi rastreada at um posto militar,
provavelmente na Inglaterra.
     Dias depois, a polcia recebeu uma carta de confisso annima, escrita 
mquina. No conseguiram identificar quem a teria escrito.
     Seis meses depois, o Riverside Press Enterprise publicou um artigo sobre
o caso. No dia seguinte  publicao, a polcia, Joseph Bates e o jornal
receberam novas cartas do assassino:




     Era o primeiro assassinato do criminoso que chamou a si mesmo de
"Zodaco", somente ligado ao caso quando a polcia de Riverside notou
similaridades com o caso de assassinato em Napa, no ano seguinte.


20 de Dezembro de 1968

     Mais de dois anos j haviam passado desde que Cheri Jo Bates havia
sido morta. Nunca mais ningum tinha ouvido falar do caso.
     Nesta noite de lua cheia, David Arthur Faraday (17), estudante do
Vallejo High School, marcou um encontro com Betty Lou Jensen (16),
estudante do Hogan High School. David pegou Betty em casa s 20h20min;
disseram aos pais dela que iriam a um concerto e prometeram voltar at as
23h. Em vez do concerto, foram de carro para um local chamado "Lover's
Lane", conhecido ponto de namoro da regio, nas proximidades do Lago
Herman.
     Semanas antes, Betty tinha tido a sensao de que estava sendo seguida
e observada por algum na escola. Por mais de uma vez, sua me encontrou
o porto do jardim que dava para a janela da menina aberto.
     Estranho, mas nada que alarmasse demais a famlia.
     Os namorados, ao chegarem no "Lover's Lane", travaram as portas e
reclinaram os bancos. Uma testemunha viu os dois adolescentes ali,
enquanto Betty Lou recostava sua cabea nos ombros de David. Segundo
essa testemunha, estava bastante escuro, apesar da lua cheia.
     Outras duas testemunhas, caadores de "raccon" (mo-pelada), diriam
ter visto o que pareceu ser uma Valiant Azul seguindo o carro de David.
     Perto das 23h, quando o casal j se preparava para ir embora, outro
carro apareceu no local e estacionou perto deles. Um homem corpulento
desceu e chegou a ser visto por outro carro que passava por ali.
     O corpulento estranho parou ao lado da janela de Betty Lou e ordenou
que o casal sasse do carro. Com as portas travadas, eles se negaram. Diante
da recusa, ele sacou uma arma de sua jaqueta, foi at a janela de trs e atirou
no vidro, que estilhaou. Rodeou o carro at a outra janela traseira, e
tambm a estourou.
     Betty Lou, completamente apavorada, abriu a porta e comeou a
descer. David no teve tempo para isso: antes que pudesse sair, o estranho
encostou a arma atrs de seu ouvido esquerdo e atirou. A bala atravessou a
cabea de David horizontalmente, arrancando parte dela.
     Gritando, totalmente fora de controle, Betty Lou saiu correndo. O
homem seguiu em seu encalo, atirando cinco vezes nas suas costas. Ela
tombou a 9 metros do carro em que estava.
         David continuava vivo, sangrando profusamente. O assassino virou as
costas, entrou em seu carro e foi embora.
         Minutos depois, Stella Borges, uma senhora que passou por ali de
carro, chamou a radiopatrulha. Betty Lou j estava morta. David chegou
ainda com vida na UTI76 do Vallejo General Hospital. Morreu logo depois.
         As balas que mataram Betty Lou e David saram de pistola semi-
automtica calibre .22.


4 de Julho de 1969

         Darlene Ferrin conhecia tanto David como Betty Lou. Tinha 22 anos,
era casada e tinha uma filhinha, Dena. A bab que Darlene contratava com
certa freqncia notou, em 27 de fevereiro de 1969, quando um sed branco
estacionou do lado de fora da casa. Ela comentou o fato com Darlene, que
pareceu no dar maior importncia a ele e continuou a se arrumar para sair.
         Karen, a bab, descreveria depois o homem sentado ao volante: grande,
cara redonda e cabelo castanho cacheado. Darlene chegou a comentar com a
moa que "ele devia estar observando-a novamente". Disse que, pelo que
sabia, "ele" estava fora do Estado, e que no queria que ningum soubesse o
que ela o tinha visto fazer. Ela era testemunha de um assassinato...
         Darlene chegou a dizer o nome do homem, algo como Peter ou Paul,
mas Karen simplesmente no deu ateno.
         Algum tempo antes, pacotes haviam sido enviados  casa de Darlene.
Pam Huckaby, sua irm, ao receber um dos pacotes, reconheceu o
entregador como "aquele homem que ficava sentado em seu sed branco,
em frente  casa de Darlene". O homem, que usava culos, avisou-a para
no abrir o pacote. Na poca, especulou-se se os pacotes estavam sendo

76
     Unidade de Terapia Intensiva.
enviados pelo ex-marido de Pam, Jim, que vivia no Mxico e possua uma
arma calibre .22.
     Darlene chegou a avisar as amigas para que no chegassem perto do
homem sentado no sed branco que ficava estacionado em frente  sua casa.
Obviamente, ela no gostava da situao, mas no tinha coragem de pedir
que ele sasse dali.
     Darlene saiu de casa para ir buscar seu amigo Michael Mageau (19). Os
dois tinham combinado de ir ao cinema em So Francisco. Logo que saram
da casa de Mageau, perceberam que estavam sendo seguidos. Assustada,
Darlene comeou a dirigir cada vez mais rpido, tentando pegar estradas
vicinais para despistar seu perseguidor. De repente, estavam na Columbus
Parkway, na mesma direo da estrada do Lago Herman.




     Darlene parecia conhecer quem a perseguia. Sem aviso, o carro atrs do
casal diminuiu a velocidade e sumiu. O alvio durou pouco... cinco minutos
depois, abalroou horizontalmente o carro de Darlene, impossibilitando-os de
fugir. As luzes do outro carro cegavam os dois, mas mesmo assim Mageau
pde ver que um homem carregando uma lanterna vinha na direo dos
dois. A janela do seu lado estava aberta, e Mageau ouviu tiros serem
disparados. Sentiu um calor estranho tomar conta de todo o seu corpo e se
deu conta de que a vtima era ele. Perplexo e ainda ouvindo disparos, viu
Darlene tombar sobre o volante. Ela havia sido alvejada inmeras vezes
(cinco), alm de algumas balas que, ao sarem do corpo de Mageau,
atingiram-na tambm.
     Enquanto o estranho voltava para o seu carro, Mageau pde ver seu
rosto, mas ao ouvir seus gritos de dor o estranho voltou e atirou mais duas
vezes.
     Desta vez, apesar da dor insuportvel, Mageau esperou que o maluco
fosse embora para fazer qualquer movimento, deixando-o pensar que estava
morto. Percebeu que no conseguia mais gritar, pois uma das balas havia
atingido sua mandbula e perfurado sua lngua. Darlene ainda gemia no
banco da frente quando Mageau, com muita dificuldade, conseguiu descer
do carro para tentar encontrar socorro.
     Para a sorte do casal, trs adolescentes que procuravam um amigo
notaram o carro estacionado no meio da estrada e viram Mageau cado no
cho. Sem hesitar, desceram para socorr-lo. Quando se deram conta que a
situao era grave, foram at uma casa prxima e avisaram a polcia.
     O policial Richard Hoffman e o sargento Conway j estavam no local
quando a ambulncia chegou. Darlene foi pronunciada morta a 00h38min. A
00h40min o Departamento de Polcia de Vallejo recebeu uma ligao
telefnica. Uma voz calma, do outro lado da linha, reportou o duplo
homicdio, deu a localizao dos corpos e a descrio do carro de Darlene
Ferrin. Disse ainda que ambos tinham sido mortos com uma Luger 9mm,
identificando a arma com preciso, e alegou ser a mesma arma que havia
matado Faraday e Jensen no ano anterior. Num tom de voz mais profundo,
disse adeus e desligou. Para desespero da polcia, descobriu-se que a ligao
havia sido feita de um telefone pblico que ficava do lado de fora do
escritrio do xerife de Vallejo.
     Mageau foi operado e sobreviveu. Depois de curado, deu tantas
verses77 do ocorrido para a polcia e escondeu-se to rapidamente que a
nica concluso possvel  que estava profundamente apavorado com a
possibilidade de o assassino voltar e tirar sua vida. Descreveu o carro de seu
agressor como sendo marrom, provavelmente um Corvair.


27 de Setembro de 1969

         Ceclia Shepard e Bryan Hartnell resolveram sair juntos. Eram amigos
h muito tempo, e planejaram um piquenique nas margens do lago
Berryessa. Estavam confortavelmente conversando e comendo, quando um
carro parou ao lado do Karmann-Ghia de Bryan e seu ocupante comeou a
observar o casal.




         Ceclia notou o estranho, mas ele logo desapareceu entre as rvores.
Momentos depois, ela o viu novamente. De novo, ele sumiu. Quando
apareceu outra vez, vestia um capuz preto em forma de saco sobre a cabea,
como se fosse um executor. A frente do capuz pendia at a cintura, e no


77
     A histria relatada aqui  uma das muitas verses de Mageau sobre os acontecimentos.
peito estava desenhado um smbolo do zodaco. Ele usava culos escuros
sobre o capuz, e do lado direito de sua cintura pendia um faco de pelo
menos 30cm. Do lado esquerdo, o coldre estava vazio... a arma, na mo do
luntico.
     Falou para Bryan que era um condenado fugitivo, e exigiu dinheiro e as
chaves do carro. Foi atendido prontamente. O estranho ento deu uma corda
a Ceclia para que ela amarrasse Bryan, o que foi feito com ns bem largos,
propositalmente.
     Ento, Ceclia foi amarrada e os ns de Bryan foram reapertados.
Ameaou o casal, dizendo que tinha que esfaque-los. Bryan disse ao
criminoso que no suportaria ver Ceclia ser esfaqueada, que preferia ser a
primeira vtima. O assassino respondeu que era justamente o que pretendia
fazer. Apesar das splicas desesperadas do rapaz, o criminoso ajoelhou-se e
o esfaqueou seis vezes nas costas.
     Enquanto ele gemia com uma dor excruciante, o estranho esfaqueou
Ceclia repetidas vezes, cinco nas costas e cinco na frente; uma vez no seio,
outra no abdome, uma terceira na virilha, e outra, e outra, e outra... Ao ir
embora, o criminoso fez questo de deixar as chaves do carro de Bryan e o
dinheiro em cima da toalha de piquenique. Antes de sair de cena, ainda deu
uma paradinha no Karmann-Ghia e, com uma caneta hidrogrfica, escreveu
na porta:
     "Vallejo 12-10-68 7-4-69 Sept 27-69-6:30 by knife"




     Assim    que    partiu,    Ceclia   e   Bryan       comearam   a   gritar
desesperadamente. A moa conseguiu desamarrar-se e libertou o amigo.
     Da praia, um pescador chins ouviu os gritos e chamou a polcia.
     O policial florestal Dennis Land encontrou Bryan distante 270m da
estrada. Perdia sangue sem parar. Ele indicou onde estava sua namorada,
que havia sido esfaqueada 16 vezes.




     s 19hl3min foi reportado ao escritrio do xerife de Napa o duplo
esfaqueamento. s 19h40min, um homem no identificado telefonou para o
departamento de polcia e reportou o que seria um duplo homicdio,
informando a localizao dos corpos. Ao ser perguntado sobre sua
identidade, respondeu: "Eu sou aquele que fiz isso!"
     A polcia descobriu uma pegada perto do carro
de Bryan. Seu tamanho era 10 1/2, o equivalente ao
n 41. O tipo de sola do calado parecia ser o
equivalente a uma bota do tipo "Wing Walker", de
uso exclusivo de militares.
     Ceclia Shepard morreu em 28 de setembro,
devido aos diversos ferimentos a faca. Bryan Hartnell sobreviveu. Hoje em
dia,  advogado no Sul da Califrnia.
11 de Outubro de 1969

     Noite. O motorista de txi Paul Lee Stine no estava nem perto de
encerrar seu dia de trabalho. Atendeu ao homem que entrou em seu txi
com gentileza, e seguiu viagem at o endereo solicitado.
                             Ao parar seu txi no local indicado, algum
                        passeava com um cachorro em frente ao veculo. O
                        silencioso passageiro, ento, mudou de idia, e
                        pediu ao motorista que andasse mais um quarteiro.
                             Assim que estacionou novamente, Paul Stine
                        foi agarrado por trs, com o brao esquerdo de seu
                        passageiro envolvendo fortemente sua garganta.
                        Sentiu o cano de uma arma no ouvido direito, e
                        comeou a lutar desesperadamente por sua vida.
No teve tempo nem de pensar sobre o que estava acontecendo; o tiro que
levou literalmente estourou seus miolos. A arma utilizada foi uma semi-
automtica 9mm.




     O passageiro saiu do txi, abriu a porta da frente e sentou-se no banco
vazio, ao lado de Stine. Pegou a carteira do motorista, cortou um pedao da
camiseta ensangentada e com ela limpou toda e qualquer digital que
pudesse ter deixado ali e levou um pedao da roupa de sua vtima. O sangue
de Stine estava espalhado por toda a parte, e o criminoso saiu
tranqilamente do carro e desceu a rua a p, sem se dar conta de que havia
sido visto por uma garota de 14 anos que estava numa janela do outro lado
da rua.
     s 21 h58min a polcia foi chamada pelo pessoal da festa em que a
testemunha estava. No tinham escutado nenhum tiro, mas a cena assistida
por ela era realmente mpar. O homem que fez a ligao disse que o suspeito
que sara do txi era um homem "negro" adulto, mas sua viso havia sido
prejudicada pela pouca luminosidade daquele trecho da rua.
     Os policiais se dirigiram para o local. Ao pedirem informaes para um
senhor que passava por ali, ele relatou ter visto um homem carregando uma
arma, correndo em direo ao leste de Washington. A polcia saiu correndo
atrs da pista, sem perceber que, provavelmente, o gentil informante era o
criminoso que procuravam. Paul Lee Stine foi declarado morto s 22h30min.


22 de Maro de 1970

     Noite de lua cheia. Kathleen Johns e seu beb de 10 meses estavam na
Estrada 132, indo para a cidade de Petaluma. O gentil motorista de uma
Station Wagon Chevrolet 1957 marrom e branca, ao ultrapass-la, fez sinal
que seu pneu estava com problemas. Kathleen imediatamente deu seta e
parou no acostamento. O homem parou para ajud-la, graas a Deus.
     Verificou o pneu, pareceu arrum-lo, e os dois veculos seguiram
viagem. Minutos depois, o pneu do carro da jovem me voou para fora,
fazendo-a parar abruptamente. O motorista do Chevrolet parou tambm,
oferecendo carona para a senhora e seu beb. Sem alternativa, Kathleen
aceitou.
     Depois de alguns quilmetros do que parecia ser uma viagem
tranqila, o estranho, sem aviso prvio, pegou uma estrada deserta. Avisou
 mulher que a mataria e a sua filha. Com o carro em movimento, arrancou o
beb do colo da me e tentou arremess-lo para fora. A luta pela vida
comeou.
     Ao mesmo tempo que tentava salvar seu beb e a si mesma, Kathleen
rapidamente observava todos os detalhes que poderiam vir a ser teis, caso
escapasse daquele inferno. O homem era arrumado, calava botas militares
bem engraxadas e vestia uma "capa" de nilon azul e preta. Usava tambm
uma cala de l preta com "boca de sino", alm de culos de armao fina e
preta, do tipo tartaruga, presa por um elstico por trs da cabea. O cabelo
de seu torturador era castanho e cortado estilo tripulao, com uma risca
bem marcada. Seu nariz era mdio e seu queixo marcado; tinha compleio
fsica mdia e pesava algo entre 75 e 80kg.
     De repente, o carro deu um solavanco e diminuiu de velocidade. Era a
chance que Kathleen estava esperando; pulou para fora do carro com sua
filha nos braos. Correndo o mais que podia, atravessou uma vinicultura
como pde, tropeando, sem ar e sem dar um pio. O maluco a seguiu com
uma lanterna nas mos, mas no conseguiu alcan-la; um caminho parou
na estrada. O motorista desceu para ver o que estava acontecendo. Por mais
que insistisse para que aquela apavorada moa entrasse em seu veculo, ela
no saa do lugar. O estranho homem que estava perseguindo Kathleen
entrou em seu carro, e partiu em alta velocidade. O motorista do caminho,
penalizado com a situao da moa, esperou pacientemente at que um
carro com uma mulher na direo parasse ali e prestasse socorro. Ela levou
Kathleen at a delegacia mais prxima.
      Para os policiais, Kathleen contou sua histria em detalhes. Pendurado
atrs do policial que tomava seu depoimento estava o retrato falado do
homem que tinha assassinado o taxista Paul Stine, no ano anterior.
      Quando Kathleen viu o desenho, comeou a gritar descontroladamente.
Era o mesmo homem que a havia atacado na estrada! O retrato falado era do
assassino agora chamado de Zodaco.
      A polcia viu ali uma grande oportunidade de encontrar novas pistas.
Acompanhou a moa at seu carro na inteno de encontrar digitais, mas ao
chegarem no local o veculo estava totalmente queimado por dentro.
      Nunca ficou provado que Kathleen foi realmente raptada pelo Zodaco,
apesar de ele fazer referncia ao caso e assumir a responsabilidade sobre ele
em uma de suas cartas78.


As Cartas do Zodaco

      Durante os anos em que agiu, o Zodaco manteve contato, atravs de 21
cartas e postais, com o Departamento de Polcia de Riverside, Joseph Bates
(pai de Cheri Jo), com os jornais Riverside Press-Enterprise, San Francisco
Chronicle (que parecia ser seu preferido), San Francisco Examiner, Vallejo
Times-Herald e Los Angeles Times, com o advogado Melvin Belli e o editor
Paul Avery. Suas cartas sempre tinham um tom de zombaria e provocao.
      Sabia-se que se tratava de um homem inteligente e brilhante. Seu
prazer era observar as investigaes andarem em crculos, sem nunca chegar
a lugar algum.
      Suas cartas eram verdadeiras obras de arte. Usava smbolos e cdigos
criptografados. Sua escrita era precisa e descritiva. Era comum inici-las
escrevendo com letra de mo, que variava constantemente de estilo,
provavelmente copiadas de outros tipos de caligrafia.

78
  "Estou relativamente infeliz porque vocs pessoas no usaro alguns bottons legais. Ento, agora tenho
uma pequena lista, comeando com a mulher e seu beb, que eu dei uma carona interessante por duas
horas, uma noite h alguns meses atrs que resultou em eu queimar o carro dela onde eu os encontrei."
     Em algumas de suas cartas, parecia ser uma pessoa com pouca
instruo, cometendo erros gramaticais e ortogrficos infantis. Isso
contradizia   os sofisticadssimos cdigos e       smbolos que      utilizava.
Freqentemente referiam-se  astrologia e signos, e por isso foi chamado de
Zodaco.




     A primeira carta recebida pelo jornal San Francisco Chronicle estava
duplamente selada para que chegasse rapidamente, o que depois se
constataria ser um hbito do Zodaco.
     Tratava-se de um criptograma impresso, composto de smbolos. Estava
endereada ao Editor, e reclamava a responsabilidade sobre os assassinatos
de David Faraday, Betty Lou Jensen e Darlene Ferrin. Na carta, constavam
os seguintes detalhes do crime que somente o assassino poderia saber...
     Assassinato de Betty Lou e David: dez tiros detonados, corpo do garoto
atrs do carro, garota cada do lado direito, ps apontados para oeste.
     Assassinato de 4 de julho: garota vestindo calas, garoto tambm foi
atingido no joelho.
     O assassino assinou a carta com um crculo cruzado, como aquele
desenhado na roupa do atacante de Ceclia e Bryan.
     O criptograma tinha sido postado em julho de 1969, e o Zodaco
afirmava que sua identidade estava ali, para quem o desvendasse. Ordenou
que sua carta fosse publicada na edio de 1 de agosto de 1969, caso
contrrio, faria uma matana de grande proporo. O jornal concordou e
publicou.
     Um professor da cidade de Salinas chamado Harden trabalhou em
conjunto com sua esposa vrios dias, tentando decifrar o criptograma. Ele
era criptgrafo amador, e disse ter decifrado o cdigo. O nome do assassino
no estava ali. O texto dizia: "Eu gosto de matar pessoas porque  muito
divertido.. ". Para construir os criptogramas, o Zodaco era influenciado por
dois livros, encontrveis em qualquer biblioteca: Codes and Ciphers, de John
Laffin, e o Zodiac Alphabet.
     A polcia ento exigiu que o suposto assassino desse detalhes dos
crimes somente conhecidos por ele, pois no queriam perder tempo com um
louco que se estivesse fazendo passar pelo Zodaco. A resposta veio numa
carta de trs pginas, que comeava assim:
     "Prezado Editor, aqui  o Zodaco falando..." Era a primeira vez que ele
prprio se chamava pelo apelido que permanece at hoje.
     O homem deu detalhes que realmente s o assassino poderia saber.


14 de Outubro de 1969

     O Zodaco enviou sua quinta carta, postada em So Francisco. No
remetente, estava desenhado o crculo cruzado. Nesta, ameaava explodir
um nibus escolar com uma bomba qumica e mandou um retalho de roupa,
que logo foi identificado como sendo da camisa do taxista Paul Stine. Se a
sua inteno era amedrontar a populao, conseguiu.
     A polcia ainda tentou usar Ninhydrin, um p utilizado para detectar a
presena de vrios aminocidos, permitindo a definio de impresses
digitais, mas nada foi encontrado. Nenhuma impresso digital, suor ou
aminocido. Nada. As cartas foram levadas para especialistas, na tentativa
de conseguir qualquer pista.


22 de Outubro de 1969

     O Departamento Policial de Oakland recebeu uma ligao telefnica
annima. Nela, uma voz de homem se identificou como sendo o Zodaco, e
exigiu que fosse conseguido um contato telefnico entre ele e F. Lee Bailey
ou Melvin Belli, renomado advogado. Ele queria ser ouvido no programa de
entrevistas do Canal 7, o que conseguiu. Em duas horas, Belli estava
aguardando ao vivo a conversa com o criminoso, que aconteceu s
19h20min. Ao todo, foram feitas 35 ligaes. Nelas, Belli pediu para chamar
o Zodaco de Sam, e ouviu-o reclamar de fortes dores de cabea, que
passavam quando ele matava. Disse que no queria ir para a cmara de gs.
Belli tentou, com toda habilidade, convencer "Sam" a se entregar. Marcou
um encontro fora do ar, mas "Sam" nunca apareceu.


Novembro de 1969

     O Chronicle recebeu mais cartas do Zodaco. Eram legtimas: todas
continham pedaos da camisa de Paul Stine. Nestas, ele afirmava ter
assassinado mais duas pessoas, perfazendo um total de sete vtimas.
     Numa dessas cartas, o Zodaco explicou por que a polcia nunca o
encontraria:

     1. Ele se parecia com a descrio das vtimas apenas quando matava; o
       resto do tempo tinha uma aparncia completamente diferente.
     2. No deixava impresses digitais na cena do crime; usava protetores
       transparentes para os dedos.
     3. Todas as suas armas foram compradas pelo correio.

     A carta seguinte foi endereada a Melvin Belli, desta vez contendo um
pedao da camisa ensangentada de Paul Stine. Ele desejava ao advogado
um Feliz Natal e pedia sua ajuda, porque estava muito prximo do
descontrole. Logo faria sua 9a e 10a vtimas.
      Desta vez, a polcia teve uma pista de que o Zodaco poderia ter
ascendncia inglesa; j suspeitavam de que se tratasse de um marinheiro
ingls. Ele usou as expresses "The Kiddies" e "Happy Christmas", comuns
na Inglaterra79.


30 de Janeiro de 1974
      Depois de trs anos de silncio absoluto, um jornal de So Francisco
recebeu uma autntica carta do Zodaco. Nela, estava anotado "Me-37;
SFPD-0"80. Um policial levou a contagem de 37 vtimas a srio, e
encaminhou-a ao Xerife Striepke. Ele pegou os 40 casos de assassinatos no
resolvidos em quatro estados do oeste americano, marcando sua localizao
no mapa. Surpresa!!! Os alfinetes formavam uma letra "Z" tamanho gigante.
A teoria de Striepke caiu por terra quando o assassino serial Theodore
Bundy foi preso e assumiu muitos desses crimes.
      Como em algumas cartas o Zodaco mostrou ser f do filme O Exorcista,
que considerava uma comdia, alguns acreditaram que ele pertencesse a
alguma seita satnica, mas nenhuma prova concreta foi encontrada.
      Hoje em dia, existem srias dvidas quanto  autoria do Zodaco no
assassinato de Cheri Jo Bates. O principal suspeito agora  um colega de
faculdade da moa, e existem vrias provas circunstanciais contra ele.
      Um teste de DNA est sendo feito com material que, na poca, foi
recolhido do corpo da vtima81.




79
   Nos EUA, seriam usadas as expresses "Kiddo" para garotos e "Merry Christmas" para Feliz Natal.
80
   Trata-se de uma contagem, ou um placar: "37 para mim, 0 para o Departamento de Polcia de So
Francisco.
81
   O teste deu negativo para o suspeito. O caso continua sem soluo.
A Investigao

     Quando a investigao do Zodaco comeou, a polcia tinha 2.500
suspeitos. A investigao foi reduzindo esse nmero. Aqui esto alguns
exemplos:


Arthur Leigh Allen -- O Principal Suspeito




     Foi o suspeito n 1 da polcia. A primeira vez que tomaram
conhecimento de Allen foi em 1971, quando seus amigos e famlia contaram
sobre seu comportamento irregular. Todos que o conheciam achavam que
ele poderia ser o Zodaco.
     Essas eram as caractersticas que ligavam Allen ao histrico de crimes
do Zodaco:

     -- Foi criado em Vallejo, Califrnia.
     -- Em 1956, alistou-se na Marinha americana. Sempre sups-se que o
        Zodaco tivesse alguma filiao militar, provavelmente na Marinha.
     -- Durante os anos de 1969 e 1970, estava empregado parte do dia
        como zelador na "Elmer Cave Elementary School", em Vallejo. Foi
        nessa poca que o Zodaco escreveu cartas ameaando crianas de
        uma escola.
     -- Entre 1970 e 1974, ocupava-se em estudar, no "Sonoma State
        College",   cincias   biolgicas,   tendo   qumica   como   matria
             secundria. Durante a permanncia de Allen em Sonoma82,
             aparentemente os assassinatos do Zodaco cessaram, mas iniciaram-
             se os chamados "Assassinatos de Colegiais de Sonoma". De acordo
             com o j aposentado agente especial Jim Silver, do Departamento de
             Justia da Califrnia, quando a polcia mapeou o ltimo local onde
             as vtimas foram vistas e o local onde seus corpos foram
             encontrados, o trailer de Allen ficava exatamente no centro.

         Allen, freqentemente, usava frases como "o mais perigoso jogo" e
"Homem como o verdadeiro jogo", usadas nas cartas do Zodaco.
         De acordo com seu irmo, Ron, Allen ganhou de sua me no Natal de
1967 um relgio com um smbolo do zodaco, um crculo cruzado. Pouco
tempo depois de ganhar o presente, fez a seguinte declarao a um amigo
identificado como Don:

         -- Ele gostaria de matar casais ao acaso.
         -- Iria provocar a polcia com cartas detalhando seus crimes.
         -- Assinaria essas cartas com o mesmo crculo cruzado desenhado em
             seu relgio.
         -- Chamaria a si mesmo de Zodaco.
         -- Usaria maquiagem para mudar sua aparncia quando matasse.
         -- Amarraria uma lanterna ao cano de sua arma para poder atirar no
             escuro.
         -- Enganaria mulheres, fazendo-as parar seus carros em reas rurais ao
             pensar que tinham problemas com seus pneus.

         Em novembro de 1969, sua cunhada o viu com um papel na mo que
parecia uma carta. Nela, apareciam smbolos e linhas, similares aos cdigos
usados pelo criminoso. Ele alegou que era o trabalho de um louco, que
mostraria a ela, mas no o fez.
         A cunhada tambm encontrou uma faca ensangentada no banco da

82
     Cidade no oeste da Califrnia.
frente do carro dele, que justificou o fato dizendo que tinha matado galinhas
com ela. Isso aconteceu na mesma poca do ataque em Berryessa. A polcia
foi chamada em 1971 e o trailer de Allen vasculhado. No freezer, foram
encontrados corpos mutilados de roedores, coraes e fgados de esquilos e
outros animais pequenos.
     As impresses digitais de Allen foram tiradas, assim como exemplos de
sua caligrafia. As impresses no combinavam com algumas encontradas no
txi de Stine. A caligrafia mostrou similaridades com a do Zodaco,
principalmente no modo como se inclinava para o lado direito da pgina.
     Allen viveu com sua me em Vallejo, mas a polcia no conseguiu um
mandado de busca para a casa dela. Tambm posteriormente, soube-se que
mantinha dois trailers, mas somente um foi verificado.
     Vrios fatos o ligavam ao caso do Zodaco:

     -- Sua descrio fsica era similar ao retrato falado.
     -- Havia estado em Riverside City College em 1966, quando Cheri Jo
        foi morta.
     -- Sofria de excruciantes dores de cabea.
     -- Era ambidestro.
     -- Tinha sido estudante de qumica.

     Em 1973, mdicos atestaram que Allen possua cinco diferentes
personalidades. Tambm atestaram que ele poderia ser violento e perigoso, e
certamente capaz de matar.
     Foi preso por molestar crianas, e na cadeia espalhou para todos que
era o Zodaco. Depois, mudou de idia e de histria, dizendo aos
companheiros de cela que rezava para o Zodaco matar novamente, pois
assim ficaria livre da suspeita. O Zodaco no apareceu novamente por
meses, at que ele fosse solto.
     Assim como o Zodaco, Allen selava duplamente suas cartas e estava
nos locais de todos os crimes atribudos a ele.
     Segundo o perfil de Allen, ele odiava a me e sempre se sentiu inferior
ao pai, um militar de sucesso. Era alcolatra e sofria de depresso, sempre
agravada nas duas datas mais estressantes para ele: seu aniversrio (18 de
dezembro) e o Natal.
     Na poca do assassinato de Darlene, um amigo de Allen estava
vendendo um Corvair marrom, carro descrito por Mageau como sendo de
seu agressor. Allen, com freqncia, dirigia este carro.
     Allen, na poca do assassinato de Darlene, morava bem perto de onde a
moa trabalhava de garonete na poca. Ela tinha um conhecido que
chamava de "Lee", o mesmo nome como Allen era chamado, pois  assim
que se pronuncia seu nome intermedirio.
     Logo depois de Paul Stine ser assassinado, o amigo de Allen, Ralph
Spinelli, procurou o Departamento de Polcia de Vallejo para comunicar que,
dias antes, Allen tinha admitido para ele ser o Zodaco, e provaria isso indo
at So Francisco e matando um motorista de txi.
     Numa carta enviada aos jornais, o Zodaco desenhou o diagrama de
uma bomba. Os ingredientes a serem utilizados em sua confeco eram:
nitrato de amnia, fertilizante e cascalho. O Zodaco tambm dizia ter esses
itens em estoque no poro de sua casa, e que haviam sido comprados
atravs de ordem postal.
     Ao fazerem a busca na casa de Allen em 1991, os policias de Vallejo
encontraram, em seu poro, diagramas desenhados de bombas que incluam
o uso de nitrato de amnia, fertilizante e cascalho. Tambm foram
encontrados catlogos para compra pelo correio de bombas, armas e
armadilhas.
     Em 1991, Michael Mageau identificou Arthur Leigh Allen como sendo
seu agressor. Fez essa identificao entre vrias fotos mostradas a ele pelo
policial George Bawart, do Departamento de Polcia de Vallejo. Quando
Bawart perguntou a Mageau por que ele nunca tinha identificado Allen em
20 anos de investigao, ele respondeu que nunca foram mostradas a ele
fotos de suspeitos, somente lhe perguntaram se reconhecia certos nomes. Se
isso for verdade, ter sido um dos maiores erros cometidos pela polcia
americana.
    Allen morreu em 26 de Agosto de 1992, de complicaes causadas pela
diabetes e problemas no corao.


Lawrence Krew/Kane

                               Numa conversa com uma funcionria de
                          um cassino num restaurante, Krew alegou ser
                          um       especialista   no   zodaco   (astrologia),   e
                          ofereceu-se para fazer seu mapa astral. Naquela
                          noite, levou a casa dela o mapa pronto. Ele era de
                          Touro, ela de Capricrnio... compatibilidade
                          perfeita.
                               Tinha a idade aproximada de 38 anos,
                          media l,80m de altura e usava culos com
armao de tartaruga. Disse morar em Stateline, num apartamento estdio.
    Quando saram outra vez, a moa levou uma amiga com ela. O homem
falou sobre o Zodaco durante quatro horas, alm de eleger assuntos
interessantes como morte e assassinato. Contou a elas que morreria "na
gua".
    Quando as moas comearam a fazer perguntas, ele se fechou e foi
embora.
    Um relato semelhante ao da funcionria do cassino foi dado  polcia
por outra mulher, que os procurou bastante assustada.
    O detetive Harvey Hines, que investigou o Zodaco por 20 anos, foi
chamado para investigar o desaparecimento de Donna Lass, e logo notou
algo de errado. Seguiu imediatamente para South Lake Tahoe, a fim de
acompanhar o caso de perto.
      Hines perguntou sobre Donna aos seus amigos, e descobriu que ela
trabalhava de enfermeira num hotel cassino da regio.
      Quando questionou suas colegas de trabalho, descobriu que havia um
tal de Larry Krew interessado nela. Ele tinha por volta de 40 anos, cabelo
cortado bem curto e uma respeitvel barriga. Media l,80m e pesava por volta
de 80kg, alm de usar culos com armao de tartaruga.
      Tinha sido descrito s amigas por Donna como solitrio, quieto e
arrepiante. Tinha um escritrio em frente ao Sahara Hotel, e morava com a
me num apartamento estdio em Stateline. Foi visto vrias vezes
conversando com Donna na enfermaria do cassino. Conhecia tudo sobre o
Zodaco.
      Donna foi vista pela ltima vez em 6 de
setembro de 1970, aproximadamente  1h,
quando deixou seu planto. No dia seguinte, um
homem         desconhecido          telefonou        para      seu
emprego e condomnio, dizendo que ela no
voltaria devido a uma emergncia familiar. A
ligao era falsa, e Donna Lass nunca mais foi
vista.
      Krew nasceu no incio dos anos 20 e mudou-se para a Califrnia em
1953. Era do signo de Touro. Serviu na Reserva Naval por sete meses, de
onde foi desligado com diagnstico de "histeria psiconeurtica"83. Hines
passou imediatamente a investigar Krew como suspeito de ser o Zodaco.
      Descobriu que seu suspeito tinha vrios pseudnimos, trs cartes de
seguro social sob nomes diferentes e duas datas de nascimento. Tambm
possua duas carteiras de motorista.
      Em 1962, teve uma grave coliso com um caminho de cimento,


83
  Histeria: classe de neuroses que apresentam quadros clnicos muito variados. Psicopatia cujos sintomas
se baseiam em converso (9), e caracterizada por falta de controle sobre atos e emoes, ansiedade,
sentido mrbido de autoconscincia, exagero do efeito de impresses sensoriais, e por simulao de
diversas doenas (Dicionrio Aurlio -- Sec. XXI).
machucando a cabea. Ficou com uma leso cerebral, mas apesar de
considerada leso grave, nunca ficou internado em uma instituio mental.
         Entre 1964 e 1968, foi preso 19 vezes por roubo e fraude. As mais
recentes acusaes eram por rondar pessoas.
         Depois de divorciar-se da mulher, mudou-se novamente para a casa de
sua me.
         Alguns documentos da Marinha sugerem que ele seria homossexual.
         Hines descobriu que Krew trabalhou para uma empresa em Riverside
na mesma poca do assassinato de Cheri Jo Bates. Quando morou em So
Francisco, sua casa ficava localizada na rua Eddy, dois quarteires depois de
onde Paul Stine pegou o Zodaco em seu txi.
         A pea teatral de Gilbert & Sullivan84, The Mikado, estava sendo
encenada a trs quadras de seu apartamento, e o Zodaco tinha escrito que
era um f desta dupla.
         Krew comprou um carro modelo sed Ambassador em 10 de julho de
1969, somente seis dias depois do assassinato de Darlene Ferrin. O homem
que raptou Kathleen Johns e sua filha em 1970 guiava o mesmo modelo de
carro.
         Depois de matar Stine, o Zodaco aparentemente escapou em direo
da Letterman General Hospital. Na mesma poca, Donna Lass trabalhava
como enfermeira neste hospital.
         Em junho de 1970, Donna mudou-se de So Francisco para South Lake
Tahoe, Nevada, empregando-se no Sahara Tahoe Hotel Cassino. Em junho
de 1970, Krew tambm se mudou para a mesma cidade, e foi trabalhar no
mesmo edifcio que Donna.
         Certo de que Krew era o Zodaco, Hines comeou os procedimentos de
identificao.
         Conversou com as duas irms de Darlene Ferrin, que escolheram a foto
de Krew entre muitas outras, apontando-o como o homem que seguia sua

84
     William S. Gilbert e Sir Arthur Sullivan, autores de 14 operetas no sc. XIX.
irm.
     Depois pediu ao policial Foukes, que tinha falado com o Zodaco logo
aps o assassinato de Stine para pedir informaes, que tentasse identificar o
homem entre as vrias fotografias. Sem hesitar, ele pegou a foto de Krew,
mas muito tempo havia passado para que tivesse certeza absoluta.
     Kathleen Johns foi contatada. Se algum conhecia bem o Zodaco, era
ela. Hines colocou 18 fotos em linhas, para sua avaliao. Ela apontou para
Krew, comentando apenas que ele parecia mais novo do que na foto, onde
estava sem culos.
     Apesar de todos esses resultados obtidos na investigao de Hines, os
oficiais responsveis pelo caso no concordaram com ele. Acreditavam que o
Zodaco era Allen.
     Outro sobrenome utilizado por Krew era Kane, provavelmente o
verdadeiro. Se for verdade, o criptograma contendo o nome do Zodaco,
conforme o prometido por ele, estava certo. O nome Kane aparecia no
criptograma de 20 de abril de 1970.
     O Zodaco tambm enviou cartas assinadas como "Um cidado", em
maio de 1974. Seria uma aluso ao filme Cidado Kane, um dos mais famosos
da histria do cinema.
     Em 1999, Lawrence Kane estava vivendo em
Nevada.


Andrew Todd Walker

     Foi o primeiro maior suspeito no caso do
Zodaco. Era um homem de meia-idade, usava
culos de aro de tartaruga, pesava mais de 90kg,
media l,83m e era barrigudo.
     Odiava      profundamente        a     polcia,
freqentemente os enganava com seu carro.
Alguns dos amigos de Darlene Ferrin o reconheceram em fotos como sendo
o homem que a seguia.
     Num dos criptogramas do Zodaco, decifrado pelo computador da
Agncia de Segurana Nacional americana, o nome "Walker" aparecia
diversas vezes.
     A casa dele sofreu uma inundao na mesma poca em que o Zodaco
escreveu que foi "inundado pela chuva". Walker vivia numa rea deserta,
cercada por pinheiros, o que combinava com outro trecho de uma das cartas
enviadas pelo Zodaco, onde afirmava estar "olhando atravs dos
pinheiros". Tambm era scio do Sierra Club, que foi mencionado na mesma
carta.
     Ensinou cdigos no Exrcito depois de servir como estudante por um
curto perodo de tempo, indicando sua forte aptido nessa rea. Viveu em
Vallejo no fim dos anos 60, e era considerado sexualmente perturbado.
     A discrepncia estava na sua caligrafia, que no combinava com a do
Zodaco, alm das impresses digitais, que no eram as mesmas do txi de
Stine. A adolescente que viu pela janela a morte de Stine tambm o
considerou muito velho e gordo, diferente do homem que havia visto saindo
do txi.


Rick Marshall

     Outro forte suspeito de ser o Zodaco era um
colecionador de latas de filmes antigos. Nasceu no
Texas, em 1928, e vivia em Los Angeles em 1966,
poca do assassinato de Cheri Jo Bates.
     Em 1969, morava perto de onde Paul Stine foi
assassinado, em So Francisco. Uma ligao
annima para um detetive de Napa afirmou que
Marshall tinha um amigo que guardava as latas
para ele, e que nessas latas poderiam estar as evidncias como a camisa de
Stine, armas, etc.
        O annimo tambm acreditava que as latas poderiam explodir ao
serem abertas, destruindo seu contedo. Marshall pegou as latas de volta em
1972.
        Este suspeito, tambm f de Gilbert & Sullivan, tinha treinamento em
cdigos e possua uma mquina de costura em casa, que poderia ter sido
usada para confeccionar a roupa utilizada no assassinato do lago Berryessa.
Trabalhou na projeo de cinema mudo, colecionava filmes, e o Zodaco fez
vrias referncias, em suas cartas, aos filmes The Most Dangerous Game,
Phantom of the Opera e O Exorcista.
        Marshall  ambidestro, e sua descrio fsica combinava com o retrato
falado do Zodaco. Usava culos com armao de tartaruga seguros por tira
elstica, foi marinheiro e tinha uma mquina de teletipo, semelhante quela
utilizada pelo Zodaco em suas cartas.
        Tinha, na poca, um amigo que confeccionava cartazes para cinema,
cuja caligrafia era bastante similar  do Zodaco e facilmente poderia ter sido
imitada.
        Durante os trs anos, entre 1975 e 1978, saiu do estado. Neste intervalo
de tempo, nenhuma carta do Zodaco foi recebida. Morava a um quarteiro
de Darlene Ferrin e seu marido, em So Francisco.
        Ainda permanece como suspeito. Em 1989,
trabalhava como engenheiro na empresa Tektronix. Seu
ltimo endereo conhecido  em San Rafael, Califrnia.
A carta do Zodaco datada de 8 de julho de 1974 foi
postada na mesma cidade.


Ted Kaczynski

        Condenado como o "Unabomber", Kaczynski
compartilha algumas caractersticas com o Zodaco:

    a. Moraram em lugares similares nos mesmos perodos.
    b. Eram ambos inteligentssimos, quase gnios.
    c. Tinham conhecimentos de alta matemtica.
    d. Caavam animais selvagens por esporte.
    e. Conheciam armas e tinham habilidade para us-las.
    f. Planejavam bombas com materiais comuns.
    g. Entendiam, criavam e utilizavam criptografia avanada.
    h. Tinham semelhanas fsicas.
    i. Falavam calmamente, com educao e preciso.
    j. Tinham caligrafias similares.
    k. Guiavam o mesmo tipo de carro Chevrolet.
    1. Eram assexuados e sexualmente frustrados.
    m. Escreviam cartas zombeteiras para suas vtimas.
    n. Comunicavam-se atravs de cartas.
    o. Demandavam publicidade atravs de seus crimes.
    p. Usavam disfarces.
    q. Usavam uma marca prpria envolvendo linhas cruzadas em crculos.
    r. Tinham conexes em Montana e o Sierra Club.
    s. Ameaavam explodir um grande alvo e depois diziam ser uma
       brincadeira.
    t. Valorizavam sua inteligncia contra a estupidez de suas vtimas e da
       polcia.
    u. Tinham hiatos de tempo sem comunicao.
    v. Entendiam o alfabeto RUNIC.
    w. Eram depressivos.

    Alguns acreditam que estas similaridades devem-se ao fato de o
Unabomber ter sido profundamente influenciado pelo Zodaco. Foi
eliminado como suspeito de ser o Zodaco pelo FBI e pelo Departamento de
Polcia de So Francisco, depois de comparadas impresses digitais,
caligrafia e por no estar na Califrnia em cinco datas em que o Zodaco
agiu.


Outros Suspeitos




        Michael O'Hare poderia facilmente ser o Zodaco, se considerarmos sua
inteligncia brilhante, habilidade como atirador e conhecimentos profundos
em Cdigo Morse e matemtica binria. Nunca conseguiram conect-lo a
nenhuma vtima ou cena de crime do Zodaco.
        Bruce Davis era membro da Famlia Mason (serial killer que assassinou
Sharon Tate). Morava na rea da baa de So Francisco na poca dos crimes,
mas nada alm disso o ligava ao Zodaco, apesar de alguns acreditarem
numa conexo entre o Zodaco e Mason.


A Psicologia do Caso Zodaco

        Ainda existe um grande interesse neste assassino. Ele foi nico. Era
preciso e meticuloso em seus padres de comportamento e pensamento.
        O Zodaco sempre matou em fins de semana, perto de gua ou em
lugares com nomes referentes  gua. Seus crimes sempre aconteceram em
feriados ou vsperas, como podemos ver a seguir:
         -- Cheri Jo Bates foi morta momentos antes da meia-noite de 30 de
             outubro, Halloween85.
         -- David Faraday e Betty Lou Jensen foram mortos em 20 de dezembro,
             cinco dias antes do Natal.
         -- Darlene Ferrin foi morta em 4 de julho, dia da independncia
             americana.
         -- Ceclia Shepard foi esfaqueada no primeiro dia do feriado judaico de
             Tabernculos.
         -- Paul Stine foi morto no "Columbus Day"86.
         -- Kathleen Johns foi raptada no dia do equincio da primavera.

         Todas as datas coincidem com fases da lua nova. Saturno era visvel,
assim como a Estrela da Noite, na hora dos assassinatos.
         Todos os 340 caracteres cifrados em smbolos foram retirados de
horscopos. Acredita-se que o Zodaco era do signo de Touro, pois escondeu
cinco smbolos desse signo em suas cartas.
         Sua insgnia, um crculo cruzado, representava os solstcios e
equincios: solstcio de vero, de inverno; equincio vernal (da primavera) e
de outono.
         O Zodaco atacava casais de adolescentes. Usava armas diferentes a
cada ataque, entre revlveres e facas. Um carro sempre estava envolvido.
         Sua aproximao era sistemtica: sempre ao anoitecer ou fim da noite.
Sempre comunicava seus assassinatos por carta ou telefone, demonstrando
que precisava de ateno.
         Nunca molestava sexualmente suas vtimas, e seu perfil elaborado
pelos investigadores do caso conclui que matar era a nica relao possvel
para ele com uma mulher. Provavelmente tinha uma me dominadora e
desejo sexual por ela, que seria seu verdadeiro alvo.

85
     Halloween: Dia das Bruxas.
86
  Columbus Day: Dia de Colombo. Sempre na 2a segunda-feira de outubro. Comemora o descobrimento
da Amrica por Cristvo Colombo em 1492.
     Provavelmente tinha prazer sexual ao matar, atingindo o orgasmo
enquanto esfaqueava ou atirava em suas vtimas repetidamente.
     O escritor "George Oakes" (pseudnimo), que dizia conhecer a
identidade do Zodaco, afirmava que ele tinha obsesso pela gua, relgios,
binrios matemticos e pelo escritor Lewis Carroll (Alice no Pas das
Maravilhas).
     Robert Graysmith, autor do livro mais famoso sobre o Zodaco,
tambm afirmava conhecer a identidade daquele que apelidou de "Robert
Hall Starr". Descrevia-o como molestador de crianas e o responsabilizou
por 49 possveis vtimas, entre outubro de 1966 e maio de 1981.
     O Zodaco tinha treinamento nas seguintes reas:

     -- Dispositivos explosivos
     -- Criptografia
     -- Astrologia
     -- Qumica
     -- Armas

     Conhecia em profundidade os seguintes assuntos:

     -- Gilbert & Sullivan
     -- Lngua Inglesa
     -- Motores de carro
     -- Cultos ancestrais
     -- Cinema
     -- Costura

     Sabia como no deixar digitais ou pistas, o que provavelmente
aprendeu na priso. Tinha habilidade excepcional com armas, era
ambidestro e pode ter trabalhado na Polcia ou Marinha. Este gnio ainda
est solto. Voc conhece algum que rena todas essas caractersticas?
Filmes e Seriados

     O caso do Zodaco foi amplamente explorado pela indstria
cinematogrfica e televisiva. Vrios documentrios a respeito desse
assassino foram feitos pela televiso.
     No filme Dirty Harry , o personagem Scorpio (Clint Eastwood) escreve
cartas para o jornal San Francisco Chronicle , aterrorizando a cidade. Outros
ttulos so The Limbic Region, Legion e Zodiac.
     Os seriados que incluram esta histria ou parte dela em seus episdios
foram Hava 5-0, Nash Bridges e Millenium.


Copycat

     Em novembro de 1989, a polcia de Nova Iorque recebeu uma carta que
comeava com as palavras "aqui  o Zodaco falando", e foi avisada de 12
assassinatos planejados. Cinco meses depois, uma srie de atentados teve
incio nos bairros de Brooklyn e Queens, e mais cartas foram enviadas ao
jornal New York Post. Nelas, o atirador de Nova Iorque afirmava ser o
Zodaco original. Durante os seis anos que o caso durou, oito pessoas foram
atingidas, quatro mortas.
     Em 18 de junho de 1996, Heriberto Seda foi preso e acusado pelos
crimes, para os quais teria obtido inspirao no livro de Robert Graysmith, O
Zodaco, e se inspirado em suas teorias astrolgicas.


Livros

     Inmeros livros tambm foram escritos, fico ou no. A maioria foi
lida por milhares de pessoas. Alguns exemplos:

     -- Zodiac, The Eco-Thriller de Neal Stephenson
     -- Zodiac, de Robert GraySmith
     -- Sleep my Little Dead (The True Story of the Zodiac Killer), de Kieran
        Crowley
     -- The Zodiac Cult Murders, de Malcom Dallas
     -- Zodiac Unmasked, de Robert Graysmith

     Jamais foi encontrada alguma evidncia nos locais de crime do
Zodaco, mas em 2002, investigadores do caso resolveram tentar utilizar a
cincia e suas modernas tcnicas para extrair o DNA da saliva contida nos
selos das cartas que o famoso assassino enviou para a imprensa e a polcia
na poca de seus crimes.
     Cientistas forenses utilizaram-se da REAO EM CADEIA PELA
POLIMERASE, tcnica que faz numerosas cpias de especficos segmentos
de DNA com rapidez e acurcia. Esse processo tambm permite que se
obtenha uma enorme quantidade de DNA, que poder ser utilizada em
vrias anlises forenses.
     Para surpresa de muitos, Arthur Leigh Allen, por meio de DNA
extrado de tecido cerebral proveniente de sua necropsia, foi eliminado como
o autor das "lambidas" nos selos das cartas.
     Ser que O Zodaco era to inteligente a ponto de utilizar
propositalmente a saliva de outra pessoa ao colar seus selos?
APNDICES
                             Apndice 1

                     Serial Killers do Mundo Inteiro


NOME                                 PAS              N VTIMAS

Pedro Alonso Lopez                   Colmbia          300 ou mais
Henry Lee Lucas & Ottis Toole        EUA               200 ou mais
H. H. Holmes                         EUA               200 ou mais
Gilles de Rais                       Frana            140 ou mais
Luis Alfredo Gavarito                Colmbia          140
Dr. Jack Kevorkian                   EUA               130
Hu Wanlin                            China             100 ou mais
Pee Wee Gaskins                      EUA               100 ou mais
Delfina & Maria de Jesus Gonzales    Mxico            91 ou mais
Bruno Ludke                          Alemanha          80
Michael Swango                       EUA               60+/-
Andrei Chikatilo                     Rssia            52 ou mais
Anatoly Onoprienko                   Ucrnia           52
Ahmad Suradji                        Indonsia         42
Gerald Stano                         EUA               41
Richard "Iceman" Kuklinski           EUA               40 ou mais
Elisabeth Bathory                    Hungria           40 ou mais
Moses Shitole                        frica do Sul     38 ou mais
Donald Harvey                        EUA               34 ou mais
Fernando Hernandez Leyva             Mxico            33-135
John Wayne Gacy                      EUA               33
Vasili Komaroff                      Rssia            33
Jane Toppan                           EUA             31 ou mais
Gerard John Schaefer                  EUA             30 ou mais
Karl Denke                            Alemanha        30 ou mais
Micajah & Wiley Harpe                 EUA             30 ou mais
Patrick W. Kearney                    EUA             28 ou mais
Wayne Williams                        EUA             28
Fritz Haarmann                        Alemanha        27 ou mais
Dean Corll                            EUA             27
Bruce Lee                             Inglaterra      26
Leonard Lake & Charles Ng             EUA             entre 11 e 25
Juan Corona                           EUA             25
Marcel Petiot                         Frana          24 ou mais
Bela Kiss                             Hungria         24
Helene Jegado                         Frana          23 ou mais
Arnfinn Nesset                        Noruega         22 ou mais
Earlnelson                            Canad          22 ou mais
Theodore Bundy                        EUA             22 ou mais
Coral Eugene Watts                    EUA             22
Normam Afzal Simons                   frica do Sul   22
Carl Panzram                          frica do Sul   21
Phoolan Devi                          ndia           20 ou mais
Thierry Paulin & Jean-Thierry Mathurin Frana         20 ou mais
Antone Costa                          EUA             20
Charles Sobhraj                       sia            20
Lucian Staniak                        Polnia         20
Sasha & Lyudmila Spesivtsev           Rssia          19 ou mais
Gerd Wenzinger                        Alemanha/Brasil 19
Larry Eyler                           EUA             19
Sergei Ryakhovsky                     Rssia          19
Sipho Agmatir Thwala                 frica do Sul   19
Vadim Yershov                        Rssia          19
Paul John Knowles                    EUA             18 ou mais
Christopher Mhlengwa Zikode          frica do Sul   18
Donato Bilancia                      Itlia          18
Joel Rifkin                          EUA             17 ou mais
Leszek Pekalki                       Polnia         17 ou mais
Jeffrey Dahmer                       EUA             17
Robert Hansen                        Alasca          17
Douglas Gretzler & Willie Steelman   EUA             16 ou mais
Jos Antonio Rodrigues Veja          Espanha         16 ou mais
Richard Ramirez                      EUA             16 ou mais
Randy Kraft                          EUA             16 ou mais
Dennis Nielsen                       Inglaterra      16
Earl Frederick                       EUA             16
Elias Xitavhudzi                     frica do Sul   16
Herb Baumeister                      EUA             16
William Burke & William Hare         Esccia         16
Dr. Harold Shipman                   Inglaterra      15 ou mais
Johann Hoch                          Alemanha        15 ou mais
Joseph P. Franklin                   EUA             15 ou mais
Thomas Quick                         Sweden          15 ou mais
Albert Fish                          EUA             15
Elifasi Msomi                        frica do Sul   15
Belle Gunness                        EUA             14 ou mais
Joe Ball                             EUA             14 ou mais
Robert Hoseph Silveria               EUA             14 ou mais
William Bonin                        EUA             14 ou mais
Bai Baoshan                          China           14
Joachim Kroll                        Alemanha        14
Marcelo Costa de Andrade             Brasil          14
Marie Besnard                        Frana          13 ou mais
Peter Sutcliffe                      Inglaterra      13 ou mais
Randall Woodfield                    EUA             13 ou mais
William Lester Suff                  EUA             13 ou mais
Abdallah al-Hubal                    Yemen           13
Albert DeSalvo                       EUA             13
Arthur Shawcross                     EUA             13
Herbert Mullin                       EUA             13
Johannes Mashisne                    frica do Sul   13
Joseph Christopher                   EUA             13
Li Wenxian                           China           13
Jack Unterweger                      EUA             12 ou mais
Martha Beck & Raymond Fernandez      EUA             12 ou mais
Rosemary & Fred West                 Inglaterra      12 ou mais
Elton M. Jackson                     EUA             12+/-
Siswanto                             Indonsia       12
Sylvester Mofokeng                   frica do Sul   12
Joseph Vacher                        Frana          11 ou mais
The Bender Family                    EUA             11 ou mais
Anatoly Golovkin                     Rssia          11
Charlie Starweather & Caril Ann Fugate EUA           11
Clifford Robert Olson                Canad          11
Henry Landru                         Frana          11
Juan Rodriguez Chavez                EUA             11
Marie Alexandrine Becker             Blgica         11
Vaughn Greenwood                     EUA             11
Kenneth Allen McDuff                 EUA             14 ou mais
Kenneth Bianchi & Angelo Buono        EUA              10 ou mais
Maoupa Cedric Maake                   frica do Sul    10 ou mais
Richard Angelo                        EUA              10 ou mais
Robert Wagner, J. Buntin & Mark Haydon Autrlia        10 ou mais
Bobby Joe Long                        EUA              10
"Boetie Boer" Stewart Wilken          Port Elizabeth   10
David J. Carpenter                    EUA              10
Edmund Kemper III                     EUA              10
Eugene V. Britt                       EUA              10
Gerald & Charlene Gallego             EUA              10
Johnnie Malarkey                      EUA              10
Martin Dumollard                      Frana           10
Calvin Jackson                        EUA              9 ou mais
Henry Louis Wallace                   EUA              9 ou mais
Ali Reza Khoshruy Kuran Kordiyeh      Alemanha         9
Ian Brad & Myra Hindley               Inglaterra       9
Melvin David Rees                     EUA              9
Peter Kurten                          Alemanha         9
Andrew Urdiales                       EUA              8 ou mais
Angel Maturino Resendiza              EUA              8 ou mais
Christopher Wilder                    Austrlia        8 ou mais
David & Catherine Birnie              Austrlia        8 ou mais
Dorothea Puente                       EUA              8 ou mais
Gary & Thaddeus Lewingdon             EUA              8 ou mais
Gregory Breeden                       EUA              8 ou mais
Russell Ellwood                       EUA              8 ou mais
Alton Coleman & Debra Brown           EUA              8
Gregory Clepper                       EUA              8
Jean-Baptiste Troppmann               Frana           8
Keith Jesperson               EUA             8
Kendall Franois              EUA             8
Marie Noe                     EUA             8
Reginald Christie             Inglaterra      8
Vladimir Mukhankin            Rssia          8
William Darrel Lindsey        EUA             8
Carlton Gary                  EUA             7 ou mais
Dale R. Anderson              EUA             7 ou mais
Francisco de Assis Pereira    Brasil          7 ou mais
Gert van Rooyen               frica do Sul   7 ou mais
Gustavo Adolfo                El Salvador     7 ou mais
Harrison Graham               EUA             7 ou mais
Ivan Robert Marko Milat       Austrlia       7 ou mais
John Norman Collins           EUA             7 ou mais
Nikolai Dzhurmongaliev        Rssia          7 ou mais
Orville Lynn Majors           EUA             7 ou mais
Peter Manuel                  Esccia         7 ou mais
Robert Berdella               EUA             7 ou mais
Samuel Sidyno                 frica do Sul   7 ou mais
Aileen Wuornos                EUA             7
Guy Georges                   Frana          7
The Axeman of New Orleans     EUA             7
Andras Pandy                  Blgica         6 ou mais
Douglas Clark & Carol Bundy   EUA             6 ou mais
Gerald Parker                 EUA             6 ou mais
Michael Ross                  EUA             6 ou mais
Mohamed Elsayed Ghanam        Egito           6 ou mais
Morris Solomon                EUA             6 ou mais
Richard Biegenwald            EUA             6 ou mais
Roman Burtsev                      EUA             6 ou mais
Samuel Bongani Mfeka               frica do Sul   6 ou mais
Cleophus Prince Jr.                EUA             6
Daniel Blank                       EUA             6
David Berkowitz                    EUA             6
David Leonard Wood                 EUA             6
David Wayne McCall                 EUA             6
Debbie Fornuto                     EUA             6
Ferdinand Gamper                   Itlia          6
Gary Ray Bowles                    EUA             6
Gene Rasberry                      EUA             6
Hubert Geralds Jr.                 EUA             6
John Haiggh                        Inglaterra      6
Loren J. Herzog & Howard Shermantine EUA           6
Ralph Harris                       EUA             6
Richard Trenton Chase              EUA             6
Rory E. Conde                      EUA             6
David Selepe                       frica do Sul   6+/-
Danny Harolod Rolling              EUA             5 ou mais
Edson Isidoro Guimares            Brasil          5 ou mais
Elfried Blauensteiner              ustria         5 ou mais
George Putt                        EUA             5 ou mais
Lawrence Bittaker & Roy Norris     EUA             5 ou mais
Marc Dutroux                       Blgica         5 ou mais
Marion Albert Pruett               EUA             5 ou mais
Paul Dennis Reid                   EUA             5 ou mais
Andr Luiz Cassimiro               Brasil          5
Andrew Phillip Cunanan             EUA             5
Arthur Bishop                      EUA             5
Colin Ireland                       Inglaterra      5
Daniel Conahan Jr.                  EUA             5
Dimitris Vakrinos                   Grcia          5
Gary Evans                          EUA             5
Glen Rogers                         EUA             5
Jack the Ripper                     Inglaterra      5
Jerome Brudos                       EUA             5
Juan Chavez                         EUA             5
Li Yuhui                            China           5
Lyda Catherine Ambrose              EUA             5
Marthinus Jakobus Stapelberg        frica do Sul   5
Nicholas Lungisa Ncama              frica do Sul   5
Russel Keys                         EUA             5
Samuel J. Coetzee & John F. Brown   frica do Sul   5
Waneta Hoyt                         EUA             5
"The Foxglove Killers"              EUA             5
"The Toledo Clubber"                Espanha         5
Thomas Lucas                        Alemanha        5
Walter Hill                         EUA             5
Christine Malevre                   Frana          entre 4 e 30
George Karl Grossmann               Alemanha        4 ou mais
Joe Metheny                         EUA             4 ou mais
Louis James Peoples                 EUA             4 ou mais
Marin Escamilla Gonzalez            EUA             4 ou mais
Michael Lupo                        Inglaterra      4 ou mais
Ricardo Caputo                      Argentina       4 ou mais
Ricky Lee Green                     EUA             4 ou mais
Robert Rizier                       EUA             4 ou mais
Andrei Maslich                      Rssia          4
Anna Zwanzinger                Alemanha           4
Anthony Balaam                 EUA                4
Archie "Mad Dog" McCafferty    Esccia            4
Beverly Allit                  Inglaterra         4
Cary Stayner                   EUA                4
Craig Price                    EUA                4
Darrel Rich                    EUA                4
Donald Miller                  EUA                4
Eric Elliott & Lewis Gilbert   EUA                4
Eric Matthews                  EUA                4
Francisco Del Junco            EUA                4
Franz Fuchs                    ustria            4
Gerald Patrick Lewis           EUA                4
Jack Barron                    EUA                4
John Martin Scripps            Sing./Can./Tail.   4
John Williams Jr.              EUA                4
Lowell Amos                    EUA                4
Kathleen Anne Atkinson         Inglaterra         4
Kristen Gilbert                EUA                4
Mark Antonio Profit            EUA                4
Peter Moore                    Alemanha           4
Robert Arguelles               EUA                4
Robert Black                   EUA                4
Thomas Piper                   EUA                4
Thomas "Zoo Man" Huskey        EUA                4
Tsutomu Niyazaki               Japo              4
Wayne Adam Ford                EUA                4
Cecile Bombeck                                    3 ou mais
Judy Buenoano                  EUA                3 ou mais
Oscar Ray Bolin Jr.            EUA          3 ou mais
Paul Bernard & Karla Homolka   Canad       3 ou mais
Ramon Jay Rogers               EUA          3 ou mais
Robert Shulman                 EUA          3 ou mais
Sean Patrick Goble             EUA          3 ou mais
Andonis Daglis                 Grcia       3
Charles Meach                  EUA          3
Charles Schmid                 EUA          3
Floid (Todd) Tapson            EUA          3
Harvey Murray Glatman          EUA          3
Heriberto Seda                 EUA          3
Jos Lazaro Bouchana           Mxico       3
Joseph & Michael Kallinger     EUA          3
Michael Lee Lockhart           EUA          3
Paul Michael Stephani          EUA          3
Sean Sellers                   EUA          3
Theresa Cross                  EUA          3
Westley Allan Dodd             Canad       3
William Heirens                EUA          3
Ralph Andrews                  EUA          entre 2 e 20
Robert Zarinsky                EUA          entre 2 e 6
Daniel Ray Troyer              EUA          2 ou mais
Donald Leroy Evans             EUA          2 ou mais
Ed Guein                       EUA          2 ou mais
Jacques Girardini              Inglaterra   2 ou mais
Victor Gant                    EUA          2 ou mais
Roger Kibbe                    EUA          2 ou mais
Ronald Glenn West              Canad       2 ou mais
Gary Heidnik                   EUA          2
Mary Bell                            Inglaterra       2
The Kobe School Killer               Japo            2
Abel Latif Sharif                    Mxico           entre 1 e 17
Charles Pierce                       EUA              1 ou mais
David Harker                         Inglaterra       1 ou mais
Russel Ellwood                       EUA              1 ou mais
James D. Gunning                     EUA              suspeito
David Ray & Cindy Hendy              EUA              suspeitos
"The Green River Killer"             EUA s/s87        48 ou mais
"O Zodaco"                          EUA s/s          37 ou mais
"Matador das Cidades Gmeas"         EUA s/s          34
"O Monstro de Florena"              Itlia s/s       14 ou mais
"Southside Slayer"                   EUA s/s          12 ou mais
"The Cleveland Torso Murderer"       EUA s/s          12 ou mais
"Operao Enigma"                    Inglaterra s/s   9 ou mais
"Colonial Parkway Killer"            EUA s/s          8
"I-70/I-35 Killer"                   EUA s/s          8
"1-75 Killers"                       EUA s/s          8
"The Lisbon Ripper"                  Europa s/s       7 ou mais
"Ironman"                            frica do Sul s/s 7
"The Axeman of New Orleans"          EUA s/s          7
"The Tylenol Killer"                 EUA s/s          7
"BTK Killer" -- Bing, Torture Kill   EUA s/s          6 ou mais
"The Atteridgeville Mutilator"       frica do Sul s/s 6
"Jack, o Estripador"                 Inglaterra s/s   5
"OKC Serial Killer"                  EUA s/s          4 ou mais
"Pomona Strangler"                   EUA s/s          4 ou mais
"The Alphabet Killer"                EUA s/s          3

87
     S/s = sem soluo.
                          Apndice 2
                  -- Pena de Morte no Mundo

 Pases que Ainda Mantm a Pena de Morte para Crimes Comuns


Afganisto                  Filipinas           Monglia
Algria                     Gabo               Myanmar
Antiqua                     Ghana               Nigria
Arbia Saudita              Guatemala           Om
Armnia                     Guiana              Qatar
Bahamas                     Guinea Equatorial   Rssia
Bahrain                     Guin               Rwanda
Bangladesh                  ndia               San Vinvent & Granadinas
Barbados                    Indonsia           Santa Lucia
Belarus                     Ir                 Serra Leoa
Belize                      Iraque              Singapura
Benin                       Jamaica             Sria
Botswana                    Japo               Somlia
Burundi                     Jordnia            Sudo
Camares                    Kenia               Swaziland
Casaquisto                 Korea do Norte      Tailndia
Chad                        Korea do Sul        Taiwan
China                       Kwait               Tajikistan
Comoros                     Kyrgyztan           Tanznia
Congo                       Laos                Trinidad e Tobago
Cuba                        Lesotho             Tunsia
Dominica                    Lbano              Uganda
Egito                       Libria             Uzbekisto
Emirados rabes             Lbia               Vietn
Eritrea                     Malsia             Yemen
Estado da Palestina         Malawi              Yugoslvia
Estados Unidos da Amrica   Marrocos            Zmbia
Etipia                     Mauritnia          Zimbawe
Pases que Ainda tm Pena de Morte para Crimes Comuns, mas
                     tm o Compromisso de no-Execuo


Bhutan                        Maldvias                              Senegal
Brunei                        Mali                                   Sri Lanka
Burkina Faso                  Nauru                                  Suriname
Congo                         Nigria                                Togo
Gmbia                        Papua Nova Guin                       Tonga
Granada                       Repblica Central Africana             Turquia
Madagascar                    Samoa




Pases que Prevem Pena de Morte em Circunstncias Especiais
                                 ou em Casos Militares


Albnia                                El Salvador
Argentina                              Ilhas Fiji
Bolvia                                Israel
Bsnia-Hezergovina                     Latvia
Brasil88                               Mxico
Chile                                  Peru
Chipre




88A pena de morte no Brasil est prevista no Cdigo Penal Militar, art. 5, item XLVII, mas somente
pode ser aplicada em caso de guerra declarada, nos termos do art. 84, item XIX da vigente Constituio
Federal.
Neste caso, a execuo do condenado deve ser feita em ambiente fechado, por fuzilamento. O Tribunal
Militar ou Conselho de Guerra podem aplic-la em alguns casos alm de traio.
Pases que no tm Pena de Morte para Nenhum Tipo de Crime


frica do Sul        Guin-Bissau     Nova Zelndia
Alemanha             Haiti            Pases Baixos
Andorra              Honduras         Palau
Angola               Hungria          Panam
Austrlia            Ilhas Marshall   Paraguai
ustria              Ilhas Maurcio   Polnia
Azerbaijan           Ilhas Salomo    Portugal
Blgica              Inglaterra       Repblica Dominicana
Bulgria             Irlanda          Repblica Slovaca
Cabo Verde           Itlia           Repblica Tcheca
Cambodja             Kiribati         Romnia
Canad               Liechtenstein    San Marino
Colmbia             Litunia         So Tom e Prncipe
Costa Rica           Luxemburgo       Seychelles
Crocia              Macednia        Slovnia
Dinamarca            Malta            Sucia
Equador              Micronsia       Sua
Espanha              Moambique       Timor Leste
Estado do Vaticano   Moldvia         Turkmenisto
Estnia              Mnaco           Tuvalu
Finlndia            Nambia          Ucrnia
Frana               Nepal            Uruguai
Gergia              Nicargua        Vanuatu
Grcia               Noruega          Venezuela
                              Apndice 4

Frases Famosas -- Serial Kllers


-- "Mesmo quando ela estava morta, ela ainda estava sendo mordaz
   comigo. Eu no pude faz-la calar a boca." -- Ed Kemper (sobre sua me)

-- "Voc tem somente poucos segundos. Voc tem que lutar como o diabo,
   porque as chances so de que voc seja assassinado." -- John Douglas --
   FBI (sobre a vtima)

-- "Eu quero dominar vida e morte." -- Ted Bundy

-- "Se eu as matasse, voc sabe, elas no poderiam me rejeitar como homem.
   Isto  mais ou menos produzir uma boneca a partir de um ser humano... e
   levar adiante minhas fantasias com uma boneca, uma boneca humana.
   Com uma garota, fica muita coisa em seu corpo mesmo sem a cabea.
   Obviamente, a personalidade desaparece." -- Ed Kemper

-- "Sexo no deveria existir." -- John Haigh

-- "Eu estava morto com relao s mulheres. Eu no sentia que elas
   precisassem existir. Eu as odiava, e queria destruir cada uma que eu
   pudesse encontrar. E estava fazendo um bom trabalho..." -- Henry Lee
   Lucas (forado pela me a se vestir como mulher enquanto era criana)

-- "Minha paixo era to grande que eu queria possu-la. Eu queria com-la.
   Se eu o fizesse, ela seria minha para todo o sempre." -- Issei Sagawa --
   canibal japons

-- "Conforme eu cresci eu entendi que eu era diferente das outras pessoas, e
   o modo de vida na minha casa era diferente da casa dos outros... Isso
   estimulou minha introspeco e estranhos questionamentos mentais." --
   John Haigh

-- "Eu fiz a minha fantasia de vida mais poderosa do que a minha vida
   real." -- Jeffrey Dahmer

-- "A fantasia que acompanha e suscita a antecipao que precede o crime 
   sempre mais estimulante que a seqela imediata do crime em si." -- Ted
   Bundy

-- "Quando voc trabalha duro para fazer alguma coisa corretamente, voc
   no quer esquec-la." -- Ted Bundy (quando perguntado por que tirava
   fotos de suas vtimas)

-- "Eu sou o mais frio filho da puta que voc jamais vai encontrar. Eu
   apenas gostava de matar, eu queria matar." -- Ted Bundy

-- "Eu somente estava me suicidando, mas sempre quem morria era o
   espectador." -- Dennis Nielsen

-- "Um palhao pode `se sair' s como assassino." -- John W. Gacy

-- "Eu causei sonhos que levaram  morte. Este  o meu crime." -- Dennis
   Nilsen

-- "Eu dei incio ao caminho da morte, e a depresso de um novo tipo de
   convvio." -- Dennis Nilsen

-- "E a eu xinguei, xinguei e xinguei. Como, em nome do cu, eu pude ter
   feito qualquer dessas coisas?" -- Dennis Nilsen

-- "Eu gostaria de poder parar, mas no pude. Eu no tinha nenhuma outra
   emoo ou alegria." -- Dennis Nilsen
-- "Eu sempre tive fetiche por assassinato e morte." -- David Berkowitz

-- "Eu no ia roub-la, ou toc-la, ou estupr-la. Eu s ia mat-la." -- David
   Berkowitz

-- "Eu no queria machuc-los, eu somente queria mat-los." -- David
   Berkowitz

-- "Estou profundamente magoado por voc ter me chamado daquele que
   `odeia mulheres'. Eu no sou. Mas eu sou um monstro. Eu sou o Filho de
   Sam, eu sou um capetinha." -- David Berkowitz

-- "Eu no tenho desejo algum de me reformar. Meu nico desejo  de
   reformar as pessoas que tentam me reformar, e eu acredito que o nico
   meio de reformar as pessoas  as matando. Minha mxima : roube todos,
   estupre todos e mate todos." -- Carl Panzram

-- "Eu posso ser um pouco diferente..." -- George Joseph Smith

-- "O que eu fiz no foi por prazer sexual. Ao invs disso, me trouxe paz de
   esprito." --Andrei Chikatilo

-- "Eu realmente ferrei tudo desta vez!" -- Jejfrey Dahmer (para seu pai)

-- "Eu? Eu no machucaria nenhuma `popozuda'. Eu amo `popozudas'!" --
   Albert DeSalvo

-- "Todo homem tem seu prprio gosto. O meu  cadveres." -- Henri Blot

-- "Eu no pude impedir o fato de ser um assassino, no mais que um poeta
   consegue impedir a inspirao para cantar. Eu nasci com O MAL sendo
   meu patrocinador ao lado da cama onde fui `cuspido' para dentro do
   mundo, e ele tem estado comigo desde ento." -- Dr. H.H.Holmes

-- Durante uma entrevista, respondendo  pergunta "O que voc pensa
   quando v uma menina bonita andando pela rua?", a resposta honesta:
   "Eu imagino como sua cabea ficaria em um espeto". -- Edmund Kemper

-- "As mulheres que eu matei eram prostitutas bastardas nojentas que
   estavam sujando as ruas. Eu s estava limpando um pouco o lugar." --
   Peter Sutcliffe

-- "Nenhum sentido faz sentido." -- Charles Mason

-- "Olhe para esta coisa intil. O que voc pensa que eu poderia fazer com
   isso (referindo-se  sua genitlia)?... Eu no sou um homossexual... Eu
   tenho leite nos meus peitos; eu vou dar  luz!" -- Andrei Chikatilo

-- "Eu queria ver este homem que pde rasgar o estmago do meu filho e
   ento encher sua boca de lama para que ele no pudesse gritar. Eu queria
   saber como era sua aparncia, para saber qual me pde suportar este
   tipo de animal." -- Nina Beletskaya, me de uma vtima de Chikatilo

-- "Voc no pode afirmar que aprecia ou entende Picasso sem estudar suas
   pinturas. O projeto de trabalho de um serial killer bem-sucedido  to
   cuidadoso quanto o de um pintor que planeja uma tela. Eles consideram
   o que fazem como `sua arte'." -- John Douglas -- FBI




Lista de Objetos Encontrados na Casa de Jeffrey Dahmer:

1. Crnios escalpados de cabelo e pele, arrumados nas prateleiras da
   geladeira.
2. Um balde cheio de mos amputadas.
3. Um torso na pia da cozinha, rasgado do pescoo at a plvis.
4. Um pote contendo diversos pnis em conserva.
5. Um pnis fatiado sobre a pia.
6. Outros pnis fatiados numa lata de lagosta na geladeira.
7. Dois tonis com capacidade de 189,5 litros repletos de torsos humanos
  apodrecendo.
                        Um Pequeno Relato

     Antes que voc entre na fila dos que j me perguntaram, com olhos
esbugalhados e uma indisfarvel desconfiana, por que eu escolhi um
assunto to "chocante", "mrbido", "sanguinrio", "cruel", "doloroso", "perigoso",
"pungente",    "angustiante",    "desumano",     "problemtico",    "assustador",
"patolgico" e outros tantos adjetivos utilizados para explicitar a perplexidade
que um crime sem motivo lgico pode causar; aqui vai uma pequena histria...
     A minha curiosidade, desde muito, muito pequena, foi aguada por trs
pessoas da famlia: meu pai, que fazia jogos de lgica e respondia perguntas
"impossveis" com a maior pacincia do mundo, minha me, apaixonada por
msica e poesia, com quem sempre vou compartilhar esses assuntos, e um tio,
que me sentava em seu peito, todos os domingos, e me fazia decorar respostas
para as perguntas mais importantes do mundo: "Quem  a rainha da
Inglaterra? Quem inventou o telefone? Quem inventou a luz eltrica? Quais
presidentes dos EUA foram assassinados?". Cada um, a seu modo, me abriu as
portas para a vontade de saber mais. A vontade de contar histrias veio de uma
tia, que paralisa a platia quando conta um acontecido!
     J na adolescncia, meu grande sonho era estudar medicina. Mas no
qualquer especialidade. O que realmente me interessava era a medicina legal.
Pode ser porque, naquele tempo, eu assistia a um seriado na TV do qual nem
me lembro o nome, onde um mdico legista era o heri absoluto de todos os
episdios. Pode ser tambm porque o Ernesto, meu professor de cincias, era um
apaixonado por biologia e passava para ns a "curiosidade" do funcionamento
de uma mquina to perfeita como o corpo humano. Pode ser ainda pela minha
querida e inesquecvel Dona Nil, professora de portugus, que me ensinou a
simplesmente adorar ler e escrever... E atravs dos livros, quantos crimes eu
resolvi!!! Pode ser at por causa do primo mais velho, que sonhava em fazer
medicina, e me levou at a faculdade que estudava s para que eu pudesse
assistir a aulas de anatomia ao vivo e em cores...
         Enfim, quando finalmente parecia estar tudo preparado, e uma aluna
no to aplicada fazia 2 Colegial-Biolgicas, alm de escrever poesias e
histrias nas horas vagas, eu conheci o amor da minha vida... Jacques Feller,
engenheiro da Poli, brilhante profissional e amigo sensvel de todas as horas.
         Muitos disseram que era muito cedo... 16 anos, tanto para aproveitar.
Outros me disseram: "v em frente, se voc enjoar, termina!". Enfim, estou
aqui contando isso exatos 25 anos depois, ainda casada com o mesmo Jacques,
com dois filhos adolescentes, Fernando e Marcelo, e ainda feliz com as escolhas
que fiz. Obviamente, nem preciso explicar que, para a vida familiar dar certo,
necessitava grande dedicao, e valeu a pena cada minuto. Ento... fui fazer
Administrao de Empresas na FGV, trabalhei o que pude, entre acertos e
desacertos, mas a histria de escrever sempre continuou dentro de mim.
         Uma das pessoas que nunca deixaram esta paixo morrer foi a Tia Luiza
Kfouri89, diretora da escola das crianas, que desde que me conheceu, na
"minha" adaptao quando o Fernando entrou no maternal, no cansava de
ler meus textos e me incentivar a continuar. At livros tipo "manuais de
redao" ela me deu...
         Durante algum tempo, tambm escrevi roteiros para vdeos institucionais,
onde pude juntar o prazer de escrever com o conhecimento adquirido na
carreira profissional. Mas no bastava.
         Aos 39 anos e 11 meses, acendeu a luz do meu crebro! Cheguei para o
"Marido" (assim mesmo, com maiscula e no aumentativo), e declarei;
         -- Quer saber? Aos 40 anos, de presente de aniversrio, nem jia, nem

89
     Escola Nova Loureno Castanho.
carro, nem viagem... Quero um ano de aluguel pago numa sala pequena, perto
de casa, sem telefone, papagaio ou assuntos domsticos, de preferncia com
computador. No pretendo chegar na velhice e me perguntar o que teria sido se
eu... Vamos ver de uma vez se esta histria de escrever  fantasia ou realidade.
     Ele topou na hora. A famlia toda apoiou.
     Claro que, exceto pelas reclamaes da falta da minha presena, todos
foram peas principais na estrada para alcanar meus objetivos.
     Algumas dvidas s seriam realmente dissipadas ao longo deste ano.
Ser que eu iria conseguir trabalhar sem patro, remunerao ou horrio
especfico? Como comear? Como terminar?
     O assunto j estava escolhido desde a adolescncia. A grande
espiritualidade que me foi passada pelos meus pais, incansveis nas
explicaes de outras vidas, passadas e futuras, na f inabalvel que me
ensinaram a ter, na caridade de todos os seus gestos e atitudes, nas dezenas e
dezenas de pessoas que ajudaram... Junte isso ao amor a medicina legal, e ter
a resposta para o motivo deste livro:

OS MORTOS TM QUE PODER CONTAR O QUE LHES ACONTECEU,
TM O DIREITO  VERDADE E  JUSTIA.

     Alm dos mdiuns, que costumam ter pouca credibilidade, os nicos
aptos a descobrir o mistrio de uma morte inexplicada so os mdicos legistas,
os cientistas forenses, a psiquiatria e a psicologia, todos aqueles dedicados ao
conhecimento profundo da crueldade e violncia que  inerente a todo ser
humano.
     Este livro demorou quase dois anos para ficar pronto, pela dificuldade de
pesquisa e pela minha prpria inexperincia, vencidas pela grande, vontade de
contar histrias para leigos que, como eu, no entendem onde nasce o desejo de
matar.
     Nos textos pesquisados, quase na totalidade em ingls, pude contar com
meu amigo tira-dvidas , Renato Aizenstein.
     Os assuntos que tenho vontade de abordar so tantos, que tive que
dividi-los em vrios projetos.
     Inicialmente, os serial killers brasileiros entrariam neste primeiro livro,
at que pela "pouca pacincia" da diretora do Museu do Crime de So Paulo, fui
encaminhada ao Museu do Tribunal de Justia de So Paulo, pelas mos do
Desembargador Djalma Rubens Lofrano. Em vez de castigo, recebi o melhor
presente do mundo: a amizade e boa vontade da Bete, Cristina e Hevlim, e a
inestimvel colaborao do Desembargador Emeric Lvay, aquele que chamo de
minha enciclopdia viva , o maior poo de conhecimento que tive contato nesta
vida. O pessoal do museu me "pegou no colo". Aprendi tantos caminhos de
pesquisa atravs das mos deles, que os serial killers brasileiros j merecem
um livro inteiro, e no apenas captulos. Hoje, toda a Justia brasileira tem me
aberto as portas, para que eu possa contar mais "causos" interessantes.
     Quero deixam claro que meu papel no  julgar a justia ou o ser humano.
Eu conto o caso, voc decide o que pensa a respeito.
     As "Mulheres que Matam" vo ter que esperar mais um pouco... Espero
que no muito!
     No, no pretendo matar ningum!!! Essa, na verdade,  a pergunta que
todos querem fazer, e alguns at fizeram...
     S escreve sobre morte sem medo quem est feliz com a vida, e pode
contar histrias que nunca seriam descobertas ou comprovadas se no fosse a
Cincia.
     Qualquer que seja o motivo espero que este livro possa entreter os leigos,
chamar a ateno daqueles que podem investir na cincia forense para soluo
de crimes e ajudar as almas injustiadas a ter suas histrias esclarecidas.
     Agradeo aqui todos aqueles que colaboraram, muito ou pouco, me
incentivaram, foram meus "leitores cobaias", meus conselheiros, meus
professores...
     Agradecimentos especiais e profissionais vo para duas pessoas, que no
tinham nada a ver com isso e se tornaram partes indispensveis nos meus
trabalhos: Suzana Fonseca, que foi incansvel na troca de idias, revises
infindveis at horas tardias da noite, conselheira nas decises difceis, a
chamada "pau pra toda obra", e Ftima Milnitzky, a psicanalista e amiga
mais paciente ao mundo, capaz de transformar em palavras que eu pudesse
entender os conceitos psiquitricos e psicolgicos complicadssimos com os
quais tive que lidar.


                                                                Ilana Casoy
                                          So Paulo, 12 de setembro de 2001.
                                Bibliografia


     WASHINGTON POST
-- 3 Face Death Penalty
     From news services and staff reports
     May 16, 1979; Page A7
-- Richard Trenton Chase was sane when he murdereds
     From news services and staff reports
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-- Jury Recommends Death For Calif. `Vampire Killer'
     From news services and staff reports
     May 18, 1979; Page A10
-- THE STUFF OF WHICH MOVIES ARE MADE SUSAN COHEN
     August 9, 1992; Page w8
-- S. AFRICANS ARREST SUSPECT IN KILLINGS
     By Lynne Duke
     Column: AROUND THE WORLD
     Friday, October 20, 1995; Page A23
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     ARTIGOS:
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     By Robert R. Hazelwood, M.S.
     Special Agent Behavioral Science Instruction/Research Unit Quantico,
     VA and
     Janet Warren, D.S.W.
     Institute of Psychiatry and Law University of Virginia Charlottesville,
     VA
-- The Art and Science of Criminal Investigation
     VIOLENT       CRIME     SCENE      ANALYSIS:     MODUS       OPERANDI,
     SIGNATURE, AND STAGING
     By John E. Douglas, Ed.D. Special Agent Chief of the Investigative
     Support Unit FBI Academy and
     Corinne Munn
     Served as Honors Intern FBI Academy
     This Article Originally Appeared in the FBI Law Enforcement Bulletin,
     February 1992.
-- Aggression Types and Criminal Behavior
     by: Michael W. Decaire, HBSc (Candidate)
-- PROFILE OF TYPICAL CHILD SEXUAL ABUSERS
     FROM: L. C. McDonald-Miszczak (personal communication, March 25,
     1997)
-- Forensic Psychologists vs. Forensic Psychiatrists: An analysis of forensic
     evaluations by Michael W. Decaire HBSc (Candidate)
-- FORENSIC PSYCHOLOGY & FORENSIC PSYCHIATRY: AN
     OVERVIEW
     From a brochure from the Ontario Psychology Association:
-- The Impressions of a Man:
     An Objective Forensic Guideline to Profiling
     Violent Serial Sex Offenders by
     Brent E. Turvey
     March, 1995
Note: Brent E. Turvey, MS is a full partner of Knowledge Solutions, LLC. He
     can be reached for comment or consultation by contacting: Knowledge
     Solutions; 1271 Washington Ave #274; San Leandro, CA; 94577-3646;
     Phone (510) 483-6739; Email: bturvey@corpus-delicti.com
-- Anatomy of a Lust Murder
     By Vernon J. Geberth, M.S., M.P.S.
     Former Commander, Bronx Homicide, NYPD
     1998 Vernon J. Geberth, Practical Homicide Investigation LAW and
     ORDER Magazine, Vol. 46, N 5, May 1998
-- January, 1998
Title: "Deductive Criminal Profiling: Comparing Applied Methodologies
     Between Inductive and Deductive Criminal Profiling Techniques"
     Turvey, B., "Deductive Criminal Profiling: Comparing Applied
     Methodologies Between Inductive and Deductive Criminal Profiling
     Techniques," Knowledge Solutions Library, January, 1998, Electronic
     Publication, URL: http://www.corpus-delicti.com/Profiling_law.html
-- PSYCHOLOGICAL PROFILLING
     Copyright Terry Hayden 1997. Produced for The University of London,
     Diploma in Criminology, Final Project.
--   IS   THERE    ANY    SOCIAL    PSYCHOLOGY       IN   THEORIES      OF
     AGGRESSION ??
     Copyright Terry Hayden 1997. Produced for The University of London,
     Diploma in Criminology, Final Project.
-- CRIME & PERSONALITY
     WHERE HAVE WE BEEN, WHERE ARE WE NOW, WHERE ARE WE
     GOING? Copyright Terry Hayden 1997. Produced for The University
     of London, Diploma in Criminology, Final Project.
-- BEHAVIOR EVIDENCE:
     UNDERSTANDING MOTIVES AND DEVELOPING SUSPECTS IN
     UNSOLVED SERIAL RAPES THROUGH BEHAVIORAL PROFILING
     TECHNIQUES
     by Brent E. Turvey, MS June, 1996
Note: Brent E. Turvey, MS is a full partner of Knowledge Solutions, LLC. He
     can be reached for comment or consultation by contacting: Knowledge
     Solutions; 1271 Washington Ave #274; San Leandro, CA; 94577-3646;
     Phone (510) 483-6739; Email: bturvey@corpus-delicti.com
-- Surviving the Experts
      Amy Goldman/Serial Killer Info Site, 1997-99
-- The Importance of Victimology in Criminal Profiling
      Serial Killer Info Site ~ May 28, 1997 by Amy Goldman
-- PET STUDY: LOOKING INSIDE THE MINDS OF MURDERERS
     "Selective reductions in prefrontal glucose metabolism in murderers,"
     Adrian Raine, Monte S. Buchsbaum, Jill Stanley, Steven Lottenberg,
     Leonard Abel, and Jacqueline Stoddard, Biol. Psychiatry, 36, September
     1, 1994. Address: Adrian Raine, Department of Psychology, S.G.M.
     Building, University of Southern California, Los Angeles, CA 90089-
     1061.
-- PSYCHOPATHS: FINDINGS POINT TO BRAIN DIFFERENCES
     "Emotion and temperament in psychopathy," Christopher J. Patrick,
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     pathy and startle modulation during affective picture processing: a
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     S55. Address for all: Christopher J. Patrick, Department of Psychology,
     Florida State University, Tallahassee, Florida 32306-1051.
                                  -- and --
     "Anomalous perceptual asymmetries for negative emotional stimuli in
     the psychopath," Rodney Day and Stephen Wong, Journal of Abnormal
     Psychology, Vol. 105, NM, 1996, pp. 648-652. Address: Rodney Day,
     Calder Centre, 2003 Arlington Avenue, Saskatoon, Saskatchewan,
     Canada S7K 2H6.
                                  -- and --
     "Psychopathy: a clinical construct whose time has come," Robert D.
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-- December 12, 1995 Killer instincts: FBI's own `Sherlock Holmes' gets
     inside the head of serial murderers -- By Deb Price / The Detroit News
-- TIME Domestic -- April 4, 1994 Volume 143, N 14 -- CRIME
     DANCES WITH WEREWOLVES America's fascination with serial
     killers is reaching an all-time high -- and may be fueling their deadly
     deeds
     BY ANASTASIA TOUFEXIS Reported by Lisa H. Towle/Raleigh and
     Richard Woodbury/Huntsville, with other bureaus
-- ELECTRONIC MAIL & GUARDIAN
     Johannesburg, South Africa. September 30, 1998
     It's muti-murder not serial murder, says expert
-- Amid circus, a handful stood fast
     Onlookers: Some came for the spectacle, others for the principie
     By Scott Koeneman -- Stateville Correctional Center -- Joliet Prison
-- Gacy killed dozens, and maybe was `good for more than 33'
     By Terry H. Burns -- Stateville Correctional Center -- Joliet Prison
-- Cook: No honor in preparing last meal
     By Mark Feldmann -- Stateville Correctional Center -- Joliet Prison
-- Gacy marks 100th state execution Illinois death row
     By Tim Novak -- SCRIPPS HOWARD NEWS SERVICE -- Stateville
     Correctional Center -- Joliet Prison
-- Gacy meets death at midnight
     Execution: Unless last-minute appeals succeed, the killer of 33 will meet
     a drug-induced death
     By Terry H. Burns -- Stateville Correctional Center -- Joliet Prison
-- He has money to burn Gacy's works
     Art auctioned: Bidder acts on burning desire to turn executed killer's
     works to ash
     By Chris Julka COPLEY NEWS SERVICE -- Stateville Correctional
     Center -- Joliet Prison
-- Just what goes on in a mass killer's mind?
     Answers sought: Researchers plan to look at Gacy's brain for flaws
     By Terry Burns COPLEY NEWS SERVICE -- Stateville Correctional
     Center -- Joliet Prison
-- The bogyman in all our nightmares
     By John Whiteside -- Stateville Correctional Center -- Joliet Prison
-- Post-Furman Botched Executions
     by Michael L. Radelet
     updated by the Death Penalty Information Center
-- TIME Domestic -- May 23, 1994 Volume 143, N 21
     CRIME
     A TWIST BEFORE DYING A snafu at the execution of a serial killer
     inflames the debate about humaneness and capital punishment
     BY DAVID SEIDEMAN
-- The Death Penalty
     by J.J. Maloney -- Jan. 30,1999/Revised Feb. 8,1999 -- Crime Magazine
-- Execution Methods Used by States
     Methods Of Execution By State
     A report compiled by the Bureau of Justice Statistics, Capital
     Punishment 1995,
-- Post-Furman Botched Executions
     by Michael L. Radelet, University of Florida
     -- GOLDSEA I TEA FEATURES
     THE CHAMBER
     By abducting a dozen women and abusing them as sex slaves before
     brutally killing them Charles Ng beat O.J. Simpson for the title of Most
     Expensive Defendant in California history.
     by Dan Turner
-- Features News: Friday, October 31, 1997
     Love those killers: Americans' fascination with the serial psychopath by
     Melanie McFarland -- Seattle Times staff reporter
-- Serial killers often leave a `signature'
     Friday, May 19, 2000
     By SCOTT SUNDE
     SEATTLE POST-INTELLIGENCER REPORTER
-- FBI PROFILE OF SCARBOROUGH RAPIST
     DESCRIPTION:        INVESTIGATIVE         ANALYSIS,    F.B.I.   VIRGINIA
     NOVEMBER 17, 1988
-- PROFILING EXTRACT FROM GRT SEARCH WARRANT
     Niagara Regional Police
     In the case of Paul BERNARDO
     Executed on February 19th, 1993 at:
     57 Bayview Drive, Niagara
-- June, 1995
     Title:
     "AN OBJECTIVE OVERVIEW OF AUTOEROTIC FATALITIES"
     Turvey,    B.,   "AN    OBJECTIVE        OVERVIEW     OF   AUTOEROTIC
     FATALITIES," Knowledge Solutions Library, June, 1995, Electronic
     Publication, URL: http://www.corpus-delicti.com/auto.html
-- Brent E. Turvey, M.S.
     November, 1997
     Title:
     "The Role of Criminal Profiling in the Development of Trial Strategy"
     Turvey, B., "The Role of Criminal Profiling in the Development of Trial
     Strategy," Knowledge Solutions Library, November, 1997, Electronic
     Publication, URL: http://www.corpus-delicti.com/Trial_Strategy.html
-- The Profiler: Law enforcement's new darlings blend psychology,
     computers, probabilities and suppositions to get inside the minds of
     serial killers
     by Richard Seven
     Seattle Times staff reporter -- Features News : Sunday, April 13, 1997
-- FBI points to serial killer in 4 cases
     Women were found dead inold oil field
     By Associated Press
     Published 09-30-1993
-- Local News: Sunday, February 22, 1998
     `Ted files' pose dilemma on disclosure of records
     by James L. Eng
     The Associated Press
-- Sidebar:
     Deadly impersonation Cop ruse popular among serial killers.
     By Judith M. Gallman
     Arkansas Times. August 1, 1997
-- Anatomy of a Killer
     FBI Profilers Turn Evidence Into a Picture of Suspects
     By Jenifer Joseph
     ABCNEWS.com
-- Brutal World
     Serial Killers Prey on the Weak. First in a Two-Part Series
     By Edward Mazza
     ABCNEWS.com
-- How do serial killer suspects elude police?
     June 24, 1999
     Web posted at: 10:14 p.m. EDT (0214 GMT)
     From Correspondent Richard Roth
-- To Kill and Kill Again
     Bill Forwood -- Abnormal Psychology -- Anderson College -- April
     1007
-- Canbales modernos
     Larry Wichman
-- The Psychopaths Among Us
     The Misbegotten Son: A Serial Killer and His Victims. The True Story of
     Arthur J. Shawcross, by John Olsen reviewed by Andrew Vachss
     originally published in the New York Times Book Review, March 14,
     1993


     ARTIGOS COMPRADOS NEWSDAY
-- Search for a Serial Killer's Signature Police say cases are hard to track
     By Jim Mulvaney. STAFF WRITER
     Copyright 1993, Newsday Inc.
     Jim Mulvaney, Search for a Serial Killer's Signature Police say cases
     are hard to track, 07-04-1993, pp 45.
-- Kinsey Wilson, Arrest in Serial Murders Paroled killer charged in deaths
     of 8 women in Rochester area, 01-06-1990, pp 07.
-- THE ASSOCIATED PRESS, Ex-Con Guilty in Serial Killings Jury rejects
     insanity plea, 12-14-1990, pp 25.
-- AP, Slaying Arrest Spurs Return of Prostitutes, 01-11-1990, pp 04.
-- 9th Murder Charged - AP, 9th Murder Charged, 01-12-1990, pp 16.
-- Plea in Murder Case
     Compiled from News Dispatches, Plea in Murder Case, 01-25-1990, pp
     16.
-- Letta Tayler, Insanity Tough To Establish In Mass Killings, 07-02-1993, pp
     110.
-- Rob Polner, Haunting Similarities Cops draw parallel with killer
     Shawcross, 06-30-1993, pp 20.
                                       Webgrafia

1992 FBI Report-Satanic Ritual Abuse        www.skeptictank.org/fbi1992.htm
4Anything Network                           4crime.4anything.com/
Absurd Crimes                               www.editionnine.deathrowbook.com/
Adopted Serial Killers                      www.geocities.com/Wellesley/9950
APB News                                    www.apbnews.com/
America's Death Row Inmates Pages           members.xoom.com/ccadp/
Anchorage Daily News                        www.adn.com/
Arizona Central Arizona Republic Archives   newslibrary.krmediastream.com/

Artigos Vrios                              www.corpus-delicti.com
Asian American Profiles                     goldsea.com/Personalities/personalities.html
A-Z of Serial Killers                       www.simonsays.com/
Cincia Forense                             www.forensic-science.com/
Circulus Vitiosus                           www.tedric.de/glorija/killer.html
CNN                                         www.cnn.com
Court TV                                    www.courttv.com/trials
Corrections Offender Information Network    www.dc.state.fl.us/ActiveInmates/
                                            inmatesearch.asp
Crime About                                 www.crimeabout.com/
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Livros: Catalogue of Death                  serial-killers.virtualave.net/
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Mitch's House of Madness                    www.geocities.com/Pentagon/8385
Modus Operandi -- Serial Killers            www.fortunecity.com/roswell/streiberg/273
Murder                                      zombie.horrorseek.com/horror/drlarry/mainl.
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Revista poca OnLine                        www.epoca.com.br/
Revista Veja                                vejaonline.uol.com.br/
Robert K. Ressler                           www.robertkressler.com/
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Serial Killer Archive                       www.geocities.com/Area51         /Aurora/3188/
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Serial Killer Art For Sale                  www.lowbrowartworld.com/
Serial Killer Central                       www.angelfire.com/oh/yodaspage/
Serial Killer Main's Domain                 www.campbelcounty.com/~doker/serial.html
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                                            Monthly.html
Serial Killer with Matt                     go.to/smm
Serial Killer -- A Growing Menace           killersdomain.virtualave.net/skindex.html
Serial Killers                              www.geocities.com/Pentagon/8362/
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                                            serialkiller/
Serial Killers                              www.ronmitchell.com/
Serial Killers -- Case Studies              www.gateway.to/murder/
Serial Killers Index                        www.geocities.com/Area51 /shadowlands/4077
Serial Killers -- Into the Mind od Madman   www.autobahn.mb.ca/~mustarda/serial.html
Serial Murder Through the Looking Glass     www.serial-killers.virtualave.net/
Shy's Cyber Chamber                         www.shycyberchamber.com/-210.50.20.78
Specific Serial Killers                     members.tripod.com/~Serialkillr/SerialKiller
                                            Exposed/specklinks.html
Staring Into Eyes of a Killer               www.geocities.com/Sunset Strip/Towers/9590/
The Associated Press Photo Arquive          photoarquive.ap.org/
Ted Bundy                                   members,tripod.com/~Steve Odwyer
The Boston Globe                            www.globe.com/
The Boston Globe Archives                   www.globe.com/globe/search
The Crime Library                           www.crimelibrary.com/
The Eletric Chair                           www.theelectricchair.com
The LaPorte County public Library           www.lc-link.org/libraries/lcpl/lcpl_l.html
Homepage
The London Times                            www.the-times.co.uk/
The Miami Herald Online                     www.miami.com/herald
The Modesto Bee                              www.modbee.com/
The National Center for Victims of Crime     www.ncvc.org
Theodore Bundy Vistims                       www.televar.com/~mndcrime/bundy2.html
The Other Side od the Wall                   www.prisonwall.org/
The Scratchin' Post Serial Killers Archive   www.tdl.com/~Kitty/crimes.html
The Serial Killer info Site                  www.serialkillers.net/
The Strange                                  www.the-strange.com/jwg/
The University of Melbourne-Austrlia        www.unimelb.edu.au
The World Wide Serial Killer Homepage        hosted.ray.easynet.co.uk/serial-killer/
The Zodiac                                   www.zodiackiller.com/
Time Magazine                                www.time.com/time
TimePix                                      www.timepix.com/
Times-Mail Bedford, Indiana                  www.tm-news.com/stories
Tracy's Serial Killer Information Page       cob250.dn.net/members/trcycrpntr
Trials                                       www.county.com/trials/
Union Tribune                                www.uniontrib.com/news/
USA Today                                    www.usatoday.com/
Washington Post                              www.washingtonpost.com/
Velvet Death's Window to the Soul...         www.geocities.com/Area51/Corridor/5231/
                  "A maior alegria  chorar de parceria..."

Agradecimentos especiais aos parceiros de todas as horas:

     -- Jacques Feller
     -- Fernando Feller
     -- Marcelo Feller
     -- Jlio e Estella Casoy
     -- Suzana Fonseca
     -- Dr. Percival de Souza
     -- Rodolfo Gamberini
     -- Cludio Jos Dias Rego
     -- Erik Gomes de Almeida
     -- Copiadora VLS
     -- Romeu Rizzo
     -- der de Arajo

     DAVID LOHR -- www.serialkillerarchive.com Vrias fotografias
     utilizadas neste livro foram gentilmente cedidas por David Lohr,
     escritor de crimes reais especializado em serial killers e mass murders,
     ganhador de vrios prmios jornalsticos nos EUA.

     TOM VOIGHT -- www.zodiackiller.com Grande estudioso do caso
     Zodaco. Permitiu o uso das fotografias de seu site.
Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para
proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefcio de sua leitura queles
que no podem compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para
ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer
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